Literalmente

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/05/2026)


Estamos literalmente amarrados a soluções do passado, tendo desperdiçado os tempos de calmaria e abundância para agora enfrentarmos um mundo que se estilhaça à vista de todos.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

 Já aqui desabafei que é absolutamente inacreditável como é que em tão pouco tempo o planeta inteiro ficou nas mãos de um louco perigoso e ignorante, em roda livre perante uma caterva de líderes mundiais quase todos acobardados e complacentes com o louco. Todos, à vez, convidam-no, vão visitá-lo, humilham-se a seus pés, tentam adoçar-lhe a boca de lobo faminto. Tudo em vão: quanto mais cedem e rastejam, mais ele quer. Primeiro foi Zelensky, quase insultado à vista do mundo por se ter atrevido a pedir mais armas. Depois foi Von der Leyen, em representação da Europa, humilhada e obrigada a aceitar um acordo desastroso para que ele não continuasse a sua demencial guerra de tarifas contra os europeus. Depois, o secretário-geral da NATO, serventuário obediente, que lhe manda bilhetes privados com elogios e que ele, educado como é, logo trata de tornar públicos. Depois foram os ingleses, recebendo-o em Windsor com as honras devidas ao rei que ele imagina ser e apenas para ganharem um desconto de velhos amigos nas tarifas. Seguiram-se, em fila obediente, alemães, franceses, italianos, japoneses, árabes e a Prémio Nobel da Paz e confessa admiradora do homem, que julgava obter a bênção dele para suceder na presidência da Venezuela ao raptado Maduro e acabou por vê-lo escolher antes uma marioneta que lhe faz todas as vontades — a última das quais a entrega para julgamento nos EUA do ministro da Indústria, extraditado à revelia da Constituição e sem sequer passar por um tribunal local. Os únicos que não se curvaram aos mandos e desmandos do louco foram o primeiro-ministro do Canadá, que ele ameaçou tornar o 51º estado da União, e o primeiro-ministro de Espanha, que, ao contrário dos restantes membros da NATO, não aceitou a ordem para passar a gastar 5% do PIB em Defesa e também recusou ceder as bases espanholas como plataforma do ataque ao Irão — enquanto ele vai retirando tropas da defesa europeia para as alocar a outras guerras que mantém ou que cogita. E, claro, Putin e Xi Jinping, pois que, como é sabido, este grande homem é forte com os fracos e fraco com os fortes. Estamos literalmente tramados.

Literalmente
Ilustração Hugo Pinto

Quanto a nós, portugueses, recebemos do secretário de Estado Marco Rubio, primeiro, a honra de integrar a shortlist dos países amigos que não tinham falhado com apoio à aventura militar no Irão — um extraor­dinário case study de incompetência, ignorância e impreparação da maior potência militar e económica do mundo. E depois, há dias, a honra de sermos apontados solitariamente como o país que cedeu uma base essencial à aventura sem sequer perguntar para quê. E a troco de nada, nem um descontozinho nas tarifas, nem uma gratificação, ainda que simbólica, pelo uso das Lajes. O infeliz Paulo Rangel, que se toma pelo chefe de uma coisa inexistente, que é a nossa política externa, assim duas vezes humilhado publicamente, quis vir esclarecer, com toda a “clareza”, a declaração “não literal” de Rubio. Uma coisa, diz ele, foi a utilização das Lajes antes da ofensiva contra o Irão, outra coisa foi depois disso. Mas, tanto quanto se percebeu, antes não perguntámos para que queriam utilizar a base e autorizámos e depois de sabermos continuámos a autorizar. Literalmente. E até se dá este facto irónico: enquanto as Lajes albergam 15 gigantescos ­aviões KC-30, que abastecem em voo os aviões que vão atacar o Irão, as mesmas Lajes ficaram dias sem jet fuel para os voos comerciais com a ilha. Mas já nada me surpreende nesta profunda e profícua relação de amizade com os nossos “aliados” do Atlântico Norte: não é verdade que depois de os ucranianos terem mostrado ao mundo inteiro que um drone, que custa uns €20 mil, é mais eficaz como arma defensiva e arma ofensiva, ao solo, ao ar ou ao mar, do que um caça F-35, que custa €100 milhões (fora as peças e os upgrades), nós nos preparamos para comprar ao fiel amigo umas esquadrilhas de F-35 para os quais nem sequer sabemos se teremos pilotos? E isto num país que tem uma das melhores empresas de fabrico de drones, bastamente usados na Ucrânia, e que tem em construção na Roménia um porta-drones encomendado pela visão de Gouveia e Melo? Somos, literalmente, o mais fiel dos aliados.

