O Vírus TSU – Cena II

(Por Estátua de Sal, 17/01/2017)

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Resumo da cena anterior

Barítono Coelho decide inocular toda a bancada de deputados com o misterioso e moderno vírus TSU que Manel do Pistão, o melhor mecânico de automóveis de Lisboa, trazido e apresentado por Marcus Antonius, lhe propõe para fazer descarrilar a geringonça. O deputado Sonsonegro é indigitado para comprar as seringas e assumir as despesas com a imprensa. (Ver cena anterior completa aqui)


Era por volta do meio-dia. Marcus Antonius acercou-se do computador principal da sede do partido. Tirou os óculos, olhou para o centro do écran e a máquina lá se abriu. Tinham instalado a tecnologia mais recente; nada de palavras-chave, o acesso fazia-se pelo reconhecimento da pupila. E a máquina só abria com a dele e com a de Barítono, para evitar fugas de informação e conspirações. Começou por ver os emails. Eram aos magotes e quase todos eles exigiam explicações sobre o vírus TSU. Eram os patrões, era a Igreja e as Misericórdias, eram os jornais amigos, eram as sedes distritais, eram os sindicalistas da UAT (União Amarela dos Trabalhadores), eram deputados que alegavam ser alérgicos a picadelas e que perguntavam se não podiam engolir o vírus em comprimidos.

Marcus era eficiente. Ligou a impressora e imprimiu todo o correio que foi colocando meticulosamente num dossier que depois colocou numa mala de diplomata. Olhou para o relógio e viu que eram horas de almoço. Apressou-se e preparou-se para sair. Daí a pouco iria reunir com Barítono para fazer o ponto da situação. E a situação não estava nada boa. O seu faro de velho perdigueiro da política não costumava deixá-lo ficar mal.

Saiu. Comeu uma francesinha no bar da esquina – era o que comia sempre quando havia borrasca no horizonte -, e às 15 horas em ponto entrou no gabinete do presidente do partido. Barítono estava sentado à secretária a rir para o écran do computador. Marcus não estranhou. Nos últimos dias Barítono andava a flutuar sobre uma de nuvem da felicidade. Sentou-se na cadeira em frente à secretária e perguntou:

– A que se deve tanta alegria, caro companheiro? Alguma boa notícia de última hora?

Barítono desviou os olhos do computador e foi respondendo calmamente:

– Vou-te fazer uma confidência. Ando mesmo feliz. Ando a reviver velhos tempos, que estava a ver que nunca mais voltavam. Com a nossa estratégia do vírus passei a ser outra vez importante. Parece que estou outra vez no tempo em que era primeiro-ministro e recebia pressões de todo o lado a pedir dinheiro, favores e benesses. Vinham todos ao beija-mão. Agora estão a vir outra vez, porque mesmo os nossos são uns troca-tintas. Vendem-se por um prato de lentilhas às migalhas da geringonça, e dizem que eu é que sou catavento. Sim, eu tenho visto o desfile de traidores que por aí andam a querer enxovalhar-me. Ele é o Toino Saraiva, ele é o Silva Penhasco, ele é o Morais Tormento, ele é a Azeda Leite, ele é até o Banjo Correia de quem nunca esperei tanta ingratidão. Para já não falar do Mini Mendes essa víbora venenosa de trazer por casa.

– E tu ainda não sabes de tudo. Há os que te criticam pela frente mas há aqueles que nos fazem exigências sérias e mesmo ameaças pela calada. Trago aqui um pacote de emails que temos que analisar com urgência. A situação é grave. Ou me engano muito ou pode estar mesmo a preparar-se uma rebelião, uma greve, ou qualquer coisa assim.

Barítono deu um salto na cadeira. Rebeliões e greves eram coisas das esquerdas, como costumava dizer a Santinha Cristas, que o faziam sempre engolir em seco ao ponto de lhe causarem falta de ar. Pelo que atirou logo: – Como assim, como assim, queres-te explicar?

Marcus retirou o dossier da pasta e disse:

– Vamos por partes. Temos dezenas de mensagens. As sedes distritais perguntam como devem argumentar quando nos acusam de sermos geringoncistas de esquerda, colonizados pelo Irónico de Sousa e pela Traquina Martins. Responde lá que eu depois transmito.

– Ó, essa é fácil. Avança com a teoria da muleta. Não somos muleta do Abrenúncio. Se ele partiu uma das pernas ele que vá a Cuba fazer fisioterapia – respondeu Barítono com um ar ufano da sua própria sagacidade.

