Dos mentecaptos e afins

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 08/07/2016)

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Baptista Bastos

O embaraço do ministro alemão das Finanças, em desdizer o que, na realidade, dissera, porque era o que, afinal, desejava, dá-nos uma ideia, embora pálida, das trapalhadas em que a “União” Europeia se enredou. Falar da “União” com o grotesco entusiasmo de Durão Barroso é pecaminoso, embora se entenda com repulsa: ele tratou lá da vidinha, e aquilo foi um maná. O senhor tem tendência para serventuário, viu-se, sobretudo, na cimeira dos Açores, onde atingiu o nível de indecoroso.

O que está em causa, nesta organização, é, também, a qualidade dos seus representantes. São meros funcionários, técnicos de contas, que desconhecem, totalmente, as características fundamentais das nações e dos povos, e apenas obedecem a outras ordens, emanadas dos grandes senhores do dinheiro, de face oculta, e que determinam as famosas “leis do mercado”.

A “União” nem sequer foi uma utopia: foi um mito reabsorvido pelo sistema, e arduamente defendido por sicários que cedo viram na organização um modo de vida fácil e muitíssimo bem pago. Bem vistas as coisas, a solidariedade nunca existiu por aquelas bandas. Um filme exibido há anos, “os Eurocratas”, dava-nos um pouco da secreta realidade da “União.” Foi retirado da circulação, por “criar mal-estar”.

Mas os agora 27 países do conglomerado não parecem estar totalmente sossegados, e isso reflecte-se nas dramáticas manifestações de racismo e de xenofobia, nas muralhas de aço e de arame farpado, no medo que certos países têm dos estrangeiros. O Reino Unido fez saber, recentemente, que os europeus eram todos bem-vindos. Os europeus, note-se. O velho nacionalismo ressurgiu dos escombros de uma “União” que provocou o renascimento desse espectro. Seria instrutivo ler ou reler “A Ideologia Alemã” ou “História da Literatura Alemã”, de György Lukács, pela actualidade da visão e pela profundidade dos conceitos.

E provoca dó e compaixão assistir aos salamaleques de François Hollande, convencido de que é uma figura importante quando não passa de um títere de Angela Merkel e dos seus propósitos. Schäuble, aquele ministro de má catadura, que, em tempos, animou o ministro português Vítor Gaspar, tranquilizando-o com palavras cúmplices na ideologia, é o mesmo que não esconde o seu ódio ao actual Governo de Portugal e aquele que armadilhou a Grécia, numa das mais indecorosas intervenções invasivas de que há memória.

Todo o cuidado é pouco quando se trata de relações com a Alemanha. Historicamente, ela possui uma noção de superioridade. Como tem sempre sido vencida pelas armas, voltou-se para os esquemas da economia, com intensa satisfação por alguns pequenos mentecaptos que pululam pelos jornais e televisões, neste caso portugueses.

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