A corrupção não se combate com “limpeza” 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/01/2018)  

Daniel

Daniel Oliveira

Antes de mais, um aviso: apesar de referir dois casos próximos, este texto não é sobre as recentes operações levadas a cabo pelo Ministério Público, muito menos sobre as que envolvem o polémico juiz Rui Rangel e o Benfica, cujas dimensões e gravidade ainda não são fáceis de avaliar. É sobre um tempo, uma tensão e uma pulsão. Muito para lá de Portugal, do Brasil ou de qualquer outro exemplo citado. É sobre um paradoxo.

Faço aqui a confissão do meu desconforto: em vários momentos em que casos de corrupção têm sido tema de debate encontro-me num lugar que não seria naturalmente o meu. Não serei o melhor julgador do meu próprio caráter, mas estou certo que me encontro entre as pessoas que, na sua vida pessoal e profissional, mais longe estará do comportamento de um corrupto. A minha honestidade (não a minha pureza) é mesmo das poucas coisas que tenho como certas sobre mim. No entanto, nos vários casos em que surgem exércitos de moralistas, não tenho marchado a seu lado. Seguramente por ter uma certa dificuldade em alinhar com o espírito de linchamento que tão assustadoramente marca estes nossos tempos e atrás do qual se esconde gente nem sempre muito recomendável. Mas mais provavelmente porque me exijo, nesta função, um olhar mais sistémico que a mera indignação. Até por saber que a indignação sem rumo tende a levar consigo mais do que o corrupto e a beneficiar, no clima de indiferenciação que cria, o próprio corrupto.

Apesar de não ser o assunto específico deste texto, o caso do Brasil é um bom caso. Já escrevi sobejamente sobre o assunto e não me concentrarei nele. O que aqui me interessa é a forma como é analisado. Sempre com três erros que resultam do mesmo olhar superficial sobre o fenómeno da corrupção: a ideia de que há, no Brasil, um partido da corrupção; o discurso apolítico e estritamente ético sobre a corrupção; e a crença de que a corrupção se resolve através de uma “limpeza” geral levada a cabo pela Justiça. Por não desempenhar, felizmente, nenhum cargo político, sinto-me livre para a total sinceridade deste texto. É mesmo para isso que nós, comentadores que não precisam de ser populares, devemos servir.

Sem me concentrar mais no que considero serem as verdadeiras motivações do cerco ao PT e a Lula da Silva, assumo que o Partido dos Trabalhadores não mudou, ao contrário do que sucedeu em relação à sua política social, o padrão ético de comportamento dos governantes brasileiros. Mas parece-me cínico e cego tentar passar a ideia de que este partido é um foco de corrupção mais intenso do que todos os restantes. Na realidade, até podemos dizer que foram as políticas do PT, quer através do reforço de meios legais para o poder judicial, quer pela criação de uma classe média mais exigente, que criaram a massa crítica que viria a permitir uma posição mais vigorosa em relação à corrupção. Como isso não foi acompanhado de mais rigor ético, o próprio PT viria a ser vítima do caldo que criou.

O meu problema com este súbito despertar coletivo para uma realidade antiga da sociedade e da política brasileira é que ele alimenta uma ilusão: a de que a corrupção é um fenómeno estritamente ético que se resolve apenas com mais exigência dos cidadãos e vigor na repressão. A minha tese, apesar de não dispensar nem a repressão nem a exigência, é diferente. Exige, ao mesmo tempo, mais paciência e mais profundidade e alcance nas políticas contra a corrupção.

Os povos mais pobres não são menos sérios. No entanto, é indiscutível que as sociedades com maior pobreza são mais corruptas. Isso não resulta, como alguns candidamente julgam, de falta de educação dos cidadãos. Em Portugal, o concelho que reelegeu um condenado é o mais letrado e rico do país. A corrupção é endémica nos países mais pobres pela mesma razão que as políticas públicas tendem, nesses países, a favorecer uma minoria de privilegiados: a desigualdade na distribuição de recursos e rendimentos corresponde a uma distribuição desigual de poder e à destruição de qualquer sentido de comunidade.

Distribuição desigual de poder implica influência diferenciada perante o poder político. Que se traduz em formas informais de influência, a perpetuação de oligarquias e, no limite, a naturalização da corrupção como forma de contornar uma igualdade que apenas existe no voto e que, por apenas existir no voto, se torna insustentável na prática. O que estou a dizer é que a democracia, sendo condição para sociedades justas e com real igualdade de todos perante a lei, não é sustentável em sociedades profundamente desiguais. A corrupção generalizada não é mais do que um sintoma dessa insustentabilidade.

