Chega de reformas estruturais?

(Paul de Grawe, in Expresso, 26/08/2017)

 

pauldegrawe

Paul de Grawe

É tempo de as instituições internacionais virarem as suas receitas de reformas estruturais para os Estados Unidos e deixarem a Europa sossegada.


Não há semana em que a Comissão Europeia, a OCDE, o Fundo Monetário Internacional (FMI), um grande banco central ou um exército de economistas do sector financeiro não venha avisar-nos de que é extremamente urgente fazer reformas estruturais. Sem estas reformas é certo que vão acontecer coisas terríveis. Com reformas, pelo contrário, entramos no paraíso económico.

A palavra “reforma” tem conotações positivas. Sugere que a realidade em que vivemos não é boa e precisa urgentemente de mudanças. Quando formulada desta forma, nenhuma pessoa sensata pode estar contra as reformas.

O que me faz desconfiar quando oiço a palavra reforma é que só é usada para exortar os governos da Europa continental a mudarem de política. Nunca é usada para dar uma lição às autoridades americanas ou britânicas. Nunca ouvi um banco central ou outra instituição internacional dizer que a economia americana precisa de reformas porque tem problemas estruturais. Em vez disso, a economia americana é invariavelmente vista como “flexível” e é dada pelas mesmas instituições como um exemplo a seguir.

A palavra reforma tem um significado muito específico. É uma agenda com uma teoria subjacente. Começa com o chamado Consenso de Washington: uma série de intervenções políticas preconizadas nos anos 90 pelos think tanks de Washington. Estas intervenções deveriam garantir uma maior concorrência, não apenas nos sectores tradicionais (aço, automóveis, têxteis, etc.) mas também no total da economia: no sector financeiro, nos mercados de trabalho, no sector dos serviços, incluindo a assistência na doença e os seguros de saúde, e porque não no sector da cultura, incluindo o ensino. A livre concorrência deve ser a dinâmica que desencadeia novos poderes criativos nunca vistos em todos esses sectores.

E assim a Europa tem sido bombardeada com exigências políticas de instituições internacionais nos últimos 25 anos no sentido de transformar toda a sua economia de forma a que ela se aproxime cada vez mais do modelo da perfeita concorrência.

Não vou discutir que a concorrência não possa ser benéfica. Por exemplo, estou convencido de que a concorrência é a base das revoluções tecnológicas que conhecemos nos últimos 200 anos e que nos conduziram a aumentos de prosperidade sem paralelo.

No entanto, a questão é até onde vamos na imposição de concorrência em sectores em que a resistência é elevada. O mercado de trabalho deve funcionar como o mercado da batata? Se há um excesso de batatas, o preço cai. Isso quer dizer que devemos aplicar esta dinâmica ao mercado de trabalho? Se há desemprego, devemos então assegurar que os salários baixam, como o preço das batatas desce quando há produção em excesso?

Uma diferença crucial entre o mercado de trabalho e o mercado da batata é que os trabalhadores protestam e por vezes derrubam todo o sistema quando são atingidos por baixos salários. As batatas, por seu lado, não protestam nem derrubam o sistema.

A concorrência cria dinâmicas criativas fantásticas. Ao mesmo tempo, a concorrência também destrói vidas de seres humanos que têm azar ou não conseguem ajustar-se. A concorrência deve portanto ser aplicada com cautelas.

A concorrência também cria um paradoxo. Algumas empresas têm grande êxito e fazem lucros incrivelmente grandes. Tornam-se por isso extremamente poderosas do ponto de vista financeiro e vão usar muitas vezes esse poder financeiro; adivinhou, para diminuir a concorrência. Fazem isto engolindo os seus concorrentes e comprando políticos que deveriam impedir as empresas de ficarem tão grandes. Isso acontece nos Estados Unidos. Desde os anos 80 do século passado, a economia norte-americana tornou-se mais concentrada. Muitos sectores são hoje dominados por um punhado de extremamente bem-sucedidos jogadores. O reverso tem acontecido na Europa, onde em muitos sectores há hoje mais concorrência do que nos Estados Unidos.

