De La Féria a Chopin com um toque de Bach

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 13/01/2017)

Um político que não compreenda e, mais grave, não assuma para si mesmo esta disponibilidade para se abrir à mundividência proporcionada pelo fruir cultural, seja através da literatura, do teatro, do cinema, do bailado, da ópera, da frequência de museus ou de concertos, não está apenas a descurar o que constitui a grande herança da tradição humanista europeia. Está a autoexcluir-se de uma perceção do mundo onde haja lugar para a surpresa, ou para o questionamento, pessoal e coletivo, desencadeado pelas múltiplas interrogações contidas nas grandes obras da cultura de todos os tempos.

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Conversando à chuva sobre enigmas

 (José Pacheco Pereira, in Público, 06/01/2018)

JPP

Pacheco Pereira

A comunicação social, essa grande simplificadora, acha que foi um combate de boxe. Mas não foi. Foi mau de um lado, mas bastante meigo do outro.


[Simplicio, Sagredo e Salviati estão protegidos da chuva num alpendre. Falam. Melhor, conversam, uma arte perdida.]

Simplicio – Viste o debate entre o Alemão e o Menino?

Sagredo – Vi.

Salviati – Vi. Estava a jantar com Aquele que Todos Renegam e Todos Querem Ser. No debate.

Sagredo – Quem?

Salviati – O Camarada Operário Soberano de Todas as Alianças.

Simplicio – Isso é um enigma?

Sagredo – É. Já sabes que Salviati de vez em quando fala assim.

Simplicio – Por quê?

Salviati – Por causa da Santa Inquisição, antes que venha aí a Lei da Rolha.

Sagredo – Já não te lembras? Houve uma proposta do Menino para haver uma Lei da Rolha, mas não passou…

Salviati – … mas como isto está vai acabar por passar.

Simplicio – E valeu tudo? Até tirar olhos?

Sagredo – A comunicação social, essa grande simplificadora, acha que foi um combate de boxe. Mas não foi. Eles não sabem o que é um combate de boxe. Foi mau de um lado, mas bastante meigo do outro. Ainda há quem não entenda que em certos combates ou não se vai lá, ou se se vai é para valer. Não há murros pela metade.

Simplicio – É a tua regra Salviati?

Salviati – É. Mas tenho outra regra antes dessa. Chamemos-lhe uma regra preventiva, filha da elegância, mãe do juízo.

Simplicio – Elegância? Para aqui chamada?

Salviati – Sim. Sempre nos podemos comportar como um lorde inglês, como aqueles que estão a organizar as cartas de um antepassado e chega o mordomo e diz “sua senhoria, a Inglaterra entrou em guerra, já mandei fazer as malas”. E um ano depois está a saltar de paraquedas na Sérvia para apoiar o Tito contra os alemães. Ele, oficial, junto com o mordomo, cabo. Aconteceu.

Sagredo – Isso não há cá. Voltemos à regra.

Salviati – A regra foi feita por George Bernard Shaw…“I learned long ago, never to wrestle with a pig. You get dirty, and besides, the pig likes it.”

Sagredo – Já agora podes mandar junto o link do George Bernard Shaw para a Wikipedia, pelo menos para um deles, o que confunde os Concertos.

Simplicio – E depois, o que é que ficou?

Salviati – Muito pouco. Ao Menino não lhe disseram que quem vai a eleições não é o Outro, o Fantasma, a Sombra, aquele que em 2005 lhe chamou o “portador do caos”, mas o Alemão…

Sagredo – … e o Alemão esqueceu-se da longa lista de “trapalhadas”. Da sesta, da incubadora, da tentativa de calar o nosso gentil Presidente dos Afectos que falava na televisão, – sempre a Lei da Rolha, – da fabulosa entrevista ao Frankfurter Allgemeine

Salviati – Oh memória! “o Governo português abdica do rumo de poupança” (…) este “é o momento” para corrigir a política de austeridade dos últimos dois anos.”. Política de austeridade, de quem? Manuela Ferreira Leite. E uma conferência de imprensa eleitoralista com Mexia, ministro das Obras Públicas, – lembram-se?, – sobre o anúncio de travessias do Tejo que ainda não se sabia onde nem como eram…

Sagrado – … se por cima, se por baixo. E a incubadora com um bebé que entrou num discurso de Estado…

Simplicio – … de quê?

Salviati – … de Estado. Pobre Estado. E a Secretaria de Estado que foi de charrete, e o “caso Chaves”, a gota de água. Na verdade, havia um tsunami atrás da gota de água, visto que o CDS já andava a dizer a Sampaio que talvez fosse retirar o apoio “àquilo”.

Sagredo – É, a perda da honra da boa governação, que era apanágio da instituição. E depois o “homem também chora…menina morena. Também deseja colo”(…)  “precisa de carinho, precisa de ternura”.

Salviati – O Alemão devia ter passado o vídeo, chegava para ganhar o debate com um imenso ridículo a abater-se sobre todos nós…

Simplicio – Depois queixa-te de que ele quer a Lei da Rolha… De facto, isso é mortífero.

Sagredo – E o que está lá a fazer a “menina morena”? Mas que está, está. Até eu já estou envergonhado. Quero ir para a Islândia.

