EM BELÉM. ODE A DIOGO GASPAR, “manitas de plata”

(João Mendes Fagundes, in Facebook, 02/07/2017)

Gasparzinho andava no gamanço
O que até o seu patrão desconhecia,
Chegou mesmo a aliviar um manipanço
E dos bons, penico Dona Maria.

Gasparzinho várias vezes cavaleiro
Deixou quase vazia a presidência.
Operacional sofisticado e bem videiro,
Quem iria suspeitar da intendência?

Pois olhai, ó timoneiros deste povo
Que é mister não medalhar um gajo em vida,
Como fizestes ao Gaspar ainda em ovo.

Que é correntia a abébia, e consentida,
Que é liberal o gamanço, ó nobre povo,
E que os Deuses bafejam esta lida.

Dizei então agora, ó gente lusa
Se não é caso p’ro Gaspar perder a tusa?

E que Hermes e Mercúrio digam chiça
E venham já reparar esta injustiça.

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O que Schäuble fez é inadmissível

(Nicolau Santos, in Expresso, 02/07/2016)

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O ministro alemão das Finanças estava numa conferência e a ser confrontado com perguntas sobre a solidez do Deutsche Bank quando resolveu dizer que o preocupava muito mais a situação de Portugal. “Schäuble diz que Portugal pediu um novo programa e vai tê-lo”, sentenciava a agência Bloomberg às 15h07 do dia 9 de junho, informação corroborada pela Reuters pouco depois. Estupefação geral até Schäuble esclarecer que Portugal não pediu nenhum resgate, mas que “está a cometer um erro grave se não cumprir os compromissos assumidos”. Mas de que fala Schäuble? O Governo português disse alguma vez que não ia cumprir os compromissos europeus? E se sim, onde e quando?

Pois bem. Algumas horas depois sabia-se que a filial norte-americana do Deutsche Bank chumbava, pelo segundo ano consecutivo, os testes do stresse levados a cabo pela Reserva Federal por ter encontrado “falhas significativas” no que respeita aos aspetos “qualitativos” de retorno de capital aos acionistas, baseados em pressupostos que “não são razoáveis nem apropriados”. E o FMI fazia sair um relatório considerando o Deutsche Bank como a instituição que apresenta maiores riscos para o sistema financeiro a nível global, seguido do HSBC e do Crédit Suisse. No ano passado, o Deutsche registou prejuízos recorde de €6,8 mil milhões, está a braços com múltiplos processos na justiça devido a acusações de manipulação das taxas Libor e Euribor e há sérias dúvidas dos analistas sobre a sua capacidade para pagar 1,75 mil milhões de obrigações convertíveis (CoCos) que emitiu em anos anteriores.

O ministro alemão das Finanças atirou a porcaria para o quintal do vizinho para evitar falar da que tem no seu e para criar dificuldades adicionais ao Governo português

Ou seja, Schäuble atirou a porcaria para o quintal do vizinho para evitar falar da que tem no seu. Mas é mais do que isso. O ministro alemão suporta muito mal os que não pensam como ele. Foi ele que impôs a Alexis Tsipras a resignação de Yanis Varoufakis, foi ele que admitiu a possibilidade de a Grécia sair do euro, foi ele que obrigou o Governo de Tsipras a ajoelhar e a aceitar uma nova dose cavalar de austeridade. E é ele que não suporta que o Governo português esteja a seguir uma orientação económica que não está conforme aos ditames do Eurogrupo, que são a concretização prática do seu pensamento.

Por isso, Schäuble não se equivocou nem está com Alzheimer. Disse o que disse de propósito, para desviar atenções do Deutsche e para pressionar o Governo português, de que não gosta e cuja política económica contradiz aquilo em que acredita, criando-lhe dificuldades adicionais que levem à sua demissão.

