A UE terá de reduzir o bem-estar social para financiar a guerra

(Entrevista a Michael Hudson e Richard Wolff, in Resistir, 23/03/2025)

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NIMA ALKHORSHID: Olá a todos. Hoje é quinta-feira, 6 de março de 2025, e os nossos amigos Richard Wolff e Michael Hudson estão de volta connosco. Sejam bem-vindos.

RICHARD WOLFF: É um prazer estar aqui.

MICHAEL HUDSON: É bom estar aqui.

NIMA ALKHORSHID: Vamos começar, Michael, com o artigo do Financial Times que diz que três países europeus, França, Inglaterra e Alemanha, anunciaram que vão tornar inoperante qualquer acordo alcançado entre Donald Trump e Vladimir Putin. O que é que isso significa, Michael?

MICHAEL HUDSON: Bem, significa duas coisas. Por um lado, querem rearmar a zona euro, basicamente.

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A União Europeia é o reino da incoerência

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 18/03/2025)


Haverá algum momento em que a Europa comece a pensar em si própria? Ou será incapaz do o fazer?


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Macron veio avisar Vladimir Putin de que ESTE “tem de aceitar o cessar fogo”. Já von der Leyen diz estar agradada com a receptividade ucraniana ao cessar-fogo (), enquanto Scholz também não tem dúvidas ao classificar a proposta como uma parte do processo para um acordo mais sólido. Todos eles secundaram, apropriaram, copiaram e reenviaram a declaração de Marco Rubio, quando disse que “a bola está no campo da Rússia”.

Tudo estaria muito bem, não fossem os próprios a dizer o contrário do que agora repetem. Não faltam declarações dos mesmos “líderes” dizendo, há uns meros meses atrás, que não era ainda tempo para negociações de paz, nomeadamente afirmando que não havia qualquer propósito em negociar com Vladimir Putin, ou que apenas Zelensky poderia negociar pela Ucrânia.

A conclusão fundamental é que não podemos confiar minimamente no que esta gente diz. Se até à vitória de Trump a palavra de ordem era a “paz através da força” e até ao último ucraniano, logo a seguir à vitória de Trump, a ordem era a de que teria de ser Zelensky para negociar com os russos. Agora, é Macron o primeiro a dizer que o cessar-fogo negociado, não por Zelensky, mas pelos EUA, é efectivamente para implementar. O coro de crianças adultas que ocupam lugares no topo da política europeia logo se fez ouvir, repetindo a deixa até à exaustão. Se antes disseram o contrário, não o deveriam ter levado a sério.

Não é de admirar, portanto, que estes efusivos defensores do euro-atlantismo e da União Europeia, tenham sido os próprios, através das curvas e contracurvas no seu comportamento, a fazerem perigar o que tanto diziam amar, a NATO e a UE. Os responsáveis políticos pela UE e pela maioria dos seus estados membros, muito pouco fizeram para defender a natureza “euro-atlântica” do projecto ucraniano, não exigindo aos EUA a assunção das suas responsabilidades no assunto.

Desta forma, não foi apenas como meros assistentes – quase como todos nós – que presenciaram toda uma estratégia, por parte da administração Trump, no sentido de afastar os EUA, ou apenas a sua pessoa, em relação ao projecto ucraniano, como se comportaram como bons alunos, quando Trump anunciou que os EUA não continuariam a enterrar dinheiro na Ucrânia e que teriam de ser os europeus a assumir, de ora em diante, as responsabilidades. Nem por uma vez se lembraram de quem arrastou a Europa toda para esta confrontação, nem tão pouco da alegada importância que tem, para a NATO e a sua existência, a situação de dependência militar da União Europeia. Como nos venderam de forma repetida que sem os EUA a Europa não se poderia defender, daí as bases da NATO no continente europeu.

