O colonial Schäuble

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/07/2016)

Autor

                          Daniel Oliveira

Não valerá muito a pena insistir aqui no absurdo que são as sanções para punir o défice de um governo que cumpriu as ordens de quem sanciona e boicotar as condições para que o governo que lhe sucedeu cumpra as previsões positivas que a própria União faz. Não vale a pena recordar que há, para além de Espanha e Portugal, mais Estados que não cumprem o défice – França e Itália – e que não serão sancionados. Não vale a pena insistir que os efeitos do Brexit, a situação da banca alemã e italiana, a crise dos refugiados e o medo causado pelo terrorismo é que deviam estar a ocupar os neurónios dos líderes europeus. Não vale a pena recordar que novos aumentos de impostos e novos cortes nos rendimentos, por causa de mais 0,2% de défice, teriam como único resultado impedir a recuperação económica e tornar menos provável o cumprimento das metas. Os melhores resultados económicos de 2015, face aos anos anteriores, explicam-se em grande parte com o abrandamento da austeridade, por causa das eleições.

Não vale dizer nada disto porque estamos a assistir a um bullying para mostrar mão firme depois do Brexit. Ou pior do que isso: um ato consciente de desestabilização política de um Estado. Ou mais estúpido ainda: uma manobra de diversão para cada um esconder os problemas que tem em casa.

Não vale a pena gritar porque ninguém nos ouve. A democracia precisa da Ágora e não há Ágora europeia. Os europeus não pertencem a uma comunidade capaz de debater entre si, fora de reuniões de políticos e burocratas. Como no passado, os eleitores alemães ouvirão apenas a versão alemã. Muitas vezes intoxicados pela mentira, como está a acontecer agora, com a televisão pública alemã a vender um incumprimento muitíssimo superior ao real.

Foi este tipo de discurso político, que nenhum governante alimentou mais do que Schäuble, que ajudou ao clima de egoísmo e xenofobia que a crise e o desmantelamento do Estado Social já faziam crescer. Construída a narrativa dos povos preguiçosos do sul, os políticos do norte ficaram reféns do seu próprio populismo. E passaram a estar impedidos, pelos próprios eleitores, de avançar com políticas que recuperem a coesão e a solidariedade na Europa.

Só que no caso de Wolfgang Schäuble não estou seguro que se trate apenas de um discurso tático. A forma como usa a ideia de uma sanção como um “incentivo” denuncia um paternalismo que nós, como colonizador, bem conhecemos (porque praticámos).

Por causa do Brexit, os ingleses têm sido acusados de xenofobia. Sair da União é visto como um sinal de arrogância. Acontece que as atuais relações de poder nesta União, desiguais e arbitrárias, são marcadas pela arrogância. Querer estar nesta União não é, para os Estados que mandam, uma prova de oposição à xenofobia. Porque esta União pode estar a ganhar traços coloniais. Eles podem ser castigadores, paternalistas ou os dois em simultâneo, com sanções que são um “incentivo”.

Estou, neste momento, fora do país, em trabalho. A minha coluna não manterá durante estas duas semanas a mesma regularidade

Sanções valentes e imortais

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 08/07/2016)

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João Quadros

 

Pode ser fanfarronice, derivado de estarmos na final do Euro 2016, mas já entrei numa fase em que bem me podem ameaçar com sanções da CE que não levo a sério.


Não adianta o Schäuble fazer ameaças porque o que os portugueses temem é a final do Euro e os pontos na carta de condução.

Mais uma vez, a CE empurrou com a barriga as sanções contra Portugal e Espanha. A decisão sobre possíveis sanções foi adiada para o Ecofin. Será que estão à espera que o Schäuble faça a revisão dos 5 mil quilómetros?! Isto de procrastinar decisões é muito português – cuidado, CE, estão a ganhar vícios. Não deixes para amanhã o que podes sancionar hoje.

A CE, como pai, é miserável. Esta ideia de ir adiando castigos é de quem não leu tratados nem o livro do Doutor Benjamin Spock. Ninguém consegue levar a sério esta gente. Decidam-se! As sanções da CE são piores do que o tratamento de canais, já é a terceira vez que lá vamos. Sejam valentes ou parem com ameaças. Tanta pressa para o Reino Unido invocar o artigo 50 e não são capazes de tomar uma decisão com os pobres ibéricos. É melhor deixarem para Setembro, porque sanções boas são nos meses com R. Está visto que ficamos com a sanção de França. Toda esta falsa valentia popular da CE dá vontade de citar o grande Quim Barreiros: o melhor dia para as sanções é o 31 de Julho porque depois entra Agosto.

Sobre Schäuble, já pouco mais se pode dizer. Schäuble é a falha de Santo André da UE. Um dia destes… Sobre as declarações de Passos, sobre as declarações de Schäuble, “mostram que a desconfiança instalou-se”, podemos dizer que por muito menos prenderam o espião português que vendia segredos aos russos.

