Os falsos profetas e as alarmantes perspectivas

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 09/12/2016)

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A União Europeia é coisa que, na realidade, deixou de existir, tal como foi concebida. É, hoje, um trambolho de 27 países mais ou menos obedientes aos ditames alemães.


Há quatro anos, assistimos, pelas televisões, ao dr. Passos Coelho, inchado de felicidade, a dizer aos portugueses que iam empobrecer. Foi o êxodo. Jovens recém-licenciados, talvez a geração culturalmente mais bem apetrechada de sempre, abandonou o país, numa debandada certamente sem regresso. Assistimos a essa fuga do país com a emoção dos grandes momentos. Veio a saber-se, depois, da futilidade da decisão. Mas era tarde. O país ficou, pois, desprovido de uma grande geração de portugueses, que custara muito dinheiro a todos nós e se fora embora, empurrada pelas deficiências políticas e morais de um grupo de oportunistas.

Também assistimos aos devaneios de Passos Coelho, de total obediência ao ministro Wolfgang Schäuble, um indivíduo de asqueroso aspecto e inchado do seu poder, que agia como se fosse dono de isto tudo. A excessiva autoridade e o desabrido mando foram expressos várias vezes, sem pudor nem contenção, por Schäuble. Dos primeiros-ministros portugueses, que se deslocavam frequentemente a Bruxelas, a fim de receber instruções, o menos subserviente tem sido António Costa. Mesmo José Casanova, propenso a demonstrar pública simpatia por Angela Merkel, no que era reciprocamente seguido pela alemã, não evidenciava tanta efusão como Passos. Coisas que o império tece…

Porém, a União Europeia não assentava em chão firme. As dissensões, os mal-entendidos, as tendências hegemónicas da Alemanha, beatamente apoiadas pelo francês Hollande, deixaram um trágico rasto de mal-estar. Para não querer lembrar as declarações do tal Wolfgang Schäuble, que, ainda recentemente, referindo-se ao primeiro-ministro português, fez uma ameaça semelhante àquela: “Eu trato-lhe da saúde.”

A União Europeia é coisa que, na realidade, deixou de existir, tal como foi concebida. É, hoje, um trambolho de 27 países mais ou menos obedientes aos ditames alemães, mais propriamente aos interesses de grandes companhias, como a Goldman Sachs, para onde foi trabalhar o sempre expedito Durão Barroso.

Há uma evidente falta de carácter e de dignidade em muitos políticos que dirigem a Europa, e a Europa, ao contrário do que se afirma, está cada vez mais fraca e dependente de trastes morais e de perfídias, as mais torpes. A nossa fragilidade depende de algumas empresas poderosíssimas pelo poder do dinheiro e pela ameaça que representam e constituem. E, não o esqueçamos, pela untuosa cobardia moral de quase todos os que se refugiam sob as suas asas protectoras.

A Europa e o mundo encontram-se numa situação perigosíssima, sobretudo agora, que um avejão subiu ao poder nos Estados Unidos e já começou a demonstrar a sua força, os seus interesses e os seus desígnios. Agora, claro, que a Europa está disseminada por objectivos cada vez mais sinistros. O mundo tem de se acautelar. As perspectivas são alarmantes.

Até tu Gaspar?

(In Blog O Jumento, 09/12/2016)

«O Fundo Monetário Internacional (FMI), que esteve em missão em Portugal entre 29 de novembro e 7 de dezembro, considera que “as metas orçamentais do Governo português para 2016 são alcançáveis”, contudo, as estimativas para o défice, apesar de mais favoráveis, ainda não convergem com as do Executivo. Mas apenas por uma pequena margem.

“O outlook de Portugal no curto prazo melhorou, principalmente devido à aceleração das exportações registadas no terceiro trimestre do ano” e por isso, “estimamos que o défice seja de cerca de 2,6% do PIB em 2016, ou seja, um crescimento de 0,4%. Os esforços das autoridades em conter o consumo intermérdio e o investimento público mitigou a possibilidade do défice ser maior”, pode ler-se no relatório da missão do FMI, divulgado esta quinta-feira à tarde.» Notícia em Expresso, aqui

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Esta posição do FMI deixa o Passos e a Teodora a falarem sozinhos…. 🙂

Os limites de Frankfurt

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 09/12/2016)

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Não é possível compreender o sucesso dos partidos populistas sem perceber que o mesmo é nutrido pela incapacidade reformadora dos governos formados pelos partidos convencionais. A reunião de ontem do BCE é um bom exemplo disso. Todos os observadores e atores esperavam que Mario Draghi apresentasse o prolongamento do programa de compras do BCE, que deveria terminar em março de 2017, pelo menos por mais um semestre, até às eleições gerais alemãs (o programa foi estendido até dezembro). Mensalmente, o BCE adquire 80 mil milhões de euros em ativos diversos. Isso tem dado liquidez à banca, ao mesmo tempo que evita assaltos especulativos aos juros cobrados pela dívida dos Estados mais frágeis, como Portugal. Não é preciso ser um especialista para perceber que o BCE está a combater com medidas de política monetária uma doença que só poderia ser curada com uma terapia orçamental. O BCE está a tomar medidas excecionais desde pelo menos 2011 (LTRO, 2011; OMT, 2012; TLRO, 2014…), e tanto Berlim como Bruxelas continuam a olhar para o lado.

Os sintomas económicos, sociais, e até morais, de degradação da zona euro mostram que os paliativos do BCE, embora úteis, não dispensam a urgência de um investimento maciço e inteligente a nível europeu. Mesmo o anunciado aumento do sempre adiado Plano Juncker não passa de um analgésico disfarçado de antibiótico.

Se a Europa soçobrar, não será por causa da dívida, que é mero sintoma, mas pela absurda ideia de construir uma união monetária sem Tesouro comum e sem mecanismos institucionais de solidariedade entre os Estados membros. Na sigla UEM, o “E”, que deveria ser de uma economia baseada na coordenação e no interesse geral, ou é uma grosseira mentira, ou uma ideia ainda por realizar. E essa é uma tarefa que os governos não podem transferir para a agenda de Frankfurt.