Um bom exemplo do brilhantismo da visão de futuro dos líderes europeus, de cujo conclave fazemos parte, foi a condecoração de Cavaco Silva com a Ordem Europeia de Mérito pelo seu papel na “política de coesão europeia”. Não sei ao certo em que terá consistido tal papel, que, pelos vistos, impressionou os seus pares, mas do fundamental que retenho da década de governação cavaquista fica a construção de milhares de quilómetros de auto-estradas, a par do desmantelamento ou abandono de mil quilómetros de via férrea, a aposta total na eucaliptização do país, que a seguir pagamos com incêndios e o abandono da agricultura e do interior, ou no turismo de massas como alavanca principal da economia, mas à mercê de crises cíclicas demolidoras: pandemias, falta de combustível, incapacidade de resposta nos aeroportos. Uma visão de futuro, pois. Quanto à “coesão europeia”, que nos valeu milhões a perder de vista, e agora que o ciclo de recebedores líquidos parece estar a chegar ao fim, fica-nos o saldo de um país cuja produtividade laboral por hora está nos €29, contra os €44 da média na União Europeia, e um Estado que, em consequência, se substitui à falta de dinamismo da sociedade, transformando-se no maior gastador de riqueza do país para sustentar uma população de subsidiodependentes. Hoje somos uma sociedade onde nada do que é público funciona decentemente e tudo o que é privado só funciona à custa do trabalho imigrante. Claro, não foi Cavaco Silva o responsável por tudo isso: a seguir a ele vieram outros, socialistas ou centristas, que prolongaram ou até agravaram o estilo e o destino da governação. Mas foi ele quem deixou que se instalasse a mentalidade do facilitismo, de viver à sombra da bananeira dos dinheiros europeus e de optar sempre pelas soluções mais fáceis, atractivas para a próxima eleição, desastrosas para o futuro.

Estamos literalmente amarrados a soluções do passado, tendo desperdiçado os tempos de calmaria e abundância para agora enfrentarmos um mundo que se estilhaça à vista de todos. Sem regras, sem princípios, sem concertação quanto aos problemas comuns, ocupado em guerras sem sentido e numa irresponsável corrida às armas, que faz a felicidade dos seus fabricantes, enquanto o Ártico se derrete, a Amazónia seca e os pobres entre os pobres foram abandonados à sua sorte, porque os ricos precisam do dinheiro para armas, para pagar os custos da aventura iraniana ou do massacre dos palestinianos. E governados ou por criminosos ou pelos seus vassalos.

Saiba mais aqui

 

2 Mão amiga deu-me conhecimento de uma notícia da CNN online de que existe uma escuta que me envolve com, presumo, algum eventual suspeito no processo chamado Monte Branco. Se bem me lembro, o referido processo investigava um senhor que se dedicava a transferir fortunas para o estrangeiro ilegalmente. E a dita escuta ficou lá a germinar mais de 12 anos, à espera de qualquer coisa mais que pudesse aparecer pelo chamado “método de arrasto” da investigação. No DCIAP aplica-se a lei de Lavoisier: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Porém, no meu caso concreto bem podem esperar sentados: nunca tive um tostão que fosse no estrangeiro e do Monte Branco só conheço a montanha suíça. Mas já nada me espanta depois de ouvir o procurador-geral da República e ex-chefe do DCIAP declarar, imperturbável, que sete anos de investigação preliminar a José Sócrates, no Processo Marquês, lhe parece um “prazo razoável”. Assim como, presumo, os quatro anos de investigação que já leva o Processo Influencer: dois ex-primeiros-ministros publicamente apresentados como suspeitos de corrupção no exercício de funções — num caso até conduzindo à sua demissão e subsequente queda de um Governo de maioria absoluta. É assim que eles vêem a missão da Justiça e as regras de conduta de quem investiga para acusar. E estamos literalmente à sua mercê.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Entrada de leão, saída de sendeiro

