A tia Assunção a fazer um número. Saiu-lhe tão mal

(Por Penélope, in Blog Aspirina B, 17/01/2017)

Um autêntico número de circo

Um autêntico número de circo

 

O senhor mentiu! O senhor mentiu perante este Parlamento” – vociferava há pouco Assunção Cristas na AR, dirigindo-se a um impávido António Costa. Dizia ela que o acordo de concertação social não tinha ainda sido assinado, que tinha fontes seguras, seguríssimas e fresquíssimas segundo as quais não, não tinha sido assinado por todos. O senhor mentiu! Costa não se descompôs e respondeu-lhe que, embora não houvesse cerimónia oficial de assinatura, as assinaturas lá estariam (como já estavam, de facto, em curso).

Bom, para até o José Gomes Ferreira vir dizer depois, na SIC N, que a tia dramatizou (calma, a «tia» não é dele e, além disso, começou vergonhosamente por corroborar Cristas), que era evidente que o acordo estava firme e que a assinatura era uma mera formalidade, o excesso de calor acusatório e de drama correu mesmo muito mal à líder do CDS. Quanto ao Ferreira, o texto em rodapé na televisão confirmando a assinatura não lhe deu outra hipótese que não fosse reconhecer o óbvio, caso contrário estaria a pedir, por detrás da autoridade dos seus óculos, a demissão de António Costa.

Mas, para além deste número patético de agressividade com tiros de pólvora seca, Cristas ainda se atreveu a dizer que o Governo PS era minoritário e que buscava acordos para poder governar, pelo que, atenção, Costa não devia estar ali. Este lembrou-lhe que o seu governo não era de coligação, como o anterior, uma espécie de fusão, e fez-lhe um breve resumo do acordo específico estabelecido com os restantes partidos à sua esquerda e o que isso implica. Infelizmente, esqueceu-se de lhe lembrar que, se o PSD tivesse podido governar, uma aspiração chumbada por uma maioria na Assembleia mas que Passos continua a considerar viável, só poderia fazê-lo precisamente buscando acordos a toda a hora, numa base muito mais instável do que aquela em que o governo assenta. Há uma razão para estar na oposição.

Não tenho por hábito acompanhar, nem sequer ver mais tarde, os debates quinzenais na Assembleia, mas hoje deu-me para ir ver o que se tinha por lá passado. Diria que ninguém tem juízo e sentido de responsabilidade a não ser o governo. Consigo perceber a estratégia dos elogios de Costa ao PCP e ao Bloco e respectiva coerência, mas o que dizem e o que pretendem,  benza-os deus, é totalmente irrealista e o desprezo pelos chamados “patrões” é inaceitável, mesmo que Costa tenha repetido ad nauseam que 56% das empresas abrangidas pela baixa (transitória) da TSU têm menos de 10 trabalhadores e 80% menos de 50. Não interessa. Para esses partidos, ser patrão é uma espécie de crime e o seu mero estatuto faz deles uns malfeitores. Idem para os banqueiros. Obviamente, para eles, só o Estado pode ser patrão e banqueiro. Há pachorra para esta conversa? Não há.

O PSD parece que fez triste figura, como seria de esperar, mas confesso que não vi. Apenas as acusações de António Costa, que me pareceram suficientes para os arrumar.


Fonte: A tia Assunção a fazer um número. Saiu-lhe tão mal | Aspirina B

O EXPRESSO e os seus EDITORES

(Joaquim Vassalo Abreu, 17/01/2017)

expresso_1

Antes de mais, e por amor à verdade, quero deixar bem vincado que já há bastante tempo deixei de comprar e ler o Expresso, jornal que religiosamente lia e comprava semanalmente desde que nasceu: em 1973!

Mas o Expresso, ou a sua proprietária Impresa, andou tempos e tempos a tentar-me para assinar o seu Digital até que, numa proposta deveras tentadora, que eles diziam ser por três meses, eu acedi. Aceder à senha é que foi complicado! E quando acedi à tal senha disseram-me que não, que a promoção era só por um mês. Não quis mais conversa e, sabendo já o número de cor, nunca mais atendi.

Mas há uma coisa que eles nunca deixaram de fazer (só pode ser por desorganização interna, ou então, para mim que sou um ser complacente e ingénuo, pelo elevado e simples dever de informar) que foi o de mandarem, diariamente para o meu Mail, o Expresso Curto e o Expresso Diário. Um ao princípio e outro ao fim do dia!

Mails que eu guardei durante dois anos, até ao Iphone e ao Ipad me dizerem: pá, liberta espaço porque senão nem fotografias podes tirar!

