Partido de Santana Lopes já tem nome: “Aliança”

(Miguel Santos Carrapatoso, in Expresso, 18/08/2018)

ALIANÇA

ESTE É O SÍMBOLO DO NOVO PARTIDO DE SANTANA. CHEGA PARA CONSTRUIR ALIANÇAS. “UNIR RESPEITANDO A DIFERENÇA E AS DIFERENÇAS” É UM DOS SLOGANS

(Será que desta vez é que é a sério e Santana avança mesmo? A ver vamos. Apesar de, das outras vezes nunca ter mostrado o símbolo do novel partido, desta vez já mostra, e tudo.

Aguardam-se os desenvolvimentos dos próximos capítulos da saga do “menino guerreiro”.

Comentário da Estátua, 18/08/2018)


Nem siglas, nem alusões ao seu próprio nome, nem referências ao carácter ideológico. Simplesmente Aliança. Assim será batizado o novo partido de Pedro Santana Lopes, que arranca já no início da próxima semana com a recolha de assinaturas para se constituir formalmente como força partidária.

À memória vem de imediato a Aliança Democrática, que juntou Francisco Sá Carneiro (PSD), Diogo Freitas do Amaral (CDS) e Gonçalo Ribeiro Telles (PPM), a primeira grande coligação de centro-direita a vencer eleições legislativas em Portugal. Ao Expresso, Pedro Santana Lopes prefere não fazer comparações e explica o porquê do nome: “Mostra que viemos para construir e para unir, na política e no país”.

O objetivo assumido foi evitar rótulos e preconceitos ideológicos infundados, diz o ex-primeiro-ministro ao Expresso, apesar de se perceber que há uma base genética que tem que ver com as raízes do PSD. “Somos um partido personalista, liberalista e solidário. Europeísta, mas sem dogmas, sem seguir qualquer cartilha e que contesta a receita macroeconómica de Bruxelas”, explica.

Santana reconhece que o caminho “será difícil”, mas recusa embarcar em fatalismos. “Podem acusar-me de tudo, menos de não conhecer a política e de não saber como se faz política”, argumenta. A ambição existe e o antigo militante social-democrata não a esconde: “Queremos garantir representação política que nos permita participar no processo de decisão, seja no Governo seja na oposição”.

LIBERALIZAÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL E DA SAÚDE

O ADN do novo partido confunde-se com o de Santana Lopes e é bastante programático. Nos excertos da declaração de princípios, a que o Expresso teve acesso, está lá o europeísmo mais cético: “A União Europeia precisa de ser reformada e Portugal precisa de reforçar a sua atitude face à União”. Mas também contempla a preocupação com a cultura, a inovação e o mar: este é o “trinómio” da Aliança”. Assim como o combate à desertificação e ao abandono do território: a coesão territorial é um “imperativo absoluto”. E o reforço do papel do Estado na segurança e na justiça: “A celeridade da justiça e boas decisões judiciais são vitais para a confiança”.

É nas áreas da Segurança Social e da Saúde que a Aliança vai mais longe na sua declaração de princípios. O novo partido de Santana Lopes considera que a perda de capacidade do Estado para fazer face ao envelhecimento da população deve ser compensada por “esquemas de previdência alternativas e individualizados”. O mesmo para o Sistema Nacional de Saúde: “[Devemos estimular] o investimento em seguros de saúde eficazes”, com o Estado a acompanhar esse esforço dos portugueses “com deduções fiscais efetivas” e sem esquecer o papel do “terceiro sector”, nomeadamente a intervenção da Santa Casa da Misericórdia e de outras instituições que fazem parte da economia social.

Na economia, mesmo defendendo Orçamentos do Estado “equilibrados” e um rigoroso “controlo da despesa pública”, Santana Lopes aponta já dois caminhos prioritários: “Políticas de consolidação da dívida pública que não limitem tanto a margem de manobra orçamental” e uma “forte redução da carga fiscal”. “Taxas de esforço fiscal perto dos 60% constituem um atentado, [sobretudo] quando se sabe que grande parte desse esforço fiscal serve para sustentar um Estado que consome metade da riqueza nacional”, pode ler-se no texto fundador da Aliança.