O que Schäuble fez foi feio, porco e mau, ainda por cima poucos dias depois do ‘Brexit’ e quando mercados e investidores passam por uma fase de enorme instabilidade e insegurança. Conheço poucas palavras de alemão, mas há uma que envio a Schäuble — embora não a escreva porque este é um jornal bem-educado.


O MAAT, a EDP e Portugal

Nenhuma empresa representa um país, mas há empresas que são um exemplo de excelência e de responsabilidade social num país. A EDP é seguramente uma das grandes empresas nacionais onde se alia uma enorme competência técnica e uma estratégia corajosa e inovadora a uma alargada responsabilidade social. A EDP apoia projetos de inclusão social (27 em 2016) e de saúde (12) — o programa EDP Solidária existe desde 2004 e já tocou a vida de mais de 500 mil pessoas em situação vulnerável —, bem como a atividade e a criação artística, devolvendo assim à sociedade parte do muito que a sociedade lhe dá. Agora dá à capital, a partir de 29 de junho, o MAAT — Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, dirigido por Pedro Gadanho, que promete ser um polo de atração nacional e internacional. Se o Porto mudou com a Casa de Serralves, Lisboa vai mudar com o MAAT.


A economia está a afocinhar

O economia está a afocinhar. Não é possível iludir o que tem vindo a ser confirmado por todas as previsões. A penúltima, da OCDE, apontava para 1,2%; a última, da Comissão Europeia, para 1%. É quase metade dos 1,8% previstos pelo Governo. Parte do problema está nas exportações: menos 45% para Angola, menos 35% para o Brasil, quebras significativas para a China…; parte na falta de investimento e parte no abrandamento do consumo. E aqui ainda não se incluem os efeitos que o ‘Brexit’ terá sobre a economia europeia e, por tabela, sobre nós (exportações para o Reino Unido, turismo britânico no Algarve). I.e., mesmo a ideia de que a economia vai crescer mais na segunda metade do ano está em causa. Não adianta, pois, António Costa e Mário Centeno taparem o sol com a peneira. Há que reconhecer o óbvio e corrigir o quadro macroeconómico. A credibilidade nunca fez mal a ninguém.

A dor feliz de Botton e Relvas

Julga que não me doeu? Ah, pois doeu. Mas tinha de ser”. As palavras são de Filipe de Botton após ser conhecido que o fundo norte-americano Carlyle vai entrar no capital da Logoplaste, a terceira maior companhia transformadora de plástico rígido da Europa e uma das dez maiores do mundo. Não é seguramente fácil ‘dar’ metade de uma empresa fundada pelo pai, Marcel de Botton, com base num conceito revolucionário de gestão e depois fortemente desenvolvida por Filipe e Alexandre Relvas. Nem tudo foram rosas, contudo, e o mercado brasileiro revelou-se padrasto (mais uma vez) para uma companhia portuguesa. Agora, para continuar a expansão nos EUA e em novos mercados europeus, a Logoplaste precisava de capital. Isso implicava ceder grande parte do capital da companhia. Dói, seguramente. Mas é o caminho certo para as empresas que querem crescer e ter sucesso no século XXI.


Entro na minha fortaleza

tranco a porta com ligeireza

defendo-me com destreza

do mundo

que não entendo

da gente

que não compreendo

Aí no meu castelo

castelo de cristal

sem grades

nem seguranças de metal

eu me fecho

desligo ligeiro

do mundo inteiro

No meu castelo

castelo de cristal

sem grades

nem seguranças de metal

eu vivo só

eu vivo sozinha

o meu sonho de exílio

O meu sonho de rainha


(Maria Teresa Ramos, ‘Meu sonho de rainha’, in “Na estação errada”, DG Edições, agosto de 2011. Declaração de interesses: a autora do poema é a mãe do responsável desta página.)

Uma imagem que vale mil palavras

(José Pacheco Pereira, in Público, 02-07-2016)

Autor

Pacheco Pereira

É pela vulgata da linguagem dos “business plan” que se encontra o caminho para a “luz” ou seja, para o “sucesso”. O neo-PSD dos nossos dias pensa assim, ou seja, não pensa, tem uma fé.