Quanto ao sentimento de comunidade, ele é muito evidente num livro que já aqui citei outras vezes (“O Espírito da Igualdade”, de Richard Wilkinson e Kate Pickett). Nele, entre muitas outas coisas, demonstra-se como povos de países social e economicamente mais desenvolvidos (onde não se encontra o Brasil) respondem de forma muito diferente a uma mesma e simples pergunta: “Confia nos outros?” Em Portugal as respostas positivas corresponderam a 11%, na Suécia a 70%. A tese do livro, comprovada em inúmeros dados e variáveis, é que a diferença não é sobretudo cultural, étnica, histórica, religiosa, de educação ou de riqueza. Está relacionada com a igualdade. A desigualdade económica cria um muro entre os cidadãos e destrói qualquer ideia de pertença. A confiança nos outros, assim como a solidariedade com os outros, nasce, se não for apenas um valor abstrato, de uma empatia entre semelhantes. Para isso é preciso que exista um sentido de comunidade: pessoas que se cruzam nas mesmas ruas, nos mesmos bairros, nos mesmos transportes públicos, nas mesmas escolas, no mesmo país, na mesma vida. Em sociedades desiguais, como a portuguesa, isso não acontece. E por isso o sentido de comunidade é relativamente baixo.

No Brasil a coisa é muito mais radical. Ao ponto do assassinato de oito crianças e jovens, dos 11 aos 19 anos, por polícias do Rio de Janeiro (chacina da Candelária), não ter levado o país a experimentar uma profunda depressão coletiva. Porque o pobre e o negro não são bem gente para a elite brasileira. Não é maldade. Ou é, no sentido em que a indiferença perante a vida dos outros é intrinsecamente errada. Mas essa indiferença tem uma origem: a total ausência de empatia. E essa ausência tem a ver com a diferença radical de experiências de vida que a desigualdade alimenta. Ora, não há lei, regra e ética coletiva sem sentido de comunidade. Sem esse sentido de comunidade a igualdade perante a lei e perante o Estado não passa de uma ideia generosa sem referente prático.

É uma pescadinha de rabo na boca: a desigualdade alimenta a corrupção enquanto a corrupção trava uma distribuição justa dos recursos, permitindo a quem tem dinheiro comprar a vontade dos eleitos. Roubando o voto aos pobres, única coisa que cada um deles tem em igual quantidade que um rico. Quebrar este círculo vicioso é a maior dificuldade. Em casos em que não haja um corte revolucionário, ou uma guerra civil, ou uma carnificina como no Ruanda, demora tempo. Mais uma vez, os mais crédulos acreditam que basta um “choque ético” coletivo. Uma “limpeza”. A experiência diz-nos que não só não basta como os efeitos costumam ser bastante perversos. A operação “Mãos Limpas” não acabou ou diminuiu a corrupção em Itália. Apenas dizimou o sistema político, destruindo os partidos tradicionais, criando uma brutal instabilidade e subsistindo uns corruptos por outros tanto ou ainda mais corruptos. Porquê? Primeiro, porque as condições que favorecem a corrupção permaneceram intactas – no caso, a fragilidade do Estado face a poderes que paralelamente à lei estruturam relações sociais e económicas. Segundo, porque quando a corrupção no sistema político é generalizada a única vitória possível passa pelo total esvaziamento da classe política. Apesar dos juízes italianos terem tentado, ela não pode ser substituída por eles. Ou fica tudo na mesma, vindo de outros lados novos corruptos, ou é a democracia, e não a corrupção, que entra em colapso, como pode vir a acontecer no Brasil.

Estou a defender que em países desiguais ou com os problemas específicos de Itália se deve fechar os olhos à corrupção? Estou a defender o oposto: que a exigência tem de ser muito maior e depende essencialmente de condições políticas. Como se viu, no Brasil a redução da desigualdade fez com que uma realidade muito antiga se tornasse mais insuportável para os brasileiros. Estou a defender que a Justiça deve suspender o seu dever para não levar um país para o colapso democrático? Seria uma posição cínica e insustentável. Nada disso. O que estou a defender é que cumpra o seu papel e não mais do que o seu papel. Se é verdade que não podemos esperar eternamente pelo momento em que a política se regenera, a política da terra queimada não costuma ser o melhor estratégia para resolver problemas.

