O paradoxo da produtividade

(Karl Hape, in Expresso, 21/10/2016)

produtividade

Este texto merece ser lido pelos nossos políticos e comentadores, nomeadamente os da área da direita para perceberem que quando falam de crescimento económico anémico em Portugal, não sabem bem o que estão a dizer. Como fica claro, o crescimento das economias – sobretudo tendo em conta a forma como é medido -, é algo cada vez mais difícil de se alcançar e tal decorre precisamente da emergência de forças que todos louvam e incentivam: a ciência e as tecnologias, mormente as tecnologias da informação. E o autor conclui, e bem, que a solução está menos em produzir mais, mas sim em distribuir melhor os aumentos de produção que as novas técnicas geram. ( Comentário da Estátua de Sal).


Os economistas estão intrigados. Na segunda metade do século passado, os ganhos de produtividade nos Estados Unidos da América decresceram de cerca de 3% para 2%. No início da crise financeira global, diminuíram ainda mais, para menos de 1% anualmente. A situação é idêntica em outras economias desenvolvidas. Isto apesar de muitos acreditarem que os desenvolvimentos tecnológicos conduziriam a melhorias significativas na eficiência. De facto, as pessoas sentem estar a viver numa época de contínuo progresso tecnológico, com modelos de negócio disruptivos que desafiam as empresas estabelecidas e aceleram o ritmo de vida. Então, porquê esta divergência?

Há duas dimensões a contribuir para este paradoxo. A primeira tem que ver com memória seletiva e expectativas adaptáveis. Coletivamente, atribuímos maior peso às memórias de eventos mais recentes do que às de um passado distante, assumindo como garantidas as tecnologias às quais estamos habituados. Isto significa que vemos mudanças nas nossas vidas como o Facebook ou os próprios smartphones, como algo muito mais importante para a humanidade do que as melhorias no saneamento ou a invenção da telefonia — apenas porque as encaramos como algo que existe desde sempre.

Robert Gordon explora este fenómeno em “The Rise and Fall in American Growth” (“A Subida e Queda no Crescimento Americano”), sugerindo que a maioria dos avanços na produtividade no século XX resultam de cinco “grandes invenções” do final do século XIX, a designar: distribuição de eletricidade, motor de combustão interna, rede de saneamento pública, indústria química/farmacêutica e telecomunicações. Em contrapartida, a moderna tecnologia de informação falhou na introdução de idênticas melhorias na qualidade de vida e no progresso económico, o que resultou num crescimento mais lento da produtividade.

Estamos a reverter o progresso anterior, criando uma economia estagnada, incapaz de gerar aumentos do rendimento real para a maioria dos participantes

A segunda dimensão deste paradoxo tem que ver com definição e medida. A produtividade é, segundo os economistas, a medida do valor acrescentado por hora de trabalho; não é uma medida de quantidade, qualidade ou utilidade que os consumidores retiram do seu consumo. Em resultado disso, estas dimensões não estão refletidas no crescimento do real do Produto Interno Bruto.

Embora esta pareça uma distinção subtil, é particularmente importante na era da informação. Na Revolução Industrial, as invenções centravam-se na criação de processos produtivos e logísticos mais eficientes, para assegurar o fornecimento de mais produtos aos consumidores finais. Genericamente, tínhamos invenção, produção, promoção & marketing, distribuição e retalho. Com os avanços da moderna tecnologia de informação, o foco passou a estar centrado na disrupção desta cadeia de valor, tendo sido removidos alguns passos entre a invenção/criação e o consumo.

Ao remover esses passos, parte da atividade económica desapareceu. Os consumidores passaram a poder aceder rapidamente aos criadores dos seus produtos, diretamente e a preços mais baixos, mas o número de pessoas empregues na cadeia de valor encolheu dramaticamente. Na teoria económica, isto seria positivo se as pessoas ficassem livres para fazer novas coisas. Infelizmente, na prática, o ajustamento não acontece rapidamente, uma vez que, no processo produtivo, muitas pessoas ficam presas a indústrias em declínio com salários que vão diminuindo progressivamente ou onde o seu posto de trabalho simplesmente desaparece.

Se as economias fossem capazes de gerar suficientes novos produtos e serviços que fossem capaz de absorver estas perdas, então todos iriam usufruir de um ganho significativo na sua qualidade de vida. Porém, na realidade, a partir de determinado momento a economia deixa de conseguir criar coisas suficientes para as pessoas quererem. Mesmo para os vencedores, é um problema. Ao fundar a lendária empresa automóvel, Henry Ford reconheceu que teria de distribuir uma parte significativa do rendimento do seu negócio com os colaboradores para torná-los seus clientes. De certa forma, estamos a reverter este progresso, criando uma economia estagnada, incapaz de gerar aumentos do rendimento real para a maioria dos participantes.

O resultado é que cada vez menos consumidores são capazes de aumentar o seu consumo e estimular o crescimento económico. Isto cria um círculo vicioso negativo de queda de produtividade e contração económica e é apenas pela descoberta de melhores soluções de distribuição dos ganhos de eficiência destes negócios disruptivos que seremos capazes de resolver este paradoxo da produtividade.

(CIO Insurance Related Strategies, Allianz Global Investors)


3 pensamentos sobre “O paradoxo da produtividade

  1. Eu suspeito (mas é mera especulação) que este efeito é simplesmente um exemplo concreto da Lei dos Rendimentos Decrescentes em Economia. O processo produtivo está já tão otimizado e é tão complexo nas Economias Avançadas, que se torna difícil gerar ganhos significativos de produtividade (em percentagem de um PIB que está ainda em crescimento) com novas tecnologias, porque o seu efeito é incomparavelmente mais pequeno do que outras tecnologias disruptivas que foram introduzidas no Passado…

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    • O produto pode ser calculado pela óptica da despesa, do produto e do rendimento e tem que se obter sempre o mesmo valor. A questão é que os robots não recebem rendimento, coitados, e como grande parte dos lucros são ocultados pelas grandes companhias, é claro que o produto só pode baixar e o crescimento económico, medido ainda pela lógica dos tempos da Revolução Industrial só pode ser menor. Esse é o facto que o autor sublinha: sem maior repartição do rendimento, nada feito.

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    • Os economistas estão sempre a apregoar que precisamos de aumentar a produtividade que é a condição para um pais progredir e pagar as suas dívidas… ontem vi uma reportagem sobre o tema (em França) . Sabem de entre 1949 e 2015 a produtividade deste pais aumentou 759% !!!! E com cada vez menos contribuição humana já que tudo se vai robotizando, em todas as áreas das actividades humanas. Mas continuam os economistas e políticos a reclamar mais produtividade… E os que ainda tem a sorte de ter um trabalho (ou emprego) são pressurizados como limões.. nunca houve tantos casos de paragem no trabalho por causa de acidentes e maleitas devidas á gestos repetitivos ou/e pressões psíquicas… o futuro a continuar assim é o inferno!

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