Em matéria de direitos, liberdades e garantias, a Aliança é ainda pouco clara. Pelo menos nos excertos a que o Expresso teve acesso. Quando se despediu do PSD, Santana disse que saía porque queria “intervir politicamente num espaço em que não se dê liberdade de voto quando se é confrontado com a agenda moral da extrema-esquerda”. Ele foi um dos principais críticos da decisão de Rui Rio de dar liberdade de voto aos deputados quando a despenalização da eutanásia foi levada ao Parlamento. Agora, na Aliança, escreve: “Respeitamos a liberdade religiosa e valorizamos a dimensão espiritual da pessoa. Rejeitamos as visões utilitaristas e egoístas da vida humana”.

MACRON À PORTUGUESA COM CROWDFUNDING

O ex-primeiro-ministro prefere não desvendar, para já, quem o acompanha na nova aventura. Garante que tem recebido apoio de muitas pessoas, desde antigos simpatizantes do PSD e do CDS a “gente de todas as idades que nunca esteve na política”. “Estou genuinamente surpreendido com o apoio que temos recebido. Temos já assegurados representantes em todos os distritos, regiões autónomas e junto dos círculos de emigração”, assegura. A página do partido será lançada até ao arranque da próxima semana e Santana tem uma certeza: “A Aliança vai provocar a modernização acelerada de todos os partidos”.

À semelhança do que foram fazendo o Ciudadanos e o Podemos, em Espanha, ou o En Marche, de Emmanuel Macron, em França, a Aliança vai apostar nas plataformas digitais, menos dispendiosas do que as tradicionais estruturas partidárias: “Já me ofereceram espaços em sedes espalhadas por todo o país. Mas não faz sentido. Entrámos numa nova era de comunicação política”. Através da futura página do partido e da app que será entretanto criada, Santana quer receber “propostas, avaliações, criar um espaço de crowdfunding e de debate” para unir todos os simpatizantes, explica.

Está tudo a ser preparado ao mais ínfimo pormenor, diz Santana. A estratégia de comunicação foi delineada com base num “estudo comparado” que analisou as melhores práticas dos “partidos mais atualizados” e o nome do novo partido foi escolhido depois de avaliado por um focus group criado para o efeito.

No futuro, Santana, que integra e lidera um comité executivo composto por sete dirigentes, quer criar uma estrutura em que cada responsável falará sobre uma área diferente. A intenção é recusar a ideia de que este é ‘o partido de Santana Lopes’. “Isto não é um partido pessoal. É um projeto coletivo”, garante o ex-primeiro-ministro. Sobre o PSD, de Santana, nem uma palavra. Faz agora parte do passado.

SANTANA LOPES QUER CRIAR SENADO

Na mesma declaração de princípios, a Aliança de Santana defende a “modernização do sistema político português”, nomeadamente através da “criação do Senado, com a representação das diferentes regiões do país”, com o objetivo de aproximar eleitos dos eleitores. “Portugal teve câmara alta em muitos períodos da sua história constitucional, a generalidade dos Estados democráticos, em vários continentes, têm, igualmente, Parlamentos bicamerais. Será útil que Portugal procedesse a essa mudança, reduzindo o número de deputados em número superior ao da criação de lugares de senadores”, escreve o novo partido.

A ideia de um parlamentarismo bicameral (uma câmara baixa e uma câmara alta) é há muito defendida por Pedro Santana Lopes. No início de 2004, durante o Governo de Durão, PSD e CDS chegaram a avançar com uma proposta de revisão constitucional nesse sentido, que acabaria por não ter êxito. Muito contestada à esquerda, seria o PS a dar um golpe final nas aspirações da direita: “A revisão constitucional proposta pela maioria está morta e não vale a pena perder tempo”, vaticinou o então líder parlamentar dos socialistas, António Costa. A Aliança quer agora relançar a discussão.

Santana também não esquece a “tão falada e tão adiada” reforma do sistema eleitoral português, com a “introdução de círculos uninominais” compensada pela criação de um círculo nacional. Tudo para garantir uma “maior aproximação dos eleitores aos eleitos”. Resta saber que força terá Santana para levar os restantes partidos a ter esta discussão.

Vou fazer como Marcelo e Marques Mendes…

(Pacheco Pereira, in Sábado, 12/08(2018)

JPP

Pacheco Pereira

Uma coisa é a livre expressão de críticas e outra a organização de grupos e fracções como Passos fez contra Manuela Ferreira Leite, e Montenegro, Duarte e muitos membros do Grupo Parlamentar e algumas distritais fazem a Rio, e Lopes vai fazer, pelo menos com maior transparência, porque sob outro chapéu.