O papel da Justiça não é “limpar” o sistema político. É julgar cada caso pelo seu valor exato. Isso implica fazer tudo o que deve fazer sem tentar enquadrar o seu quotidiano numa qualquer cruzada, onde cabe todo o sistema político, chame-se essa cruzada “Mãos Limpas” ou “Lava-Jato”. Porque há uma diferença entre muitos julgamentos de muitos políticos ao longo do tempo e aquilo que, na narrativa mediática e dos próprios juízes, se transforma num grande julgamento da política. Uns deixam os juízes no lugar onde devem estar, a outra atira-nos para um confronto a que a democracia não pode resistir. Uns permitem que cada magistrado se concentre no processo, não fazendo depender dele todos os outros, a outra transforma-o num justiceiro e inevitavelmente empurra-o para um momento em que os fins – limpar a política – justificam os meios – o atropelo da lei a que os magistrados, mais do que qualquer pessoa, devem total obediência. A retórica da “limpeza” cria um ambiente geral que abate qualquer sentido crítico: quem não esteja incondicionalmente do lado da acusação é amigo dos corruptos, o juiz que não condene pesadamente o acusado põe em causa a própria a legitimidade regeneradora de toda a classe. Limpeza é limpeza, não pode deixar “resíduos” pelo caminho.

O ímpeto justiceiro é, ao contrário da aparência, a negação da vontade de justiça. Porque ele se descentra do processo, onde repousa a autoridade única dos juízes (em que ninguém vota e que são tão humanos como todos nós) para depender do carisma e popularidade do julgador. E porque dá ao poder judicial a ilusão de partilhar com a comunicação social o papel de contrapoder e não apenas de outro poder. Um papel que não pode ter. Quando vemos, como vimos, Baltazar Garzón, Carlos Alexandre e Sérgio Moro aceitarem participar numa conferência conjunta, no Estoril, percebemos que estes magistrados, com cargos muito diferentes em cada um dos países, interiorizaram a ideia de que são juízes especializados no que tem impacto público. Acima de tudo, especializados em políticos.

Quando vemos que o processo de peculato que envolve a natureza de revistas compradas por gabinetes ministeriais há mais de seis anos (ainda espero mais dados para perceber de que se fala) nasce de uma denúncia da Associação Sindical de Juízes Portugueses (ASJP) que nasceu de um confronto laboral com o governo, em 2010, percebemos que há quem queira transformar o julgador em acusador, tendo a classe política como principal alvo. E percebemos que entrámos numa fase de enfrentamento de poderes e não num mero combate à corrupção. E recordamos, mais uma vez, a frase que apresentava o VIII Congresso da ASJP, em 2008: “O século XIX foi o século do poder legislativo e o século XX o do poder executivo, poderá o século XXI vir a ser o século do poder judicial?” Se há muitos magistrados que acreditam nisto não é apenas a luta contra a corrupção que está perdida. É a democracia.

Volto então ao meu desconforto inicial. Considero a corrupção um dos problemas mais graves com que a democracia se pode deparar. Porque a subverte em todos os seus fundamentos. Considero-a especialmente grave quando nela participam forças políticas que se batem pela igualdade, porque traem no seu comportamento tudo aquilo que defendem. Mas não embarco no entusiasmo geral com dinâmicas que não só não terão qualquer efeito na redução da corrupção como põem em causa um bem maior, que é a democracia.

Qualquer combate sério à corrupção passa pela luta por uma maior igualdade entre cidadãos, distribuindo o poder de forma mais equitativa, aproximando toda a vida social à ideia democrática e generosa de que cada homem, valendo um voto, tem o mesmo peso na sociedade. E criando condições para o sentimento geral de pertença a uma comunidade, sem a qual a ideia de bem-comum é pura retórica. Isto não se faz com “limpezas” justicialistas expeditas que só podem acabar em desencanto, criando um vazio de poder que um populista autoritário tentará ocupar. Faz-se garantindo que cada um, na política e na justiça, cumpre o seu papel. Sabendo que demora tempo chegar ao sítio certo.

O quanto está a custar o livrarmo-nos de tão ignominioso veneno!

(Jorge Rocha, 30/01/2018)

veneno

Que o governo tem de pôr cobro à situação presente em que se vê continuamente objeto dos ataques de juízes e de magistrados, como se a alegada independência entre o executivo e o judicial apenas sirva para que este último ponha continuamente em xeque a ação do primeiro, é urgência que tarda em concretizar-se. Sob pena de nos vermos na situação brasileira em que um ex-presidente é condenado sem nenhuma prova do que é acusado de ter feito e uma maioria do eleitorado lhe exige o regresso ao Palácio do Planalto.

