Absurdos

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 08/07/2018)
JPP

Pacheco Pereira

É preciso controlar o fluxo de imigração para a Europa? É. É preciso distinguir entre imigrantes e refugiados? É. É necessário controlar fronteiras e ter medidas para integrar os imigrantes e os refugiados que já entraram nos últimos anos na Europa? É. É necessário estar atento às questões de segurança e criminalidade que um fluxo destes comporta? É. É necessário garantir os direitos das mulheres e das crianças que muitos refugiados e imigrantes não respeitam lá na sua origem e que pensam que podem desrespeitar cá? É. É preciso não esquecer os conflitos culturais, religiosos, de modo de vida, que a alteridade das culturas e religiões provocam sempre? É. É necessário fazer valer o primado dos direitos humanos para todos, e não instalar guetos de impunidade por razões religiosas? É.

Podia continuar a escrever estas coisas triviais, que, no entanto, são mais fáceis de enunciar do que de fazer.

Mas pensar que para responder à extrema-direita crescente na Europa a solução é fazer uma espécie de campos de concentração no Norte de África para manter lá os refugiados e os imigrantes indesejados, é um absurdo. Admitindo que tal possa ser possível – estamos a falar de países soberanos e que eu saiba a Europa já não tem protectorados na Argélia, em Marrocos, na Tunísia, no Egipto (na Líbia não sei), duvido muito que queiram gerir campos de concentração com centenas de milhares de pessoas nas suas costas, que, como se sabe, irão tornar-se eternos.
E presumo que as Nações Unidas já estão nos seus limites, com o caso recente dos refugiados rohingya. Brevemente estes campos, a existirem, vão ser problemas tão graves como a entrada descontrolada.

A homenagem à chuva

Há muita fita na política portuguesa. Mas sem querer ser ingénuo pareceu-me que todos, Marcelo, Costa, Ferro, estavam genuinamente a participar na homenagem ao Zé Pedro dos Xutos, contentes de lá estar debaixo da monumental carga de água a cantar e a dançar. Mérito de quem os uniu e de todos eles.

Ó homem, faça lá o novo partido de uma vez

Nem sequer vale a pena olhar com ironia para mais um remake da mesma coisa – Santana zangado com o PSD, que não o merece, bate com a porta e diz que vai fazer um novo partido, pela enésima vez – e lembrar-me das explicações esfarrapadas e falsas com que pretendeu negar o que eu tinha dito sobre uma tentativa anterior. Nunca tive dúvidas sobre em quem é que as pessoas acreditavam e por isso nem sequer me dei ao trabalho de rebater.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Agora pelos vistos há mais uma cena e eu espero sinceramente que desta vez tenha consequências e que Santana faça lá um novo PSL. É bom para o PSD, é bom para Rui Rio, e é residualmente bom para Santana Lopes. Na verdade, basta olhar para os números necessários para eleger um deputado em Lisboa e verificar que ele tem muitas probabilidades de ser eleito, como aconteceu com o Manuel Sérgio. Penso aliás que é esse o principal objectivo, visto que Santana Lopes sabe muito bem que enquanto os opositores de Rio tiverem a esperança de o derrubar antes das legislativas e de controlarem a composição das listas de deputados, ninguém deixa um grande partido para ir atrás de um micro.
Uma das coisas em que Trump acredita…

…é no seu poderoso magnetismo pessoal. Ele pensa que se lhe colocarem um homem a frente, seja que homem for, ele se renderá à sua fabulosa capacidade de persuasão. Há uma excepção: ele tem medo dos clérigos iranianos, que são demasiado severos para lhe permitir intimidades. Mas o resto, é só trazê-los à mesa e Trump atira-lhes ondas e ondas de toda a radiação possível do seu fabuloso ego.

