59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 07/04/2017)

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59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra.
Os 59 mísseis disparados pelos EUA contra um objectivo na Síria representam o regresso à agenda de guerra da política externa estabelecida no final do século XX. Trump sofreu mais uma derrota. Na campanha eleitoral Trump prometeu desinvestir nas guerras do Médio Oriente (o termo técnico é baixar o nível de empenhamento), porque o petróleo estava barato, era abundante e ele preferia o carvão que dava emprego a americanos. Trump considerava a NATO obsoleta e a Rússia um parceiro em vez de um inimigo.
Esta agenda colidia com os interesses de Israel e da Arábia Saudita que há décadas (pelo menos desde Nixon e Kissinger) dominam a matilha política de Washington. Os tiranetes radicais da Arábia Saudita e de Israel necessitam da desestabilização da região para se manterem no poder. Um Médio Oriente estabilizado é o fim dos negócios e do poder da família Saud e dos radicais judeus. A agenda tradicional dos EUA, a agenda de Clinton, marido e mulher, de Bush pai e filho, de Obama foi a de criar e manter um turbilhão na zona.
Em 2007, o general Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, numa entrevista muito difundida, desvendou o plano dos EUA e dos seus aliados locais e europeus de tomarem ou destruírem 7 países em 5 anos: Síria, Líbano, Líbia, Somália e Irão, que iriam fazer companhia ao caos do Iraque. Era este o programa de Hillary Clinton.
Em 3 de Fevereiro de 2017, logo após a posse de Trump, o general David Petraeus, antigo director da CIA, alertava o novo presidente para o perigo de alterar a “war agenda”. Numa conferência na Comissão Militar afirmou que a América não podia dar como garantida a atual situação (a situação herdada de Obama). Esclarecia que essa situação não era autosustentada e que fora criada pelos Estados Unidos. Se não for mantida colapsará, garantiu.
Os 59 mísseis lançados sobre uma base siria demonstra que os velhos poderes já estão bem instalados em Washington. A velha situação de desestabilização não colapsou. A família Saud e Benjamin Netanyahu podem celebrar de novo a vitória. Os lobistas do armamento, das companhias militares privadas podem acender charutos.


Não deixa de ser caricato que Trump tenha justificado a sua derrota com um impulso piedoso devido ao choque sofrido com as imagens das crianças atingidas pelas armas químicas. Armas cuja origem ninguém se interessou em investigar, a começar pelo próprio Trump. Já o mesmo tinha acontecido com as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que levaram Bush filho à segunda invasão do Iraque.


A velha ordem regressou a Washington. E à Europa também, com uma diferença: a doutrina Blair de sujeição activa da Europa ganhou adeptos. Hollande e Merkel não estiveram à altura de Chirac e Schroeder. Esses também tinham que vender armas, mas a estes não lhes custa serem rafeiros…
Tudo como dantes. Quartel em Abrantes

Os labirintos da Justiça e os da memória

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/04/2017)

AUTOR

                                    Miguel Sousa Tavares

1 O desfecho da investigação criminal a Dias Loureiro e Oliveira Costa, por eventuais falcatruas cometidas no BPN, mostra o nosso Ministério Público (MP) em todo o seu esplendor: depois de oito anos de investigações, não conseguiram obter prova alguma das graves suspeitas lançadas logo de início com a habitual e prestimosa colaboração da imprensa tablóide, sempre ao serviço do MP e da violação do segredo de Justiça. Não se sabe que rigorosa investigação terá sido feita para se arrastar durante oito anos, mas sabe-se que o suspeito Dias Loureiro foi ouvido uma vez, ao princípio, e nunca mais sentiram necessidade de voltar a ouvi-lo. E, assim, não tendo provas para levar os suspeitos a tribunal, arquivaram o processo. Porém, o despacho em que o MP arquiva os autos é digno de figurar nas colectâneas de jurisprudência e nos manuais escolares como exemplo do que é a distorção da Justiça — se é que os princípios fundamentais do direito ainda vigoram, não tendo sido afastados pela necessidade de combater o terrorismo, o crime de colarinho branco em grande escala ou outras situações de excepção que se vêm tornando regra sob o nosso impávido olhar. Resumindo, o MP arquiva mas faz notar que se mantêm todas as suspeitas e todos os indícios de crime, só que não houve forma de as provar. Já tínhamos visto isto com o arquivamento de um processo contra Duarte Lima, há vinte anos, ou contra José Sócrates no caso Freeport (investigado com fragor durante seis anos, sem que o suspeito alguma vez tenha sido interrogado ou chamado a pronunciar-se).