Em poucos dias vão-se sucedendo os episódios, que culminaram na ignomínia de se ter posto em causa a probidade de Mário Centeno, prejudicando a sua ação não só no país, mas também no contexto europeu em que acaba de tomar posse como presidente do Eurogrupo. O ministro que provou a falácia dos argumentos das direitas – acobertadas pelos juízes e magistrados e aliadas a direções de jornais e televisões -, é tão odiado por elas, que não há argumentos de defesa do interesse nacional, que lhes justifique a mínima contenção. Entrou-se no reino do vale tudo, mesmo que isso signifique o recurso à estratégia da terra queimada.

Outros casos, porém, continuam a dar sustentação a esta realidade inquietante: hoje ficou-se a saber que dois secretários de Estado de José Sócrates vão a julgamento acusados de peculato com base numa denúncia da Associação Sindical dos Juízes. O seu crime terá sido o de comprarem livros no valor de 14 mil euros num dos casos, e revistas no valor de 400 euros no do outro, com o cartão de crédito de governantes. Não interessando se eram ou não materiais necessários para a sua atividade de governantes. Será que para terem conhecimento do que lhes importaria saber para melhor desempenharem os seus cargos, deveriam tê-los adquirido com os seus próprios recursos? Já agora as canetas com que assinavam os  despachos também deveriam ser previamente comprados na papelaria da esquina das respetivas ruas em vez de serem fornecidas pelo economato dos ministérios?

Cabe, porém questionar quanto, em comparação com esses supostos 14400 euros terão sido gastos na investigação, que dura desde 2012 para os levar agora a julgamento? É caso para pôr a questão que mais se justifica nestas circunstâncias: quem é que julga os juízes e os magistrados pelos crimes de lesa Pátria, de que dão contínuas provas?

Mas a urgência no virar de tudo isto também se deve levar a outras áreas. Por exemplo à televisão do Estado, a RTP, para a qual o Conselho «Independente», nomeado pelo anterior governo, decidiu agora renovar o mandato do Presidente, um assumido militante do PSD, e rescindir o de Nuno Artur Silva, administrador conhecido pela proximidade às esquerdas. Ainda que, nesta matéria se lamente a militância de conhecidos militantes bloquistas em colaborarem na campanha suja, que presidiu à decisão de tal órgão decisório (quando será que o Bloco nos inibe de lembrar um célebre tratado sobre a doença infantil do comunismo?).

Pode-se compreender o que essa renovação de mandato e esse afastamento compulsivo de Nuno Artur Silva pretende: que a televisão do Estado continue a ter o tipo de (des)informação em que tem primado com recurso abundante aos comentadores do «tea party» nacional oriundos do Observador e seus sucedâneos. Dias há em que os convidados de José Rodrigues dos Santos ou de Ana Lourenço mais se assemelham a uma sinistra galeria de horrores.

A exemplo do que se passa nos EUA onde Trump procura evitar a derrota do seu Partido nas eleições do último trimestre deste ano, despedindo altos funcionários do FBI e perseguindo jornalistas, do referido Brasil ou da Espanha aqui ao lado onde todos os atropelos são cometidos aos princípios democráticos para impedirem os catalães de usufruírem a vontade emancipadora reiteradamente manifestada em eleições, as direitas globais perderam qualquer ponta de vergonha e, conspirando ativamente com todos os meios ao seu alcance, procuram evitar as mudanças civilizacionais, que tanto temem.

Bem desejamos que António Costa encontre um antídoto eficiente para combater este veneno diariamente inoculado nas mentes dos portugueses por todos os meios de desinformação, que lhes agridem a inteligência. Metaforicamente o manto de espuma a cobrir o Tejo em Abrantes é uma boa imagem do tipo de poluição, que está em curso nessa aliança corrupta entre alguma (in)justiça e a generalidade da comunicação social. Os malefícios, que tanta indignação causam em quem os testemunha e não os vê merecidamente sancionados, são uma ameaça demasiado séria para ser objeto de qualquer procrastinação no combate sério que exigem.


Fonte aqui

Octávio Ribeiro, o verdadeiro Procurador-Geral da República 

(Daniel Oliveira, In Expresso Diário, 30/01/2018) 

 

Daniel

Daniel Oliveira

Quando soube que o DIAP estava a fazer uma busca ao Ministério das Finanças pensei que alguma coisa de grave tinha acontecido. Quando percebi que a busca se devia à ida do ministro ao futebol percebi que tinha, de facto, acontecido alguma coisa: o Ministério Público decidiu dedicar-se à comédia. Das duas uma: ou o Ministério Público sabe de alguma coisa que todos nós ignoramos, ou está apostado em transformar este país num circo, destruíndo a credibilidade do Estado e das instituições. Bem sei que na cabeça de muitos procuradores, que têm o “Correio da Manhã” como leitura de referência, o estado natural de um político é o de arguido. Mas há limites para o ridículo.

