E agora, Marcelo?

(Ângela Silva, in Expresso, 19/01/2021)

Nunca se saberá se é verdade ou mentira que Marcelo Rebelo de Sousa teve reais dúvidas, angústias, conversas em família e hesitações sobre recandidatar-se ou não a um segundo mandato presidencial. Mas que o fardo, grande e pesado, volta e meia o atormenta confessou o próprio na sua primeira entrevista após ter sido reeleito. “São 10 coisas más e uma boa”, eis como Marcelo pintou o cargo em conversa com Ricardo Araújo Pereira (nada como o humor quando nos sentimos apertados), e até contou a conversa que teve com Cavaco Silva em 2016, três meses após o seu antecessor ter deixado Belém. “Estou ótimo! Nem imagina, sinto-me aliviado, saiu-me de cima dos ombros um peso, está a ver?”, ter-lhe-á dito Cavaco. Ao que Marcelo diz ter respondido: “É o peso que veio para cima dos meus ombros!”

A 7 de dezembro, quando convocou os jornalistas à Pastelaria Versailles de Belém para anunciar que era recandidato, Marcelo disse que avançava por não querer “sair a meio de uma caminhada exigente e penosa” — uma pandemia a enfrentar, uma crise económica a vencer — e por ver “uma oportunidade única para mudar Portugal para melhor”. Estaria a pensar que ajudar o país a recuperar de uma crise avassaladora é sempre uma grande oportunidade para um político ver se passa no teste de estadista, ainda por cima quando se é reeleito com uma invejável percentagem de 60% dos votantes. Mas o Presidente sabe que a empreitada é bicuda, que a famosa ‘bazuca’ de milhões que há de vir de Bruxelas para responder à crise já cheira a pouco — ele próprio disse em campanha que “já era preciso duas bazucas”. E resolveu tornar a coisa ainda mais exigente ao lembrar que em 2024 comemoramos os 50 anos do 25 de Abril e seria “inconcebível não sermos um país além de mais livre, mais desenvolvido e mais justo”.

Mal se viu reeleito com o segundo melhor resultado de que há memória, prova de que os eleitores contam mesmo com ele, Marcelo disse ter percebido o sinal e garantiu que retirará as devidas ilações. A saber, que “os portugueses querem mais e melhor”. O que isto significa é simples: o Presidente prepara-se para ser mais exigente com o Governo neste segundo mandato. Desde logo no que toca à resposta à pandemia — as últimas semanas já o mostraram mais musculado na gestão do estado de emergência e mais em cima do processo de vacinação — e depois disso com aguçado olho vivo a acompanhar o plano de recuperação económica e social do país, que contará com milhões de fundos europeus a circular. Tudo isto num contexto político menos seguro do que parece, com um Governo minoritário e cansado e cujos parceiros à esquerda estão menos fiéis do que já foram, com a direita estilhaçada entre um PSD estagnado, um CDS mirrado e em guerra interna e o radical Chega a crescer, e com um coro de vozes que já pede ao Presidente governos de salvação nacional.

“O Presidente é o mesmo, as circunstâncias é que vão mudando”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa ao Expresso pouco antes de ir a votos, quando influentes socialistas se desdobravam em declarações de apoio à sua recandidatura com base num pressuposto — que faça um segundo mandato “idêntico” ao primeiro. Ele diz que sim, que será “o mesmo”, mas vai avisando que, se o mundo mudou, se houver novas circunstâncias, se o país pedir mais e se pressentir bloqueios, saberá retirar as ilações. E o que quer isto dizer? Que, não sendo por natureza um político de fraturas e preferindo, pelo contrário, ajudar a fazer pontes, o que o impede de vestir a partir de Belém o fato de líder da oposição, estando mais livre, Marcelo subirá a fasquia ao poder socialista e estará muito atento ao desgaste do atual ciclo político junto da opinião pública. Viu-se nas duas vezes em que, já reeleito, falou ao país para renovar o estado de emergência. A primeira, quando dramatizou como nunca antes o estado da pandemia, e a segunda, 15 dias depois, quando pediu ao Governo um plano criterioso e sustentado para desconfinar o país (e ouviu António Costa responder-lhe que é muito cedo para “especular” sobre desconfinamentos). O tom da coabitação já não é exatamente o mesmo. À sua maneira, Marcelo II também vai ser diferente de Marcelo I.