Estas tendências monopolistas nos EUA também conduziram a uma situação em que uma crescente percentagem do PIB passou para o fator capital. Também explica porque nesse país o trabalhador médio está descontente e votou em Trump. É tempo, pode pensar-se, para levar a cabo reformas estruturais na economia norte-americana. É tempo também de as instituições internacionais virarem as suas armas da reforma estrutural para os Estados Unidos e deixarem a Europa sossegada.


Professor da Universidade Católica de Lovaina, Bélgica

O Império estrebucha

(Por Jorge Bravo, in Facebook, 23/08/2017)

20993972_1453050458113029_1421291021001142464_n

Com a eleição de Trump a América tentou prolongar o uso do petróleo, fazer um retorno a casa e dar tempo ao renascer do músculo tecnológico!
Com o discurso à Nação de 21 de Agosto de 2017 Trump anuncia uma volta de 180° uma “nova política para o Afeganistão”, que é um aguenta aguenta não saimos de lá, até que certas condições sejam satisfeitas pelo Afeganistão.
Isto depois de ceder terreno no seu gabinete aos generais da Old School, e de afastar um a um os seus teóricos, aqueles que o apoiaram na eleição.
Naquilo que aparenta ser uma manobra para ganhar tempo, e acalmar a frente interna, “fazendo a politica externa de Hillary” e voltar à estrada para ganhar lugares nas próximas eleições internas, promete mais uma nova politica para o Médio Oriente, e mais qualquer coisa para o Oriente e talvez Europa.
Enquanto isso há 4 acidentes navais em tempo de não guerra, um deles com um rombo num destroyer e 10 desaparecidos, mais a demissão do Almirante das Operações no Oriente… E a suspensão das operações por lá… até…
Espera-se, que este à que sim de agora aos militares, seja transitório, porque entre os EUA terem sarilhos com a Rússia aqui na Europa central, onde sobra sempre para nós, e os EUA terem sarilhos com a China e eventualmente a Rússia no Extremo Oriente, venha o diabo e escolha!
Mas pensando em termos da Europa, é para nós pior aqui, se forem sarilhos com a Rússia!
Resta saber se alguém vai impor sanções, como os EUA querem, pelos vistos até agora, não parece que seja nada muito efectivo, a EU já está escaldada das anteriores, e deve dizer que sim, e fazer que faz e não faz.

Trata-se dos estertores finais de um Império, que só durou 127 anos, desde que os Marines entraram a reprimir uma rebelião de trabalhadores de uma plantação numa Agro-multinacional Americana na América do Sul em 1890, naquilo que ficou conhecida pela Guerra das Bananas, até hoje.

Um rosário de operação de regime change na ponta das baionetas, sempre que as hoje chamadas primaveras não funcionem.
Só que fruto de um rosário, também extenso, e sucessivo de erros de estratégia desde a 2 GG, foram de vitória em vitória ao ponto onde estamos, nem que essas vitórias tenham sido mais na máquina big pretender que é Hollywood, do que na realidade. É em que primeiro era a Rádio Voz da América a fazer a propaganda dos feitos gloriosos, no durante e pós 2 GG, até que isso passou para as mãos da CNN, quando foi necessário minimizar a derrota do Vietnam, usando esta CNN uma linguagem e estilo de esquerda, enganadora mas na linha do movimento make love not war, enquanto a política externa continuava tão desastrada e agressiva como dantes, debaixo de uma retórica de defesa da democracia formal e do mercado livre, mas sem nunca referir que seria livre primeiro para o mercado das suas corporações.
E é uma parte do estado profundo ( Oligarcas, Corporações, Complexo Militar Industrial, Financeiros & Banqueiros, e sua Media) que fez eleger este pé de microfone de turno, tal como outras partes desse mesmo estado profundo, fizeram eleger os outros pés de microfone de turno que surgiram desde Novembro de 63, por forma a que mudando, se mantivesse no essencial tudo na mesma, e que depois da queda do muro, se mantivesse a continuidade do seu mundo monopolar, em que querem continuar a mandar exclusivamente protegendo a sua querida New World Order.

