O país de Marcelo mudou muito e muito de repente

(In Blog O Jumento, 11/02/2017)

Desde que Marcelo Rebelo de Sousa chegou à presidência que o país mudou, não o país de todos nós pois esse não mudou, a não ser, um pouco para melhor, porque qualquer país onde Passos Coelho deixe de governar fica logo melhor. O país que mudou, muito e para pior, é o país do Marcelo.

marcelo_salgadoDantes o país do Marcelo era o dos almoços em ambiente chique, não como o famoso falso almoço com Vichyssoise, mas sim os almoços nas residências dos banqueiros, no Pabe, no Gigi, em ambiente requintados de administrações bancárias. Agora o país de Marcelo é outro, come-se empadão de atum com o sem-abrigo que voltou a ter casa e, coincidência das coincidência, mergulhou com ele no Yangtze de Lisboa, no meio de todos aqueles cagalhotos.marcelo_sem_abrigo

Cavaco chegou à Presidência da República e fez o roteiro da exclusão. Curiosamente o seu roteiro começou por alguém que ele tinha excluído de uma pensão, que preferiu dar a um Pide, mas, enfim, essa é uma medalha de caca que o senhor da Coelha vai levar consigo para a cova.

Mas não parece ser com Cavaco que Marcelo concorre, para destronar Cavaco do pódio dos mais preocupados com a pobreza bastaria ir à feira do relógio comer uma sandes de courato e emborcar uma lambreta, desde que no meio da copofonia não se enganasse e bebesse o Lambretas do CDS.

Os seguidores do Padre Vítor Melícias têm esta tendência para o franciscanismo público e Marcelo parece querer apear a Rainha Santa Isabel no seu amor aos pobres. É por isso que Marcelo não para desde que chegou à presidência. Quando muitos esperavam ver Marcelo usufruir dos prazeres palacianos, desta vez oficiais, surpreende-nos. De manhã toma o pequeno almoço com uns velhotes que têm de usar chapéu de chuva dentro de casa, mais logo almoça com o sem-abrigo que voltou a ter abrigo, à noite vai à sopa dos pobres e a ceia é com os sem-abrigo de Santa Apolónio. O capitão de mar e Guerra que o segue, já quase sem fôlego, está tramado, vai passar o mandato presidencial, sem usar os talheres de prata da Messe dos Oficiais.

Mas não seria má ideia alguém lembrar a Marcelo que há mais país, que há mais portugueses, nem todos são sem-abrigo ou vivem em casas degradadas, uns são remediados, outros vivem um pouco melhor, alguns são gente com sucesso e até sorte, outros, poucos, até são ricos. E são todos portugueses, todos fazem parte de Portugal. Compreendo essa vocação cristã de Marcelo e até prefiro esta versão à das missas e procissões dos Passos, mas convinha que o presidente não transformasse o país numa imensa Santa Casa.

As vidas sem valor

(António Guerreiro, in Público, 10/02/2017)

Autor

António Guerreiro

 

A discussão sobre a eutanásia precisava de algumas incursões históricas e filosóficas, através das quais vamos dar às questões biopolíticas do nosso tempo.


A discussão sobre a eutanásia, para não se tornar uma troca de argumentos vindos das regiões obscuras ou falsamente iluminadas, devia partir do seguinte princípio: a “vida” não se define por critérios médico-científicos, já que se trata de um conceito político, filosófico e teológico. Esta asserção foi formulada com clareza pelo filósofo italiano Giorgio Agamben e encontra-se subentendida nalguns textos de Michel Foucault, nomeadamente quando este filósofo introduz a noção de biopolítica: o facto de o homem, enquanto ser vivo, isto é, na sua realidade biológica, se ter tornado, na modernidade, objecto dos cálculos e das decisões do poder político. De tal modo que o velho direito soberano que consistia em mandar matar e deixar viver foi substituído pelo poder inverso de fazer viver e deixar morrer. A eutanásia, o aborto, o casamento homossexual e muitas outas questões entram no conflito biopolítico em curso, onde reside quase toda a política do nosso tempo. Como é sabido, a lógica biopolítica implica uma cisão entre aquilo a que Agamben chama “vida nua” (isto é, a vida entendida na sua realidade meramente biológica) e uma vida qualificada, aquela que faz do homem um sujeito jurídico e político. Os campos de concentração e de extermínio nazis realizaram uma biopolítica total, na medida em que foram concebidos e administrados de modo a isolar a “vida nua” das vítimas e cuidar do “corpo biológico da nação”.