IRONICAMENTE À ESPERA DE PASSOS

Isso ajuda a perceber a frase aparentemente fora do contexto que o Presidente incluiu na sua mais recente comunicação ao país. “Não contem comigo para crises políticas, por muito sedutoras que sejam, ou para governos de salvação nacional”, afirmou. O que levou muita gente a questionar o sentido de um aviso assim quando o tema era a pandemia. Mas Marcelo foi fino na mensagem. Ao falar de “salvação nacional”, fez ecoar que a situação é politicamente delicada e não está para brincadeiras. E, ao dizer que não contem com ele para nomear governos à margem do xadrez parlamentar, deixou claro que é António Costa quem ele quer ver a gerir esta crise até ao fim.

Por um lado porque sempre foi defensor da estabilidade política, e todo o seu primeiro mandato foi prova disso, a começar pela forma como ajudou a normalizar a ‘geringonça’, cá dentro e lá fora. Por outro porque, não se vislumbrando nenhuma alternativa de poder capaz de se afirmar no Parlamento, Marcelo não dará gás a saídas de emergência que permitissem ao PS livrar-se de ter de gerir o atual momento sem garantias de que algo de novo daí resultaria. Com o PSD encalhado nas sondagens, sempre abaixo dos 30%, e o CDS a ver se mantém o atual líder ou se corre com ele, o que faz sentido para o Presidente da República é ajudar a manter o Governo e esperar que a direita se arrume. Com os olhos postos nos congressos que os parceiros da velha AD têm previstos para 2022, logo após as autárquicas, que ajudarão a perceber melhor qual é, afinal, o estado da arte.

O eventual regresso de Pedro Passos Coelho é um fator decisivo para Marcelo saber com o que pode contar neste mandato. Sobretudo porque Passos é visto à direita (e em Belém) como o nome mais capaz para federar PSD, CDS e Iniciativa Liberal e para estancar e recuperar a fuga de eleitores para o Chega. E assim, ironicamente, para o Presidente da República, que anda há cinco anos a pedir uma alternativa “clara e forte” às esquerdas, a solução pode passar pelo homem com quem teve uma má relação antes de chegar a Belém. Passos, recorde-se, não o queria como candidato presidencial, considerava-o um “cata-vento mediático” e nunca lhe perdoou ele ter sido um contribuinte líquido para que António Costa cumprisse a legislatura. Mas a verdade é que, mesmo sem ser um Soares, Marcelo adoraria não sair do palácio sem ver a sua família política chegar ao poder.

Para isso, aconselha a direita a ter calma. Nada de crises políticas, nada de eleições antecipadas, nada de governos de iniciativa presidencial, nada de soluções tipo Bloco Central (que avisa serem “instáveis e pouco duradouros”). E, sobretudo, nada de pressas. É preciso ver o que dão as autárquicas, se Rio resiste e consegue manter-se na liderança do PSD ou se cai e vem outro líder. É preciso ver se no CDS Adolfo Mesquita Nunes consegue apear “Chicão”. É preciso esperar que os dois partidos se realinhem cada um por si e os dois entre si. E é preciso perceber como ficam nesta nova direita os dois novos partidos, Iniciativa Liberal e Chega. A esperança de Marcelo é que desta incerteza nasça uma alternativa. Mas nem aqui a vida que o espera será fácil.

Na noite eleitoral, antes de entrar na Faculdade de Direito onde discursou ao país, o Presidente andou às voltas de carro, sozinho ao volante, à espera de ouvir na rádio o que diriam Ana Gomes e André Ventura. E o grito de guerra lançado pelo líder da nova direita radical, após superar os 10% nas presidenciais — “o PSD não voltará a ser Governo sem o Chega” —, levou-o a enxertar no seu próprio discurso a seguinte frase: “Temos de fazer esquecer exclusões e xenofobias”. Marcelo sabe que o Chega lhe complica a vida e que, se só for possível uma maioria de direita com a ajuda de Ventura, ele próprio arrisca-se a ficar associado à chegada ao poder dos populistas radicais, que, antes de todos, alertou serem um perigo também em Portugal. Para se prevenir, avisou na campanha que, se um dia for chamado a dar posse a um Governo apoiado pelo Chega, exigirá garantias escritas. E lembrou que um Presidente da República pode sempre recusar ministros. Mas o que Marcelo também disse foi que a legitimidade dos novos partidos não está em causa uma vez legalizados e menos ainda pode estar em causa a legitimidade dos seus eleitores. A sua esperança é que, se a alternativa tiver de passar por aí, as novas lideranças à direita saibam tratar do assunto. Mas a deambulação solitária de Marcelo a ouvir Ventura via rádio é todo um programa.