(António Gil, in Facebook, 15/05/2026, Revisão Estátua)

Imagem gerada por IA

A América acostumou-se a ser um Império que imprimia dinheiro e exportava medo. Mas o problema com os impérios é que um dia o medo muda de campo.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Há menos de um ano Trump gritava com o Canadá, a Alemanha, e até com a China — impondo tarifas tresloucadas, vociferando ultimatos, acusando todo o mundo e arredores de saquearam a América. Portanto não há muito tempo, a América ainda esgrimia a linguagem da intimidação.

Agora é o mundo que começa a falar com a América como os parentes falam com um velho que decidiram internar num lar.

E Trump, o grande negociador, o “estratega genial” que prometeu “colocar a China no seu lugar”, o homem que acusava Pequim de “esbulhar a América sem pudor”, o aspirante a Führer que prometeu restaurar a grandeza e o domínio do seu país enquanto impunha medo e respeito aos outros, agora falou mansinho sem sequer ter levado um cacete grande, como aconselhava Teddy Roosevelt aos seus diplomatas (fala docemente mas leva uma moca avantajada, dizia ele).

E, no final, foi Xi Jinping quem delicadamente lhe comunicou uma mensagem simples: — Fiquem longe de Taiwan. Se cruzarem essa linha vermelha haverá traulitada da velha.

Foi ele quem mostrou a Trump o seu enorme cacete, em suma. Sem floreados diplomáticos, sem reverências, sem medo.

E a parte mais humilhante nem foi a mensagem em si, mas o tom.

Ninguém falava assim com o grande rufia do mundo. Falava-se assim com um fedelho traquinas a esticar-se demais: – Porta-te bem senão levas umas chineladas.  O cheiro da fraqueza quase sempre é mais intenso do que o da força e foi o caso.

Hoje, a China explica abertamente a Washington os limites do que lhe é permitido fazer. E Trump engoliu em seco. Mas a sua irritação explodiu já a bordo do Air Force One, tomando como alvo um pobre jornalista a quem acusou de traidor, por não reconhecer aquilo que ninguém já reconhece: a vitória sobre o Irão.

Porque, por detrás de todos os gritos, ameaças e publicações histéricas EM MAIÚSCULAS nas redes sociais, uma realidade aterrorizadora emergiu: a América não tem cartas, como Trump gosta de dizer aos outros.

Nem economicamente, nem industrialmente, nem moralmente, nem mesmo tecnologicamente — porque fábricas, chips, metais de terras raras e metade das manufaturas globais já estão atrelados à locomotiva-foguete da China.

A América acostumou-se a ser um Império que imprimia dinheiro e exportava medo. Mas o problema com os impérios é que um dia o medo muda de campo.

E aí descobre-se que porta-aviões não produzem iPhones, F-35s não fabricam semicondutores e sanções  contra o país que produz quase tudo — de baterias a indústrias inteiras – magoam quem precisa de importar tudo o que não tem.

Xi entendeu isso perfeitamente há muito tempo mas só o disse com esta veemência ontem. E por isso ele falou com Trump sobre “linhas vermelhas”, não mais como um igual mas como um credor que adverte um devedor falido.

Pela primeira vez em muitas décadas, um presidente americano está diante dos limites do poder americano. E Trump, que sonhava em entrar para a História como um novo Reagan – porque nem sequer entendeu ainda que foi o ator de westerns que deu o primeiro passo em direção ao declínio dos EUA, ao deslocalizar todas as indústrias americanas para a Ásia – arrisca-se a entrar nela como presidente da comissão liquidatária do Império.

E tudo isto quando os EUA se preparam para celebrar 250 anos como Nação (agora pouco) independente, com a pompa e circunstância que não raro acompanham a ruina que, de forma festiva, se pretende querer exorcizar.

