E o senhor Subir Lall não diz nada?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 09/12/2016)

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Com regularidade trimestral, o senhor Subir Lall desembarca no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, à frente da comissão que vem avaliar o andamento das contas públicas e da economia portuguesa. Com a mesma regularidade, o senhor Subir Lall fala à comunicação social portuguesa, ditando sentenças sobre o que devemos fazer e quão longe estamos de chegar ao paraíso económico que ele imagina para nós. E assim em Maio deste ano, o senhor Subir Lall veio a Portugal e disse ao Expresso as palavras que fizeram a manchete do caderno de economia: “FMI dá como perdido o défice de 2016”. Acrescentava o senhor Subir Lall que o défice este ano ficaria nos 3% e que o melhor era começar a tomar decisões para 2017, porque quaisquer medidas em 2016 nada resolveriam.

Pois bem, a última avaliação a Portugal feita pelo FMI, conduzida como sempre pelo senhor Subir Lall, aponta para que o défice em 2016 fique em 2,6% e o de 2017 em 2,1% (quando a previsão do FMI em Setembro era de 3% para os dois anos). Aponta também para um crescimento da economia de 1,3% em 2016 (contra 1% em Setembro e acima da própria previsão do Governo que é de 1,2%) e para o mesmo valor em 2017 (quando antes apontava para 1,1%). A avaliação do FMI revê igualmente em baixa os valores para o desemprego: estimava 11,8% para este ano e 11,3% para o ano, agora prevê 11% em 2016 e 10,6% em 2017

Também nas exportações, o FMI está agora mais otimista: crescimento de 3,5% este ano (contra uma previsão em setembro de 2,9%) e de 3,6% em 2017, mais duas décimas que a previsão de há três meses. As estimativas para pior são as relativas ao investimento, que deve cair 1,4% em vez da queda de 1,2% prevista em Setembro, e à dívida pública (que deve estar pior este ano e no próximo (130,8% e 129,9% do PIB agora contra 128,5% do PIB e 128,2% do PIB em Setembro).

Mas será que o FMI se retrata e que o senhor Subir Lall vem admitir que estava errado? É o retratas! O que o FMI faz é arranjar justificações para a assinalável mudança nas suas previsões em apenas 90 dias. Ou é a aceleração das exportações entre Julho e Setembro (que, pelos vistos, os técnicos do Fundo não conseguiram prever), ou é o mercado de trabalho que evoluiu de uma forma não expectável, ou foi a contenção dos consumos intermédios e do investimento público por parte do Governo que mitigaram a evolução das receitas abaixo do previsto – tudo o que, pelos vistos, a folhinha de Excel e o modelo econométrico não conseguiram captar.

Quanto ao senhor Subir Lall, aguarda-se agora com expectativa a sua próxima entrevista a um jornal ou televisão portugueses para nos revelar, de forma pesadamente circunspecta, que não temos salvação se não aplicarmos a receita que ele trimestralmente nos recomenda. Desta vez as coisas correram melhor mas é seguro que vão correr pior. Subir Lall dixit – tão certo como dois e dois serem quatro.

Com efeito, apesar da revisão significativa das suas previsões para a economia portuguesa em apenas três meses – e quase todas em sentido positivo – o Fundo e o senhor Subir Lall o que vem sublinhar é a possibilidade de derrapagens futuras na economia e no orçamento, se o Governo não aplicar as medidas que recomenda desde 2011 (mais contenção orçamental, mais cortes estruturais na despesa pública, mais reformas). E o documento conclui com uma frase própria do senhor de La Palisse: “para concluir que estamos perante uma mudança sustentada para uma recuperação mais rápida, é preciso que se assista a uma continuação do crescimento forte”. As sentenças do FMI são verdadeiras pérolas de sabedoria.

O menino e o lobo

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 09/12/2016)

Autor

                   Pacheco Pereira

A “Europa”, essa entidade que coloco entre aspas porque não é nem a Europa Continente, nem a Europa da história e da cultura, nem sequer a Europa dos fundadores da Comunidade, mas o estado actual da União Europeia, anda a repetir o erro do menino que estava sempre a dizer que vinha aí o lobo, sem ele vir, até um dia… Classifica tudo com ligeireza como sendo “extrema-direita” – a Frente Nacional é, o UKIP não –, chama “populismo” a tudo que sejam críticas à degradação do sistema político em vários países e, acima de tudo, à contestação daquilo que é a deriva antidemocrática e burocrática da União. Considera que a afirmação de que há mais democracia nos parlamentos nacionais e no espaço da soberania do que nas instituições burocráticas e tecnocráticas de Bruxelas e Frankfurt – fugindo como o diabo da cruz de qualquer reforço da legitimação popular, muitas vezes só possível de forma referendária –, à falta do funcionamento normal de parlamentos diminuídos ou chantageados, é uma manifestação de nacionalismo. Considera que está do lado do futuro e que todos os que a criticam ou mesmo se lhe opõem, como um projecto de engenharia política distópico, são passadistas. Considera isto tudo e reage com laivos autoritários ao funcionamento da democracia nacional e soberana, porque na Europa não há outra, não é o Parlamento Europeu que legitima qualquer “democracia europeia” transnacional.

Haver eleições tornou-se um risco maior para a intelligentsia europeia que, quando as coisas correm mal, como cada vez acontece mais, promete reformas e autocríticas e depois não faz nada (como no Brexit) ou tenta esmagar qualquer revolta que ponha em causa a sua autoridade e as suas políticas (como aconteceu no caso vergonhoso da Grécia). Mas, mais habitualmente, se as coisas não são cataclísmicas e só existe o susto, como na Áustria, continua na mesma como se nada acontecesse.

Sustos
A eleição presidencial austríaca é um bom exemplo do susto que não vai ter consequências. A ascensão da direita radical na Áustria é um facto, e já não é de agora. Já no passado se fez uma espécie de cordão sanitário à Áustria, sem se ter aprendido nada, e agora, como os “bons” ganharam, vai haver alívio, mas nada vai mudar. Até um dia. Em Itália, a “Europa” perdeu e o caso italiano é bem mais significativo do que hoje são as principais forças pró-europeias, centradas nos grandes interesses económicos e financeiros, os mesmos que tudo mobilizaram contra o Brexit, tudo menos os eleitores que disseram um rotundo não a um projecto de revisão constitucional que daria a um pequeno partido a possibilidade de governar a Itália contra tudo e contra todos. Neste caso, o de Renzi. As propostas de Renzi violavam o pacto constitucional em que assenta a democracia italiana, e por muito que a Itália seja um país muito difícil de governar, suscitaram uma ampla aliança da direita à esquerda, contra. E do lado de Renzi, um homem que, como Hollande, foi visto como uma esperança e ajudou a trair os gregos, lá estava a “Europa” contra o “populismo”. Depois sai-lhes Beppe Grillo e queixam-se do “populismo” antieuropeu.

O alimento do populismo
Ninguém alimenta hoje mais o populismo, o nacionalismo e mesmo a extrema-direita do que a “Europa”, a das aspas. Em particular depois da crise financeira e desde que o directório franco-alemão se tornou defunto pela morte da parte francesa, sob a batuta de Chirac, Sarkozy e Hollande.

Desde que a União Europeia, com o falhanço da “iluminista” Constituição europeia, disfarçada no Tratado de Lisboa aprovado por uma sucessão de truques para evitar referendos, desde o modo como se dividiu entre a Alemanha e os seus amigos, e os países do Sul, endividados e sem sequer usarem os direitos que tinham como membros da União, com governos serventuários da política financeira alemã, desde que as instituições europeias assistiram a um enfraquecimento brutal da Comissão Europeia e a um reforço do Conselho sem precedentes, a “Europa” tornou-se receosa da democracia e das eleições e a sua burocracia inimiga das nações e dos povos.

Acantonados nos seus castelos de escritórios, sem verdadeiramente prestarem contas a ninguém, considerando com arrogância que sabem sempre melhor como “governar” a Europa do que os políticos eleitos, sobra-lhes o medo e a cegueira. E todos os dias alimentam a hostilidade dos povos e a divisão entre as nações, como foi no Brexit, e agora na Itália.

O projecto do fim
Na verdade, eles têm um projecto: cindir a União, separando os “bons” à volta da Alemanha, que vão à sua rica vida, sem o ónus de ter que aturar os “maus”, os ingovernáveis endividados, esbanjadores, preguiçosos, a penar numa espécie de trabalhos forçados por dívidas, sem poder, nem direitos. A “reforma” da União criará assim países de primeira e de segunda, controlados nem sequer pela Comissão, mas por uma comissão tecnocrática que vetará orçamentos e leis, com os parlamentos nacionais remetidos a funções cada vez mais domésticas e irrelevantes. É o projecto de Schäuble, pensado e estudado, um projecto que corresponde aos interesses “europeus” da Alemanha. E Schäuble faz o seu papel, nós é que não fazemos o nosso. Mas é o fim da União Europeia, tal como a conhecemos, e, havendo euro, esse fim será sempre convulsivo. Como se vê.

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Entrevista com o Diabo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 09/12/2016)

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Entrevistador: Olá, Diabo. Para começar, queríamos agradecer a sua disponibilidade para esta entrevista. Quando recebemos a notícia de que tinha dado o seu acordo, até dissemos: Graças a Deus!
Diabo: Eu é que agradeço a oportunidade que me dão de, finalmente, poder vir a público defender a minha honra. Uma coisa é dizer que eu personifico o Mal, outra é andar a fazer crer que eu nunca chego a horas.
E: Confirmo que combinámos esta entrevista para às nove e apareceu às nove em ponto. Só adiámos um bocadinho por causa do fumo do enxofre.
D: Não há coisa mais abominável do que as pessoas que não são pontuais. O inferno está cheio de pessoas que passaram a vida a fazer os outros esperar por elas. O resto são ditadores e pessoas que conversam à entrada, e saída, de escadas rolantes.
E: Portanto, acha que a sua honra foi posta em causa quando…
D: … quando o vosso ex-PM disse que eu chegava em Setembro! Fiquei chocado. Até telefonei ao Doutor Marques Mendes, que é o meu advogado. Atenção, isto não é pessoal. Eu até aprecio algumas decisões que ele tomou enquanto PM. Era o tipo de coisas que eu faria. Até posso revelar que aquela ideia de ir além da troika deu origem a um Parque de Horrores no Inferno. Mas dizer que eu vou aparecer em Setembro, quando não combinámos nada, acho de profundo mau gosto.
E: Quer dizer que nunca pensou aparecer em Portugal em Setembro?
D: Nunca. Eu, em Setembro, estive o mês todo na Síria, tirando o último fim- -de-semana, em que fui a uma reunião em Nova Iorque no Goldman Sachs. Em momento algum pensei aparecer em Portugal em Setembro. Nem faço planos para lá ir tão cedo. Eu não sou como Deus. Não sou omnipresente. Tenho um limite de milhas por ano.
E: Portanto, o Doutor Mefisto diz que Passos mente quando afirma, desde meados de Julho, que o senhor vai aparecer em Portugal?
D: Vamos lá ser claros. Eu até já podia ter aparecido em Portugal mas, para isso, era preciso termos chegado a um acordo. O Doutor Passos Coelho estava disposto a vender a alma ao Diabo para que a coisa corresse mal, e o inferno se abatesse sobre todos vocês, mas encarregou o Doutor Sérgio Monteiro de tratar da venda e andámos meses em negociações e não deu em nada.
E: Mas isso é um escândalo!
D: Não. Eu acho que os chineses tinham uma proposta melhor.
E: Quer dizer que os portugueses podem estar seguros de que o Diabo, tão cedo, não vai aparecer em Portugal?
D: Vocês já viram como está o mundo? Tenho o Brexit, a Le Pen nas eleições francesas, o Trump, nunca tive tanto trabalho. É a globalização. Para aí desde mil novecentos e trinta e tal que não tínhamos tantas encomendas.
Entrevistador: Portanto, não adianta o nosso ex-PM insistir?
Diabo: Acho muito complicado. Eu, em 2017, vou andar em “tournée” e única data disponível que tenho é o 13 de Maio, e o que me disseram é que nessa altura nem pensar porque têm os hotéis todos cheios por causa da visita do Papa. Eu não fico ofendido mas, no fundo, isto é não saber o que querem.


top 5

Dos infernos

1. Primeiro-ministro japonês visita Pearl Harbor – desde que não seja de surpresa.

2. Itália prepara sexagésimo quinto governo em 71 anos – o país da chicotada psicológica.

3. Assunção Cristas diz que Sá carneiro e Adelino Amaro da Costa “deram a vida, literalmente, pelo país”. – … iam chocar com as Torres Gémeas?!

4. O relatório de auditoria do TC acusa o Ministério das Finanças de falta de controlo na CGD entre 2013 e 2015 – isto é um eufemismo para preparar condições para a privatização.

5. Cientistas pedem a Donald Trump para combater alterações climáticas – Não sei se combater é o termo certo, tenho receio que Trump mande bombardear a camada de ozono.