E, assustado, eu disse: agora tem que ser! E que é que eu fiz? Desatei a tomar notas, a cronologicamente tomar notas ( já vai em mais de dez páginas manuscritas), para depois ganhar espaço na memória. Na memória deles que não na minha que, felizmente, ainda não preciso! E dou comigo a ver coisas lindas, coisas de uma coerência sem fim, verdadeiros tratados de futurologia e opiniões definitivas tais, que se esboroavam no dia seguinte. A memória escrita tem destas coisas! Mas eu, prometo-vos, vou partilhar a síntese deste trabalho, que só um recente reformado, pese as suas obrigações domiciliárias, poderá fazer. Com calma e sem precipitações, pois eu sou um puco dado a impulsos…

Aquilo, no fundo, o que eles fazem é aquilo que eu, quase diariamente, nos meus “Pensamentos Onlaine” vou observando e dizendo, assim telegraficamente, mas de que eles fazem teorias antecipando a “pós-verdade”, essa coisa que, jornalisticamente, tudo desculpa. Podem dizer o que lhes apetecer, podem noticiar o que entenderem, o mais absurdo que for mesmo que ofenda a inteligência de quem lê, mas, amanhã haverá sempre mais…

É tudo mais ou menos risível, muitas vezes grotesco mesmo, outras vezes hilariante e a grande conclusão é de que eles, ao invés de se perguntarem, o que seria até pedagógico, afirmam! E eu, há pouco tempo, li uma observação de um leitor que eu achei tão propositada que até vou reproduzir e na qual, de resto, me revejo, da mesma maneira que a muitas vezes digo a Amigos que passam a vida a citar: “Não citem, citem-se!”, dizia ele, para os tais jornalistas: “ Ok.! Deem as notícias, mas não as interpretem…deixem isso ao meu cuidado”! Logo subscrevi!

Mas essa minha análise, um pouco exaustiva pois tem dois anos desse Expressos Diários e Curtos e até, para contraponto, quatro anos do meu Blog, que atravessa as mais diversas áreas, vai ter que ficar para mais tarde porque, muito embora se diga que a memória na política dura um mês, a minha dura um pouco mais…A ver se sou capaz e tenho paciência! Mas, se conseguir, irão ver que é bonito e elucidatório!

Mas o que, assim de imediato, me leva a escrever este texto, não fugindo do tema que lhe dá título, é um artigo de opinião de Bernardo Ferrão, Editor do Expresso, que este mesmo fez o favor de me mandar para o meu Facebook, vejam lá, a quem eu não nego a liberdade de escrever o que entenda, claro, e que se intitula: “Passos começou a fazer oposição”.

Eu, ainda antes de ler o texto, fiquei assim a meias que inquieto e perguntei-me: Mas haverá alguma coisa nova, alguma coisa que eu não saiba, que por muito que tente lembrar-me não tenha ouvido e lido? Que se passa, afinal?

Então comecei a ler o texto! “O PSD está a fazer o que lhe compete, diz ele, oposição!”. “ Que Costa estava a negociar com os Parceiros Sociais o que não poderia cumprir”. E fala depois em “negociatas” que as esquerdas se recusam a aceitar. E segue dizendo, com aquela certeza própria de quem sabe do que está a falar, sem conhecer sequer o acordo, que “No fundo, o Governo está a pôr o Orçamento de Estado, os Contribuintes, a pagar um aumento de Salário Mínimo que devia ficar a cargo dos Patrões”. É isto que está lá escrito, eu juro!

Parei de ler e concluí: com jornalismo destes para que preciso eu de jornalismo?

Conclusão: ele está convencido (e transmite esse seu convencimento como Editor) que Passos está a pôr a nu as fragilidades do acordo das Esquerdas (já disse que não falo mais em Geringonça), quer mostrar que está vivo e quer irritar Marcelo! E, achando que Costa vai ficar isolado, passará a ter um Governo em minoria…. Disse ele! O Editor do Expresso! Daí eu, assim a modos que apalermado, disse: que novidade!

E, assim de repente, mesmo sem pensar, apeteceu-me perguntar-lhe: Porque não publica este texto no jornal do PSD ( o Portugal Livre), se é que ainda existe?

De um comentador, colunista ou afim, responsável pela sua opinião, eu até perceberia, até porque sou pelo pluralismo mas, de um Editor?

Dispenso caro Editor. Dispenso mesmo. Mas vá escrevendo, vá escrevendo sempre que, pelo menos enquanto houver memória nos cujos e eu não me fartar, eu vou guardando, quer dizer, registando.Se me continuarem a mandar, claro!