Fonte aqui

Nas mãos de um louco mau

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/05/2026)


Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Gengis Khan era um pacifista ao pé de Trump. Nero era um aprendiz de incendiário que pegou fogo a Roma mas não ao mundo inteiro. Calígula era um pobre vaidoso comparado com a demência narcísica do Presidente dos Estados Unidos. Até o grande, o infalível Kim Jong-il fica aquém do culto de personalidade deste louco insaciável. E mesmo Estaline, Hitler, Mao ou Pol Pot, encarnações do mal absoluto, tinham pelo menos um plano de acção coerente, ainda que tenebroso, enquanto que com Trump nem ele próprio sabe onde o conduzirão as suas bravatas — como se está a ver no Irão. É verdade que eles perseguiam e fuzilavam os adversários, ao passo que Trump também os persegue, mas ainda não os fuzila, apenas porque não pode, embora, como qualquer outro ditador, vá dando os passos necessários para lá chegar. Os seus recentes ataques à Alemanha e, por arrasto, à Europa e à NATO mostraram, para quem ainda tivesse dúvidas, que ele não respeita tratados, nem acordos, nem palavra dada. Que não conhece regras, nem limites, nem vergonha, e por isso é capaz de se gabar e orgulhar-se de actos de pirataria internacio­nal ou de ameaçar destruir numa noite toda uma civilização pelo método Hiroxima de vitória militar.

Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente. Mas as coisas agora parece que finalmente começam a mudar e vemos aliados ou contemporizadores do trumpismo, como Merz, Meloni, Starmer, Von der Leyen ou António Costa, já a balançarem face ao óbvio. A recente Cimeira Política Europeia, na Arménia — para a qual foram convidados países outros como Inglaterra, Turquia ou Canadá —, foi a prova disso, com uma agenda centrada na coordenação de uma resposta política ao destrambelhamento (até fisicamente patente) deste alucinado. Porém, ocupado com o banco de horas e a caça aos imigrantes (também aí em contracorrente com o resto da Europa), o nosso primeiro-ministro não “teve agenda” para estar presente. Mas há que compreender: Erevan fica longe e o que iria fazer a uma cimeira convocada em parte para responder a Trump, o único Governo que, além do Governo genocida de Israel, apoia sem rodeios, compreende e ajuda Donald Trump no seu crescente desvario? O nosso Governo, em nome de Portugal, face ao ataque sem aviso contra o Irão, “está com o nosso aliado americano” e oferece as Lajes, de borla e sem questionar. Face às sucessivas amea­ças de Trump de retirar os Estados Unidos da NATO ou de desproteger a Europa, obedece à ordem de se arruinar a comprar armas — e de preferência americanas, como uma caterva de F-35 ao preço de €100 milhões cada e mesmo que depois não haja pilotos para os aviões. Ele manda e Montenegro e Rangel obedecem e até agradecem, na mais indecente postura da nossa diplomacia desde o “orgulhosamente sós” de Salazar.

Nas mãos de um louco mau

2 Nunca hei-de perceber por que razão é que os nossos deputados acham que é gritando que se tornam mais credíveis, ou mais verdadeiros, ou mais populares. Não são todos, é claro, mas há um grupo seleccionado deles e delas que só sabe falar aos gritos — e por vezes até servidos por vozes estridentes ou esganiçadas, que transformam a Assembleia da República não numa peixeirada de mercado, porque as peixeiras não gritam assim, mas numa espécie de gaiola das loucas, onde é suposto estarmos representados. Também constato que quanto maior é a demagogia do discurso maior é a gritaria, como se achassem que o povo é mais facilmente enganado por quem mais estardalhaço causa. E nesse capítulo ninguém bate os deputados do grupo parlamentar do Chega, que, seja qual for o tema e o pretexto, gritam como se quisessem vender casacos de pele aos tuaregues do Saara num souk da Argélia. Seguem as pisadas do seu líder, André Ventura, forçado a gritar ainda mais para vender ao povo o supra-sumo da demagogia: subida das pensões e baixa da idade de reforma. De facto, é preciso gritar muito para conseguir argumentar a favor de uma progressão aritmética contra uma progressão geométrica: as pessoas a viverem cada vez mais e as pensões a subirem sempre. Se pensarmos que baixando apenas um ano na idade da reforma haveria 100 mil portugueses que automaticamente deixavam de ser contribuintes da Segurança Social e passavam a ser beneficiá­rios, quanto anos seriam necessá­rios para o sistema rebentar? Como explicar ao povo, mesmo aos gritos, que a geração no activo deve pagar os custos insustentáveis da geração reformada até que o sistema vá à falência e os que andaram a pagar não tenham depois reformas?