…e dizer: como eu vos disse, como eu tinha previsto a semana passada, etc.
Sim, como eu tinha previsto há mais tempo que a semana passada, Lopes admite que o seu “novo” partido tem como objectivo arranjar uns lugares nas próximas eleições, o dele em particular, e ninguém do PSD saiu atrás de Lopes sem se consumar a derradeira e desesperada tentativa de derrubar Rui Rio, antes que este possa condicionar as listas para deputados.
É o objectivo de Pedro Duarte e Montenegro. As suas estratégias têm nuances: Duarte quer condicionar as escolhas das próximas eleições, Montenegro é mais prudente e como sabe que elas serão muito difíceis de ganhar, prefere esperar para não ter o ónus da derrota.

Hipocrisias

Claro que ambos juram hipocritamente que não querem “desestabilizar” a direcção, mas isso é o lugar -comum do “politiquês” muito pobre, feito de frases feitas e rodriguinhos, que todos usam. Críticas a Rio, duras que sejam, serei o último a pôr esse direito em causa, até porque o exerço em abundância. E vejo com ironia como muitos dos que me criticaram fazem hoje o mesmo.
Só que, uma coisa é a livre expressão de críticas e outra a organização de grupos e fracções como Passos fez contra Manuela Ferreira Leite, e Montenegro, Duarte e muitos membros do Grupo Parlamentar e algumas distritais fazem a Rio, e Lopes vai fazer, pelo menos com maior transparência, porque sob outro chapéu.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Os passos

O primeiro passo foi a contestação imediata e às claras com centro no Grupo Parlamentar (e tal não é por acaso…), o segundo é a contestação organizada com exigência de um novo Congresso que agora Duarte vai tentar liderar.
O terceiro passo deste movimento, caso falhe a tentativa de derrubar Rio, então será a transumância para o partido de Lopes, ou para o CDS de Cristas. Mas só depois de se esgotarem as tentativas internas.

Vai ser interessante ver quem vai financiar quem

Quem vai financiar o PS a gente já sabe: toda a gente que tem capacidade para financiar a vida política. O PS está no poder e não lhe vão faltar apoios nos meios económicos e empresariais. Para os grandes partidos, incluindo o PSD, é esta proximidade que explica muita da corrupção e do tráfico de influências que inquinam a vida política nacional. O PSD terá um quinhão mais pequeno dos mesmos que vão financiar o PS.

É uma velha prática apoiar sempre em partes desiguais conforme quem tenha o poder, o PS e o PSD. Deixo de lado o BE e o PCP, cujos mecanismos de financiamento são de outra natureza, mas com zonas pouco transparentes como é o caso das autarquias para o PCP.
O financiamento do CDS pode até crescer, porque é como o financiamento de uma startup, e a ecologia do CDS sozinho e alguma renovação interna vão torná-lo apetecível para os deserdados ideológicos e políticos do PSD de Passos, ou seja a alt-right portuguesa, os think tanks conservadores, os trumpistas envergonhados, o Observador, e outros blogues muito activos na direita radical.
Agora verdadeiramente interessante será o financiamento do partido de Lopes, embora suspeite que vai ter as mesmas origens do financiamento do CDS de Cristas. Vamos ver.

É um pouco aborrecido…

…ter quase a certeza de que daqui a uns dias vou poder começar de novo a dizer, como Marcelo e Marques Mendes, como eu tinha previsto… Mas prometo moderar-me.

Os proletários do desporto: a Volta a Portugal acima de 40º

Querem um exemplo de gritante irresponsabilidade? Permitir que várias etapas da Volta a Portugal em bicicleta se realizassem no pico da onda de calor em pleno Alentejo, com temperaturas à volta dos 45o. Alguém o permitiu e esse alguém é um criminoso que podia ter matado ou atingido gravemente um ou vários ciclistas, já para não falar dos que vão para as estradas ver a volta passar. Pelos vistos, considera-se normal manter o espectáculo por causa dos múltiplos interesses em jogo, dos da publicidade até aos dos órgãos de comunicação que precisam de alimento.
Felizmente parece que não aconteceu nada, mas isso é irrelevante. Ah! e para além dos promotores da Volta, o Governo é igualmente responsável e muito.