Hoje com o surgimento dos BRICs, e com o reforço da sua componente R C actual, e com as novas rotas da seda, é o mundo monopolar da NWO que morre, e o mundo multipolar que está a nascer.

É este Império do mundo monopolar que hoje estiola. Tudo por uma questão de Abacaxis!


(Ver os seguintes textos relacionados nos links abaixo)

Uma questão de abacaxis

Aconteceu, E… Só Não Viu Quem Não Quis! 

América, América Quo Vadis!?

Que futuro para o legado de "Zédu"?

< ![CDATA[

(Mariana Mortágua, 22/08/2017)
mariana_mor2

Amanhã, Angola vai a eleições, sabendo, à partida, que José Eduardo dos Santos não será mais presidente. Depois de 38 anos no poder, “Zédu”, – o mais antigo governante do Mundo, juntamente com Obiang, da Guiné Equatorial – abandonará o seu cargo. Que Luanda albergará um novo presidente, não há dúvidas. Que a oligarquia do MPLA, que tem saqueado o país sob o comando da família dos Santos, deixará de controlar os seus destinos, isso é outra história.

João Lourenço, o atual candidato à presidência, foi escolhido por José Eduardo dos Santos. As sondagens não estão famosas para o partido do poder, mas também não é de esperar que o MPLA abdique facilmente. A prová-lo estão as denúncias de falta de transparência e tratamento desigual por parte dos partidos da Oposição. Isto sem falar da opressão política e institucional que o partido exerce no país.

Caso ganhe, as dúvidas recaem sob que caminho escolherá Lourenço.

A primeira hipótese é ser um fantoche de José Eduardo dos Santos que, habilmente, teceu uma teia que lhe permitirá, e à sua família, manter um enorme poder sobre o país. Poder militar, uma vez que poderá continuar a nomear os seus generais durante oito anos. Poder político, através do lugar que conservará à frente do MPLA e no Conselho da República. E, mais importante, poder económico, que reparte com os seus generais e família. Isabel dos Santos, a mulher mais rica de África, está à frente da petrolífera estatal Sonangol, além de bancos e empresas de comunicação. Zenú, irmão mais novo de Isabel, envolvido num alegado esquema de desvio de dinheiro denunciado nos Panamá Papers, manter-se-á à frente do Fundo Soberano de Angola. Tchizé e José Paulino, os dois irmãos seguintes, controlam dois canais de televisão. Eduane, o mais novo, é acionista do Banco Postal Angolano. Isto sem falar em Manuel Vicente, e os generais “Kopelipa” e “Dino”, envolvidos no saque ao Banco Espírito Santo Angola e investigados por corrupção e branqueamento em Portugal.

Terá Lourenço a coragem, ou ambição, para retirar as sanguessugas da família dos Santos do aparelho económico angolano? Se não o fizer, confirmar-se-á a tese do fantoche. Mas, caso aconteça, que fará Lourenço, um homem do regime, cúmplice do saque, com essas nomeações? Será que o melhor que Angola pode esperar do MPLA é a dança das cadeiras da oligarquia em busca da revalidação política, popular e internacional? Ainda não sabemos.

Mude o que mudar a partir de amanhã, uma coisa é certa. José Eduardo dos Santos, o homem de quem se fala, muitas vezes com reverência, e que Portugal sempre se recusou a condenar, saqueou Angola nos últimos 38 anos. Usurpou dinheiro dos diamantes e do petróleo para enriquecimento próprio, deixando a população sem liberdade, educação ou serviços públicos. É esse o seu legado.

* DEPUTADA DO BE

]]>