Costuma dizer-se que uma imagem vale mil palavras e esta, seguramente, vale mais que mil pelo que nos diz sobre o actual curso do neo-PSD. Pode sempre dizer-se que em si não tem muita importância, – e não tem, – que pode ter sido um lapso ou uma desatenção, ou que não justifica que se perca muito tempo com ela. Mas merece, porque ela é tudo isso e mais do que isso. É “reveladora”, ilumina muita coisa que é dita e, acima de tudo, muita coisa que não é dita, na vida, nas ideias, no imaginário, visto que se trata de uma imagem de natureza religiosa, plena de referências muito antigas à imagética ocidental de carácter escatológico. Trata-se de uma imagem desprovida de conteúdo político explícito e especialmente de conteúdo político social-democrata, mas densa de ideologia e espiritualidade. A ideologia é má e a espiritualidade é banal e “new age”, mas é o que é. A imagem é um tratado sobre a mentalidade, sobre um certo autodidactismo que se sobrepõe à formação académica ou à falta dela e, principalmente, fala-nos sobre os mecanismos de representação do mundo, e do desejo de o atravessar com sucesso, da actual direcção do PSD. É também uma imagem que revela a “cultura” do consumidor da Internet, via Facebook e “redes sociais”. A imagem é, aliás, um compósito copiado de outras imagens de um site na Internet, mas a natureza desse compósito num documento político é que é relevante e original. Que tenha passado pela cabeça de responsáveis de uma instituição tão importante na vida de um partido como um Grupo Parlamentar, onde hoje se senta também Passos Coelho, é que é “revelador”.

Que imagem é esta de que de certeza o leitor nunca ouviu falar? Da capa da edição em papel de 222 Propostas Social-Democratas, um guião para um “verdadeiro programa nacional de reformas”, de autoria do Grupo Parlamentar do PSD. Uma espécie de programa do governo, apresentado sobre as cinzas do célebre guião de copy-paste de Portas e que se pretende contrapor ao Plano Nacional de Reformas do PS, o “falso programa de reformas”, a que alude o “verdadeiro”. O documento merece discussão em si, mas a capa merece-o muito mais. Porque a capa é original, mesmo se copiada, a única coisa original no plano simbólico que vi produzida pelo PSD nos últimos anos. Já vi muita coisa no PSD, a começar pelo canto do “menino guerreiro”, mas ainda devo continuar capaz de me surpreender.

A capa tem no centro, como motivo principal, uma imagem de carácter religioso: a célebre Escada da Divina Ascensão, subida por João Clímaco a caminho do Paraíso. João Clímaco era também conhecido como “João da Escada”. Há vários ícones orientais representando-a, exactamente da mesma forma que aqui o PSD a representa. Só que, aqui, é o Homem da Regisconta que a sobe com o seu fato de executivo e segurando a mesma pasta que é a sua marca inconfundível. A versão é a do Homem da Regisconta visto por trás, afastando-se de nós a caminho do Paraíso e, para saber o caminho, tem uma espécie de folha de rascunho, de apontamentos de uma reunião, um workshop empresarial, ou motivacional, que funciona como um blueprint para a salvação. Melhor: tem um “business plan”. Esse mapa para o divino lugar, implica o uso da informática, da “social media”, do marketing, do “business”, da estratégia e de uma panóplia de gráficos de barras e “pie charts” habituais em documentos empresariais e, de novo, nos cursos de gestão de baixa qualidade. Numa demonstração de grande originalidade, uma ideia nova é representada pela lâmpada da banda desenhada e está lá ao lado de um cifrão. Peço desculpa por usar muitas palavras em inglês, mas é em inglês que está escrita a folha negra com instruções para o caminho para o “sucesso” com ponto de exclamação: “success!!”.