– Bem, mas isso levanta um outro problema. Eles perguntam se agora somos contra a concertação ou a favor da concertação – retorquiu Marcus.

– Ó, essa também é fácil. Se formos nós a concertar somos a favor. Se for o Abrenúncio somos contra – respondeu Barítono esfregando as mãos de contente.

– Pois, mas isso levanta então um outro problema. Vou-te ler este email que é importantíssimo, vindo de quem vem, e sobretudo pelo que diz. É enviado pelo Henrique Zombeteiro do Espesso. Reza assim:

“Caro Barítono

O Dr. Bolsanamão encarregou-me de o contactar. Quer saber se essa coisa do vírus é a sério ou é só para chatear o Abrenúncio. Como militante Nº 1 ele exige saber qual é a tática e diz que subscreve a segunda hipótese e veta a primeira. Ele admite todas as formas de oposição à geringonça, desde que não lhe vão á bolsa. Mais o informo que ele emprega mais de 200 trabalhadores com o salário mínimo, mais os que hão de vir, pelo que essa história do vírus vai dar um rombo de 10 milhões nas contas do grupo.  Acrescenta ele que o dinheiro da TSU dado pela geringonça é tão bom como o seu. Seguir-se-ão as devidas represálias nos próximos Espessos e nos noticiários da PIG e da PIG Notícias caso persista nesse aventureirismo irresponsável.

Cordiais saudações do HZ.”

Barítono, desta vez, enfiou-se pela cadeira abaixo. Demorou dez segundos a reagir e por fim, numa voz pausada, murmurou apenas: – E há mais desse jaez?

– Tenho aqui outro, também do piorio. Vem do patriarcado, do próprio Manel Inclemente:

“Caro Barítono

A nossa missão evangélica não pode ser ameaçada pelos desígnios do combate político. As Misericórdias necessitam de acudir aos pobres e desvalidos nestes tempos de agrura e neste Inverno rigoroso. Colocar em causa os rendimentos da Igreja é sacrilégio, pecado mortal que, como sabe, merece punição não só da mão de Deus mas também da voz e da mão dos homens. O dinheiro da geringonça, desde que flua para a mão dos agentes do Senhor, é tão bom como o seu. Pelo que, a persistir nesse devaneio, só nos restará denunciá-lo em todos os púlpitos, nos nossos sermões dos próximos meses, quiçá dos próximos anos.

Confiamos, contudo, que Deus tenha piedade de si e lhe dê a graça do arrependimento, de forma a evitar a prossecução das suas funestas intenções.

Em nome do Senhor, MI”.

Barítono ficou ainda mais enfiado na cadeira. Desta vez fez uma grande pausa, um minuto ou mais, a compor as ideias. Marcus aguardava expectante. Como não vinha resposta, avançou timidamente: – Pronto, volta tudo atrás, não é?

Barítono saltou de novo na cadeira e disparou lesto e firme:

 – Nem pensar! Quer dizer, para já nem pensar. Vejamos. Pelos vistos não está aí nenhum email da Tia Ângela, do Mário Bazuca, ou do Gangue Schauble a pressionar. Esses sim, seriam mesmo perigosos. Os outros também se podem revelar vir a ser, mas se for o caso, então sim, poderemos sempre voltar atrás.

– Ó homem, mas voltar atrás depois de tanto finca-pé vai ser, em definitivo, o fim da tua carreira política. Já te chamam aldrabão com todas as letras depois dos quatro anos de governo em que te fartaste de mentir e de dar o dito por não dito; a acrescer ao que tens dito, todos estes meses na oposição, que não bate certo com o que fizeste no governo.

– Não te preocupes Marcus. Eu sou o rei da pós-verdade. Não é para me gabar mas até acho que sou melhor que o futuro Presidente Trunfo. Viste como ele ganhou as eleições? Os eleitores estão-se nas tintas para a verdade. A verdade agora é servida nos reality shows das televisões. Os políticos só têm que ser bons ficcionistas, os que escrevem o melhor guião, e eu sou mesmo bom nisso. Até já sei como nos vamos safar se precisarmos de activar um plano B.

– Sou todo ouvidos, explica lá o plano – retorquiu Marcus.

– É simples. Lembras-te de quando eu afirmei e reafirmei que ia apresentar o livro de escândalos do arquitecto Saraivada? Lembras, certamente. Depois acabei por não ir. E a razão que avancei para não ir é que tinha dito que ia, sem ter lido o livro, tendo mudado de opinião depois de o ler. Pois é, agora também não conheço o decreto que o Abrenúncio vai apresentar. Depois de conhecer, e se tivermos que recuar, podemos sempre argumentar da mesma forma. E se a coisa se complicar mesmo, podemos sempre invocar que é em nome do interesse nacional.