E O PAÍS GOVERNA-SE?

O grande desafio deste segundo mandato passa, no entanto, por saber como Marcelo Rebelo de Sousa deixará o país depois de estar 10 anos no topo do Estado. Desde que lá chegou, em 2016, o Presidente matraqueou vezes sem conta que basta de vistas curtas e falta governar com um rumo reformista de médio prazo. E há um ano, dias antes de o país se confinar, convidado pelo “Público” para presidir a uma conferência sobre “Portugal, e agora?”, Marcelo foi claro: “Ou se faz um esforço em todos os azimutes, num quadro parlamentar mais fragmentado e com menos pontes, para que a governação seja mais estável nas opções e na base de sustentação, e também mais virada para mais do que a mera gestão diária, ou teremos a aventura, Orçamento a Orçamento e lei a lei, de coexistir em geometria variável. E o caminho não é esse.”

Um ano depois, a mensagem está mais atual do que nunca. A situação é muito pior, politicamente tudo está mais partido e instável, e o Presidente teme continuar a ver um Portugal bloqueado. Sobretudo se de futuras legislativas não sair uma maioria absoluta nem de esquerda nem de direita, capaz de criar condições para levar por diante o objetivo que ele próprio traçou em campanha: “Recriar o país de forma estrutural.”

No discurso da vitória, Marcelo disse ter percebido o que os portugueses não querem — “uma crise infindável, um empobrecimento agravado, um sistema político lento a responder a novos desafios” — e também o que os portugueses querem — “uma reconstrução que vá para além da mera recuperação”. E apontou como meta pós-pandemia virarmo-nos para “tudo o resto, que queremos tanto”. O resto não é coisa pouca. É “mais crescimento, menos desemprego, menos pobreza, mais justiça social, menos corrupção, mais reforma do Estado”. Uma revolução digna dos 50 anos de Abril, que coloca ao Presidente da República uma enorme dúvida existencial. Saber se, estando Portugal a viver um dos momentos mais dramáticos da sua história recente, ele próprio conseguirá, quando sair de Belém, deixar um país diferente para melhor.

Paulo Portas, que na noite das presidenciais esteve no papel de comentador televisivo, tratou de puxar por Marcelo e declarou que, sendo o segundo Presidente reeleito com mais força, ele ganhou óbvio “espaço de manobra”. Mas, se não tiver direita, se a esquerda, mais partida e confusa, também mirrar, e sem querer blocos centrais, Marcelo Rebelo de Sousa sabe que se arrisca a ver esse espaço de manobra esfumar-se sem que Portugal desencalhe e sem chegar a ver a sua família política no poder. É verdade que, como ele próprio lembrou por estes dias, o seu mandato são cinco anos e ao Governo já sobram menos de três. Mas nada garante que depois deste ciclo venham tempos mais promissores no que toca a dar um salto da governação à bolina para voos mais arrojados.

O Chega é um berbicacho neste mandato do PR. Sem ele, pode não haver alternativa. Com ele, Marcelo seria o primeiro a levá-lo ao poder.

Marques Mendes, cúmplice de Marcelo noutras eras do PSD e atual conselheiro de Estado, tem chamado a atenção de que “o país pode caminhar a passos largos para a tempestade perfeita: não haver condições para governar à esquerda e à direita, regressando o espectro dos Governos de curta duração”. E, num artigo que publicou recentemente, não encontrou título mais sugestivo do que “Boa sorte, Presidente”. Por estas e por outras, o coro dos que pedem a Marcelo Rebelo de Sousa que encare a hipótese de um Governo de salvação nacional não para de crescer, e o recente exemplo de Itália, onde Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, aceitou o convite do Presidente Sergio Mattarella para liderar um Governo de emergência nacional, leva à pergunta: porque não pensar em algo semelhante para Portugal? Marcelo nem quer ouvir falar nisso. Pelo contrário, espera que sejam os partidos a encontrar soluções mais robustas para o país. E José Miguel Júdice, outro ex-cúmplice de Marcelo nos velhos tempos do PPD, aponta à sua reeleição um dilema difícil de resolver: “Como é que ele vai harmonizar quem votou nele para que ele mudasse [o centro direita] com quem votou nele para que ele não mudasse [os socialistas]?”

Marcelo não garante nada, nem a uns nem a outros. Apenas promete ser fiel aos seus princípios e causas de sempre. Mas foi sibilino na conversa com Ricardo Araújo Pereira ao explicar o segredo do seu ‘casamento’ com António Costa: “É uma relação institucional que pode ter momentos afetivos. Não é uma relação afetiva que pode ter momentos institucionais”, afirmou.