Cada degrau é um passo a caminho do Paraíso, que, no Tratado de João Clímaco, se inicia pelo ascetismo e termina pela plena perfeição das virtudes: Aqui, também o Homem da Regisconta sobe uma mesma escada no cumprimento do “business plan” escrito nas paredes, onde o negro predomina para nos ofuscarmos com a luz sagrada da ascese. Como acontece com muitas das imagens deste tipo, inscritas mesmo que inconscientemente no nosso imaginário, há uma mescla de caverna de Platão, da escatologia cristã oriental, posteriormente revista por uma imagética de natureza maçónica. Sim, porque a imagem é igualmente uma metáfora maçónica, o que não é de admirar no neo-PSD onde predomina a obediência a várias maçonarias, algumas bem pouco recomendáveis. O caminho para a “luz”, que espreita detrás de um buraco de fechadura, igualmente copiadas de um site na Internet, repete uma imagética maçónica que associa os “mistérios” a um buraco de fechadura, cuja abertura representa essa iniciação na plena sabedoria. Resumindo e concluindo: o homem dos dias de hoje, um jovem executivo, ou um profissional de marketing, ou um diligente “jota”, tem nesta imagem sagrada a sua forma de aceder ao divino, ou seja, ao sucesso.

O que é que isto tem a ver com o Estado? Nada. Com reformas políticas? Nada. Com o povo e a melhoria das suas condições de vida? Nada de nada. Com uma mensagem política subliminar? Sim. É uma mensagem para o indivíduo, porque é do sucesso individual que se trata no mundo do “empreendedorismo”, não para um país, ou uma comunidade, uma classe ou uma nação. É uma mensagem esforçada e antiquada, com décadas de atraso, para o “homem da Regisconta” do início da informática e da entrada das máquinas de calcular e da moderna gestão no mundo empresarial. Nem sequer é para o yuppie da bolsa, nem o criativo das dot.com, nem para as start-up. Na verdade há muita incompetência e muita ignorância nestas incongruências, mas pouco importa.

É pelo “negócio” que se chega à salvação. É pela vulgata da linguagem dos “business plan” que se encontra o caminho para a “luz” ou seja, para o “sucesso”. O neo-PSD dos nossos dias pensa assim, ou seja, não pensa, tem uma fé.

Na prática, quase tudo o que faz é de outra natureza, muito mais antiquada, a gestão de cunhas e acordos, de controlos e influências, mas precisa de “espírito”, de uma espécie de religião barata e que não dê muito trabalho e vai procurá-lo aqui. Não é uma religião verdadeira, é mais uma seita, uma confraria, uma irmandade, uma loja.

O que é que isto tem a ver com o PSD no seu conjunto e, acima de tudo, na sua história e identidade? Nada. É uma ideologia neófita de parte do aparelho que hoje controla o partido. Faço justiça a muitos dedicados militantes, por exemplo, nas autarquias, que não querem saber disto para nada. Aprenderam com a sua acção a ser muito mais terra-a-terra e a não ter ilusões com esta maravilhosa escada para a “luz”. Sabem muito bem, com um saber de experiência feito, como é a usura da política quotidiana. São católicos, apostólicos romanos, muitos não são praticantes, muitos são até naturalmente pouco ou nada religiosos e não querem saber deste mambo jambo maçónico para nada. Já cá estavam antes e vão continuar a cá estar depois. Mas este caminho hoje seguido pelos neo-PSDs faz imensos estragos naquele que é o maior partido político português e, por essa via, a Portugal. Quem deve estar a rabiar naquele título e por baixo dos pés do Homem da Regisconta é a palavra “social-democrata”, essa sim que não caminha para o buraco da fechadura iniciática mas para servir de capacho ao “Homem da Regisconta” que lhe volta as costas. É aliás esse o lugar que tem na capa. De facto as imagens falam com muito mais que mil palavras.