QUEM COMEU PASTÉIS DE NATA À BORLA NO MARTINHO DA ARCADA?

(In Blog O Jumento, 30/01/2018)
pasteis
Começamos a ter a sensação de que alguém anda a querer desprestigiar todos os políticos que asseguram o funcionamento da democracia, os grandes casos da justiça já não envolvem milhões e Panama Papers, os processos já não são abertos com cartas anónimas enviadas por polícias mais diligentes ou a partir de sinais de riqueza. Agora podem derrubar-se governos  com o argumento de que um ministro aceitou que alguém lhe oferecesse um pastel de nata no Martinho da Arcada ou a partir de uma mera fotografia do camarote presidencial publicada no jornal A Bola.
Como é óbvio não podemos questionar a justiça por estar a fazer o que deve fazer, é para isso que tem orçamentos de milhões, que pode mandar funcionários muito bem pagos investigar ao estrangeiro, ler toda a nossa vida íntima nos e-mails ou nas escutas telefónicas. Mandam os princípios que temos de lhes agradecer, elogiar o ataque aos poderosos, dizer que devemos esperar que a justiça vá até ao fim, defender o princípio da separação de poderes.
Também é verdade que há muitos bons princípios, a começar pelo segredo de justiça, que ninguém respeita. Já se percebeu que quem quer destruir a democracia conta com a sua própria comunicação social, onde sai tudo o que interessa. Dantes, os golpitas faziam sair os tanques para a rua, agora mandam-se os jornais e nem precisam de ardinas, as notícias saem na hora. Os mesmos jornais que dão os tiros encomendados pelos golpistas fazem campanhas em defesa dos mesmos. Não há qualquer diferença entre os golpes como os do Pinochet e os atuais golpes, apenas mudaram os tanques as balas e a forma de eliminar os adversários. Dantes combatíamos os golpistas, agora temos de os elogiar e bajular, são eles os sacerdotes encarregados de proteger o altar da democracia dos abusos dos pecadores que se confessam ou que eles próprios designam como tal.
Devemos ficar calados e elogiar o papel da justiça porque atacam os grandes, ignoramos que atacar o poder nem sempre foi motivo de elogio, todos os golpes de Estado que instituíram ditaduras visaram derrubar os mais poderosos, porque, por definição os mais poderosos, são sempre os governos. Chega-se ao ridículo de sugerir que quando alguém é constituído arguido isso protege-o na investigação, o arguido pode calar-se e recorrer ao advogado. Isto é, queima-se o bom nome de alguém na praça pública, mas para os golpistas isso é um ato de defesa da vítima.
Depois, tudo fica investigação durante meses e meses, depois dos orgasmos múltiplos das sucessivas e cirúrgicas violações do segredo de justiça o processo adormece, diz-se que, tal como centenas de outros, está em investigação. Uns meses ou anos depois, numa qualquer véspera de início de férias, o processo é arquivado, em regra com o velho e cínico argumento da falta de provas. Entretanto, a vítima foi destruída, o seu nome foi para a sarjeta.
Já não é a austeridade ou a crise financeira que marca a agenda do país, os mortos dos incêndios estão esquecidos, da mulher que o MP deixou que fosse morta depois de a abandonar não se fala, das crianças que o MP permitiu que fossem traficadas pela IURD e das suas mães já nos esquecemos. A agenda deu uma cambalhota numa semana, todos esquecemos os problemas do país e os podres de uma sociedade cujas instituições são geridas em função de ambições pessoais.
De um dia para o outro a agenda mediática foi entupida com processos, começou no Benfica, passou para o Bruno de Carvalho, agora andamos a investigar quem comeu pastéis de nata oferecidos no Martinho da Arcada. Tudo isto é podre e ridículo.

Laura, todos somos culpados

(Por Carlos Esperança, in Facebook, 30/01/2018)

laura

Laura, nada sei das dores que sofreste ao longo de 55 anos, sei apenas que fugiste de um bruto, com marcas no corpo e feridas na alma, a pedir ajuda a quem não sabe do que são capazes homens primitivos, e do sofrimento e coragem que são precisos para fugir.

O homem que aceitaste para companheiro era violento. Os pontapés e as bofetadas eram bastantes para avaliar, nas marcas, a violência assassina do rústico que se julga dono da mulher com quem vive, mas foi preciso assassinar-te à paulada para te acreditarem.

Sei que não é verdade que o magistrado, que te olhou com displicência, se confrontasse com 700 processos de violência doméstica, como afirmou no DN de ontem (pág. 19), Anselmo Crespo, subdiretor da TSF. Não há uma só comarca com 700 brutos em forma de homem e, muito menos, 700 mulheres capazes de vencerem a vergonha e o medo de se queixarem.

Há, isso sim, um país onde o casamento religioso exigia à mulher a submissão, o direito de família que confiava ao homem o exclusivo da administração dos bens, uma tradição indulgente com a violência masculina, um constrangimento social que desculpa ao homem o que recrimina às mulheres, onde a igualdade de género encontra resistências.

O jornalista e o magistrado não sabem o que é ser mulher. Quando há juízes que citam a Bíblia para desculparem a violência masculina, tem de haver um caldo de cultura onde a crueldade encontra atenuantes e a mulher é sempre suspeita.

E de nada valeu a tua coragem. Nem o exemplo serve. As mulheres são e continuarão a ser discriminadas e a ter o quinhão maior do sofrimento. Os homens que nunca tiveram mães, irmãs ou filhas não existem, mas comportam-se como tal, desde o desempregado da construção civil que te assassinou aos venerandos desembargadores que manifestam compreensão pela violência masculina.

Isto ocorre, Laura, porque muitos não somos melhores do que os que ora acuso, somos filhos de uma cultura misógina judaico-cristã, incapazes de ver na companheira o rosto da mãe que nos amamentou, da avó que tudo nos tolerava, da irmã que nos protegia, da filha que não tem o amor do pai.

Que raio de país!

Carta à Joana

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 29/01/2018)

corruptor

Mando o computador ou o Ministério Público vem a casa? Ex.ma Senhora Procuradora Geral da República e chefe do Ministério Público, não sou menos que o Mário Centeno, ministro das finanças. Quero informar V.Exª que no próximo dia 31 vou à bola de borla.

Fui convidado, ou fiz-me convidado para ir assistir ao jogo Sporting Clube de Portugal, Vitória de Guimarães, num camarote do estádio Alvalade (não sei se é este o nome, ou se já é uma Arena qualquer).

Também não sei se dispensei alguém do IMI de alguém do dito clube, mas pode ter acontecido. Sou contra o IMI (e também contra o IRS, o IVA e mais uma série de maldades, incluindo claques de futebol, coiratos, cachecóis de clubes, multidões em geral, cânticos).

Mas vou ao futebol de borla, convidado. Logo sou corrupto. Devo ter emails trocados com o meu corruptor no computador. O que faço? Prendo-me eu, ou prende-me o seu Ministério Públio? Já agora, tragam um antivírus que eu mando o computador.

Costumava tratar dos assuntos do computador na PC Clinic, mas li que a Procuradoria trata agora desses problemas.. É a sociedade da informação. Bem haja.

PS (Post Scriptum):

Solicitava a V.Exª que, à semelhança do que julgo ter sido feito para o borlista Mário Centeno, os serviços que V.Exª tão superiormente dirige mandem a notícia da minha ida à borla e, com certeza, com as devidas contrapartidas, ao respeitável Correio da Manhã, para esse órgão de serviço público, promover a minha exposição no pelourinho.

Agradecido.