A estratégia do MP, nestes casos ditos “mediáticos”, é sempre a mesma: parte de suspeitas (às vezes vindas não se percebe de onde e outras vezes mais parecendo desejos) e imediatamente espalha essas suspeitas aos quatro ventos em tudo o que é imprensa ávida de escândalos — a qual, por sua vez, logo as transforma em verdades inatacáveis; assim garantida a glória dos intrépidos investigadores e a condenação popular e prévia dos arguidos, o MP começa, paulatinamente e sem pressa alguma, à procura das provas para as suas suspeitas; demora nisso o tempo que quiser, obtendo sucessivas prorrogações do prazo investigatório, pois que a jurisprudência estabeleceu que não há prazo algum; quando já está farto de investigar em vão ou quando o escândalo da demora ameaça fazer esquecer o escândalo dos eventuais crimes, arquiva porque não conseguiu provas — faltam os meios, faltou-lhe mais tempo, o processo é extremamente complexo, não lhe respondem às cartas rogatórias ou, se respondem, é preciso traduzi-las porque, imaginem, vêm em língua estrangeira. Mas não arquiva sem mais nem menos: arquiva condenando aos quatro ventos, chamando a si o papel de juiz e justiceiro popular e dando logo a sentença, sem sequer ter de passar pelo julgamento. É claro que o suspeito não vai preso, mas para aqueles que leram algures (será na Constituição?) que todos têm direito ao bom nome, e para aqueles que o prezam, arquivar assim é o mesmo que ser entregue às feras e para sempre. E acabamos todos sem saber se A, B ou C são, de facto, uns bandidos ou se são inocentes. Se beneficiaram da incompetência do MP ou se, pelo contrário, foram vítimas do seu abuso e da sua falta de respeito pela presunção de inocência.

Mas isso interessa a alguém? Alguém ainda se preocupa com essas relíquias de museu como o segredo de Justiça, a presunção de inocência, o direito ao bom nome, o contraditório, o ónus da prova, a celeridade da justiça e outras baboseiras esquecidas na poeira dos livros?

2 Nunca tive a mais pequena consideração pela pessoa e pelo percurso de Armando Vara. Pelo contrário: um comentário meu a seu respeito levou-o a perseguir-me judicialmente e sempre em vão até ao Supremo Tribunal de Justiça, pois que Armando Vara, então no seu apogeu, achava-se no direito de ser imune às críticas. Dito isto, não posso senão mostrar a minha perplexidade pela dureza da pena de cinco anos de prisão efectiva, agora confirmada pela Relação do Porto, por três crimes de tráfico de influências, pagos com cestos de robalos ou com dinheiro vivo. Não que eu viva bem com o tráfico de influências, mas porque vejo aqui uma zona muito cinzenta, em que a fronteira entre o criminoso e o profissional muitas vezes me aparece determinada apenas pelas circunstâncias políticas do momento ou pelas circunstâncias pessoais do agente. Entre o traficante de influências e o “facilitador de negócios”, qual é a grande diferença? Quantos portugueses (e estrangeiros) ilustres não se dedicam hoje a essa actividade e a uma escala multinacional, fechando negócios de milhões ou biliões, utilizando a sua capacidade de influência junto dos seus “contactos” importantes? Mas, mesmo saindo para a nossa pequena escala, não somos nós historicamente o país da “cunha”, do “empenho”, da palavrinha”, do “almoço de trabalho”? Quem é capaz de distinguir com toda a clareza o que é crime daquilo que é apenas a regra habitual do jogo? O que distingue o tráfico de influências do lobbying (legal em vários países) ou mesmo da actividade conhecida das nossas agências de comunicação e imagem?