Assim, tomando como verdadeiras as afirmações segundo as quais a União Europeia necessitava do “amigo” norte-americano para se defender, todos pudemos constatar que os europeus se mostraram muito pouco preocupados com a nossa defesa colectiva.  Contraditório? Nem um pouco. Após o anúncio da desistência dos EUA face ao projecto ucraniano e da reunião em Bruxelas participada por Peter Hegseth, exigindo este que a Europa gastasse mais em defesa e se assumisse como capaz de se defender, de forma tão maquinal como disciplinada, logo von der Leyen anunciou um “massive boost” nos gastos da defesa.

Na aparência, este aumento “massivo” pode cumprir muitos objectivos presentes e futuros, mas não liberta a UE e o Reino Unido da contradição discursiva em que caíram: se a ameaça russa é actual, imediata e certa, então as acções de von der Leyen, António Costa, Kaja Kallas, Macron ou Starmer não resolvem minimamente esse problema. Nada do que foi anunciado resolve o que quer que seja quanto à alegadamente “iminente” ameaça russa. Nem sequer atirar com 150 mil milhões de euros para cima da fogueira de corrupção ucraniana, pois já todos vimos que o dobro desse dinheiro não impediu a derrota de Kiev. Nem tão pouco os restantes mais de 600 mil milhões de euros a acumular ao mais de 400 mil milhões que se gastarão em 2025 e aos mais de 600 milhões de 2026.

Portanto, ou a ameaça russa não é tão “iminente” ou evidente como nos quiseram vender, ou então, sendo verdade o que nos venderam, de que a Europa não se podia defender sozinha contra a Federação Russa, e que, por essa razão, a NATO era mais importante que nunca, o afastamento dos EUA em relação ao projecto ucraniano e a transferência para os países europeus do esforço necessário para o compensar, deveria ter provocado, por parte dos “líderes” europeus, uma atitude contrastante com a atitude de aceitação, imediata, do desafio de Peter Hegseth, Trump, Marco Rubio ou JD Vance.

Esperar-se-ia, por parte dos líderes europeus, uma atitude profundamente divergente com as que foram tomadas, pois deveriam ter exigido a Trump a assunção das suas responsabilidades enquanto presidente dos EUA, obrigando-o a honrar os compromissos estabelecidos com as administrações anteriores. E deveriam tê-lo feito, não apenas por razões de coerência discursiva, mas por razões relacionadas com a protecção dos próprios povos europeus, pelo menos, tendo em conta tudo o que nos têm dito, repetida e extenuadamente, ao longo do tempo. E o facto é que os dirigentes europeus tinham ao seu dispor os instrumentos para exigir a Trump tal comportamento.

Se a ameaça russa é realmente verdadeira, acima de tudo o resto, assistimos a um nível de irresponsabilidade brutal, uma vez que a UE deixa os povos europeus desprotegidos perante tal ameaça. Afinal, embora a UE tenha vindo a aumentar os gastos com a defesa a um ritmo muito elevado, a intenção de construir todo um complexo militar-industrial europeu e produzir as armas necessárias à estratégia de defesa conjunta, esbarra em obstáculos fundamentais e inexoráveis: desde logo, o tempo que demora a montar tudo isso não joga com o discurso de urgência e imediatismo que é vendido, quer em relação à necessidade de organização de todo o aparelho necessário, quer em relação à urgência que os EUA mostram em querer abandonar o projecto ucraniano;  para além do tempo que normalmente seria necessário para construir um complexo desta natureza, forte o suficiente para fazer face a um dos dois melhores exércitos do mundo, a UE necessita de trabalhadores, algo que tem cada vez menos, e também de energia e matérias primas em quantidade e a baixo custo. Algo que também não possui.

Tempo, escassez de recursos, associados ao seu custo elevado, conduziriam, a materializar-se toda a estratégia, a um insuficiente output, alicerçado em armas caríssimas e em baixo número. O que não deixaria, contudo, de constituir um enorme jackpot militar. Mas tudo feito sob uma imensa pressão social, que se sentiria caso a Federação Russa começasse a anexar países da UE como se derrubam peças de um dominó. Algo que, para se acreditar, obriga a ser muito crente. Mas cuja pressão jogaria com a narrativa que nos tem tomado as notícias mainstream.