A discussão sobre a eutanásia, para não se tornar uma presa da máquina humanista e antropológica que funciona em velocidade lenta e por caminhos cheios de buracos, devia também não se mostrar cega e ser capaz de reflectir sobre a sua própria dimensão biopolítica. Se tivesse de seleccionar uma biografia mínima sobre o assunto, começaria por um pequeno livro, quase um manifesto, O Direito de Morrer, que o filósofo Hans Jonas (um grande amigo de Hannah Arendt, também ele exilado nos Estados Unidos, onde morreu em 1993) publicou em 1978. O título é enganoso, não se trata de um discurso a favor da eutanásia, mas contra a obstinação terapêutica e o sofrimento causado pela interdição de morrer na era da técnica, quando os progressos da medicina permitem adiar a morte e manter o doente numa existência minimal. A palavra de ordem de Hans Jonas é “o direito de possuir a sua própria morte”.

Para a discussão sobre a eutanásia, também seria útil saber que em 1920 foi publicado um livro, na Alemanha, de um especialista de direito penal, chamado Karl Binding, que desenvolvia um novo e perigoso conceito: a vida que não merece ser vivida. Binding defendia que o homem tem completa soberania sobre a sua existência e o ordenamento jurídico não deveria fazer outra coisa senão reconhecê-lo, legalizando a eutanásia. Interessante é este conceito de “vida sem valor”, ou “indigna de ser vivida”. Binding aplicava-o a quem estava refém de uma vida absolutamente limitada por uma doença incurável e que, por isso, desejava em plena consciência a “libertação”. É Agamben quem comenta e descreve o livro de Binding, para salientar a proposta de que há um limite a partir do qual a vida deixa de ter valor e pode ser classificada numa nova categoria jurídica: a “vida indigna de ser vivida”. E que por isso pode ser extinta. A decisão sobre o limite para além do qual a vida deixa de ser politicamente relevante (e quais as vidas sem valor) é, ainda que de maneira inconfessada (mas muito mais facilmente do que admitem a eutanásia), o que todas as sociedades fixam na época da biopolítica. E eis como da eutanásia se chega facilmente aos refugiados.

 

O “ almeidinha” !

(Joaquim Vassalo Abreu, 11/02/2017)

almeida_mente

 

Com letra pequena, de propósito. Para que não haja confusões, e desde logo, com o enorme respeito e admiração que tenho para com os verdadeiros “Almeidas”, esses que tratam de recolher as folhas para que elas não entupam as sarjetas, para que as águas corram e fluam livremente, escorram comodamente e, isso fazendo, evitem que o lixo as entupa.

Os que limpam os jardins, as bermas das estradas e passeios, e que fazem das nossas aldeias, vilas e cidades, lugares limpos e aprazíveis para se viver… E embora seja palpável a evolução do civismo das nossas gentes (seleção de lixos vários, departamento dos mesmos, cuidados educacionais que são visíveis e não o sendo são, de imediato, alvo de crítica…), claro que no bom sentido, subsistem sempre, como em todas as profissões, os bons e os maus profissionais.

E, por isso, vos vou falar de um “almeidinha” que, mesmo sendo “Almeida”, não demonstra ser um verdadeiro. Porquê? Porque este não é um exemplo de profissional, não é perito em varrer ruas, em limpá-las com aquela vassoura própria, e porquê? Porque, em vez de limpar, faz mais lixo! Não remove resíduos, nem limpa sarjetas: atafulha-as de lixo! Não trata das condutas: entope-as!

Mas em nome de quê, boquiabertos me perguntarão, em nome de quê, afinal? Da transparência! É mesmo: ele faz lixo, ele conspurca, ele entope, ele suja, mas tudo em nome da transparência, ou seja, da verdade. Que não da mentira. Da limpeza da mentira. Isto é: ele suja para que depois se limpe. E limpa ele o “almeidinha”, mais outros “almeidinhas”, seus comparsas!