– Acho que essa estratégia pode ser o teu suicídio político – disse Marcus desalentado.

– Talvez seja, mas não há nada que pague estes dias em que me sinto de novo importante – disse Barítono com um sorriso de orelha a orelha. E prosseguiu: – E é assim que se fará porque eu é que sou o líder, como muito bem sabes.

Marcus não respondeu. Pensou apenas que os líderes, e já lhe tinham passado vários pela frente, são sempre transitórios. E são sempre os últimos a antecipar o seu próprio fim.


(A continuar nos próximos dias com as cenas seguintes do folhetim).

Inocência ou má-fé?

(António Gil, in Facebook, 16/01/2017)

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A propósito da intenção, anunciada por passos coelho, de votar conta a diminuição da TSU para as entidades patronais, e das reacções de alguns xuxas (não confundir com socialistas, que ainda existem, sobretudo nas bases do PS), porque assisto a um dejà vu, tenho a dizer o seguinte:

1- Considero má-fé, da parte de alguns comentadeiros facebookianos, – dado que sei que eles sabem que eu sei que eles sabem que isso até está nos acordos que o PS firmou com BE e PCP e PEV – reeditarem o filme da PEC IV que eles -neste caso já não as bases mas as cúpulas manipularam de forma inaceitável para que recaísse sobre a esquerda as culpas e taras de um partido que, não raro, trai as suas bases ideológicas, sem que por isso essas bases se sobressaltem.

2- Já no PEC IV, censurou-se ao BE e à CDU que votassem ao lado da direita, sabendo-se demasiado bem que era a direita que por manobra indecente, traía também as suas bases ideológicas, votando«por conveniência» ao lado da verdadeira esquerda que, essa sim, sempre foi anti-austeritdade, sabendo-se que a PEC IV era todo um programa austeritário, que como sempre, prejudicaria os mais desfavorecidos.

3 – A manobra ainda mais indecente, de dizer que BE e CDU foram responsáveis pelo chamamento da troika, quando os partidos que assinaram esse obsceno e anti-patriótico acordo foram PS, PSD e CDS e os que o recusaram foram precisamente os «pretensos culpados» precisamente o BE e a coligação CDU.

4 – Agora repete-se a ladainha: BE e CDU são acusados de seguir o PSD quando é exactamente o contrário: mais uma vez, o PSD, sem vergonha nenhuma e com o branqueamento dos PS favoráveis aos acordos com a direita, invertem tudo, dizendo que foi a esquerda a ir ao encontro do PSD, branqueando assim o PSD – esse partido reconhecidamente «anti-patronato», é? – e acusando a actual base de sustentação do actual governo de má fé, quando foi o PS a meter na gaveta os acordos que viabilizaram o seu actual governo, ao sabor das conveniências e encorajado por sondagens manhosas.

5 – Entendo que dê muito jeito, aos «socialistas descafeinados» que a verdadeira esquerda se suicide, fazendo suas vontades. Mas saibam esses «socialistas», os das bases, porque os outros já o perceberam, que no BE e na CDU os militantes são mais exigentes com as lideranças que eles são. E que não tolerariam essa traição. E que – também mas não só por saberem disso – as lideranças deste partido e desta coligação, não estão dispostos a cometer suicídio para agradar aos «socialistas» que colocam o exercício do poder à frente de tudo, ideologia, convicções e bem estar dos portugueses em geral e das próximas gerações em particular!

Ide pentear preguiças, ò falsos socialistas, deste lado ainda há gente com dignidade. E que não trai os seus.


Fonte do artigo aqui :

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"Cristo morreu, Marx também…"

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(Castro Guedes, in Público, 16/01/2017)

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Talvez nunca o mundo tenha sido tão incerto e inseguro para a Humanidade. A instabilidade é dominante: não sabemos se desaba uma guerra de proporções gigantescas, se vamos ter ou arranjar trabalho, se alguma doença se instala, se um cataclismo natural ocorre arrasando a cidade, se o vizinho do lado afinal é um terrorista ou um sociopata, se aquele que foi nosso amigo toda a vida não nos vai trair por uma qualquer ambição pessoalíssima. E sabemos que morrem mais de 20 mil crianças à fome ou por doença e falta de cuidados básicos diariamente, que há guerras infindáveis e propositadamente assim provocadas e mantidas, que há cada vez menos segurança e menos espaço e menos direitos no mundo do trabalho, que por cada doença debelada surge um novo vírus.