Santana Lopes e Nuno Garoupa, os novos partidos da velha política

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 07/08/2018)

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Santana Lopes anuncia que vai finalmente concretizar o seu sonho de trinta anos e que fará um partido, mas nem uma brisa se levanta. Uma sondagem diz 1,9%, ou que o partido morre nas europeias. E, mesmo que um milagre duplicasse o resultado e levasse Santana a Bruxelas, a corrida obrigava-o a candidatar-se ao Parlamento três meses depois, saindo logo desse lugar, o que lembraria demasiado uma imagem de que ele nem quer que se fale. Mas, entretanto, não se conhece uma alma que se tenha juntado à aventura. A barca vai vazia e não sei se vai segura. Um partido de um homem só fracassa inevitavelmente, como houve prova provada na política portuguesa dos últimos anos.

Acresce que, se a motivação é exotérica, o projeto é mal engendroncado. Dele Santana Lopes confessa dois intuitos. O primeiro é reclamar Portugal menos europeu e recusar as pisadelas de Bruxelas. Nobre intenção, mas como é que a coisa se faz? Sair do euro, recusar os tratados, vetar as resoluções custosas, recusar o consenso? Mostrar a May como se manda, envergonhar os italianos, derreter os franceses, bater nos alemães? Ele não aparenta nem a mais pequena ideia. E, como as últimas décadas constituíram penosa mas eficazmente uma forma de ser e de pensar, que é a de uma elite subjugada ao subsídio europeu e que abomina a ideia de se lançar à vida sem o amparo desses cabedais, Santana Lopes não consegue nada à direita com este arremesso nacionalista. Só teria uma solução, atirar-se aos imigrantes, mas não é seguro nem que isso dê votos, nem que ele tenha estômago para dar uma de Legião Portuguesa. Em resumo, se fizer de Manuel Monteiro só está a concorrer com Nuno Melo, que anda tão aflito com a perspetiva que antecipou a sua campanha num ano, mas o país não parece reservar qualquer emoção para com essa evocação fantasmagórica.

O segundo pilar do novo partido é outra faceta de uma serôdia reclamação de portugalidade, desta vez uma ideia de um país tradicionalista, temente e obediente à sacristia. Nesse país as mulheres seriam presas se abortam, os casais gay teriam de viver às escondidas, os jovens piariam fininho, tudo seguiria o missal. Ora, essa política é muito velha, quase toda a direita foi-se vendo livre do pesadelo salazarento, duvido que queira voltar atrás. Em resumo, imitar Salvini e Trump pode parecer apetecível, mas duvido que seja eficaz para um novo partido. Um novo partido só para dizer o que o CDS pensa mas de que tem vergonha e para arrastar o PSD mais para a direita é um projeto sem chama. E, se o partido era para ser liberal, sair assim uma coisa penumbrenta e reacionária não lembra a ninguém. Nessa direita da direita não mora ninguém.

Apesar de tudo isto, novo partido teremos. No fundo, essa é a única explicação, a pulsão de fazer um partido que é meu. Se tudo corre mal, se o Presidente correu comigo quando o palácio de S. Bento me foi entregue por estranha conjugação astral, se tenho saudades do poder, quero um partido, que é o mais parecido que está disponível no mercado.

Fazer um novo partido, como nesta tentativa tão trôpega, tem no entanto muitos pergaminhos e não só nos encontros que Santana Lopes ia periodicamente organizando para testar a ideia. Na direita, outras tentativas têm sido mais circunspectas, mas não menos insistentes e, já agora, fracassadas. Nuno Garoupa, que vem da área do CDS e escreve regulamente na imprensa sobre os outros partidos e sobre o mapa e leis eleitorais, assunto tão do seu interesse, foi um dos protagonistas de uma experiência recente, a que prudentemente deixou de se referir: já vai para um ano, um grupo de personalidades juntou-se para arremeter com um novo partido, diziam-se “inquietos”. Não eram muitos nem queriam ser muitos, só vinte, o clube deve ser seleto. Jantaram, como convém, e em Coimbra, que é centro. A sobremesa era um novo partido liberal à direita, mas parece que algum pudim de abade de Priscos os satisfez e não se falou mais da aventura de descer à capital para partidar.

É assim à direita e à esquerda. Na esquerda, talvez ainda mais, florescem os grupos que resultam de cisões, assim sendo da negação e não da afirmação, uma divergência sobre isto ou aquilo e parte-se para um novo grupo para um novo partido. Todos têm dado com os burros na água. No caso da esquerda, é uma lepra ideológica. No caso da direita, parece ser antes um destino de personalidades perdidas nessa sua grandeza que a Pátria teima em não perceber.