Chegou o Tesla Model 3. É um carro histórico, mas (ainda) não é para todos

(Sérgio Magno, in Expresso Diário, 05/08/2017)

tesla

 

Elon Musk prometeu um carro elétrico atraente, tecnologicamente avançado e com grande autonomia por 35 mil dólares. E, a acreditar na apresentação do Tesla Model 3, na madrugada deste sábado, cumpriu. Não foi este o entendimento de muita gente que, nas redes sociais, tem mostrado alguma desilusão.


Model 3 que vai ser vendido nos primeiros meses não será a versão base anunciada, mas sim uma versão mais bem equipada, com maior autonomia e… mais caro. Como vários clientes, que já reservaram o Model 3, têm indicado, o preço real desta versão facilmente ultrapassa os 50 mil dólares quando se adicionam extras como o Autopilot mais sofisticado e o tejadilho em vidro (um opcional que só pode ser adquirido num pack Premium que custa 5000 dólares).

Desilusões que só podem ser explicadas por expectativas irreais. Parece que há pessoas que esperavam um milagre. Algo como uma versão mais pequena de um Model S superequipado a um preço de um Volkswagen Golf. Ora, milagres não existem, apesar de Elon Musk já nos ter habituado a muitas surpresas – basta analisar como a Space X está a baixar consideravelmente o preço de explorar o Espaço. Mas, felizmente para a Tesla, entre as mais de 500 mil reservas já efetuadas do Model 3, são muitos o que têm usado as mesmas redes sociais para mostrar quão entusiasmados estão com o seu futuro carro.

De forma realista, o Model 3 de 35 mil dólares, que em Portugal deverá ter um custo mais na casa dos 40 a 45 mil dólares (há que somar impostos e outras taxas), ou seja 34 a 38 mil euros, não tem concorrentes à altura. Os carros elétricos com preço semelhante não oferecem nem a tecnologia nem a autonomia do Model 3 – já para não falar do design, mas esta característica é sempre discutível.

Quanto aos automóveis convencionais, os concorrentes mais próximos em termos de dimensão e equipamento são, provavelmente, o BMW Série 3 e o Mercedes Classe C, que facilmente ultrapassam o preço anunciado para o Model 3 quando equipados com um motor que ofereça um desempenho similar (aceleração). E estes carros têm custos de utilização (combustível, manutenção, impostos de circulação…) muito superiores a um carro elétrico.

Muito mais pessoas vão poder aceder a um automóvel elétrico sofisticado devido a um preço de acesso mais baixo. Por tudo isto, o Model 3 é, de facto, um carro histórico, que vai obrigar a indústria a acelerar o passo para acompanhar – como, aliás, já tinha acontecido com o Model S.
Mas, pelo menos por cá, o Model 3 não vai ser um carro para todos. Não vai ser um Ford Model T que, por ser bem mais barato que todos os restantes carros familiares disponíveis na altura (início do século XX), conseguiu ser acessível até para as classes trabalhadoras dos Estados Unidos. Para o Model 3 poder ser comparado ao mítico modelo da Ford, o preço base teria de ser muito mais baixo.

O IPHONE DOS CARROS

A comparação com o iPhone é mais feliz. Um smartphone que conquistou meio mundo não por ser económico – nunca o foi –, mas por trazer uma nova forma de usar um telemóvel. Por oferecer uma experiência de utilização revolucionária a um preço, que apesar de elevado, não era inatingível. Mais importante, por proporcionar acesso a todo um ecossistema. E aqui entramos num outro erro habitual quando se fala dos carros da Tesla: analisá-los, simplesmente, como automóveis. Não são apenas carros, do mesmo modo que o iPhone não era apenas um telemóvel.

REUTERS

A Tesla é uma marca de energia e de mobilidade. Em Portugal ainda não se percebeu muito esse conceito porque por cá ainda não há rede de supercarregadores nem a comercialização, pelo menos em grande escala, das soluções de produção e armazenamento de energia solar da Tesla. Mas os donos de Tesla sabem bem a que me refiro. Querem um exemplo? Visitem a página de Facebook Eagle One (https://www.facebook.com/TeslaEagleOne/), que relata as experiências de mobilidade de um português cliente da Tesla.

Este orgulhoso condutor de um Model S está de férias na Croácia depois de uma viagem de carro entre Portugal e aquele país a custo zero graças à rede Superchargers da Tesla (disponível a partir de Espanha). A ideia de percorrer grandes distâncias rapidamente, com custos baixíssimos e sem emissões é muito libertadora e, uma vez mais, revolucionária.

Este conceito de ecossistema também é evidente do modo como é possível aceder a serviços e atualizações diretamente a partir do carro. Que outra marca permite, por exemplo, aumentar a capacidade de aceleração, adquirir tecnologia de condução autónoma ou aumentar a capacidade da bateria com simples toques no ecrã tátil? A Tesla tem seguido uma política de atualizações única na indústria. O que também tem é evidente na produção.