Mas este “almeidinha”, de primeiro nome Joãozinho, coitadinho, tem uma conduta de vida de transparência feita. Reparem e relembrem só naquilo (que todos estão fartos de saber, eu sei) que ele disse, há uns tempos, quando era candidato a deputado por Aveiro, pelo seu CDS, ou PP, ou lá o que é. Disse ele: “SEM MENTIR NÃO SE GANHAM ELEIÇÕES”! Eu até diria mais: muitos nem a lugar algum chegariam, mas isso é outra conversa…

Querem mais limpeza? Mais transparência? Pela coragem demonstrada ( não é qualquer um que assume assim de ânimo leve que, mesmo sendo “almeidinha”, não limpa, antes suja), a de confirmar um pecado, para ele um simples pecadilho, eu sei, um pecadilho que dizem a todos pertencer mas que ele, assim dizendo, o concentra em si, manifestando assim, e à saciedade, o verdadeiro “Cristo” que há em si: Um “Cristo” mortificado pela dor de todos. Que coisa mais altruísta! Que exemplo!

Muitos o seu exemplo seguiram e, desde logo, o Coelho! O que ele não prometeu, Deus meu! E não é que venceu? Esse dito foi também uma luz para o Paulo e uma boa nova para a Maria de Anunciação. Assunção, perdoem!

E o nosso “almeidinha” (isto soa a qualquer coisa de árabe, não soa?), de primeiro nome Joãozinho, coitadinho, talvez coberto por uma aura divina, um manto diáfano que o protege de qualquer contaminação, tal qual qualquer Marques Mendes desta vida, em tendo seu pecado, ou pecadilho confessado, e assim estar perdoado, trata agora de expurgar todo o arremedo de mentira que para aí possa existir. Como zelote das boas maneiras e costumes. Como se fosse um bom “almeidinha”.

E então, como “almeidinha”, faz o seu serviço sim, mas com uma característica própria: Em vez de limpar, faz lixo! E faz lixo para depois tentar reparar o dano por si feito. Que o lixo cresça, tudo entupa para ele, depois, o vir limpar.

É isto que o nosso “almeidinha” e toda a sua comandita têm vindo a fazer. E ele sempre ali estará, pronto a limpar o lixo por si e seus comparsas feito, mas sempre de barba limpa e aparada, de cabelo redondo e acentuada menelha, de lábios rosados por croissants e café com leite e um manequim esculpido em suadas sessões de sauna…como deve de ser! Ai…

Ele é um “almeidinha” dos tempos novos, assim do tempo dos seus comparsas “bombeiros pirómanos”, também dos novos tempos: ateiam os fogos para depois os irem combater e apagar. Com aviões “granadeiros”, com helicópteros pagos a peso de ouro e para justificar o lugar: o de limpadores e de apagadores, dos maus vícios, do assomo ao consumismo, do quererem ter direitos, de arautos da segurança e donos de tudo e, principalmente, da verdade e da mentira.

Mas sucede que este “almeidinha” é a antítese, como disse, dos verdadeiros “Almeidas”: este, em vez de desentupir, entope! E torna-se ele próprio na sarjeta, entupida e nauseabunda, cheia de excrementos e lama. E é na lama que este “almeidinha” se dá bem. É um projecto de “Almeida”…é um garoto!

Outros da comandita poderia referir e logo, e em primeiro lugar, o Coelho, mas este, quando acha conveniente, resguarda-se na sua lura e manda aquele monte de coiso negro para a lide e ele, qual imperador romano, limita-se a erguer ou baixar o polegar. E aquele monte de coisa negra, qual leão no coliseu, investe, tenta romper, sempre de focinho erguido e apontado, mas sempre dirigido àquele esterco de que se alimenta…o da sobrevivência!

Por fim, mas não para acabar, eu também estava convencido, e nisso ia pegar, que a Maria de Assunção também ela era “Almeida”. Mas não, enganei-me, é “Oliveira”! Ora oliveira dá azeitonas, as azeitonas dão o azeite e ela será, portanto, uma “azeiteira”! É que ser “azeiteiro” não é só privilégio masculino, que diabo!

E, agora finalmente mesmo, parafraseando uma velha e conhecida canção do Paco Ibañes, também poderei dizer: Estes “almeidinhas” são os excrementos da nação…

Fui violento? Qual quê? Como dizia Bretch “ O rio é violento? Violentas são as margens que o comprimem…”. Ao que eu acrescento: Violento, eu? E quem agride, assim de forma deliberada e soez, a minha inteligência e capacidade de pensar? O que será?

Perdoai-lhes, Senhor e AMEN! Ou “À MAN”, como se diz em estrangeiro….


Fonte aqui