Para além da irresponsabilidade de não protegerem os interesses de segurança da União Europeia, exigindo a Trump outro comportamento, não pouparam o modelo social europeu, o modo as condições de vida dos povos da Europa comunitária. Bem sei que a burocracia de Bruxelas não é eleita, mas a exigência da assunção das responsabilidades assumidas, por parte dos EUA, seria a atitude que mais coerência mostraria em relação a todo o discurso repetido.

Como disse atrás e, ao contrário do que se pensa, a UE teria todos os instrumentos ao seu dispor. Primeiro, deveria ter sugerido que os EUA retirassem ou reduzissem as suas bases militares do continente europeu, uma vez que a sua manutenção já não é considerada necessária, dado que a intenção da administração Trump é a de transferir para a Europa as responsabilidades com a sua própria defesa; segundo, se a existência da própria NATO se baseia no pressuposto de que a Europa não se consegue defender sozinha, uma vez que o objectivo passa por ultrapassar essa lacuna, então, devemos questionar para que serve a NATO; terceiro, a UE deveria ter feito pressão, esgrimindo a intenção de não comprar armas aos EUA, impedir os EUA de Trump de lucrarem com o rearmamento da UE, o que seria uma facada enorme na suposta estratégia de recuperação da industria norte-americana.

Mas, para além destas exigências, as quais, só por si, já não seriam coisa pouca e fariam Trump e comparsas repensar toda a estratégia, a UE, face à contingência de ter de enfrentar um período, durante o qual a população europeia, supostamente e tendo como verdadeiro o discurso dos “líderes” europeus – que nunca mentiriam, certo? -, teria de ficar desprotegida em relação à ameaça russa, o que é que se exigiria, ainda, aos representantes da União Europeia, se tivessem o bem-estar dos povos europeus na mente e estivessem na posse da sua espinha dorsal? O suposto seria que ameaçassem com uma aproximação – mesmo que táctica e temporária – à Federação Russa, como forma de mitigar tal perigo e, a considerarem-no verdadeiro, assumiriam a iniciativa nas negociações de um acordo de paz na Europa e um novo regime de segurança neste continente.

Com uma atitude deste tipo, não apenas os “líderes” europeus exigiriam a Trump que viesse a jogo e mostrasse as suas cartas – assumindo aqui uma terminologia trumpista – como o obrigariam a desvendar em que medida era, de facto, a favor da paz na Europa, ou se, ao invés, será apenas a favor da normalização possível das relações EUA/Federação Russa, mas mantendo a UE longe dessa solução. Ou seja, os EUA seriam obrigados a desvendar que o que pretendem é uma espécie de dois em um: relações normalizadas com a Federação Russa e relações desavindas entre a UE e o Kremlin, garantindo que as compras de gás, petróleo, armamento, se continuam a fazer a ritmos ainda superiores.

Se isto tudo não chegasse e os EUA se mostrassem, ainda, irredutíveis, a UE jogaria a cartada final: ameaçaria com a entrada na Belt and Road Initiative (Novas Rotas da Seda) da República Popular da China, prometendo aprofundar as relações entre os dois blocos, atingindo assim todos os desideratos pretendidos: reindustrialização; mitigação da ameaça russa face à ligação entre a Federação Russa e a China; recuperação económica; criação de condições efectivas para uma politica de defesa conjunta mais sustentável, eficaz e eficiente. E faria tudo isto protegendo o que deveria ser considerado mais importante numa suposta democracia: as condições de vida das populações. Tal cartada deixaria Washington e a administração Trump absolutamente desconcertados.

Mas porque razão não defenderam, os “dirigentes” europeus, o modelo de segurança que garantiu paz na maioria dos países durante 80 anos e o status quo do modelo social europeu?