Na dúvida, eu seria prudente no julgamento e comedido na pena. Para não ficar a impressão de que a frustração por não conseguir resolver os grandes processos mediáticos leva às tão perigosas “sentenças exemplares” quando aparece peixe-miúdo no cesto e processos simples para resolver.

Assim vejo também a condenação de Manuel Godinho no mesmo processo ‘Face Oculta’, por crime de corrupção activa, a uma pena de quase dezasseis anos de prisão — uma pena que não é dada nem aos homicídios com premeditação, ao homem que vai matar a ex-mulher à frente dos filhos e outros que tais. Mais ainda, quando os corrompidos levaram um quarto da pena do corruptor: não será mais grave um funcionário do Estado deixar-se corromper do que alguém de fora corrompê-lo? Ou será que também aqui a Função Pública goza de um regime especial?

3 Segundo a tese do MP, Ricardo Salgado terá corrompido José Sócrates para que este beneficiasse a PT, e o mesmo Ricardo Salgado terá corrompido Zeinal Bava e Henrique Granadeiro para que a PT beneficiasse o GES. Alguém me explica o que tem uma suspeita que ver com a outra? Parece que nada. Então, porque foram Granadeiro e Bava arrolados também como arguidos no processo ‘Operação Marquês’, acrescentando mais uns milhares de páginas, dezenas de testemunhas e meses de julgamento ao julgamento de Sócrates? Será a tentação de anunciar o “processo do regime”, a maior investigação criminal jamais levada a cabo em Portugal, de exibir a coragem de um procurador que, de uma assentada, sentou no banco dos réus todos os presumíveis criminosos de colarinho branco do país? E depois queixam-se da complexidade dos processos…

4 Não deve haver um português esclarecido que não esteja chocado e em pânico com o desfecho da Resolução e da “venda” do BES. Mas há quem o possa questionar e quem não tenha a mais pequena legitimidade para o fazer: Carlos Costa, Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque e Sérgio Monteiro. Que, como de costume, a culpa morra solteira, já era de esperar. Mas, ao menos, que morra em envergonhado silêncio e não em indecorosa chicana política. Há limites para a capacidade de gozar com a memória dos outros.

5 Quanto ao Montepio, basta olhar para a cara de Tomás Correia e escutar as suas garantias de que nada de anormal se passa. Ah, felizmente que o Banco de Portugal “está a acompanhar o assunto”… desde 2008!


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Trump rendeu-se; Putin será o próximo a render-se? O ataque químico é um evento orquestrado por Washington

( Dr. Paul Craig Roberts, in GlobalResearch.org, 07/04/2017, trad. Estátua de Sal)

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Washington reabriu o conflito com um ataque com mísseis Tomahawk contra as bases da Força Aérea Síria. Os sistemas de defesa aérea russo / sírio não evitaram o ataque.


O establishment de Washington reassumiu o controlo. Primeiro Flynn e agora Bannon. Todos os que restam no governo Trump são os sionistas e os generais enlouquecidos que querem guerra com a Rússia, China, Irão, Síria e Coreia do Norte.

Já não há ninguém na Casa Branca que consiga detê-los.

Um beijo de adeus às relações normalizadas com a Rússia.

Foi dado o tiro de partida para o conflito sírio ser reaberto. Esse é o significado do ataque químico, assacado ao regime sírio por Washington, apesar da ausência de qualquer evidência que tal comprove. É completamente certo que, segundo relatos, o Secretário de Estado dos EUA, Tillerson, advertiu a Rússia de que já estão sendo dados passos para remover do poder o presidente sírio Assad. Trump concorda.

