Até ver, Manuel Heitor não é melhor do que Crato

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/11/2016)

Autor

                                Daniel Oliveira

Se há áreas onde se sente uma vontade reformista (sim, as reformas não passam obrigatoriamente por destruir os serviços públicos) neste Governo, como na educação, outras não só não mudaram quase nada do que herdaram como até pioraram o que de mal tinha sido feito. Um exemplo disso é o da Ciência e Tecnologia. Podia dizer-se que Manuel Heitor herdou bom trabalho feito e, por isso, só teve de continuar sem grandes alterações. Não é o caso. Manuel Heitor herdou o mesmo que Tiago Brandão: quatro anos de uma clamorosa incompetência de Nuno Crato. Mas se na educação se está a tentar corrigir o rasto de destruição deixado – este foi um dos primeiros inícios de ano letivo sem grandes polémicas ou problemas –, na Ciência e Tecnologia tudo parece estar na mesma.

Há muita coisa que se pode dizer sobre a herança deixada por Mariano Gago a Crato e Heitor. Até porque ela é contraditória. Se é verdade que foi ele que criou uma verdadeira política de ciência em Portugal, é impossível negar que o preço disso, até por causa da origem e natureza do financiamento, foi uma cultura de precariedade extrema.

Nas contratações de pessoal já quase tudo parece ser possível: chegámos ao ponto de se utilizarem bolsas de gestão de ciência e tecnologia (BGCT) para colmatar a carência de funcionários nas instituições públicas, como contratar eletricistas e pessoal de secretariado (não é anedota, aconteceu e continua a acontecer) e técnicos para análise estatística, em violação do Estatuto do Bolseiro.

Mas mesmo quem trabalha realmente na produção de conhecimento científico e tecnológico parece viver no mundo das empresas de trabalho temporário. Na investigação e na ciência paga-se para talvez um dia conseguir trabalhar, sempre sem qualquer perspetiva de futuro.

É por isso que não é justo responsabilizar apenas Manuel Heitor ou Nuno Crato por uma cultura que se instalou. Mas pelo menos Mariano Gago tinha a desculpa de ter por missão construir um sistema científico e tecnológico nacional praticamente de raiz e para isso ter sido obrigado a criar os recursos humanos que não existiam em número suficiente. Os outros dois limitaram-se a agravar o expediente e a não construir coisa alguma.

É uma frase feita mas parece estar sempre a ser esquecida: sem um investimento sério em ciência e investigação estaremos condenados a perder para os outros tudo o que gastamos em formação e a depender do sol e das praias para a nossa economia crescer. É interessante comparar a miséria que se vive nos centros de investigação com o novo-riquismo bacoco com que o Web Summit foi recebido em Lisboa. Como se o nosso papel na modernização e inovação fosse dar de comer e dormir a uns geeks e jovens empreendedores.

Podemos discutir muita coisa em relação à política do ministro da Ciência e Tecnologia. Até podemos discutir os seus números de magia para que o aumento da precariedade pareça o oposto, para que o empurrar de responsabilidades para os centros de investigação pareça corajoso e para que a redução dos valores de muitas bolsas pareça fartura. Mas há uma coisa que não podemos negar, porque se mede em dias e meses: os resultados do concurso para a atribuição das bolsas da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) para doutoramentos e pós-doutoramentos, de que depende quase toda a investigação pública que se faz em Portugal, tinham de ser conhecidos em 90 dias úteis e só o serão sete meses depois das candidaturas entregues. Manuel Heitor garantiu que ia cumpri o calendário e não o cumpriu, por largo falhanço, logo no primeiro concurso. O que quer dizer que, até ver, não é mais competente do que Nuno Crato. Não me recordo de pior coisa para se dizer de um ministro.

O paradoxo da produtividade

(Karl Hape, in Expresso, 21/10/2016)

produtividade

Este texto merece ser lido pelos nossos políticos e comentadores, nomeadamente os da área da direita para perceberem que quando falam de crescimento económico anémico em Portugal, não sabem bem o que estão a dizer. Como fica claro, o crescimento das economias – sobretudo tendo em conta a forma como é medido -, é algo cada vez mais difícil de se alcançar e tal decorre precisamente da emergência de forças que todos louvam e incentivam: a ciência e as tecnologias, mormente as tecnologias da informação. E o autor conclui, e bem, que a solução está menos em produzir mais, mas sim em distribuir melhor os aumentos de produção que as novas técnicas geram. ( Comentário da Estátua de Sal).


Os economistas estão intrigados. Na segunda metade do século passado, os ganhos de produtividade nos Estados Unidos da América decresceram de cerca de 3% para 2%. No início da crise financeira global, diminuíram ainda mais, para menos de 1% anualmente. A situação é idêntica em outras economias desenvolvidas. Isto apesar de muitos acreditarem que os desenvolvimentos tecnológicos conduziriam a melhorias significativas na eficiência. De facto, as pessoas sentem estar a viver numa época de contínuo progresso tecnológico, com modelos de negócio disruptivos que desafiam as empresas estabelecidas e aceleram o ritmo de vida. Então, porquê esta divergência?