E é com este pragmatismo que aguardará expectante o eventual regresso de Pedro Passos Coelho, com quem se deu mal mas que nem por isso exclui das suas apostas para um mais promissor xadrez político. Se Passos não vier e Rio e Costa continuarem a ser os protagonistas dos dois lados da barricada, Marcelo nem deseja nem acredita em entendimentos ao centro. E, se Costa não for a futuras legislativas e Pedro Nuno Santos lhe suceder, puxando o PS para a esquerda, talvez uma maior polarização ajude a encontrar soluções maioritárias. Se acontecerem à direita, Marcelo aplaudirá, ainda que com o olho no Chega. E, se forem à esquerda, poderá sempre repetir a velha frase do seu amigo Guterres: “É a vida.”

Num caso ou noutro, se há coisa de que Marcelo Rebelo de Sousa não prescindirá é da sua invulgar relação com o povo. E do desprendimento pelo poder, que garante genuíno. Perguntado em campanha sobre de que é que sentirá falta quando deixar Belém, respondeu: “Não sentirei falta de nada de especial.” E, quando ainda andava às voltas com o tabu da recandidatura, chegou a dizer: “Aos 10 anos [de mandato], temo já estar um bocado gasto.” É verdade que corrigiu num ápice que isso “não aconteceu com os demais PR, que saíram jovens”. Mas o seu grande desafio não é nem manter a juventude nem continuar popular. Com o país a viver a segunda crise da década e com o xadrez partidário em mudança, o desafio de Marcelo é, para memória futura, ir muito além do Presidente selfie. Conseguirá?


Ana Gomes pode resolver problemas a António Costa

(São José Almeida, in Público, 15/02/2020)

A antiga dirigente do PS e ex-eurodeputada Ana Gomes tem insistido na recusa de ser candidata nas eleições para Presidente da República previstas para Janeiro. Explicou que não quer e até justificou com o argumento de que o estatuto de candidata presidencial lhe iria “coarctar a liberdade que é essencial” para a sua “capacidade de intervenção cívica”. Intervenção cívica e política que lhe deu um raro currículo de luta em defesa da liberdade e dos direitos humanos e de denúncia e combate contra a corrupção pleno de “medalhas”: Timor, voos da CIA, submarinos, Angola, Iraque, imigrantes, refugiados, presos políticos.

Não é possível hoje saber se Ana Gomes vai manter a recusa em candidatar-se ou se acabará por ter de mudar de ideias e avançar para as urnas, devido a um movimento de apoio à sua candidatura que possa entretanto formar-se. Até agora, no universo do PS, só Francisco Assis e Henrique Neto defenderam claramente que o faça, e fora do partido, Rui Tavares, do Livre. Mas é de admitir que os apoios se densifiquem.

Uma coisa parece evidente, a candidatura de Ana Gomes resolveria diversos problemas a António Costa e ao PS quer nas presidenciais quer na futura relação com o actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, durante o exercício de um seu segundo mandato. Discordo, assim, de Ana Gomes, quando afirmou em entrevista à RTP3: “O primeiro-ministro, António Costa, jamais permitirá.”

É evidente que Ana Gomes nunca poderá surgir como a candidata apoiada oficialmente pelo PS. Nem ela nem nenhum outro militante socialista ou personalidade dessa área política. Primeiro, pela necessidade de António Costa ser coerente em relação às presidenciais de 2016, em que não apoiou nenhum candidato, assumiu a liberdade de voto e os dirigentes e militantes dividiram-se entre Maria de Belém Roseira, Sampaio da Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. Sendo que agora os dirigentes de topo do PS poderão vir a integrar as comissões de honra de duas candidaturas. Uns, a de Marcelo Rebelo de Sousa. Outros, a de Ana Gomes ou de outra personalidade de esquerda democrática que venha a candidatar-se.

Em causa está também a necessidade de António Costa e do PS não hostilizarem directamente Marcelo Rebelo de Sousa, com quem terão de conviver institucionalmente, pelo menos até ao fim desta legislatura. É dos livros que, num segundo mandato, o Presidente da República adquire sempre um perfil mais interventivo e fiscalizador do Governo. E a última coisa de que António Costa e o seu Governo de maioria relativa — embora confortável nos seus 108 deputados, num Parlamento fragmentado — precisam é de afrontar directamente a recandidatura do actual Presidente da República, abrindo a porta a uma relação tensa no futuro. É por isso que considero ser impossível uma candidatura, por exemplo, de Carlos César, que é presidente do PS. Tal surgiria como uma provocação directa a Marcelo Rebelo de Sousa por parte do partido liderado pelo primeiro-ministro, António Costa.