O afastamento de Assad permitirá que os EUA imponham outro fantoche de Washington aos povos muçulmanos, removendo outro governo árabe com uma política independente de Washington, removendo outro governo que se opõe ao roubo da Palestina por Israel e permitindo que Tillerson da Exxon e os hegemonistas neoconservadores interrompam a compra de gás natural russo pela Europa, e substituindo-a por um gasoduto controlado pelos EUA, que ligará o Qatar à Europa via Síria.

Ignorando todas essas vantagens dos EUA, o governo russo hesitou em completar a libertação da Síria do Estado Islâmico, que é consabidamente apoiado por Washington. Os russos hesitaram, porque tinham esperanças, totalmente irrealistas, de conseguir uma parceria com Washington através de um reforço da luta conjunta contra o terrorismo.

Essa era uma ideia ridícula, pois o terrorismo é a arma de Washington. Se Washington puder afastar a Rússia do caminho, ou com ameaças ou com mais equívocos dos russos de esperanças de “cooperação” com Washington, o terrorismo será dirigido contra o Irão em grande escala.

E quando o Irão cair, o terrorismo começará a operar na Federação Russa e na província chinesa que faz fronteira com o Cazaquistão. Washington já deu à Rússia uma amostra do poder do terrorismo apoiado pelos EUA na Chechênia. Mais está por vir.

Se o governo russo não tivesse hesitado em limpar o Estado Islâmico da Síria quando a Rússia inesperadamente assumiu a liderança desse combate do Ocidente, a Síria não enfrentaria os riscos de ser retalhada nem a renovada determinação dos EUA de derrubar Assad pelas razões acima expostas. Mas os russos, hipnotizados por sonhos de cooperar com Washington, colocaram a Síria e colocaram-se a si próprios numa posição difícil.

Os russos agarraram a iniciativa e surpreenderam o mundo, aceitando o convite do governo sírio e entrando no conflito. Washington estava desamparado. A intervenção russa de imediato levou o Estado Islâmico a somar derrotas. Só que, de repente, Putin anunciou uma retirada russa, afirmando como Bush no porta-aviões, “Missão Cumprida”.

Mas a missão não estava cumprida, e a Rússia voltou a entrar, mantendo ainda a iniciativa, mas recuou um pouco após a sua retirada irracional. E, se nos recordamos, este entrar e sair no terreno sírio aconteceu um par de vezes. Então, quando a Rússia já tinha a guerra contra o ISIS ganha, é no final que ela recua, na vã crença de que Washington iria finalmente cooperar com a Rússia na eliminação do último baluarte do ISIS. Só que, em vez disso, os EUA enviaram forças militares para bloquear os avanços russos / sírios. O ministro russo dos Negócios Estrangeiros queixou-se, mas a Rússia não usou a sua superioridade militar no terreno para afastar as simbólicas forças militares dos EUA em presença, e pôr fim ao conflito.

Agora, Washington dá “advertências” à Rússia para não se meter no caminho de Washington. Será que o governo russo ainda não aprendeu que a cooperação com Washington tem apenas um significado: assinar como um vassalo?

Agora, a única alternativa da Rússia é dizer a Washington para ir para o inferno, e que a Rússia não irá permitir que Washington afaste Assad. Mas a Quinta Coluna russa, que está aliada com o Ocidente, vai insistir que a Rússia pode finalmente chegar à cooperação com Washington se decidir sacrificar Assad. Naturalmente, a aquiescência da Rússia destruirá a imagem do poder russo e será usada para privar a Rússia das divisas provenientes da venda de gás natural à Europa.

Putin disse que a Rússia não pode confiar em Washington. Esta é uma dedução correta dos fatos, logo por que razão se coloca Rússia num dilema procurando a cooperação com Washington?

“Cooperação com Washington” tem apenas um significado. Significa render-se a Washington.

Putin apenas em parte conseguiu limpar a Rússia. O país continua repleto de agentes secretos americanos. Será que Putin se vergou ao poder do Establishment de Washington exatamente como Trump?

É extraordinário como a imprensa russa parece entender tão mal o perigo que a Rússia está a correr.


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