A ser verdade o discurso dos “líderes” europeus e as intenções de Trump, nunca a União Europeia poderia permitir tal afastamento dos EUA e a criação de um vácuo temporal de segurança, durante o qual os estados membros da UE estariam, alegadamente, vulneráveis perante a sua principal ameaça. Aliás, a ser verdade que as intenções de Vladimir Putin passam por invadir a UE, então, nesta fase em que o exército russo cilindra a Ucrânia e se afirma como uma poderosa máquina de guerra, o que o impediria agora de continuar o caminho até, pelo menos, ao Danúbio?

Se os EUA se afastam da defesa da Europa fazem-no por uma razão óbvia: a necessidade de enfrentarem uma China cada vez mais poderosa e proeminente em todas as áreas. Perante a imensidão da tarefa, Trump tomou uma decisão táctica de entregar à União Europeia a defesa face à Federação Russa, não se importando, para tal, de provocar disrupções operacionais na defesa ucraniana. Para poder direccionar os EUA para o Pacífico e “defender” Taiwan, Trump está disposto a deixar cair a Ucrânia, entregando o encargo aos europeus.

Esta situação é tremendamente difícil para os europeus, pois se Trump está em condições de abandonar a Ucrânia sem dano de maior para os EUA, o mesmo não se passa com a União Europeia. Depois de três anos de russofobia, censura de imprensa russa, perseguições a cidadãos russos, eleições banidas e muitas sanções, como recuar de repente? Afinal, ao contrário da UE, Trump sempre disse que, com ele, não haveria guerra na Ucrânia. Uma decisão táctica excepcional, que agora permite aos EUA deixar mais um rasto de destruição para trás, sem serem minimamente responsabilizados e ainda engordando os cofres com o saque proporcionado à Blackrock, Monsanto e outras.

A verdade é que esta posição da UE, aparentemente, é extremamente vantajosa para os EUA: 1. Permite aos EUA uma saída airosa do buraco em que entraram, deixando a União Europeia no seu lugar de assediador da Federação Russa; 2. Garante a aceleração do aumento dos gastos militares, tal como Trump havia exigido; 3. Mantém a UE de costas voltadas para a Federação Russa, chegando ao ponto de a própria Alemanha querer impedir o retorno do gás via Nord Stream; 4. Para já, nenhum “líder” europeu colocou em causa a NATO, permitindo aos EUA manterem a sua supremacia estratégica no continente europeu.

Para além disso, uma vez que a estratégia UE/EUA passa, agora, por libertar as forças militares norte-americanas para o empreendimento do Pacífico, esta realidade acaba por colocar a União Europeia numa situação muito periclitante. Ao mesmo tempo que necessita de investimento, componentes e produtos finais baratos, pelo menos para poder manter um certo nível de proficiência económica, tal investimento e materiais só podem vir da China, país que já está a sentir maior pressão por parte dos EUA, estratégia na qual a UE é parte também. É como se a União Europeia estivesse a colher frutos de uma árvore e, ao mesmo tempo, lhe cortasse a raiz, garantindo que, num futuro próximo morrerá de fome. O que tem feito, aliás, com a Federação Russa.

Não estamos, portanto, só a assistir às mudanças constantes no discurso europeu, consoante o interlocutor na Casa Branca, como assistimos a uma incapacidade total dos supostos políticos que elegemos, em defender o que se designa como “modo de vida europeu”.

Se prescindem assim tão facilmente das suas crenças e objectivos, prescindindo das armas políticas à sua disposição, como poderemos dormir descansados sabendo que somos governados por gente sem princípios alguns? Haverá algum momento em que a Europa comece a pensar em si própria? Ou será incapaz do o fazer?

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O telefone vermelho

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 23/03/2025)

Zelensky e os seus amigos europeus desdenharam sempre obter um acordo de paz quando a Ucrânia estava numa posição bem mais favorável e agora estão dependentes das condições ditadas por Putin e da vontade de Trump.


