Os gordos que paguem a crise

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 07/10/2016)

quadros

Eu gosto do conceito: taxa para gordos. É justo que as pessoas sejam tributadas em termos de peso. Se é mais pesado, paga mais – se é assim com a fruta e com o peixe, porque não há-de ser com as pessoas?

António Costa, em entrevista ao Público, admitiu a possibilidade de um aumento de impostos indirectos especiais, mais especificamente: “Impostos especiais sobre o consumo que dependem de escolhas individuais: produtos de luxo, tabaco, álcool. Não estou a fazer qualquer moral fiscal, mas dependem da escolha.” Este – “dependem da escolha” – é de quem nunca usou um penso de nicotina.

Na terça-feira, aqui no Negócios, surgiu a notícia da possibilidade de o Governo estar a pensar criar uma “fat tax”, ou seja, um imposto sobre os produtos alimentares nocivos à saúde. Ou, melhor dizendo, o que nos sabe bem.

Esta “fat tax”, ou taxa dos gordos, já não é novidade, apesar do ar de escândalo de alguns deputados do CDS. Em 2014, o governo PàF queria implementá-la, e Maria Luís e Paulo Macedo defenderam a medida. Depois, veio o Pires de Lima, da cerveja e gaseificados, e acabou com a festa.

Eu gosto do conceito: taxa para gordos. É justo que as pessoas sejam tributadas em termos de peso. Se é mais pesado, paga mais – se é assim com a fruta e com o peixe, porque não há-de ser com as pessoas?

A olho nu, os gordos serão sempre os que parecem estar melhor na vida. São sempre os mais divertidos, etc. E deve haver quase tantos como a classe média e são fáceis de taxar. Qualquer portageiro sabe ver se o condutor é gordo ou não e aplicar a classe correcta de portagem. Porque é que na portagem conta o tamanho do carro e não o peso de quem vai a conduzir? Não é o carro que, depois de pagar portagem, vai atafulhar sandes de leitão e ter embolias e ir dar custos ao sistema de saúde.

E parece-me que, em termos de dar sinais aos mercados, seria bom. Até um alemão se compadece ao ver países com pessoas subnutridas. Agora basta filmar pessoas nas rua na Baixa para eles verem onde é que nós andamos a gastar o dinheiro. Na Alemanha, eles têm gordos, mas levaram muitos anos até terem uma solidez económica que lhe permite esses luxos. Taxar os gorduchos até é bom para eles. Só de saber que vão ser taxados ficam com menos apetite. Temos de pensar no futuro. O mundo não está para gordos. Basta ver o tamanho dos automóveis eléctricos.

O que eu sei é que, no meio desta situação económica e financeira, não devia ser a classe média, apesar de serem todos ricos, a ter de sofrer. Para mim, o mais justo é: os gordos que paguem a crise. Lamento, mas se uma pessoa está gorda é porque tem onde cortar. Ninguém engorda do nada. Ninguém diz que o oxigénio é muito calórico. Quando não se come nada, fica-se como o Gandhi. Como o Gandhi está agora.


Top 5
Peso certo

1. “Londres quer isentar os seus soldados da Convenção Europeia dos Direitos do Homem” – e quer voltar a fazer pinturas rupestres.

2. “Prémio Nobel Física para transições da matéria exótica” – isso soa a conversa de traficantes.

3. António Guterres é o novo secretário-geral da ONU – Kristalina não precisava de ter pedido licença sem vencimento, bastava meter dois dias de férias.

4. Passos Coelho: “No dia em que achar que estou a mais, não fico cá por ficar” – mas fica.

5. Theresa May: “If you believe you are a citizen of the world, you are a citizen of nowhere” – depois da Europa, os britânicos vão abandonar o mundo. Boa viagem.

Crimes sem castigo

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 07/10/2016)

bb1

Estamos num outro período da indiferença e do desespero humanos. O turbilhão de nomes de países e de povoações onde estes crimes medonhos ocorrem abre um novo e terrível capítulo na história da condição humana.


Há uma evidente ocultação da crise, aparentemente irremediável, que vai passando pela União Europeia. As exigências violentas aos países mais vulneráveis, feitas pelas direcções daquela organização, deixam depauperadas as direcções mais vulneráveis, ou seja: as mais pobres. O equilíbrio é instável e, a maioria das vezes, as exigências das direcções obrigam os países mais vulneráveis (Portugal é um deles) a contorcionismos assustadores. A direita tem dirigido a organização a seu bel-prazer, delegando aos países mais ricos a direcção dos destinos de todos.

