A tradição já não é o que era

(Daniel Oliveira, in Expresso, 31/10/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

A tradição diz que os comunistas organizam manifestações à hora certa, em feriados e fins de semana marcados, e voltam para casa ordeiramente. A tradição diz que os bloquistas tratam de causas pós-modernas, jovens e urbanas, apanham o eleitorado socialista quando ele se irrita e devolvem-no intacto nas eleições seguintes. A tradição diz que os socialistas pedem aos eleitores de esquerda o voto útil para impedir a vitória da direita e depois das eleições conversam “responsavelmente” com o PSD. A tradição diz que uns partidos protestam e outros governam. Quem contesta está entretido, quem manda está descansado. Só que a tradição já não é o que era. Tirando no atípico parlamento de 1985, em que o PRD baralhou o jogo partidário e esquerda e direita ficaram em minoria, é a primeira vez que de um lado está o partido que ficou em primeiro e do outro está uma maioria política. E foi este facto novo que abalou tudo o que resultava de um contexto político que durou 40 anos: que era o líder do partido com mais votos que governava, que era o candidato do partido com mais deputados que presidia à Assembleia da República.

Não é por falta de respeito pela tradição que as coisas mudaram. É porque seria politicamente insustentável cumprir estas pretensas tradições: um governo não pode governar quando a maioria do Parlamento a ele se opõe. Mas não é só uma questão de aritmética eleitoral. Houve mudanças políticas. Nos últimos quatro anos o PSD radicalizou-se de tal forma que rompeu a tradicional ponte que mantinha com o PS. Passos Coelho foi tão violento que todos os que não votaram nele são os que se querem ver livres dele. As coisas foram tão duras que o eleitorado do BE e do PCP exige, como nunca exigiu, que os partidos de esquerda se entendam.

Quem quebrou a tradição foi o PSD, que abandonou a sua matriz ideológica original — conservadora, com preocupações sociais, estatista e ligada à pequena burguesia nacional — e se alinhou a um discurso ultraliberal sem qualquer tradição em Portugal. Foram quatro anos de radicalismo ideológico e arrogância política que quebraram os consensos ao centro e provocaram esta reação.

Para forçar a tradição quando a tradição já não faz qualquer sentido, todas as esperanças da direita se depositaram no símbolo máximo do que foram os últimos 40 anos. Ele, que esbanjou quando havia muito para gastar e fez o discurso castigador quando o dinheiro faltou, ele, supremo representante da política ao serviço de uma elite económica rentista, havia de trazer a tradição de volta. Só que o destino deixou o Presidente sem poderes quando ele mais os queria. Depois da sua gritaria desastrada, que uniu a esquerda, depois da ideia do governo de gestão por oito meses morrer antes de nascer, sobra-lhe a última e derradeira chantagem: apresentar aos partidos de esquerda o mesmo papel que PSD e CDS queriam que eles discutissem, para se desentenderem, no Parlamento. Exigir da esquerda uma inútil e conjunta jura de amor ao euro, ao Tratado Orçamental e à NATO. Se Cavaco ainda não se rendeu, PS, BE e PCP têm uma semana para decidir como escapam à armadilha de um Presidente que não está aqui para arbitrar. Está aqui para garantir que a tradição ainda é o que era.

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Um pensamento sobre “A tradição já não é o que era

  1. Caro Daniel Oliveiro,
    Só quero que a tradição e os seus representantes vão ao diabo… e tem razão ao dizer que os eleitores de esquerda nos quais me incluo, exigem dos três partidos que se entendam, porque tê a responsabilidade de sair o pais desta situação.

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