Um carro no espaço

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 09/02/2018)

Spaceman-Musk

A SpaceX, do multimilionário Elon Musk, lançou com sucesso o Falcon Heavy, o foguetão mais poderoso do mundo. A bordo vai um carro eléctrico da Tesla, com um manequim vestido de astronauta ao volante. Como vai com o braço de fora da janela do carro, julgo que o manequim foi feito em Portugal.

Foi necessária uma propulsão equivalente a 18 aviões Boeing 747 para pôr o foguetão no espaço. Se uma das razões desta viagem era uma campanha publicitária para o uso da energia limpa do carro eléctrico da Tesla, precisam de vender milhares de carros eléctricos só para compensar o que queimaram em combustível na viagem.

Importa referir que, antes de ter entrado nesta missão a Marte, o Tesla foi testado em ambientes extremos e no acesso ao parque de estacionamento do Corte Inglés. Já estou a imaginar o anúncio: “Vende-se Tesla impecável em segunda mão com 115 milhões de quilómetros.”; “Já fui a Marte com isto e não me deu chatices nenhumas.”

A fotografia do astronauta no descapotável com a Terra como fundo vai ser usada em milhares de piadas, montagens e palestras de motivação para as pessoas que têm de dar voltas e mais voltas para conseguir estacionar em Lisboa.

Até agora, a missão correu bem, mas para ter a certeza de que não havia perigo o Elon devia ter contratado a minha mãe. Sentavam-na na cadeira ao lado do manequim que está no volante do carro e ela faria aquilo que costuma fazer quando viaja comigo: “Vais muito depressa. Não vás tão depressa. Já vais a sessenta. Aquilo ali é uma curva, pareces um doido a guiar. ”

Estamos perante um momento histórico da conquista do espaço. Marte vai ser a grande obsessão e o destino do Homem nos próximos 20 anos. Em Marte, estão cerca de oitenta graus negativos, imaginem o que isto não daria em reportagens sobre o frio nos noticiários das nossas televisões. Elon Musk anunciou, em Setembro de 2016, que vai levar os primeiros 100 humanos a Marte em 2022 e que, até ao ano 2060, vai haver um milhão de pessoas a viver no Planeta Vermelho. Sinceramente, Marte, pelo que me apercebi das fotos do Curiosity, é um sítio sem interesse nenhum. Tem uma padaria portuguesa e pouco mais. Faz lembrar a minha viagem de finalistas ao Egipto, um dia inteiro a ver calhaus.

Importa também dizer que um ano em Marte tem 687 dias. Tenho a certeza de que, apesar de um ano em Marte ter 687 dias, acabávamos na mesma a comprar as prendas de Natal na véspera. Resta acrescentar que os dias têm 24,6 horas. Ou seja, 38 minutos a mais de um dia na Terra. Aposto que isto iria dar problemas com os sindicatos e a Autoeuropa.


TOP-5

Planeta vermelho

1. O Banco de Portugal não divulgou os dados relativos à falência da Rioforte, sociedade do universo não financeiro do Grupo Espírito Santo. – Aposto que foi falhanço do SIRESP.

2. Bitcoin acentua queda e Draghi avisa para riscos – A bitcoin e a pulseira Tucson das moedas.

3. Kim Yo-Jong, irmã do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, vai participar na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, que se realizam em Pyeongchang. – Ui, vejam lá que ele tem a mania de matar familiares. Pode ter o plano de lançar um míssil e juntar o útil ao agradável.

4. Lobo Antunes revelou ter sido assediado, por um professor de Moral, no Liceu Camões. – Posso estar a ser injusto, mas isto cheira-me a campanha publicitária da Memofante.

5. Segundo uma investigação da SIC, o Banco de Portugal escondeu um buraco de 954 milhões da Rioforte. – Está na altura de deixar de chamar Banco de Portugal ao Banco de Portugal. Chamem-lhe o que quiserem, mas não é para nós que eles estão a trabalhar.

Chegou o Tesla Model 3. É um carro histórico, mas (ainda) não é para todos

(Sérgio Magno, in Expresso Diário, 05/08/2017)

tesla

 

Elon Musk prometeu um carro elétrico atraente, tecnologicamente avançado e com grande autonomia por 35 mil dólares. E, a acreditar na apresentação do Tesla Model 3, na madrugada deste sábado, cumpriu. Não foi este o entendimento de muita gente que, nas redes sociais, tem mostrado alguma desilusão.