Claro que os actuais vinte e sete têm obedecido, por vezes com desagrado, às indicações dadas pela direcção-geral. Mas esta direcção, um pouco disseminada e, acaso, manobrada e manobradora, tem somente servido interesses que se não coadunam com as necessidades colectivas. A manifestação de quase subserviência pela Alemanha e por aquilo que ela aparentemente representa tem sido uma característica da mansuetude dos vinte e sete países da União. Porém, as coisas não são assim tão cabisbaixas como aparentam. E a imprensa internacional, pressurosa em calar, ou não divulgar, a surda inquietação que vai pelos restantes países europeus, está a causar um prejuízo maior, muito maior do que se presume, à organização.

Agora, contrariando princípios e perspectivas, a Hungria manifestou o seu desacordo pelos caminhos tomados pela União, erguendo fronteiras, longas fronteiras, de ferro e arame, impedindo a longa caminhada de todos aqueles, milhões e milhões, que pretendem fugir à tragédia que se verifica nas suas nações. Na era moderna, este êxodo é o mais trágico registado até hoje. E a indiferença que se manifesta, sem pudor e com a maior das desumanidades, caracteriza uma época que trai os princípios fundamentais do humanismo e da compreensão entre os povos.

Os princípios fundamentais com os quais a União Europeia se fundou estão dizimados. Os grandes interesses económicos sobrepõem-se ao humanismo mais elementar, fundado após a Segunda Guerra Mundial. A decisão dos dirigentes húngaros em erguer linhas de arame farpado em todo o seu território fronteiriço é um escândalo inominável, pelo que representa de separação e de humilhação humanas. Na história recente das afrontas generalizadas, nada de semelhante se lhe aproxima. E é bom que tenhamos em conta esta violência quase generalizada contra a nossa condição cada vez mais desesperada e afrontada.

O mundo está cada vez pior. As relações entre as pessoas deterioraram-se a tal ponto que chegam a descer às mais afrontosas relações pessoais. Todos os dias chegam notícias do desespero humano. O que se passa, por exemplo, em Calais tem sido minimizado ou calado pelos órgãos de comunicação social. As guerras que ocorrem deixaram de ser factos localizados: são medonhas ofensas à condição humana. Com milhões de mortos a atestar a indiferença generalizada, que apenas se manifesta quando é pessoal. E mesmo assim…
Estamos num outro período da indiferença e do desespero humanos. O turbilhão de nomes de países e de povoações onde estes crimes medonhos ocorrem abre um novo e terrível capítulo na história da condição humana. Não temos, somente e cautelosamente, de procurar respostas para estes inomináveis crimes contra a humanidade, é urgente que se procure e se apontem os nomes dos causadores. E que sejam punidos pela execração e pela enormidade dos crimes cometidos contra a humanidade. Contra todos nós.

Guterres, a ONU, e a Alemanha.

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 05/10/2016)

merkel2

A eleição da Merklina búlgara para a ONU representava entrada da Alemanha para o grupo dos grandes atores internacionais e a rutura da Europa em dois blocos, um pró-russo a Leste e outro pró-americano a Oeste. Representava a rutura com o equilíbrio de forças atual, um triangulo cuja base ainda são os EUA. Os 3 grandes decidiram manter o status quo e resolver bilateralmente os seus conflitos no Médio Oriente e no Mar da China, como têm feito. Bateram a porta na cara da Alemanha. A Europa sairia sempre mal deste jogo em que a Alemanha a meteu. Junker, o pianista do cabaré alemão em que Barroso deixou a Comissão Europeia transformar-se deve estar de ressaca, um estado que lhe passa sem deixar marcas de vergonha. Guterres não é um secretário geral sponsored pela União Europeia, é apenas o clister que a Alemanha teve de tomar. Guterres chega a secretário geral contra a Alemanha, por mérito próprio e por ser cidadão de um estado simpático e de ph neutro. Tem a vantagem de valer por si e esse é estatuto valioso perante os poderes e as opiniões públicas para exercer o seu magistério de influência – o que vai bem com o odor de santidade que gosta de transmitir desde jovem católico. A Merklina búlgara seria sempre vista como a mulher a dias da patroa Merkel e da Alemanha. Portugal – entendido como uma entidade dotada de valores – sai bem desta pugna. Guterres resgata o país da imagem de Barroso, um videirinho que se fez lobista do mais que suspeito Golman Sachs para meter uns bons cobres na conta bancária.

Guterres desinfecta Portugal dos Barrosos e da sua trupe de pequenos rufias. Não é assim tão pouco. Quanto à ONU, os cães grandes continuarão a rosnar uns aos outros longe dali.