CGD: uma embrulhada arriscada

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/11/2016)

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                             Daniel Oliveira

A novela da administração da Caixa Geral de Depósitos parece não ter fim nem ninguém com o mínimo de sentido de Estado a intervir nela. Os administradores nomeados parecem acreditar fazer parte de uma elite intocável que não tem de responder, como teria num banco privado, às exigências do seu acionista, que é o Estado, e às da lei, da qual nem o representante do acionista (o Governo) os pode isentar. O PSD faz exigências, em relação aos salários dos administradores e às condições para ocuparem o lugar, que são a negação de tudo o que sempre fizeram e defenderam. António Costa parece querer lavar daí as suas mãos, não assumindo as responsabilidades evidentes que tem ele ou o seu ministro das Finanças. A falta de experiência política de Mário Centeno continua, aliás, a ser um dos maiores problemas deste governo.

O líder parlamentar do PS, Carlos César, empurra para o Tribunal Constitucional, dizendo que este deve ter uma posição proativa no que toca à entrega das declarações de rendimento dos gestores. O Presidente da República também. O presidente do TC diz que o organismo que dirige tem de ser estimulado. O Governo e o Presidente querem que o Tribunal Constitucional responda a uma pergunta que não fazem e o Tribunal Constitucional não quer responder sem que a pergunta lhe seja feita.

É neste grau de infantilidade que estamos, e não é difícil perceber porquê: ninguém quer precipitar uma demissão da administração da Caixa Geral de Depósitos, apesar de serem vários os que a desejam. Por causa de António Domingues, do seu salário ou da declaração de rendimentos que não quer pública? Claro que não. O PSD e o CDS não se podiam estar mais nas tintas para isso.

O que está em jogo é a recapitalização do banco público. O Governo teve uma vitória fundamental num braço de ferro com Comissão Europeia, onde não abundam os que acham que os pequenos países devem ter bancos e ainda por cima públicos. Se a administração vai ao ar, pode ir ao ar a recapitalização. Se a recapitalização vai ao ar, António Costa tem o seu problema mais grave desde que chegou a São Bento e, como sonha Passos Coelho mas não teve coragem de o fazer, a privatização fica mais próxima.

É por isto ser tão sério que me custa a compreender como se pôs o Governo nas mãos de um presidente do Conselho de Administração da CGD, cedendo a tantas exigências, fazendo leis à medida, permitindo que ele desse aos restantes administradores garantias que legalmente não podiam ser dadas. Estando tanto em jogo, como foi isto tratado com os pés? E não me digam que só assim poderiam ter “o melhor gestor”. Mesmo que seja o melhor, não vale o risco que se está a correr. Vinha o segundo melhor, que aceitasse que ser gestor de um banco público é ser gestor público. Não seria preciso muito para lhe explicar: basta alguma intuição política e um conhecimento rudimentar da língua portuguesa. Agora, Costa está, por culpa própria e de Centeno, nas mãos de Domingues. Para além do risco para o banco público, a imagem que passa não podia ser pior: em vez do acionista mandar no gestor é o gestor que manda no acionista.

Hillary Clinton venceu… mas por pouco. E, por enquanto, só na net

(In Expresso Diário, 08/11/2016)

summit

A candidata democrata foi mais bem-sucedida do que Donald Trump na caça ao eleitor na internet, garante um orador da Web Summit. Estamos a umas horas de saber se isso lhe garante a Casa Branca


Quem está na Internet quer ser visto, lido, ouvido, comprado, partilhado ou votado. Para isso, contudo, é preciso saber atrair internautas. A guerra pelas audiências ou pelos sufrágios é também uma guerra por cliques, likes e shares. O assunto esteve em foco hoje no palco SaaS Monster da Web Summit, dedicado ao “Software as a Service”, isto é, à informática enquanto serviço.

A análise da campanha das presidenciais republicanas ficou a cargo de Or Offer. O israelita, co-fundador e CEO da SimilarWeb — uma start que analisa o tráfego de sítios e aplicações —, explicou que é importante saber de onde vem quem chega a uma determinada página de Internet. A maioria dos visitantes chega, hoje, das redes sociais e motores de busca. Os sítios oficiais de Hillary Clinton e Donald Trump não foram exceção.

Offer explica que, analisando uma vasta gama de utilizadores, é possível tirar conclusões e agir de forma a reforçar ou inverter tendências. No caso dos candidatos à Casa Branca, destacou cinco técnicas de marketing: da parte do republicano, aquilo a que chamou “equipar um exército” e “desorientar”; no caso da democrata, “ser mais esperto do que o adversário”, criar uma “máquina viral” e “equilibrar as atenções”.