A CE gosta de fazer os outros de parvos, daí Durão ter sido presidente da dita. Já todos percebemos que o castigo não são as sanções, mas sim tentar obter o que se quer, com os adiamentos de possíveis sanções. Antigamente, chamava-se chantagem. Maria Luís, desta vez, falou verdade quando disse que não haveria sanções se ela ainda fosse ministra das Finanças. Não é a esquerda que é anti-UE. É a UE que é anti-esquerda. A Catarina Martins vai ter de se vestir como a Maria Luís e o Costa vai ter de aprender a fazer papos de anjo.

Não sei se a CE vai insistir muito mais tempo nesta táctica sádica de “castigar o passado, mas com um olho num futuro de redenção”, sabendo que o Brexit está longe de ter dado que falar e o Deutsche Bank ainda não começou a ser falado. O que é certo é que se a CE resolver deixar a “geringonça” de Costa em paz até ao fim de 2016, quem vai ter de arranjar um plano B é Passos Coelho.


top 5

Sanções

1. “A PJ apreendeu várias obras de Paula Rego a Diogo Gaspar, ex-director do Museu da Presidência – A minha esperança é que este Diogo Gaspar tenha roubado alguma coisa ao ex-Presidente Cavaco Silva. Sempre era uma novidade.

2. Expresso: “Bombistas suicidas do aeroporto de Istambul eram da ex-União Soviética” – Há o risco de os próximos serem da ex-União Europeia.

3. Passos Coelho: “este discurso pão, pão, queijo, queijo de quem acha que Portugal está no caminho do incumprimento…” – “Para trás mija a burra” , etc. Passos é o nosso Tino de Massamá.

4. Grupo Impresa (Expresso, SIC) envia convites para a Universidade de Verão do PSD – A seguir, o jornal Público vai enviar uma camisola amarela aos leitores.

5. Fraude na gestão do museu da Presidência da República – Também gostava que investigassem quem ficou com os cavalos todos do Museu dos Coches.

Dos mentecaptos e afins

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 08/07/2016)

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Baptista Bastos

O embaraço do ministro alemão das Finanças, em desdizer o que, na realidade, dissera, porque era o que, afinal, desejava, dá-nos uma ideia, embora pálida, das trapalhadas em que a “União” Europeia se enredou. Falar da “União” com o grotesco entusiasmo de Durão Barroso é pecaminoso, embora se entenda com repulsa: ele tratou lá da vidinha, e aquilo foi um maná. O senhor tem tendência para serventuário, viu-se, sobretudo, na cimeira dos Açores, onde atingiu o nível de indecoroso.

O que está em causa, nesta organização, é, também, a qualidade dos seus representantes. São meros funcionários, técnicos de contas, que desconhecem, totalmente, as características fundamentais das nações e dos povos, e apenas obedecem a outras ordens, emanadas dos grandes senhores do dinheiro, de face oculta, e que determinam as famosas “leis do mercado”.

A “União” nem sequer foi uma utopia: foi um mito reabsorvido pelo sistema, e arduamente defendido por sicários que cedo viram na organização um modo de vida fácil e muitíssimo bem pago. Bem vistas as coisas, a solidariedade nunca existiu por aquelas bandas. Um filme exibido há anos, “os Eurocratas”, dava-nos um pouco da secreta realidade da “União.” Foi retirado da circulação, por “criar mal-estar”.

Mas os agora 27 países do conglomerado não parecem estar totalmente sossegados, e isso reflecte-se nas dramáticas manifestações de racismo e de xenofobia, nas muralhas de aço e de arame farpado, no medo que certos países têm dos estrangeiros. O Reino Unido fez saber, recentemente, que os europeus eram todos bem-vindos. Os europeus, note-se. O velho nacionalismo ressurgiu dos escombros de uma “União” que provocou o renascimento desse espectro. Seria instrutivo ler ou reler “A Ideologia Alemã” ou “História da Literatura Alemã”, de György Lukács, pela actualidade da visão e pela profundidade dos conceitos.

E provoca dó e compaixão assistir aos salamaleques de François Hollande, convencido de que é uma figura importante quando não passa de um títere de Angela Merkel e dos seus propósitos. Schäuble, aquele ministro de má catadura, que, em tempos, animou o ministro português Vítor Gaspar, tranquilizando-o com palavras cúmplices na ideologia, é o mesmo que não esconde o seu ódio ao actual Governo de Portugal e aquele que armadilhou a Grécia, numa das mais indecorosas intervenções invasivas de que há memória.

Todo o cuidado é pouco quando se trata de relações com a Alemanha. Historicamente, ela possui uma noção de superioridade. Como tem sempre sido vencida pelas armas, voltou-se para os esquemas da economia, com intensa satisfação por alguns pequenos mentecaptos que pululam pelos jornais e televisões, neste caso portugueses.