Elon Musk prefere adicionar a melhor tecnologia disponível no momento a todos os carros produzidos, deixando para os clientes a possibilidade de adquirir ou não essa tecnologia quando adquirem o carro, ou mais tarde através de simples atualizações remotas do software. É o que tem feito com o Autopilot, que também vai estar no Model 3, adicionando um custo de produção de alguns milhares de dólares: este é um sistema de hardware complexo, constituído por várias câmaras, sensores, radares e uma poderosa unidade de computação. Para garantir um melhor preço, Musk podia, simplesmente, ter optado por retirar esta tecnologia do Tesla mais barato de sempre. Mas esta decisão não respeitaria o ADN da marca.

Neste modelo de negócio, a Tesla parece considerar que é economicamente mais interessante incluir a tecnologia (hardware) em todos os carros, mesmo que não seja utilizada, do que criar muitas versões. Esta simplificação de produção faz sentido em séries de fabrico relativamente reduzidas, como é o caso dos Model S e Model X, mas pode ser um risco num modelo que a marca pretende produzir em larga escala. E é também por isto que a Tesla está a forçar as versões mais bem equipadas nesta fase inicial. Se boa parte dos clientes optasse pelo modelo base, é provável que a Tesla perdesse dinheiro na venda dos carros. Neste momento, é muito provável que a Tesla não se possa dar ao luxo de vender Model 3 de 35 mil dólares.

E aqui entra outro conceito associado ao Model 3: a concretização do primeiro “master plan” de Musk. O objetivo do empreendedor sempre foi começar por produzir, em pequenas quantidades, automóveis elétricos para um segmento elevado de modo a conseguir desenvolver a tecnologia e obter o investimento para criar um carro elétrico acessível. Pelas razões já indicadas, não me parece que o Model 3 seja, pelo menos para já, a concretização desse objetivo. Uma vez mais, Elon Musk terá sido demasiado otimista nos seus planos, mas é esta característica que faz dele o empreendedor que está a conseguir, como poucos na história, mudar o mundo.

Voltando à comparação com o iPhone, a produção de um carro é muito mais complexa que a produção de um smartphone. A Tesla não pode, simplesmente, contactar um fabricante chinês e pedir a produção de um milhão de Model 3 em dois meses. A marca norte-americana tem de investir em fábricas, criar uma rede de pós-venda, gerir milhares de referências de peças e fornecedores…

A TESLA VAI CONSEGUIR?

Neste momento decorre um género de guerra fria entre os grandes fabricantes tradicionais e a Tesla. As marcas tradicionais desdenham a capacidade de produção, distribuição e pós-venda da marca californiana. O que me faz lembrar o que alguns executivos da Nokia e da Blackberry – só para citar alguns – diziam aos jornalistas sobre o iPhone… E todos sabemos como isso correu. Musk tem conseguido provar que é capaz de concretizar os seus objetivos, por mais difíceis que pareçam ser, embora muitas vezes demorem bem mais tempo a ser atingidos que o idealizado pelo sul-africano.

Mas não deixa de ser verdade que o Model 3 é um grande risco para Musk. Mais um entre os muitos que este empreendedor já enfrentou. É possível até que seja um dos grandes da indústria a concretizar o sonho do empreendedor em produzir um automóvel elétrico verdadeiramente popular.

O próximo pretendente a este título é o novo Nissan Leaf, que deverá ser apresentado no início de setembro e, provavelmente, chegar ao mercado europeu já nos primeiros meses de 2018 – bem antes do Model 3. Mas uma coisa é certa: sem a Tesla, nem estaríamos a discutir a popularização dos automóveis elétricos. Corra muito bem ou muito mal, o Model 3 já está a mudar o mundo.

(re)Volta ao mundo em três economias

 (Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 03/08/2017)

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Sandro Mendonça

Sobre desportos de alta velocidade diz-se por vezes que quem pestaneja perde tudo. Mas a economia global é mais como um lento jogo de Xadrez…. Neste caso quem não esfregar os olhos de vez em quando é quem perde a noção do que está a ver. Muitas vezes é mesmo preciso meter de molho as velhas ideias e mandar os pressupostos ir de férias.

Não faltam exemplos sobre grandes surpresas em câmara lenta que deveriam levar o mais atento observador a pensar que está na hora de actualizar as suas premissas. Senão vejamos.

ALEMANHA: O PAÍS DOS CARTÉIS ANTI-TECNOLÓGICOS

Um país tão poderoso baseado numa indústria de bandeira pertencente ao século XIX é um declínio à espera de acontecer. O sector automóvel representa 1/5 das exportações e quase um milhão de empregos na Alemanha. Porém, guiar pelo retrovisor não é prudente. Por exemplo, mudanças na mobilidade (desde os veículos autónomos da Google até à aposta da electricidade chique da Tesla) já não são sinais fracos de mudança: são alertas fortes de que a verdadeira concorrência vem agora de fora da indústria.