Vender bonés rende

O orador explicou que um pico de audiências do sítio de Trump se deu pouco depois de o candidato ter anunciado, com uma foto sua de boné na cabeça, a venda de artigos de merchandising com o lema “Make America Great Again” (equipar o exército).

Outro momento alto, ainda durante as eleições primárias do Partido Republicano, aproveitou o flanco dado por um adversário. Jeb Bush, filho e irmão de ex-presidentes, decidiu concorrer sem usar muito o apelido, talvez para evitar associações ao impopular George W, chefe de Estado entre 2000 e 2008. O seu sítio era, por isso, jeb2016.com. Os estrategas digitais de Trump aproveitaram a oportunidade e compraram o domínio jebbush.com (por nove dólares, ou oito euros, anuais).

Ato contínuo, quem foi aos motores de busca procurar por Jeb Bush passou a obter como primeiro resultado uma página que encaminhava diretamente para o sítio de Trump. Foram mais 3,2 milhões de internautas que a campanha de Trump “desorientou”.

Clinton também usou o nome de Trump para lhe conquistar público. A ferramenta “Trump Yourself” permitia aos utilizadores divertirem-se a ver o que o milionário, conhecido pela sua linguagem incendiária e insultuosa, diria deles. A democrata viu, assim, 5% dos que procuravam Trump acabarem no seu sítio. É o que se chama “ser mais esperto”. O passo seguinte é conseguir “tornar a máquina viral”. Através da partilha dos internautas em várias plataformas e redes, sobretudo o Facebook, Clinton conseguiu crescer 354% em visitas a partir desta fonte.

Com a verdade me conquistas

Quanto a “equilibrar focos”, Offer explica que se trata de chamar a atenção para aspetos negativos do adversário. No primeiro debate entre os dois, a 26 de setembro, Clinton convidou o público a visitar no seu sítio a secção “literally Trump”, dedicada ao fact checking, ou seja, à verificação das afirmações do republicano. Dada a relação flexível deste último com a verdade, a ferramenta atraiu mais 920% de tráfego.

Tudo somado, Hillary Clinton conseguiu que 89,9 milhões de pessoas visitassem o seu sítio de campanha. Donald Trump ficou-se pelos 83,3 milhões. Logo à noite veremos se o sucedido no mundo virtual se repete no mundo real.

Itália: "As Bodas do Caos"

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(Jorge Almeida Fernandes, in Público, 05/11/2016)

renzi
Falta um mês para o referendo constitucional italiano de 4 de Dezembro. O “não” está em vantagem, de dois a quatro pontos, dentro da lógica dita “TCR: Todos contra Renzi.” Quando a consulta popular foi anunciada, no fim de 2015, as reformas constitucionais reuniam um vasto consenso. Ao longo dos meses, o referendo tornou-se tema de guerra interpartidária, enquanto mudava o humor dos italianos: hoje, 57% dizem que vão votar a favor ou contra o Governo Renzi e apenas 26 a favor ou contra a revisão constitucional. É um efeito típico dos referendos.

O alarme foi lançado pouco antes do “Brexit” (23 de Junho), quando o “não” começou a subir nas sondagens. Tornou–se tema de debate internacional — na imprensa britânica, alemã, espanhola ou americana, nas capitais europeias e nos meios financeiros. Em Junho, o alemão Wolfgang Münchau traçava um quadro negro no Financial Times, advertindo que o impacto do “não” seria politicamente desastroso. Matteo Renzi seria obrigado a cumprir a promessa de se demitir. O vazio político e um estado de emergência económico poderiam levar inclusive a uma saída da Itália da moeda única, o que por sua vez “provocaria o colapso total da zona euro num período curto”.

“E provavelmente levaria ao mais violento choque económico na história, superando a falência do Lehman Brothers em 2008 e o crash de 1929 na Wall Street.” Münchau pode ser um “profeta da desgraça”, mas não está só. O Wall Street Journal sublinhou que o referendo italiano “é mais importante do que o ‘Brexit’”. O El País ou o Die Welt avisaram que uma derrota de Renzi empurrará a UE para nova crise.

O que está em jogo

Na Itália, “a hipérbole e o exagero são um traço do debate público”, diz o analista Antonio Polito. Para os apoiantes do “sim”, a alternativa é “Renzi ou o dilúvio”. Para os defensores do “não”, a Itália está ameaçada por uma “ditadura de governo” ou por um “despotismo da maioria”. Entre os constitucionalistas, o debate assume ares de uma polémica teológica medieval, explica o L’Espresso, e de um teatral ajuste de contas entre partidos, facções, professores, intelectuais, jornalistas e cineastas: “Um debate à italiana.”

Que está afinal em jogo?