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e uma guerra nuclear entre as duas grandes potências mun­diais terminaria com a destruição mútua de ambas e o extermínio de dois terços da Humanidade, parece evidente que não há outra solução que não o entendimento entre elas visando a renúncia recíproca à utilização de armas nucleares. A isto chamámos durante décadas o “equilíbrio do terror”, que garantiu que por mais ogivas nucleares que Estados Unidos ou União Soviética acrescentassem aos seus arsenais elas não eram para ser usadas, mas apenas para servirem como factor de dissua­são. Foi assim possível, mesmo nos mais tensos momentos da chamada Guerra Fria, chegar a acordos que limitavam o número de ogivas ou de mísseis intercontinentais de cada lado — os tratados SALT I e II e START — e de manter, em última instância, uma via aberta de diálogo directo entre os Presidentes dos dois países: o “telefone vermelho”. E assim vivemos quase 50 anos, no fio da navalha mas em paz, até que Margaret Thatcher pressentiu em Mikhail Gorbatchov a intenção de pôr fim à União Sovié­tica. Seguiu-se aquilo que eu considero o maior erro estratégico do Ocidente: sobre as ruínas da URSS e a liberdade reconquistada pelos seus países satélites, pegar nestes e utilizá-los para expandir a NATO cada vez mais para leste em direcção à Rússia. Hoje, uns garantem-nos que Putin quer voltar a 1991 e reconquistar todos os países aos quais a Rússia então restituiu a independência, ressuscitando sob a sua alçada o antigo Pacto de Varsóvia, enquanto outros vão mais longe e asseguram que ele quer conquistar a Europa inteira: não é invenção, é a doutrina dominante entre os actuais líderes europeus e da União Europeia (UE). Eu acredito antes que ele é, sim, um nostálgico do Império Russo tal como Catarina, a Grande, o delimitou, incluindo nele a Crimeia, a Ucrânia e os demais países vizinhos que têm uma história ou uma população ainda ligada à Rússia. A sua célebre frase, tantas vezes citada, de que “o fim da ­União Soviética foi a maior catástrofe do século XX” é sempre truncada, omitindo a continuação da frase, em que ele justificou a afirmação com o facto de a extinta União Soviética ter abandonado russos à sua sorte nos países de onde se retirou. Talvez seja um bocado isso que ele agora tenta resgatar. Mas isso agora não vem ao caso.

O que interessa agora é perceber qual é a situação actual e como é que, a partir dela, será possível ou não restabelecer com a Rússia relações que afastem o clima de guerra iminente ou prometida em que estamos e, de caminho, conseguir o melhor acordo de paz possível para a Ucrânia — se é que é isso que se pretende. A invasão da Geórgia e da Ucrânia e a anexação da Crimeia contribuíram decisivamente para afastar as partes e fazer renascer o clima de guerra fria, tal como o havia feito a contínua expansão da NATO para as fronteiras da Rússia. Aos poucos, esse clima foi-se agravando, o telefone vermelho deixou de tocar e não só ninguém deu um passo para desanuviar a tensão como até ouvimos Joe Biden chamar “assassino” a Putin, o que certamente não contribuiu para melhorar as coisas. Sem surpresa, assistimos à denúncia ou não renovação dos tratados SALT e START e, para todos os efeitos, foram cortadas todas as pontes e canais de diálogo entre as partes. E assim a guerra da Ucrânia estava aí para durar indefinidamente, não tivesse aparecido entretanto Donald Trump e a sua promessa de fazer acabar com a guerra em 48 horas. De repente, todos os que do lado de cá tinham como única proposta continuar a financiar e armar a Ucrânia “por tanto tempo quanto necessário”, aqueles para quem a simples sugestão de tentar negociações para pôr fim à guerra era uma demonstração de vassalagem a Putin, ensaiaram uma cambalhota total e passaram a reclamar e a exigir ser parte activa nas negocia­ções abertas por Trump. É bom que não nos esqueçamos disto para compreen­são futura do que se vai passar a seguir.