Model 3 que vai ser vendido nos primeiros meses não será a versão base anunciada, mas sim uma versão mais bem equipada, com maior autonomia e… mais caro. Como vários clientes, que já reservaram o Model 3, têm indicado, o preço real desta versão facilmente ultrapassa os 50 mil dólares quando se adicionam extras como o Autopilot mais sofisticado e o tejadilho em vidro (um opcional que só pode ser adquirido num pack Premium que custa 5000 dólares).

Desilusões que só podem ser explicadas por expectativas irreais. Parece que há pessoas que esperavam um milagre. Algo como uma versão mais pequena de um Model S superequipado a um preço de um Volkswagen Golf. Ora, milagres não existem, apesar de Elon Musk já nos ter habituado a muitas surpresas – basta analisar como a Space X está a baixar consideravelmente o preço de explorar o Espaço. Mas, felizmente para a Tesla, entre as mais de 500 mil reservas já efetuadas do Model 3, são muitos o que têm usado as mesmas redes sociais para mostrar quão entusiasmados estão com o seu futuro carro.

De forma realista, o Model 3 de 35 mil dólares, que em Portugal deverá ter um custo mais na casa dos 40 a 45 mil dólares (há que somar impostos e outras taxas), ou seja 34 a 38 mil euros, não tem concorrentes à altura. Os carros elétricos com preço semelhante não oferecem nem a tecnologia nem a autonomia do Model 3 – já para não falar do design, mas esta característica é sempre discutível.

Quanto aos automóveis convencionais, os concorrentes mais próximos em termos de dimensão e equipamento são, provavelmente, o BMW Série 3 e o Mercedes Classe C, que facilmente ultrapassam o preço anunciado para o Model 3 quando equipados com um motor que ofereça um desempenho similar (aceleração). E estes carros têm custos de utilização (combustível, manutenção, impostos de circulação…) muito superiores a um carro elétrico.

Muito mais pessoas vão poder aceder a um automóvel elétrico sofisticado devido a um preço de acesso mais baixo. Por tudo isto, o Model 3 é, de facto, um carro histórico, que vai obrigar a indústria a acelerar o passo para acompanhar – como, aliás, já tinha acontecido com o Model S.
Mas, pelo menos por cá, o Model 3 não vai ser um carro para todos. Não vai ser um Ford Model T que, por ser bem mais barato que todos os restantes carros familiares disponíveis na altura (início do século XX), conseguiu ser acessível até para as classes trabalhadoras dos Estados Unidos. Para o Model 3 poder ser comparado ao mítico modelo da Ford, o preço base teria de ser muito mais baixo.

O IPHONE DOS CARROS

A comparação com o iPhone é mais feliz. Um smartphone que conquistou meio mundo não por ser económico – nunca o foi –, mas por trazer uma nova forma de usar um telemóvel. Por oferecer uma experiência de utilização revolucionária a um preço, que apesar de elevado, não era inatingível. Mais importante, por proporcionar acesso a todo um ecossistema. E aqui entramos num outro erro habitual quando se fala dos carros da Tesla: analisá-los, simplesmente, como automóveis. Não são apenas carros, do mesmo modo que o iPhone não era apenas um telemóvel.

REUTERS

A Tesla é uma marca de energia e de mobilidade. Em Portugal ainda não se percebeu muito esse conceito porque por cá ainda não há rede de supercarregadores nem a comercialização, pelo menos em grande escala, das soluções de produção e armazenamento de energia solar da Tesla. Mas os donos de Tesla sabem bem a que me refiro. Querem um exemplo? Visitem a página de Facebook Eagle One (https://www.facebook.com/TeslaEagleOne/), que relata as experiências de mobilidade de um português cliente da Tesla.

Este orgulhoso condutor de um Model S está de férias na Croácia depois de uma viagem de carro entre Portugal e aquele país a custo zero graças à rede Superchargers da Tesla (disponível a partir de Espanha). A ideia de percorrer grandes distâncias rapidamente, com custos baixíssimos e sem emissões é muito libertadora e, uma vez mais, revolucionária.