A verdade é simples e ficou-se a saber logo no primeiro dia depois da manchete do “Correio da Manhã”, que assinalava, sempre com aquela má-fé perversa que afasta o pasquim do jornalismo, que dois dias depois de Mário Centeno ter ido à bola um prédio da empresa do filho de Luís Filipe Vieira teve direito a um “perdão fiscal”. Não era perdão fiscal nenhum, como sabia o pasquim. Era uma isenção de IMI para imóveis reabilitados claramente definida na lei. Esta isenção fiscal é legislada pela Assembleia da República, determinada e aplicada pela autarquia onde se situa o imóvel (no caso, a Câmara Municipal de Lisboa) e depois de verificar se cumprem os critérios. As Finanças limitam-se a dar seguimento. Assim sendo, ou o Ministério Público anda a investigar outra coisa qualquer ou bastaria não se ficar pela leitura do “Correio da Manhã” para ter poupado a viagem ao Ministério das Finanças.

Quanto à ida de Mário Centeno para o camarote presidencial, o que estranho é a estranheza. Por ali já passaram grande parte das figuras políticas nacionais, de Marcelo Rebelo de Sousa a Francisco Louçã. Eu próprio, que sou ninguém, já fui inúmeras vezes convidado para estar no camarote presidencial do Sporting e, apesar de preferir ver os jogos no meu lugar de sempre, já lá estive várias vezes. Assim como já fui convidado para ir a estreias de teatro e de cinema. A diferença é ser convidado ou pedir um convite? Adorava ver em que norma penal se enquadra essa distinção.

É absolutamente natural que o ministro das Finanças não vá para a bancada num jogo de risco como um Benfica-Porto. Nem sequer é para o defender a ele. As forças de segurança dispensam, para além de tudo o que um jogo desta natureza implica, preocuparem-se em saber por onde anda o ministro. Até para a cultura de taxista (sem desprimor para os taxistas, que não têm culpa nenhuma dos disparates da nossa justiça) que se instalou entre os procuradores há limites para a demagogia.

Mas está mesmo a acontecer e todos somos obrigados a comentar esta palhaçada judicial. Há até alguns juristas que, por uns minutos de palco, se oferecem à triste figura de comentar a dificuldade em provar que o benefício fiscal (que não lhe diz respeito, mas adiante) seja uma contrapartida da ida à bola sem pagar. E fazem-no sem se rirem. Acreditará esta gente que é assim que as coisas se passam? Que os ministros com o poder de Centeno se compram com dois lugares no camarote presidencial? Se os governos e autarquias favorecem os clubes de futebol – e muitas vezes favorecem –, não é por vantagens patrimoniais, é por vantagens políticas. É pelo enorme poder de influência que Benfica, Sporting e Porto têm junto de milhões de portugueses. É preciso viver totalmente alienado da realidade nacional para se pensar que é os clubes precisam de oferecer lugares no camarote para os seus presidentes exercerem a sua influência.

Mas os procuradores não estão alienados da realidade. Nem sequer acham que o tráfico de influências se faça assim. O que passa na cabeça dos magistrados é mais simples do que isso. É um vício que se instalou: o da visibilidade.

O Ministério Público trabalha mais para a notícia do que para a Justiça. Porque acha que é a notícia, sobretudo a que faz manchetes nos tabloides, que lhe reforça o poder político e institucional. Pouco interessa se estes inúmeros fogachos, a reboque de notícias de jornais, acabam em alguma coisa. Fica a aparência. Uma dinâmica que faz de Octávio Ribeiro o verdadeiro Procurador-Geral da República.

Só que, neste caso, o número mediático teve alguma repercussão externa. Não que a “nossa imagem lá fora” me tire o sono, mas há alguma respeitabilidade institucional de que o país depende. Uma busca judicial ao ministério do presidente do Eurogrupo não é coisa que se veja todos os dias. E não será fácil explicar aos líderes europeus as idiossincrasias da nossa Justiça. Se um ato tão inusitado como uma busca judicial ao Ministério das Finanças não tiver outra razão para além daquela que conhecemos, o Ministério Público não fez mal a Mário Centeno, fez mal ao país. E fá-lo sempre que transforma a Justiça portuguesa num prolongamento da cultura tabloide. O que é que vão investigar a seguir? Em casa de quem jantou o ministro esta semana? Se pagou os ingredientes? Qual era situação fiscal dos anfitriões? Não há criminalidade em Portugal, incluindo criminalidade de colarinho branco? Não têm nada de importante para fazer? Sobra assim tanto tempo e meios para serem as manchetes do “Correio da Manhã” a decidirem a agenda dos procuradores?