Foi a pensar assim que se foi encontrar com Kim e veio de lá deslumbrado com as virtudes pessoais do dito e, pelos vistos, mesmo do mérito da governação na Coreia do Norte. Ele lá muito no fundo acha que Kim é uma coisa exótica, atirou -lhe com um vídeo infantil e péssimo, mas tê-lo à frente é para Trump todo o caminho andado. Ele precisa de espelhos para a sua vaidade. O mesmo acontecerá com Putin, mas aqui já se pode prever menos surpresa e mais subserviência. Ele sabe que Putin não é Kim, onde Kim é uma curiosidade, Putin mete respeito e tem muita coisa que Trump gostaria de ter.

Trump adora Putin, aqueles dourados do Kremlin, aquela longa passadeira vermelha, aquelas portas de bronze, aquela multidão de sicofantas alinhados a bater palmas, e ainda por cima ser um dos grandes do mundo, que tem bombas nucleares, aviões, porta-aviões, submarinos e muitos, muitos tanques. Mas acima de tudo adora a autoridade sem peias, de um homem que pode matar os seus opositores, a começar pelos jornalistas incómodos, metê-los na cadeia e genericamente pô-los na ordem. Com Kim quis seduzir o oriental estranho, com Putin quer aquilo que este nunca lhe dará: respeito e reconhecimento. E se com Kim ele é o mestre -de -cerimónias, com Putin sente-se inseguro, muito inseguro.


Embora aí Santana, que já não enganamos ninguém 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 05/07/2018) 

santanax

 

Mais uma vez, Pedro Santana Lopes veio anunciar que não fará mais política dentro do PSD. Já o anunciou de várias formas, em vários contextos e com diferentes argumentos, sempre com a mesma consequência: continuou a fazer política dentro do PSD, único partido onde as suas rábulas ainda podem ter alguma relevância. Santana Lopes foi presidente da Câmara de Lisboa porque João Soares fez a pior campanha eleitoral de que há memória na democracia portuguesa, foi primeiro-ministro porque Durão Barroso lhe ofereceu o lugar e, poucos meses depois, teve o pior resultado da história do PSD. Sempre que dependeu apenas dele correu mal. Internamente, foi esmagado por Marcelo Rebelo de Sousa em 1996, perdeu para Durão Barroso em 2000, ficou atrás de Manuela Ferreira Leite e Passos Coelho em 2008 e voltou a perder com Rui Rio nas últimas primárias. Quando Santana diz que “o PPD começa a estar farto do PSD” está a falar dele. Ele está farto de um partido que teima em não o querer (já o disse quatro vezes) apesar dele se imaginar sempre desejado.

Santana Lopes dedica-se à política há quase meio século. E, no entanto, nestes quase cinquenta anos não lhe conhecemos uma ideia para além das banalidades que se devem dizer a cada momento. É quase motivo de admiração, devo dizer, que alguém se dedique tantos anos a uma atividade sem nunca verdadeiramente se concentrar no que há de mais essencial nessa atividade.

Nem por um momento Santana Lopes parece ter sido assaltado pela angústia do sentido que tem a sua atividade cívica e profissional. Sejamos justos: Santana nunca fez política para enriquecer, nunca fez política para ter poder, nunca fez política por sentido de missão. Santana faz política como poderia dedicar-se a qualquer outra atividade pública: para existir para os outros. Não precisa de mais do que isso, o que o torna inofensivo. Mas é a única coisa que tem para nos oferecer: a sua existência.

Foi autarca e não tem uma ideia do que deve ser uma cidade. Não tem qualquer pensamento sobre políticas urbanas, de transportes ou de habitação. Tem obras, tem medidas, tem propostas avulsas. Não consegue integrar nenhuma delas num projeto mais geral sobre os grandes problemas que se levantam à vida urbana de hoje. Foi primeiro-ministro e qualquer debate que alguém tenha com ele sobre o papel do Estado na economia, o Estado Social ou a crise da União Europeia, esbarra em frases feitas. Dirão que a maioria dos políticos é assim e talvez seja verdade. Mas não o são os outros políticos que chegaram a primeiros-ministros. Mais sérios, desonestos, populistas, sóbrios, todos se esforçaram por criar o seu perfil político e passar a ideia de que tinham uma ideia para o país. De Santana Lopes, ninguém sabe dizer se é mais liberal ou mais social-democrata, se acredita em mais ou menos Estado. Não porque o esconda. Só nunca pensou nisso. Porque para ele nunca existiu política para além da tática de uma campanha. Não é oportunismo. É mesmo ignorância. Pedro Santana Lopes é o político português que chegou mais longe sabendo menos de política. Estou a falar da política de conta, não de jogos florais ou fogos de artifício.