Renzi propôs-se mudar o sistema político italiano e para tal fez um acordo com Berlusconi. As reformas foram aprovadas em 2015 no Parlamento por larga maioria, mas sem os dois terços necessários no Senado depois de o Cavaliere ter rompido o contrato. O objectivo principal é pôr termo ao bicameralismo perfeito: a Câmara de Deputados e o Senado, eleitos de forma distinta, dispõem dos mesmos poderes, tanto na investidura dos governos como na aprovação das leis. Mas sendo eleitos de forma diferente, é frequente terem maiorias diferentes, o que muitas vezes bloqueia a governação ou obriga a fazer acordos bastardos. Segundo o novo texto, o Senado passa a ser uma câmara representativa das regiões. Os deputados terão proeminência no processo legislativo e só eles poderão votar moções de desconfiança ao governo. O resto é lana-caprina.

O debate foi envenenado pela aprovação da nova lei eleitoral, dita Italicum, que prevê a concessão de uma maioria absoluta ao partido vencedor desde que tenha mais de 40%. Em alternativa, haverá uma segunda volta (balotaggio) entre as duas formações mais votadas para efeito da atribuição do “prémio de maioria”.

Em nome da estabilidade, a reforma visa pôr termo às coligações multipartidárias que depressa se desfazem e reforçar o executivo. O sistema permanece dominantemente parlamentarista, pois os deputados podem votar a desconfiança ao governo. É um difícil equilíbrio entre governabilidade e representação — este é o cavalo-de-batalha do campo do “não”.

Os dois erros de Renzi

O quadro político italiano é hoje tripolar. O centro-esquerda é dominado pelo Partido Democrático (PD, de Renzi). A direita é composta pela Força Itália (FI, de Berlusconi) e por uma extrema-direita le-penista, a Liga Norte (LN, de Matteo Salvini). O terceiro pólo é o populista Movimento 5 Estrelas (M5S, de Beppe Grillo). Renzi e os seus constitucionalistas imaginavam a reorganização de uma direita clássica, pela recomposição do partido de Berlusconi, e uma alternância entre centro-esquerda e centro-direita.

Em vez disso, aconteceram duas coisas. Primeiro, o M5S consolidou a posição de segundo partido e ameaça o PD, enquanto Salvini disputa a Berlusconi e seus herdeiros a hegemonia da direita. Segundo, a introdução do balotaggio teve um efeito perverso. Grillo, Salvini e Berlusconi descobriram que a única maneira de eliminar Renzi era somar os seus votos nas segundas voltas. O método foi ensaiado com êxito nas eleições autárquicas de Junho. O M5S poderia vencer as futuras legislativas. O mesmo acontece no referendo: “Todos contra Renzi.”

O primeiro-ministro tinha no fim do ano passado um elevadíssimo apoio popular. O PD ganhou as europeias com mais de 40% dos votos. Queria uma nova legitimação eleitoral, pois é um “primeiro-ministro que não foi eleito nas urnas”. Personalizou o referendo: “Se a reforma não vencer, vou para casa.” Os adversários usam agora contra ele a sua promessa. Se perder, demite-se. E pode ser inevitável a dissolução. Acresce que lei eleitoral, que entrou já em vigor, foi contestada junto do Tribunal Constitucional. Se for chumbada, os italianos votarão com um sistema proporcional perfeito, o que significa a balcanização do Parlamento. A reforma foi imposta pela crise de 2013, em que o Parlamento foi incapaz de eleger um Presidente da República durante semanas.

A engrenagem

A divisão dos campos pouco ou nada tem que ver com a divisão esquerda-direita, mas com a fractura política-antipolítica. O que motiva os eleitores? “Antes de mais a irritação geral perante as instituições do Estado e os partidos”, escreve o politólogo Ilvo Diamanti. “Trata-se dos actores políticos da antipolítica. Depois, os alvos comuns. Primeiro, a imigração. Logo, a União Europeia. Noutros termos, as duas faces da globalização. A perda de soberania política e económica a favor das entidades supranacionais. (…) As migrações que vêm do Sul do mundo e que aumentam o nosso sentido de vulnerabilidade. E de despaisamento. A Liga e o M5S, embora tenham uma sociologia e uma geografia diversas, partilham estes sentimentos.” A sua estratégia passa por desgastar e deslegitimar os fundamentos do poder que pretendem conquistar.

A conjugação da antipolítica com a grave crise económica italiana pode ser explosiva. O desemprego não recua. O crescimento é anémico. A produtividade não sobe desde 1999. Os bancos estão descapitalizados. Dirão os optimistas que, na Itália, “tudo continuará como dantes”. Mas ninguém ousa prever o efeito de um vazio político, sobre a Itália e sobre a Europa.

Observa no La Repubblica, o ex-director Ezio Mauro: o M5S e a Liga, os mais determinados antagonistas do PD, preparam-se para celebrar as “Bodas do Caos”.

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