Este é o aspecto mais importante em que a candidatura de Ana Gomes resolveria um problema a António Costa: o peso e a legitimidade eleitoral com que o actual Presidente da República pode vir a ser reeleito. É sabido que, quanto maior for a percentagem de votos obtida por Marcelo Rebelo de Sousa, mais força ele terá para exercer o segundo mandato e afrontar o Governo. E não é segredo para ninguém que a maior consagração do actual Presidente da República seria aumentar os 52%, que teve em 2016, e atingir uma percentagem superior aos 70,35% dos votos conquistados por Mário Soares, na sua reeleição em 1991, quando Cavaco Silva, líder do PSD e então primeiro-ministro, se limitou a não apoiar ninguém e a deixar subentendido o apoio a Mário Soares.

Ora, com uma candidata claramente oriunda do PS, como Ana Gomes, ainda que apoiada por um movimento de cidadãos, haveria espaço para o debate das ideias socialistas e para estas marcarem a campanha. Tal como seria nítida a possibilidade de Ana Gomes atrair eleitores que terão tendência a votar em Marcelo Rebelo de Sousa se não houver um candidato da área do socialismo democrático. E basta a Ana Gomes um honroso resultado entre os 15% e os 20% para estragar a festa a Marcelo Rebelo de Sousa e cumprir uma missão política que favorece o PS.

Além de que Ana Gomes poderá ir buscar votos ao eleitorado do BE e do PCP. Esvaziando assim também a possibilidade de crescimento de Marisa Matias, que em 2016 teve 10,12%, ou de outro candidato mais à esquerda. Não é por acaso que a hipótese da candidatura de Ana Gomes assusta o BE, e Francisco Louçã até já a classificou como “oportunista de circunstância”, na entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença.

Tudo boas razões, do ponto de vista de António Costa, para o primeiro-ministro e líder do PS dormir descansado com a hipótese de Ana Gomes mudar de ideias e, perante um eventual movimento de apoio que se forme, vir mesmo a candidatar-se às presidenciais de Janeiro de 2021.


Foi-se o “tirano” ficou o “pai” 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/01/2018)  

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Também no mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, que esta quarta-feira completou dois anos, há um antes e um depois dos incêndios. Antes, era a solidariedade institucional, o que o levou a ser muito criticado por políticos e comentadores de direita enquanto era amado pelo povo de direita. Depois, vieram os recados e pequenas farpas para o Governo, o que o leva a ser criticado por políticos e comentadores de esquerda enquanto é amado pelo povo de esquerda. Há, no entanto, traços comuns ao antes e ao depois. São os que interessam. Não estando dependentes de ciclos políticos, são eles que nos dizem o que esperar dos próximos anos.

A definição mais consensual para este Presidente tem sido a do “Presidente dos afetos”. Não seria difícil este perfil depois de um Presidente distante, crispado, autoritário e autossuficiente. Marcelo compreendeu bem o temperamento português. Mais do que a bonomia de Soares, que também era a seu tempo apreciada e de que Marcelo também é um bom exemplo, o atual Presidente destaca-se como ombro amigo no momento de dor e sofrimento. Não preciso de apelar aos clichés sobre os portugueses para sublinhar o óbvio: a alma pátria pela-se por uma boa choradeira. E Marcelo está lá sempre. Mesmo não acreditando em categorias identitárias emocionais para definir um povo – e eu não acredito –, os mitos ajudam a criar uma estética. O papel de José na manjedoura, que as gentes que mais sofreram com os fogos lhe reservaram neste Natal, ajuda a explicar que lugar ocupa Marcelo no imaginário nacional.

O vínculo emocional que une o Presidente aos portugueses é intrinsecamente positivo. Não há liderança democrática sem ele. Não há, aliás, liderança sem empatia. A democracia não é apenas um conjunto de regras e processos, apesar de eles serem um elemento central da sua legitimidade. É também uma adesão voluntária que depende de uma ligação emocional entre representantes e representados. Ter, na Presidência da República, alguém de que as pessoas gostam (e não apenas que apoiam) é bom para as instituições democráticas. Mas este magistério emocional tem riscos.