Há duas dimensões a contribuir para este paradoxo. A primeira tem que ver com memória seletiva e expectativas adaptáveis. Coletivamente, atribuímos maior peso às memórias de eventos mais recentes do que às de um passado distante, assumindo como garantidas as tecnologias às quais estamos habituados. Isto significa que vemos mudanças nas nossas vidas como o Facebook ou os próprios smartphones, como algo muito mais importante para a humanidade do que as melhorias no saneamento ou a invenção da telefonia — apenas porque as encaramos como algo que existe desde sempre.

Robert Gordon explora este fenómeno em “The Rise and Fall in American Growth” (“A Subida e Queda no Crescimento Americano”), sugerindo que a maioria dos avanços na produtividade no século XX resultam de cinco “grandes invenções” do final do século XIX, a designar: distribuição de eletricidade, motor de combustão interna, rede de saneamento pública, indústria química/farmacêutica e telecomunicações. Em contrapartida, a moderna tecnologia de informação falhou na introdução de idênticas melhorias na qualidade de vida e no progresso económico, o que resultou num crescimento mais lento da produtividade.

Estamos a reverter o progresso anterior, criando uma economia estagnada, incapaz de gerar aumentos do rendimento real para a maioria dos participantes

A segunda dimensão deste paradoxo tem que ver com definição e medida. A produtividade é, segundo os economistas, a medida do valor acrescentado por hora de trabalho; não é uma medida de quantidade, qualidade ou utilidade que os consumidores retiram do seu consumo. Em resultado disso, estas dimensões não estão refletidas no crescimento do real do Produto Interno Bruto.

Embora esta pareça uma distinção subtil, é particularmente importante na era da informação. Na Revolução Industrial, as invenções centravam-se na criação de processos produtivos e logísticos mais eficientes, para assegurar o fornecimento de mais produtos aos consumidores finais. Genericamente, tínhamos invenção, produção, promoção & marketing, distribuição e retalho. Com os avanços da moderna tecnologia de informação, o foco passou a estar centrado na disrupção desta cadeia de valor, tendo sido removidos alguns passos entre a invenção/criação e o consumo.

Ao remover esses passos, parte da atividade económica desapareceu. Os consumidores passaram a poder aceder rapidamente aos criadores dos seus produtos, diretamente e a preços mais baixos, mas o número de pessoas empregues na cadeia de valor encolheu dramaticamente. Na teoria económica, isto seria positivo se as pessoas ficassem livres para fazer novas coisas. Infelizmente, na prática, o ajustamento não acontece rapidamente, uma vez que, no processo produtivo, muitas pessoas ficam presas a indústrias em declínio com salários que vão diminuindo progressivamente ou onde o seu posto de trabalho simplesmente desaparece.

Se as economias fossem capazes de gerar suficientes novos produtos e serviços que fossem capaz de absorver estas perdas, então todos iriam usufruir de um ganho significativo na sua qualidade de vida. Porém, na realidade, a partir de determinado momento a economia deixa de conseguir criar coisas suficientes para as pessoas quererem. Mesmo para os vencedores, é um problema. Ao fundar a lendária empresa automóvel, Henry Ford reconheceu que teria de distribuir uma parte significativa do rendimento do seu negócio com os colaboradores para torná-los seus clientes. De certa forma, estamos a reverter este progresso, criando uma economia estagnada, incapaz de gerar aumentos do rendimento real para a maioria dos participantes.

O resultado é que cada vez menos consumidores são capazes de aumentar o seu consumo e estimular o crescimento económico. Isto cria um círculo vicioso negativo de queda de produtividade e contração económica e é apenas pela descoberta de melhores soluções de distribuição dos ganhos de eficiência destes negócios disruptivos que seremos capazes de resolver este paradoxo da produtividade.

(CIO Insurance Related Strategies, Allianz Global Investors)


FUJAM, VEM AÍ O UPDATE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 17/09/2016)

Autor

                                      Clara Ferreira Alves

Um dia, num ataque de modernização, resolvi digitalizar-me. Um dia igual àquele em que resolvi oferecer os meus vinis. Um dia modernamente estúpido

Vem aí o update. Melhor sair da cidade. Os updates dão-me cabo da vida. E não só os updates. Fiquei sem o meu Gmail. Sem as minhas notas digitais. Engolidas no éter. Tratadas, as minhas laboriosas notas, como um basket of deplorables.

