(Nicolau Santos, in Expresso, 31/10/2015)
Uma das teses que corre por aí é que um Governo apoiado por forças de esquerda a primeira coisa que fará é nacionalizar a banca, de acordo com afirmações de 2009 do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa (que propôs a medida para evitar mais casos polémicos no sector), e o que estava no programa eleitoral do Bloco de Esquerda, onde se defendia o mesmo ou, em alternativa, colocar a banca na dependência de políticas públicas. Contudo, talvez estes alertas devessem ter sido feitos a propósito do governo PSD/CDS liderado por Passos Coelho. É que se houve alguém que tenha nacionalizado largamente a banca desde 1975 foi o Governo liderado por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas
Vejamos com factos e números para não haver dúvidas. À Caixa Geral de Depósitos, o Estado português emprestou €900 milhões e fez aumentos de capital no valor de €750 milhões, num total de €1650 milhões. Até agora, a Caixa, que foi obrigada a engolir o BPN e se arrisca a que lhe aconteça o mesmo com o Banif, ainda não devolveu nem um cêntimo desses €900 milhões. Quanto ao BCP, recebeu uma ajuda de de €3000 milhões, dos quais já pagou 2250 milhões. Faltam portanto 750 milhões. O BPI pediu 1500 milhões e foi o único que já devolveu tudo. O Banif foi capitalizado em €1100 milhões, dos quais €700 milhões colocados diretamente no capital do banco e €400 milhões em empréstimos, dos quais ainda faltam €125 milhões. E no Novo Banco o Estado português colocou, como se sabe, através do Fundo de Resolução, a módica quantia de €3900 milhões.
Atualmente, o Estado é dono do primeiro e do terceiro maiores bancos portugueses e é forte credor do segundo
Ou seja, neste momento o Estado português, que emprestou ou capitalizou a banca em €11.150 milhões entre 2011 e 2014, é dono a 100% do primeiro e do terceiro maiores bancos portugueses (Caixa Geral de Depósitos e Novo Banco), controla 60% de outro (Banif) e tem ainda uma posição nada despicienda enquanto credor no segundo maior banco nacional, sendo bom não esquecer que se essas instituições não conseguirem pagar o que devem, o Estado passa a acionista de facto.
E toda esta vasta nacionalização do sistema financeiro português aconteceu durante os quatro anos de governação da coligação PSD/CDS. Factos são factos. Por isso, agitar o papão de que um Governo apoiado por forças de esquerda pode nacionalizar a banca é uma piada porque, na verdade, o Estado português é dono atualmente de mais de 40% do sistema bancário — e não só vai ter de subscrever um novo aumento de capital na CGD, como encaixar prejuízos vultuosos com o Novo Banco e com o Banif (que pode ter de ser engolida pela Caixa).
Uma última nota para dizer que a escolha de Sérgio Monteiro para liderar a venda do Novo Banco é excelente. Tem dois pequenos problemas: 1) é a confissão que o Banco de Portugal falhou em toda a linha na sua estratégia de uma venda rápida, sem consolidação da instituição e por um preço próximo dos €3900 milhões; 2) é a confissão de que o processo sempre teve mão do Governo e que vai continuar a ter até ao fim.
O escândalo da sobretaxa
Devido à situação política, tem estado a passar entre os pingos da chuva o que se passou com a anunciada devolução da sobretaxa de 3,5% sobre o IRS. Pois bem, no verão começámos a ter notícias de que, a cada mês que passava, aumentava a percentagem da taxa que seria devolvida aos contribuintes. Em agosto já ia em 35% e passavam-se mensagens de que seria possível devolver 50%. E eis que se chega às eleições, e eis que a coligação ganha, e eis que poucos dias depois sabemos que afinal já só é possível devolver pouco mais de 9%. Ou seja, em vez de 3,5%, podemos ficar a pagar 3,2%, O pequeno problema de tudo isto é que desde fevereiro, pelo menos, que o Ministério das Finanças sabia destas flutuações de mês para mês. E por isso nada disse, a não ser nos três meses antes das eleições, quando a receita cresceu de forma sustentada. Agora veio o balde de gelo. A isto chama-se manipulação. Enganar os cidadãos. Ou outros nomes feios. Avisem-nos para sairmos da sala quando nos vierem dar lições de ética.
Snacks e compotas
Portugal tem uma rica gastronomia, mas não é reconhecida pelos seus snacks. Pois bem, a Hot Nuts, uma empresa de Gaia, desenvolveu a “Cup Sensations”, para ser comercializada em hotéis e que está já presente nos EUA, Emirados Árabes e Bélgica. Nas compotas, a Quina de Prisca ou a Frulact disponibilizam produtos gourmet. Há seguramente mais exemplos. Mas estes mostram que cada vez mais as empresas apostam na inovação e qualidade para ganhar os mercados externos. É por aí que temos de ir.
A debandada de Angola
Primeiro foi o BCP, agora o BPI: a banca portuguesa, que até agora era dominante no mercado angolano, está a bater em retirada. O Millennium Angola fundiu-se com o Banco Privado Atlântico e o BCP passa a deter apenas 20% da nova entidade; o BPI, que consegue ali 70% dos seus lucros, está a ser obrigado pelo BCE a perder o controlo do Banco de Fomento. Se a isto se juntar que a Sonae decidiu abandonar o mercado angolano; e que a Somague e a Unicer anunciaram despedimentos em Portugal devido à quebra de obras e de consumo naquele pais constata-se, com luminosa nitidez, que as grandes empresas portuguesas começam a perder peso em Angola. Tem muito a ver com a quebra do preço do petróleo. Mas tem também a ver com o Estado paralelo que José Eduardo dos Santos construiu e que está demolidoramente descrito em “Magnífica e Miserável”, livro do investigador Ricardo Soares de Oliveira. É um poder insaciável, que cilindra quem se lhe opõe e que teria deixado morrer Luaty Beirão sem pestanejar.
O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr num dia a eternidade a germinar lentamente, isso sim, isso seria uma das formas de esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar o desgosto que nos trouxe a esta sala.
Procura apaziguar a biologia, os fluxos e refluxos que a animam, a prometida destruição.
Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida. Tem por ofício prognósticos humildes, uma cronologia de sábios gestos que o uso torna incertos e verdadeiros ou verdadeiros e incertos (a ordem dos termos tornou-se arbitrária).
A esperança é uma hipótese que anotámos no caderno mais próximo, esse que está em cima da mesa aguardando uma visita de acaso.
Luís Quintais, in ‘Um animal com penas’, in “Arrancar penas a um canto de cisne, Poesia 2015-1995”, Assírio & Alvim, outubro 2015 (1ª edição)