Este conceito de ecossistema também é evidente do modo como é possível aceder a serviços e atualizações diretamente a partir do carro. Que outra marca permite, por exemplo, aumentar a capacidade de aceleração, adquirir tecnologia de condução autónoma ou aumentar a capacidade da bateria com simples toques no ecrã tátil? A Tesla tem seguido uma política de atualizações única na indústria. O que também tem é evidente na produção.

Elon Musk prefere adicionar a melhor tecnologia disponível no momento a todos os carros produzidos, deixando para os clientes a possibilidade de adquirir ou não essa tecnologia quando adquirem o carro, ou mais tarde através de simples atualizações remotas do software. É o que tem feito com o Autopilot, que também vai estar no Model 3, adicionando um custo de produção de alguns milhares de dólares: este é um sistema de hardware complexo, constituído por várias câmaras, sensores, radares e uma poderosa unidade de computação. Para garantir um melhor preço, Musk podia, simplesmente, ter optado por retirar esta tecnologia do Tesla mais barato de sempre. Mas esta decisão não respeitaria o ADN da marca.

Neste modelo de negócio, a Tesla parece considerar que é economicamente mais interessante incluir a tecnologia (hardware) em todos os carros, mesmo que não seja utilizada, do que criar muitas versões. Esta simplificação de produção faz sentido em séries de fabrico relativamente reduzidas, como é o caso dos Model S e Model X, mas pode ser um risco num modelo que a marca pretende produzir em larga escala. E é também por isto que a Tesla está a forçar as versões mais bem equipadas nesta fase inicial. Se boa parte dos clientes optasse pelo modelo base, é provável que a Tesla perdesse dinheiro na venda dos carros. Neste momento, é muito provável que a Tesla não se possa dar ao luxo de vender Model 3 de 35 mil dólares.

E aqui entra outro conceito associado ao Model 3: a concretização do primeiro “master plan” de Musk. O objetivo do empreendedor sempre foi começar por produzir, em pequenas quantidades, automóveis elétricos para um segmento elevado de modo a conseguir desenvolver a tecnologia e obter o investimento para criar um carro elétrico acessível. Pelas razões já indicadas, não me parece que o Model 3 seja, pelo menos para já, a concretização desse objetivo. Uma vez mais, Elon Musk terá sido demasiado otimista nos seus planos, mas é esta característica que faz dele o empreendedor que está a conseguir, como poucos na história, mudar o mundo.

Voltando à comparação com o iPhone, a produção de um carro é muito mais complexa que a produção de um smartphone. A Tesla não pode, simplesmente, contactar um fabricante chinês e pedir a produção de um milhão de Model 3 em dois meses. A marca norte-americana tem de investir em fábricas, criar uma rede de pós-venda, gerir milhares de referências de peças e fornecedores…

A TESLA VAI CONSEGUIR?

Neste momento decorre um género de guerra fria entre os grandes fabricantes tradicionais e a Tesla. As marcas tradicionais desdenham a capacidade de produção, distribuição e pós-venda da marca californiana. O que me faz lembrar o que alguns executivos da Nokia e da Blackberry – só para citar alguns – diziam aos jornalistas sobre o iPhone… E todos sabemos como isso correu. Musk tem conseguido provar que é capaz de concretizar os seus objetivos, por mais difíceis que pareçam ser, embora muitas vezes demorem bem mais tempo a ser atingidos que o idealizado pelo sul-africano.

Mas não deixa de ser verdade que o Model 3 é um grande risco para Musk. Mais um entre os muitos que este empreendedor já enfrentou. É possível até que seja um dos grandes da indústria a concretizar o sonho do empreendedor em produzir um automóvel elétrico verdadeiramente popular.

O próximo pretendente a este título é o novo Nissan Leaf, que deverá ser apresentado no início de setembro e, provavelmente, chegar ao mercado europeu já nos primeiros meses de 2018 – bem antes do Model 3. Mas uma coisa é certa: sem a Tesla, nem estaríamos a discutir a popularização dos automóveis elétricos. Corra muito bem ou muito mal, o Model 3 já está a mudar o mundo.