O enésimo anúncio de que vai abandonar a intervenção política no PSD é a repetição de um número mediático de um homem que já esgotou todos os que tinha. Poderá acreditar que os deserdados do “passismo” o seguirão, não se apercebendo que na última eleição interna do PSD foi liderado e usado, não liderou ninguém. Uma vitória conseguiu: há várias pessoas informadas a fingir que levam a sério um novo partido liderado por Santana. Mas tudo isto acabará de duas maneiras: ou sai sozinho e andará aos caídos a tentar criar factos políticos que duram uma semana, ou fica no PSD, como fez das outras vezes, seguro que da próxima que tente a sua sorte ninguém se lembrará deste episódio. Porque Santana é Santana. Já só provoca um encolher de ombros. Já não engana ninguém.

E se Santana tiver razão?… 

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 30/06/2018)

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Santana Lopes deu a entender que pode abandonar o PSD para formar um novo partido. O anúncio é recorrente e, porventura, não deve ser levado muito a sério, até porque pode corresponder, em parte, à visão lúdica que o ex-primeiro-ministro tem da política. E se Santana Lopes tiver razão? Isto é, e se o espaço partidário português estiver exaurido e a necessitar de diversificação de oferta?

Se olharmos para os restantes países da Europa do sul, a marca da última década é o colapso dos sistemas partidários e a sua substituição por novas formações. Foi o que aconteceu de forma radical em Itália, França, Grécia e, em importante medida, na Espanha. Portugal permanece uma notável exceção: PS e PSD, apesar de tudo (a corrupção e a austeridade), resistem e PCP, BE e CDS continuam a servir de tampões à emergência de novas formações. Há explicações para esta resistência: algumas bem antigas (a capacidade que o PCP tem tido, desde 1975, para institucionalizar o protesto) e outras mais recentes (a capacidade de adaptação do PSD, que virou à direita, respondendo a anseios eleitorais; a forma como o PS não se comprometeu com a austeridade; e um BE que abandonou as suas raízes na velha esquerda para evoluir para um partido populista de esquerda).

Contudo, talvez possa ser um equívoco dar a estabilidade do sistema como garantida. Não apenas porque as condições para surgirem novas formações partidárias existem, mas também porque, na verdade, com as oportunidades certas, elas já tiveram sucesso.

Em Portugal, como no resto da Europa do sul, o espaço partidário já não corresponde de forma tão linear ao eleitorado sociológico. Seja porque os partidos cristalizaram nos seus núcleos duros de votantes, deixando de ser catch-all parties, seja, essencialmente, porque tem emergido um eleitorado de classe média, para quem o estatuto e as expectativas sociais já não correspondem à situação material, mais exposto às redes sociais do que aos media tradicionais, e cujos interesses são contraditórios com os das classes médias baixas. É por isso que as grandes sínteses acabaram e com elas as maiorias absolutas monocromáticas.

Se bem que com uma intensidade diferente do resto da Europa do sul (até porque não há nem uma questão autonómica nem imigração), os fatores que têm levado à derrocada do sistema partidário também se encontram presentes em Portugal. Aliás, não têm faltado sinais de que existe um eleitorado desafeto, disponível para escolher algo de novo e estranho aos partidos. Foi assim nas presidenciais com figuras desligadas dos aparelhos partidários (Nobre, Alegre, Sampaio da Nóvoa e Marcelo), nas europeias com Marinho e Pinto e em muitas eleições autárquicas. Santana Lopes anda por aí há demasiado tempo para poder ser credível neste papel, mas talvez seja extemporâneo dar por garantida a resistência do sistema português.