A direita no seu labirinto

(Carlos Esperança, 07/08/2018)

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O último congresso do PSD derrotou o projeto de Passos Coelho, que Santana Lopes se preparava para radicalizar com o apoio do grupo parlamentar. Rui Rio, sem cadastro, é encarado como a ameaça que paira sobre os autarcas do Norte que, apesar da denúncia da Visão, que se saiba, a PGR nunca mandou investigar. E não são os únicos alarmados!

Quanto a Santana Lopes, que provou não saber governar na Figueira da Foz, em Lisboa, e no País, pode saber governar-se, mas sabe dissipar melhor. É, aliás, o único populista do PSD com idade e currículo para prosseguir um projeto xenófobo, antieuropeísta e reacionário para a qual minguavam qualidades ao ora Doutor Passos Coelho.

Luís Montenegro era, até há pouco, o único candidato declarado a suceder a Rio, depois da inevitável derrota do PSD sem que a Dr.ª Cristas, incapaz de aglutinar os salazaristas, saudosistas do Império, e os ultraliberais, consiga crescer a fingir de democrata-cristã.

De pouco tem valido, a crer nas sondagens, a colossal barreira de ataques concertados aos partidos de esquerda, nos diversos órgãos de comunicação social, por jornalistas da extrema-direita, comentadores avençados e políticos reacionários ansiosos do poder.

Marques Mendes, cada vez mais um moço de recados, perdeu o fôlego e a compostura e já nem como eco de Belém serve. O próprio Marcelo, cujos banhos fluviais rivalizam com os incêndios em atenção mediática, já veio queixar-se da fraqueza do seu partido, que não consegue capitalizar a sua ajuda.

Pedro Duarte, ex-presidente da JSD e ex-diretor da campanha de Marcelo a PR, pode vir a substituir Marques Mendes como intérprete do pensamento do PR, agora que desafiou Rui Rio, sendo o primeiro que agradará a Marcelo e não parece alinhar pelo extremismo de Passos e Santana Lopes.

O PR, preocupado com a sua imagem e a do PSD, apesar de detestar Santana Lopes, foi com apreensão que soube da desfiliação que o menino guerreiro lhe anunciou, e não se conformou com a decisão que divide e debilita a sua área política. Foi com acidez que, entre dois banhos na zona dos incêndios do ano passado, que se empenha a recordar, desabafou: “Para mim o partido é uma família e não se muda uma família (…)”.

Entretanto, os ataques ao BE atingem uma ferocidade inaudita, em artigos de opinião na imprensa escrita, no espaço dos leitores e nas redes sociais, na tentativa de a direita mais à direita cobrir os seus escândalos, casos de polícia e desagregação, com o caso Robles que, sem lhe retirar a gravidade política, não mostra ser um caso de polícia.

Esta direita que berra, ulula e grunhe contra a falta de ética de um militante de esquerda, cala-se nos casos de provada corrupção (Tecnoforma ou submarinos) e nos lícitos (Barroso e Maria Luís), que escapam à alçada dos Tribunais, desde que sejam os piores dos seus a prevaricar.

Conhecemos a competência desta direita, e, quanto a ética, estamos conversados.

O Pedro Duarte quer que o Rio vá dar banho ao cão e diz que toma ele conta das tropas laranjas. O outro Pedro, o déjà-vu Santana Flopes, diz adeus e diz que vai outra vez fazer outro partido. E eu, a isto, digo que fazem bem. E digo também: “Roam-se, ó invejosas!”

(In Blog UmJeitoManso, 04/08/2018)

Até pode ser. Mas a mim não me convencem. Há qualquer coisa nos Pedros. Não sei. Parece que não atinam. Não se focam. Deitam tudo a perder simplesmente porque têm uma forma imatura de ser…


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Erro de casting ou decadência das instituições?

(Carlos Esperança, 29/07/2018)

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Santana Lopes foi eleito académico de mérito da Academia Portuguesa da História. Não ficou registado em ata o nome do/a proponente, mas há decerto razões para distinguir o ora académico de mérito da Academia de Ciências de Lisboa, instituição que tem por objeto, entre outras atribuições, “…estimular o estudo da língua e literatura portuguesas e promover o estudo da história portuguesa…”.

O novel académico não tem carreira fulgurante no campo cultural. Quando secretário de Estado da Cultura, de Cavaco Silva, ficou manchado pelo veto do seu subsecretário, Sousa Lara, a ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’, de José Saramago, à candidatura do Prémio Literário Europeu. Não foi também o envio de felicitações a Machado de Assis, falecido em 1908, com votos de sucesso literário pessoal no lançamento da reedição de Dom Casmurro, em Lisboa, para que fora convidado como presidente da Câmara, que lhe ampliou o prestígio cultural.

Apesar do gosto pela música erudita e de «adorar ouvir os violinos de Chopin” [sic],não tinha obra de investigação ou publicações que o recomendassem, mas a cultura não lhe é alheia e a aprovação unânime pelos 14 ‘académicos de número’ presentes, justifica-se:

– O ora académico da prestigiada instituição apoiou a publicação da Obra Completa do Padre António Vieira (2013-2014), com 500 mil euros, montante com que a Santa Casa da Misericórdia participou quando era ele o Provedor;

– Quando presidente da Câmara de Lisboa, cedeu à Academia Portuguesa da História as instalações que ainda hoje ocupa, facto citado pela presidente da Academia Portuguesa da História, Manuela Mendonça, no elogio feito ao novo membro honorário.

Como se vê, a Academia Portuguesa da História estava em dívida para com ele, dívida reparada neste mês de julho e que dá jeito no currículo de qualquer fundador de um novo partido político.

Um honrado professor da Escola Naval, oficial superior da Marinha de Guerra, das suas numerosas condecorações, apenas tinha orgulho na medalha do Instituto de Socorros a Náufragos, resultante de um donativo seu, não da Associação dos Pupilos do Exército, de que era presidente.

Sem retirar mérito académico a Santana Lopes, imagino o Aiatolá Khomeini galardoado pela Confraria do Leitão à Bairrada, o que não surpreenderia depois de Cavaco Silva ter sido agraciado com o Grande-Colar da Ordem da Liberdade.

Erros de casting.