Houve um tempo feliz, há muitos, muitos anos, em que as pessoas falavam com as pessoas e resolviam problemas das pessoas. Uma pessoa tinha um problema e telefonava a outra pessoa que não lhe dizia, se é para o assunto X carregue no 1, se é para o assunto Y carregue no 2, se é para o assunto Z carregue no 3, se é para outros assuntos fique em linha a secar e a escutar música de elevador até falar com um operador.

E se chego a falar com o dito operador, aparece-me um indígena que fala português com mistura de sotaque ucraniano e brasileiro. Nesse tempo feliz, usava-se o papel. O papel é uma pasta de celulose odiada pelo mundo digital. O papel das minhas notas, um caderninho, era leve, digno, fácil de transportar, era até bonitinho (diria o brasileiro) e prático. Com um caderno de notas e um livro de bolso, paperback, paper, podia-se afrontar a fila burocrática, aguentar o consultório médico, suportar a ansiedade do hospital, a senha da loja do cidadão, a espera do aeroporto. Resistia a trocar o caderninho pelo telemóvel. Apesar das tentadoras propostas das utilities da Apple — grave o seu memo, escrevinhe a sua nota, guarde os seus segredos —, achava o papel e a esferográfica insubstituíveis. Um dia, num ataque de modernização, resolvi digitalizar-me. Um dia igual àquele em que resolvi oferecer os meus vinis. Um dia modernamente estúpido. Guardei os caderninhos e passei ao iPhone. A escrever nas Notes. Mantive a agenda de papel, por razões fetichistas, trata-se de uma Smythson, e mandei fora o calendário e o postal ilustrado. Comunico por WhatsApp em vez de recorrer aos correios da Suazilândia ou da Cochinchina.

E, por medida de precaução, fui guardando capítulos de um livro que estava a escrever no Gmail. Havia lá coisa mais segura do que o Gmail da Google? E qual a ideia da letra em caixa alta unida à caixa baixa? Gmail, iPod, iPhone, etc.? Os fabulosos servidores, uma palavra que é todo um programa, guardariam para sempre, ao contrário dos prints, a minha produção literária e o meu arquivo de mensagens. Que diabo, estamos no século XXI, certo? Falta deitar fora os CD. iTunes, certo? (here we go again…). Cada vez que me apetecia escrever, abria as Notes e despejava ideias nesse dispositivo de segurança chamado iPhone tão simples de perder. Um dia, esta crónica seria toda escrita em emojis. A Google é a Google, nada corre mal em Silicon Valley. Os techies são confiáveis. Nunca desisti do paperback, o Bezos pode ir dar uma volta com o Kindle dele. Não vou contribuir para a fortuna de um tipo que está a destruir os direitos de autor.

O tempo foi passando. Dois anos de Notes guardadas no “celular”, como chamaria ao dispositivo o brasileiro do call-center. E um arquivo no Gmail. Seguríssimo. Ainda perguntei, não seria melhor fazer prints da coisa? Prints, estás maluca? Se quiseres, usa um disco duro. Tens isso na Cloud não tens? Tens backup? Sei lá. Nunca fui à Cloud. E se estas coisas são tão avançadas não deveriam ter backup automático? Não é da essência do progresso poupar-nos à redundância? Como diria o Marco Paulo a propósito da internet, se a Cloud me quiser eu estou disponível. Na verdade, comprei a Cloud em plano mensal de armazenamento mas não me ralei em perceber como a controlar. Eu é mais escritas. Mais Dostoievski que Zuckerberg. Resumindo. Um dia destes acordei e tudo tinha levado sumiço. As Notes, primeiro, e depois todo o meu Gmail. Todo. Tudo. Peritos foram convocados para me salvarem. Fez delete? Não. Foi ver o trash? Fui. Manobras foram praticadas de recuperação. Fora de horas, fui ver os chats, os fora (fóruns, diz a malta), fui aos sites. Corri tudo. Tentei tudo. Sei navegar na web melhor que muito tecnocrata. Havia muitíssima gente com o mesmo problema. Uns desgraçados como eu. Descobri muitas coisas. Parece que as minhas Notes estavam apensas ao Gmail e que não estava nada na Cloud. Nadinha. A Cloud é um albergue espanhol. Entretanto, a Apple mandava-me mensagens desesperadas sobre o El Capitán isto e aquilo. Eu quero que o El Capitán… podem preencher. Fui ao site da Google, onde não há pessoas a resolver problemas. Só algoritmos. Mandaram-me preencher um formulário de recuperação. Submit. Submeti. Dois segundos depois recebi uma mensagem automática a explicar quanto lamentavam (quem?) a minha perda, como num velório, e a dizer que aquele e-mail estava perdido para sempre. Se a mensagem é automática, isto deve estar sempre a acontecer. Mais de dois anos de notas perdidas. Todo o e-mail arquivado. O livro estava publicado. Lucky me. E nem uma pessoa me conseguiu explicar o que aconteceu. Um hacker? Talvez um update, disseram. Ah, o update. Bem me parecia.