E então, depois de ter obrigado Zelensky a aceitar, a bem ou a mal, o seu projecto de acordo de paz, Trump pegou no telefone vermelho, que já não devia funcionar há anos, e ligou a Putin. Essa tão esperada chamada telefónica deixou bons auspícios quanto à normalização das relações Estados Unidos-Rússia e à retoma dos acordos de limitação de armas nucleares, mas, em relação à guerra da Ucrânia, resultou em quase nada. Putin reduziu o esperado acordo de cessar-fogo a mínimos e, para ir mais além, exigiu o fim do fornecimento de armas a Kiev e um acordo de paz que contemple os pontos que Moscovo quer ver discutidos e a que ele chama “as raízes da guerra”. Trump — que é forte com os fracos e fraco com os fortes — aparentemente bateu em gloriosa retirada, pouco habituado a não ser obedecido e sem que se possa adivinhar que planos tem ele agora para fazer avançar qualquer acordo, se é que tem algum. Um bom acordo faz-se quando se está em boa posição e não quando se está por baixo, em estado de necessidade. Zelensky e os seus amigos europeus desdenharam sempre obter um acordo de paz quando a Ucrânia estava numa posição bem mais favorável e agora estão dependentes das condições ditadas por Putin e da vontade que Trump tenha de as aceitar ou não, da pressa que tiver em pôr fim à guerra de qualquer maneira para depois passar à fase seguinte: cobrar a sua comissão de mediador em riquezas minerais da Ucrânia. Putin pode agora, diferentemente do que sucedia até há uns meses, ditar as suas condições para pôr fim à guerra: está por cima no campo de batalha, sente a Ucrânia exaurida e tira partido da espantosa vaidade de Donald Trump. Enquanto isso, a Europa, ao mesmo tempo que reivindica um lugar à mesa das negociações de paz, continua a querer investir na guerra, como se nada de novo tivesse acontecido. Kaja Kallas, a comissária para a Defesa da UE, numa semana anuncia mais €20 mil milhões em armas para a Ucrânia e na semana seguinte diz que afinal são €40 mil milhões que os países da UE terão de desembolsar, sem explicar como e porquê refez as contas. E, sobretudo, sem querer saber que agora é a Ucrânia que não quer mais continuar em guerra. Pode até dar-se o caso de Zelensky, acossado pela necessidade e por Trump, aceitar a exigência russa de deixar de receber armas ocidentais e teríamos a UE com umas toneladas de armas para oferecer a quem não as quer. Mas também não me admira nada tanto amadorismo bem intencionado: estes são os mesmos dirigentes europeus que andam a arregimentar tropas para mandar para a Ucrânia com a missão de garantir o acordo de paz — sem que haja ainda acordo e sem saber se a Rússia aceitará tropas europeias de países da NATO na Ucrânia. São os mesmos dirigentes que aceitaram sem pestanejar, e igualmente sem quererem ver as contas, o plano de rearmamento europeu no valor de €800 mil milhões, apresentado por Ursula von der ­Leyen. Os mesmos que, para financiar o seu rearmamento, se preparam para aprovar a renúncia aos limites de endividamento dos Estados e o desvio de verbas da coe­são europeia a favor das indústrias de armamento. Os mesmos que ficaram entusiasmados com o programa de rearmamento da Alemanha, que exigiu até uma alteração constitucio­nal sem parar para pensar se será boa ideia o rearmamento da Alemanha, sobretudo quando um partido neonazi, a AfD, tem 20% dos votos dos alemães. Os mesmos, enfim, que só falam de guerra enquanto se tenta alcançar a paz na Europa.

2 Entretanto, o homem que sonha vir a ganhar o Nobel da Paz, Donald Trump, incentiva e apoia o seu amigo Netanyahu, um criminoso com mandado de captura do Tribunal Internacional da Haia, para retomar o plano da solução final na Palestina: matar o maior número possível de palestinianos e empurrar os restantes para fora da sua própria terra.

É extraor­dinário comparar a unanimidade nas sanções ditadas à Rússia pela invasão da Ucrânia com a unanimidade na impunidade para com o genocídio que Israel leva a cabo há mais de um ano.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia