O menino e o lobo

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 09/12/2016)

Autor

                   Pacheco Pereira

A “Europa”, essa entidade que coloco entre aspas porque não é nem a Europa Continente, nem a Europa da história e da cultura, nem sequer a Europa dos fundadores da Comunidade, mas o estado actual da União Europeia, anda a repetir o erro do menino que estava sempre a dizer que vinha aí o lobo, sem ele vir, até um dia… Classifica tudo com ligeireza como sendo “extrema-direita” – a Frente Nacional é, o UKIP não –, chama “populismo” a tudo que sejam críticas à degradação do sistema político em vários países e, acima de tudo, à contestação daquilo que é a deriva antidemocrática e burocrática da União. Considera que a afirmação de que há mais democracia nos parlamentos nacionais e no espaço da soberania do que nas instituições burocráticas e tecnocráticas de Bruxelas e Frankfurt – fugindo como o diabo da cruz de qualquer reforço da legitimação popular, muitas vezes só possível de forma referendária –, à falta do funcionamento normal de parlamentos diminuídos ou chantageados, é uma manifestação de nacionalismo. Considera que está do lado do futuro e que todos os que a criticam ou mesmo se lhe opõem, como um projecto de engenharia política distópico, são passadistas. Considera isto tudo e reage com laivos autoritários ao funcionamento da democracia nacional e soberana, porque na Europa não há outra, não é o Parlamento Europeu que legitima qualquer “democracia europeia” transnacional.

Haver eleições tornou-se um risco maior para a intelligentsia europeia que, quando as coisas correm mal, como cada vez acontece mais, promete reformas e autocríticas e depois não faz nada (como no Brexit) ou tenta esmagar qualquer revolta que ponha em causa a sua autoridade e as suas políticas (como aconteceu no caso vergonhoso da Grécia). Mas, mais habitualmente, se as coisas não são cataclísmicas e só existe o susto, como na Áustria, continua na mesma como se nada acontecesse.

Sustos
A eleição presidencial austríaca é um bom exemplo do susto que não vai ter consequências. A ascensão da direita radical na Áustria é um facto, e já não é de agora. Já no passado se fez uma espécie de cordão sanitário à Áustria, sem se ter aprendido nada, e agora, como os “bons” ganharam, vai haver alívio, mas nada vai mudar. Até um dia. Em Itália, a “Europa” perdeu e o caso italiano é bem mais significativo do que hoje são as principais forças pró-europeias, centradas nos grandes interesses económicos e financeiros, os mesmos que tudo mobilizaram contra o Brexit, tudo menos os eleitores que disseram um rotundo não a um projecto de revisão constitucional que daria a um pequeno partido a possibilidade de governar a Itália contra tudo e contra todos. Neste caso, o de Renzi. As propostas de Renzi violavam o pacto constitucional em que assenta a democracia italiana, e por muito que a Itália seja um país muito difícil de governar, suscitaram uma ampla aliança da direita à esquerda, contra. E do lado de Renzi, um homem que, como Hollande, foi visto como uma esperança e ajudou a trair os gregos, lá estava a “Europa” contra o “populismo”. Depois sai-lhes Beppe Grillo e queixam-se do “populismo” antieuropeu.

O alimento do populismo
Ninguém alimenta hoje mais o populismo, o nacionalismo e mesmo a extrema-direita do que a “Europa”, a das aspas. Em particular depois da crise financeira e desde que o directório franco-alemão se tornou defunto pela morte da parte francesa, sob a batuta de Chirac, Sarkozy e Hollande.

Desde que a União Europeia, com o falhanço da “iluminista” Constituição europeia, disfarçada no Tratado de Lisboa aprovado por uma sucessão de truques para evitar referendos, desde o modo como se dividiu entre a Alemanha e os seus amigos, e os países do Sul, endividados e sem sequer usarem os direitos que tinham como membros da União, com governos serventuários da política financeira alemã, desde que as instituições europeias assistiram a um enfraquecimento brutal da Comissão Europeia e a um reforço do Conselho sem precedentes, a “Europa” tornou-se receosa da democracia e das eleições e a sua burocracia inimiga das nações e dos povos.

Acantonados nos seus castelos de escritórios, sem verdadeiramente prestarem contas a ninguém, considerando com arrogância que sabem sempre melhor como “governar” a Europa do que os políticos eleitos, sobra-lhes o medo e a cegueira. E todos os dias alimentam a hostilidade dos povos e a divisão entre as nações, como foi no Brexit, e agora na Itália.

O projecto do fim
Na verdade, eles têm um projecto: cindir a União, separando os “bons” à volta da Alemanha, que vão à sua rica vida, sem o ónus de ter que aturar os “maus”, os ingovernáveis endividados, esbanjadores, preguiçosos, a penar numa espécie de trabalhos forçados por dívidas, sem poder, nem direitos. A “reforma” da União criará assim países de primeira e de segunda, controlados nem sequer pela Comissão, mas por uma comissão tecnocrática que vetará orçamentos e leis, com os parlamentos nacionais remetidos a funções cada vez mais domésticas e irrelevantes. É o projecto de Schäuble, pensado e estudado, um projecto que corresponde aos interesses “europeus” da Alemanha. E Schäuble faz o seu papel, nós é que não fazemos o nosso. Mas é o fim da União Europeia, tal como a conhecemos, e, havendo euro, esse fim será sempre convulsivo. Como se vê.

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