Nota final: Nos comentários ao texto foi uma festa! Que, afinal, não tinha ido ao congresso dos Jornalistas; que não tinha aprendido nada; que tão novo e já tão causticado …quando eu escrevi isto já eram “cerca de”, como eles dizem, 176 comentários! Nem queiram saber…

Até dá a impressão de que me leram antes de eu sequer escrever…

Ciência e tecnologia: o império dos precários

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/01/2017)

Autor

                        Daniel Oliveira

Não será exagero dizer que foi Mariano Gago que criou um sistema científico nacional digno desse nome. Num país com enormes dificuldades em compreender o papel essencial do Estado na investigação e desta no desenvolvimento social e económico, a empreitada exigiu determinação política. Teve, pelo atraso com que chegou, um preço: a extrema precariedade dos investigadores. No início, os passos tímidos assim o exigiam. E tratava-se, apesar de tudo, de um avanço.

O problema foi quando a coisa se institucionalizou e, pior, passou a funcionar como forma de resolver todas as carências de centros de investigação e universidades, do secretariado à docência. Hoje, são precários que garantem a grande parte da investigação, uma parte considerável do ensino (por vezes sem qualquer remuneração por isso) e até o funcionamento quotidiano das instituições. E quase todas as atividades dos centros de investigação socorrem-se de bolsas para serem garantidos.

Instalou-se, no nosso sistema de investigação científica, uma cultura de precariedade que não tem paralelo com quase nenhuma atividade profissional. Pensa-se que cerca de 70% dos investigadores científicos que trabalham em instituições públicas são precários, sejam bolseiros, contratados a prazo ou, num dos casos previstos, contratados a termo incerto.

No caso dos bolseiros, apesar de muitas vezes trabalharem de forma permanente e com relações hierárquicas para instituições, não têm qualquer desconto para a segurança social (existe apenas um seguro social voluntário).

Qualquer pessoa que queira trabalhar em ciência e tecnologia em Portugal sabe que escolhe uma das mais incertas profissões, quase nenhuma progressão ou acesso a uma carreira e uma reforma miserável. Isto, numa das profissões mais avaliadas, competitivas e exigentes que se pode escolher. Construir com base nestes pressupostos um sistema científico é ter a certeza de que grande parte do investimento feito nestas pessoas será perdido ou para a emigração ou para a desistência. E o problema da precariedade no sistema científico e tecnológico nacional não afeta nem apenas investigadores (também atinge técnicos, comunicadores e gestores de ciência), nem apenas os doutorados (também atinge licenciados e mestres).

Manuel Heitor, o ministro da Ciência deste governo, avançou com uma proposta que, pretendendo combater a precariedade, a institucionaliza. A proposta é atribuir aos bolseiros de pós-doutoramento com financiamento público há mais de três anos um contrato a prazo até seis anos. A coisa faz-se através de concursos públicos falsamente abertos, porque o Estado garante o financiamento se o escolhido for o concorrente que preencha este requisito. Começa logo mal aqui: a solução baseia-se na promoção de uma aldrabice. Passados seis anos o contratado estará de novo desempregado, tendo de vencer outro concurso – provavelmente daqueles “com fotografia”, que abundam no nosso sistema.

Omitindo uma ligação às carreiras existentes, Manuel Heitor está, na prática e por decreto, a criar um sistema paralelo e precário à carreira de investigação científica. Parecendo que combate a precariedade, a proposta promove-a, criando três grupos de trabalhadores (bolseiros, contratos a termo e docentes) que fazem o mesmo trabalho com remunerações e direitos totalmente diferentes. Depois, alguém dirá que são os malandros com carreira que impedem mais direitos para os precários.

A bolsa só devia servir para a obtenção de um grau. Tudo o resto é trabalho e deve ser tratado como tal. E a contratação a prazo, tenha a forma que tiver, só faz sentido em projetos financiados e com duração limitada no tempo. Não pode servir para garantir a continuidade de centros e laboratórios de investigação. Claro que deve haver um período de experimentação e concursos que vão, na carreira mais avaliada que existe, tornando cada vez menos precária a situação do investigador. O que não é tolerável é todo um sistema funcionar com base em bolsas e contratados a prazo. E a solução para isto não pode ser, como pretende Manuel Heitor, criar uma carreira igualmente precária mas um pouco melhor do que as bolsas, ao lado da carreira normal, contribuindo para que os 70% de precários que garantem a investigação científica pública em Portugal venham a ser 100%.

Ainda em digestão da intervenção de Theresa May, deixo o Brexit para amanhã, quarta-feira.