O primeiro risco é o de retirar a racionalidade da política. Diz-se que Margaret Thatcher terá afirmado, um dia, que as pessoas já não queriam saber o que os políticos pensavam, só queriam saber o que os políticos sentiam. Não sei se o disse mesmo. Espero que sim, ou terá sido em vão que várias vezes citei tão sinistra figura. A forte mediatização da política, com um peso crescente da importância da imagem, torna a parte emocional e sensorial da dramatização política cada vez mais relevante. Marcelo tem levado isso até às últimas consequências – e não sei se sempre com ganho do debate político. Temos a sorte de estarmos perante um Presidente comprometido com os valores democráticos. Mas a verdade é que raramente ele apela à racionalidade do debate, quase sempre opta pela vinculação estritamente emocional à sua pessoa. Talvez seja assim com todas as lideranças carismáticas. O único problema é se elas não nos querem levar para lado algum a não ser para si mesmas. Temo que seja o caso.

O segundo risco tem a ver com este: Marcelo Rebelo de Sousa parece ser escravo da sua própria popularidade. A popularidade é o elemento fundamental de um político que dependa do voto. É ainda mais importante num Presidente da República, cuja latitude de poderes está limitada e depende em larga escala da sua capacidade de influência. Mas por vezes temos a sensação que, mais do que ter uma agenda própria, Marcelo a adapta aos humores, indignações e paixões coletivas de cada momento. Que Marcelo não lidera a opinião pública, é liderado por ela. Que é uma espécie de eco das redes sociais sem os insultos. Até agora isso não foi um problema. Mas tenho curiosidade para ver o comportamento de alguém que precisa de ser adorado se alguma vez tiver de contrariar o sentimento geral. No caso do financiamento dos partidos prescindiu, como então escrevi, de qualquer esforço pedagógico. Mas tinha, neste caso concreto, boas razões para o veto. Veremos como se comporta quando a emoção nacional e a razão política estiverem em evidentes campos opostos.

O terceiro risco é a banalização. Marcelo está em todo o lado, comenta tudo, tudo lhe merece igual atenção. Também nisto ele corresponde ao tempo que vivemos, marcado pelo fim da intermediação e correspondente hierarquização. É um Presidente que se entrega facilmente ao imediatismo, correndo riscos de que a sorte o tem salvo. O único caso caricato foi mesmo o da Cornucópia, quando, totalmente descoordenado do Governo, decidiu deslocar-se ao teatro para prometer o que não podia. Como eram coisas da cultura ninguém ligou muito. Mas um dia pode ser pior. Ainda assim, o Presidente da República, que é tudo menos parvo, tem mostrado que sabe quando não pode pisar ramo verde. O seu silêncio obstinado no caso da recondução da Procuradora Geral da República demonstra que a banalização da sua palavra não é um descuido, é uma escolha. Mas é um caso fácil, porque ele sabe à partida a relevância que virá a ter. Outros são mais imprevisíveis. E é difícil ter a última palavra quando se teve a primeira, a segunda e a terceira.

Por fim, há o risco de o árbitro se querer transformar num treinador. Cavaco correu esse risco, e o resultado foi desastroso. Não será por Marcelo ser muito mais popular que o perigo desaparece. O nosso sistema semipresidencial é, na realidade, semiparlamentar. O Presidente é o “chefe de Estado” mas tem, pelas suas funções, menos protagonismo político do que Governo e Parlamento. É verdade que o seu poder de influência, mais relevante do que os seus poderes constitucionais, depende, como o anterior Presidente tão amargamente descobriu, da sua capacidade de trasvazar as barreiras políticas e partidárias da sua eleição. Marcelo conseguiu e isso até levou, no primeiro ano do seu mandato, ao risco de termos um governo sob tutela presidencial pelo seu excessivo apoio. É compreensível que Marcelo queira ampliar a sua base de apoio. Qualquer político quer. A questão é saber se, por nunca sair do palco, isso não cria entorses no sistema.

Marcelo sucedeu ao mais impopular dos Presidentes e é impossível olhar para o tipo de intervenção que escolheu para si sem perceber que herdou uma instituição com a imagem degradada. Tínhamos um Presidente que nos sufocava com os seus sermões, passámos a ter um Presidente que nos sufoca com os seus abraços. Em qualquer dos casos, temos figuras tutelares e paternais. Não simpatizo com nenhum dos registos, mas convenhamos que o segundo é mais simpático do que o primeiro.

E que a transição do primeiro para o segundo devolveu à Presidência da República o prestígio que teve desde 1976 e que apenas Cavaco Silva interrompeu. Num tempo de crise das instituições democráticas isso só pode ser bom.