E sabemos que a par de coisas tão espantosas como a criação da ‘realidade aumentada’ que permite avanços científicos enormes, subsistem milhões e milhões de km2 sem água canalizada; mas também sabemos que a par das mais sofisticadas e cruéis formas de ‘interrogatórios avançados’, ainda há um bombeiro disposto a perder a vida para salvar um cão. Somos um emaranhado de paradoxos, uma espécie que traz em si Deus e o diabo. E a sensação de instabilidade é ampliada em parte pela rapidez da comunicação e pela visão generalizada do próprio mundo. Todavia só por mera cegueira de avestruz poderíamos acreditar que não estamos num momento decisivo para sequer continuarmos a existir por um todo; e, sobretudo, não cristalizarmos numa sociedade de escravos e ‘senhores’ sem precedentes, onde o valor de uma vida é menor do que a de uma peça tecnológica para os que tudo têm e mais querem, mesmo sem o poder fruir.

 Neste estado de coisas, perante tais perigos, vivendo em tantas instabilidades, servimo-nos de toneladas de drogas de todo o tipo para adormecer as consciências, às vezes até mesmo para conseguir sobreviver à crueza da realidade. Os mais fracos escorregam nos psicotrópicos ou no álcool, mas todos nós estamos sujeitos à ‘tentação’ de injectar uma telenovela, ‘snifar’ o futebol ou recorrer a montanhas de químicos como muros imaginários para nos sentirmos ‘protegidos’. E fechamo-nos nesses mesmos muros numa casa que julgamos a nossa fortaleza, sem querer ou aceitar que ela está tão exposta como qualquer outra aos ‘tsunamis’ sociais, naturais ou artificiais. É a tal civilização tecno-industrial que (não) soubemos construir, que permitimos transformar o objecto em mais do que o sujeito e o sujeito próprio em mais do que a comunidade em que somos um dos sujeitos. É a tal ‘era do vazio’, sem referências, sem valores, sem princípios, sem desígnios colectivos. É aquela frase brincalhona dos anos 60/70, meio-século depois rigorosamente exacta: “Cristo morreu, Marx também… E eu já não estou a sentir-me nada bem”.

É a utopia do Maio de 68 reciclada no auto-intitulado neoliberalismo em que “é proibido proibir” se adequa à ‘liberdade total’ para explorar, abandonar, desrespeitar e mesmo a liberdade de deixar morrer à fome. É a reconfiguração do ideal de democracia em suposta decisão de maiorias constituídas elas mesmas na expressão em votos de minorias que foram levadas até à boca das urnas às ordens de ilusões e condicionadas pela ficção da tal ‘sociedade do espectáculo’.

É um mundo em que a morte singular de uma ‘vedeta’ mediática faz correr mais lágrimas do que um genocídio de uma etnia que fica ‘lá longe’. É um tempo em que os ‘mercados’ se assumiram antropomórficos, tal como todo o virtual se sobrepôs ao real: o Facebook ‘existe’, mas os ‘amigos’ nem sabemos quem são. É o mesmo tempo em que as pessoas se ‘coisificaram’ em estatísticas para falar dos vários dramas humanos que tenham.

Nesta inquietação que varremos para debaixo do tapete, mais do que nunca à Arte cabe levantar esse tapete: não para mudar o lixo de sítio, não para idealizar outros modelos pré-fabricados nas nossas mentes ou sendo instrumento de soluções assépticas e milagrosas, cujo tempo se encarregará de reconduzir a becos sem saída. Porque só a aquisição livre e profunda de uma autoconsciência individual que se reflicta num comportamento do próprio ‘inconsciente colectivo’ nos pode salvar: dificilmente antes, mas, a ficarem depois da catástrofe, os que ficarem terem essa memória que hoje escrevemos para o futuro para com ela aprender a corrigir – ou pelo menos reconhecer – o mal com que estamos a desabar. A Arte, no meio de tal instabilidade, como factor de uma outra instabilidade-inquietação sobre o apresentado como ‘natural e como imutável pode retirar o lençol sobre os muitos esqueletos que ainda estão para vir nas mais ou menos óbvias distopias que se preparam para assaltar o quotidiano. É simultaneamente um grande desafio e uma evidência. Mas é também a sua única própria razão para ser e sobreviver. Uma Arte que sucumba à tentação de se situar na ‘zona de conforto’ do aplauso ‘situacionista’ é tão descartável como uma pastilha elástica e tão impermanente como uma bola de sabão.

 

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