Simplicio – Também eu, simples homem da escola aristotélica, me envergonho. Mas houve coisas sérias?

Salviati – Muito poucas. E aqui a culpa é mais do Alemão, porque é dele e não do Menino que quer colo que se esperava mais.

Sagredo – Mas não sei que vírus terrível castrou o debate…

Salviati – O Passos foi o vírus. Conseguiu uma grande vitória póstuma: impedir os que podiam falar, de falar. Acabaram todos por se atolar no pior vício da instituição, o medo de discutir de forma franca e aberta o que se passou nos últimos anos. Caiu-lhes um raio em cima e nem sequer olham para a nuvem escura. Daí o ódio à Sombra.

Sagredo – Mas o Menino não queria fazer um partido com a Sombra já Passos era Presidente?

Salviati – Queria. Em data que se conhece, num local que se conhece, pelos lados da Lapa. O Menino dizia que estava “enojado” com a transumância da Senhora para o Passos, e que era melhor fazer um novo partido para concorrer  com a instituição e foi a Sombra que lhe disse que não. E a mesma proposta foi feita a outros. Não adianta desmentir.

Simplicio – Não era o Partido Social Liberal?

Salviati – Não. Foi muito depois disso.

Sagredo – Por isso a Sombra deve estar a sorrir de ironia, com tanto esquecimento conveniente, com tanta concordância tímida com o que ele disse, mesmo que só sussurrada. Que a instituição está desfeita e a perder papel, que houve “excessos” nos anos da Carruagem de Três Cavalos, que se perdeu a “consciência social”, etc., etc. Até o Menino o diz.

Salviati – Dizem, mas não “produzem”. Não há na vida política do nosso Pobre País, nenhuma instituição que melhor reúna a pompa da não-discussão por cima com a fervorosa intriga por baixo. O baixo agora são as “redes”…

Simplicio – … onde proliferam os homens eternamente “jovens” sem currículo a não ser uns teewts a pretender ser engraçados. Até eu, simples homem, sei que é que está a dar.

Sagredo – Isto não vai acabar bem. É pena, porque a instituição faz falta.

Simplicio – Mas não é a Sombra que tem a biblioteca de um bruxo? Pede-lhe uns bruxedos.

Sagredo – Ele responde torto e diz que não é preciso. Que já viu muita coisa, e que a regra é que não é preciso nenhuma invocação a um demónio para os  transformar em sapos…

Salviati – … ele diz que eles normalmente fazem isso a si próprios, sem necessidade de qualquer Demónio.

COMUNICADO

(Tenente-Coronel Vasco Lourenço, em nome da Associação 25 de Abril)

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Inexplicavelmente, ou não, a Associação 25 de Abril é surpreendida com o seu envolvimento – indirecto, é um facto, mas envolvimento – na luta interna pela liderança do partido político social-democrata (PSD).Parecendo-nos desejável salientar a postura absolutamente autónoma e independente da Associação 25 de Abril, no que se refere a questões partidárias – o nosso passado responde por nós –, reafirmamos que, não sendo neutros politicamente (nunca fomos nem seremos) tratamos igualmente todos os partidos políticos que assumindo-se como democráticos,se revêem no 25 de Abril de 1974, independentemente da maneira como cada um deles o interpreta.

Como natural consequência disso, foi com prazer que vimos aceitar o nosso convite, para participar no I Congresso da Democracia, por nós organizado em 2004, a todos os partidos políticos (com assento na Assembleia da República ou não) por nós convidados. Por iniciativa nossa, é bom recordá-lo, apenas faltou o Partido da Renovação Nacional (PRN), que se assume como não democrático, o que nos levou a o não convidar. O mesmo se passou, quando em 2014 organizámos o Congresso da Cidadania.

O envolvimento indirecto da Associação 25 de Abril é motivado por um dos candidatos a presidente do PSD ter estado na Associação 25 de Abril, no âmbito de almoços/convívio/debate (Animados Almoços ânimo), que promovemos em colaboração com o nosso associado António Colaço.

Sim, é um facto que Rui Rio esteve, como convidado, num desses almoços,tendo sido recebido com a natural cortesia que dispensamos a todos os nossos convidados.
Esteve ele, como estiveram outros elementos proeminentes do PSD,igualmente receptivos ao convite.

Recordo apenas Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Pinto Balsemão, António Capucho, José Pacheco Pereira, Paulo Morais, Paulo Rangel, Miguel Relvas e Carlos Carreiras. Pedro Santana Lopes não esteve cá? Não, não foi convidado. Por razão nenhuma especial, apenas que o seu nome nunca foi aventado pelos organizadores…

Agora, que mostrou animosidade à instituição que, em grande medida, incorpora e representa os autores e responsáveis do 25 de Abril, de onde podemos concluir que tem igualmente animosidade para com esse acto libertador e fundador do Estado democrático em Portugal, não nos parece que venha a ser convidado.

Quanto à escolha do futuro presidente do PSD, ela cabe aos seus militantes.
No futuro, seja qual for o escolhido, a Associação 25 de Abril espera manter com o Partido Social Democrata as normais relações de respeito mútuo que sempre praticou.

Lisboa, 5 de Janeiro de 2018
O Presidente da Direcção
Vasco Correia Lourenço