Depois de se ter percebido que o construtor n.º 1 (a VW) desenvolvia novas maneiras ardilosas para mentir a testes de poluição, descobre-se agora que várias grandes marcas fizeram um conluio negativo para evitarem concorrência tecnológica entre si. E continuam: tentam à força salvar soluções do passado. Portanto, Sr. Schäuble: o orgulho é mau combustível… Tanta fé nas habilidades germânicas de conduzir a economia para quê?!

CHINA: MAIS QUE UM PAÍS FABRIL E DE TURISTAS OBCECADOS COM COMPRAS

Antes era barato e rápido, mas agora a China quer vender qualidade e inovação. Essa é a campanha “Made in China 2025”. Também muitos países se queixavam que os turistas chineses tinham dinheiro mas não maneiras, mas agora ir às compras está a deixar de ser a sua prioridade: e, sim, terem experiências e conhecer. Por exemplo, os jornais que se referiram aos chineses que vieram no primeiro voo assumiram demasiado facilmente que seria o simples turismo a sua motivação dominante. Porém, não se aperceberam que muitos vinham fazer negócios a Portugal e que outros tantos vinham de propósito para programas de estudo e trabalho de investigação em Portugal.

EUA: O GRANDE PERDEDOR DA GUERRA FRIA?

Pensava-se que a Rússia tinha sido a clara derrotada do confronto Este-Oeste. Pura ficção! Quando se olha para a América e se vê um (im)provável caso de um “traidor” (como atira o economista Paul Krugman) ter usurpado a Presidência com uma “pequena ajuda” da potência rival, então, de repente parece que a vingança se serve fria! Nixon foi apenas um acepipe… e agora sim temos o prato principal. E é de se lhe tirar o chapéu: uma klepto-russo-cracia à distância e com toda a gente a ver é obra. Ao terem inventado o sub-prime bem se viu os bons exemplos económicos que a América inventou. Mas agora com a casa branca ter-se transformado num “surreality show” estamos a elevar a credibilidade do “Mundo Livre” a novas profundezas. A implicação para Portugal é simples: isto não é altura de levantar a questão da Base das Lajes, e muito menos de dar ideias esquisitas a gente que parece vir de uma série como Os Sopranos. Por vezes não-acção é melhor que acção. Por vezes, o melhor que a política externa tem a fazer é mesmo ir de férias durante uns tempos.

“O MP não guarda paióis”, diz a sotôra

(In Blog O Jumento, 13/07/2017)
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A procuradora Maria José Morgado tentou responder às críticas do silêncio do MP a propósito da denúncia de um possível assalto a Tancos com um argumento ridículo, afirmou com ar de quem estava a gozar com todos os que criticam o MP que esta instituição “não guarda paióis”.

Mas quanto ao que o MP deve ou não fazer e tendo em consideração o alto cargo que lá desempenha, talvez não fosse má ideia saber. Se, por acaso, desconhece o Estatuto do Ministério Público pode ficar descansada porque ainda não será desta vez que vai ser obrigada a lê-lo, basta ir até à alínea i) do artigo 3.º, que estabelece as competências do MP vem lá escarrapachado:

«i) Promover e realizar acções de prevenção criminal; »

A procuradora foi muito clara na sua intervenção, afirmou que a acção do MP só se inicia partir de um fato criminoso, isto é, sem a existência de fatos criminosos não tem nada que fazer. Pois cara procuradora, mas não é isso que consta no estatuto do MP e é uma pena que uma das suas mais altas dirigentes e uma das personalidades mais ativas na comunicação social desconheça uma das regras mais elementares que supostamente norteia a sua ação.

Disse também a procuradora que quando o processo chegar ao seu fim os senhores jornalistas (e, já agora, qualquer cidadão que o requeira) pode consultar o processo e ver o que lá está. Enfim, parece que há um pelo menos um processo no MP que está guardado a sete chaves e que nem o Correio da Manhã, o Sol ou a TVI conseguirão saber o que lá está muito antes da conclusão do que quer que seja.

É uma pena  que em processos em que em vez de estar em causa o MP estão políticos, até se fica com a impressão de que o seu conteúdo é publicado em dazibaos, os jornais de parede da Revolução Cultural chinesa, um órgão de agit prop muito apreciado pela Dra. Maria José Morgado quando, em vez de estudar andava a promover a ditadura do proletariado orientada pelo grande educador Arnaldo Matos.

Tem razão, ainda que tenha concluído o meu curso sem passagens administrativas, estou entre aqueles que, por falta de recursos inteletuais,  são estúpidos por questionarem porque motivo o MP tem estado calado. De fato, o MP não tem nada a acrescentar e por isso não deve abrir uma excepção, mas em vez de publicar comunicados manda um dos seus dirigentes à TV dizer que não tem competências na prevenção do crime, que não lhe cabe guardar paióis definindo como estúpida a interrogação para a qual muitos portugueses queriam e querem resposta, pois a procuradora só foi para a TV dizer uns disparates na esperança de disfarçar o incómodo da situação.

Para terminar, alguém com educação e sentido de Estado devia explicar à sotôra que não é bonito atirar responsabilidades para terceiros, como os serviços de segurança ou outros. Ou também é competência do MP apurar responsabilidades em direito na TV?