Saiba mais aqui

 

3 Por más razões, fui um privilegiado no que respeita a saber de perto o que significa a violação do direito à intimidade da vida privada e o direito ao sigilo da correspondência, que é um direito instrumental do outro e ambos consagrados na nossa Constituição: cresci numa casa onde fui ensinado a saber que a PIDE escutava todas as conversas telefónicas, e anos mais tarde, na Comissão de Extinção da PIDE, não quis, obviamente, consultar a transcrição das nossas conversas escutadas pelos esbirros da PIDE, mas encontrei cartas enviadas pelos meus pais e que nunca chegaram ao destino ou outras que nunca receberam. Julguei que tudo isso tinha acabado de vez na manhã do Largo do Carmo, mas a verdade é que desde o 25 de Abril só tenho visto, revisão legal após revisão, recuarem as garantias individuais e avançarem as excepções permitidas à investigação penal.

Uma semana depois de ser conhecido um relatório de uma inspecção interna ao DCIAP — o coração e a jóia da coroa do Ministério Público (MP) —, que, entre outras graves descobertas, se deparou com processos há anos sem qualquer movimento, enquanto os investigados continuavam com computadores apreendidos, contas bancárias congeladas e suspeitas públicas permanentes, eis que um grupo de trabalho do mesmo MP veio apresentar as suas propostas para acelerar a tramitação dos processos. A primeira conclusão dessas propostas (lidas na imprensa), que não constitui surpresa, mas não deixa de ser chocante, é que não existe uma só medida prevista para penalizar os procuradores que arrastam processos sem sentido nem desfecho previsível, majestaticamente sentados em cima do tempo como se não houvesse ninguém a sofrer consequências enquanto eles dormem o sono dos justos: chamam a isso, a essa absoluta irresponsabilidade profissional, a autonomia do MP. Logicamente também é sem surpresa que vemos o grupo de trabalho propor duas medidas que tinham sido recomendadas pelo Conselho Superior da Magistratura e, ao que parece, em vias de serem adoptadas pelo Governo: multas pesadas aos arguidos ou seus defensores que usem “expedientes dilatórios” para atrasarem o andamento dos processos (uma avaliação subjectiva unicamente a cargo dos próprios magistrados) e a impossibilidade de recorrer de uma sentença para o Supremo Tribunal de Justiça por quem não foi condenado a menos de 12 anos de prisão. Mas é no campo da invasão da privacidade alheia que os senhores procuradores mais exibem as suas pretensões visionárias. Eles querem poder ter acesso à geolocalização instantânea de quem considerem suspeitos, a poder examinar todo o correio electrónico apreendido em computadores sem antes passarem pelo crivo de um juiz de instrução que lhes diga o que podem e não podem usar e, cereja no topo da libertinagem, poderem aceder remotamente ao correio electrónico dos visados sem sequer terem de examinar os seus computadores na sequência de um mandado de busca e apreensão de um magistrado e da sua autorização para tal. Ou seja, e indo isto para a frente, um cidadão, que pode ser absolutamente inocente de qualquer suspeita — vítima, por exemplo, de uma simples denúncia anónima por razões de vingança pessoal —, pode ter os seus telefonemas escutados sem qualquer motivo para desconfiar de tal e indefinidamente; pode, via telemóvel, dar a conhecer a um procurador onde está e por quanto tempo, em qualquer momento, e pode, tranquilamente e como todos nós, estar a usar o seu computador, nele armazenando a sua correspondência privada, a sua vida profissio­nal, financeira, familiar e pessoal, enquanto à distância o vigilante procurador vai seguindo passo a passo tudo o que acontece na sua vida.

Creio que não vale a pena perder muito latim a classificar estas 130 medidas reivindicadas: trata-se de propor, sem mais, a substituição de um Estado democrático, fundado no respeito pelos direitos das pessoas, num Estado policial. Mas seguramente haverá quem não se importe: por alguma razão havia tantos informadores da PIDE e muitos até voluntariamente e pro bono.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia