A política "patriótica e de esquerda" onde menos se espera

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(Pacheco Pereira, in Sábado, 20/09/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Li o manifesto da Aliança, o que presumo pouca gente se deu ao trabalho de fazer. É um documento interessante, que não está mal redigido, embora seja caótico na sua sistematização, misturando propostas concretas com lugares-comuns, e não tenha praticamente ideias nenhumas, o que não me surpreende.

A Aliança é um partido à volta de um homem e esse homem nunca teve um ideário consistente, muito menos um ideário social-democrata, e ainda menos um ideário liberal.

Se é assim por que razão digo que é interessante? Porque as únicas posições anómalas no meio daquele vazio e dos lugares-comuns são muito próximas das do Bloco de Esquerda e do PCP, o que em si não tem mal nenhum. E representam críticas de fundo ao governo PSD-CDS e a Passos Coelho nos anos da troika. O que acho estranho é que aqueles que salivam com os problemas de “identidade” do PSD, e que nos últimos anos nunca o fizeram quando o partido sofreu um desvio considerável em relação às suas raízes e identidade, aqui sem aspas, não digam nada.
Essas posições da Aliança são uma crítica global à União Europeia e à sua política do Eurogrupo e da troika:
Os seis Estados fundadores tinham níveis elevados de desenvolvimento. Os alargamentos quiseram tratar todos por igual e as economias do Sul sofreram um grande impacto. Hoje os juros de empréstimos concedidos pelos consócios ricos aos consócios mais frágeis, consomem recursos de que estes tanto precisam para satisfazer necessidades básicas. 
Portugal tem-se dado ao luxo de estar na linha da frente da aplicação de deliberações da União Europeia que têm prejudicado importantes unidades do sistema económico e financeiro. Foi assim na agricultura, foi assim nas pescas, foi assim na indústria, foi assim no sistema bancário. Temos de exigir à União Europeia que apoie metas quantificadas de Desenvolvimento e não metas castradoras desse Progresso. Precisamos de verdadeiros programas de desenvolvimento global e não só de fundos estruturais sectoriais.
(Sublinhados meus.)
No essencial é o mesmo do que diz o PCP sobre a sua política “patriótica e de esquerda”, e tem implícita a ideia da renegociação da dívida como propõe o Bloco:
Pugnamos por políticas de consolidação da nossa dívida que não limitem tanto a nossa margem de manobra orçamental em matérias ligados a questões vitais para os cidadãos. Reduzir o esforço anual nos encargos da dívida é essencial. 
É difícil tomar isto a sério e provavelmente é mais um exemplo da sucessão de posições contraditórias do documento, mas é o que está lá escrito.
A Aliança escreve em “acordês”… 
…e não é mau lembrar que o seu mentor, que está sempre a apresentar-se como exemplo das virtudes da tradição e da Pátria, é um dos principais responsáveis pelo Acordo Ortográfico que abastardou o português e é um dos maiores desastres da nossa diplomacia lusófona.

Foto: Susana Villar

Pobre destino da palavra liberal 
Se há palavra digna em política é (era) a palavra liberal. No caso português a sua tradição era uma das melhores: homens como Herculano e Garrett e muitos outros lutaram por ela de armas na mão, no exílio, fugindo a todas as perseguições. O seu sentido era essencialmente político, homens que amavam a liberdade. Sim, liberdade era a essência de se ser liberal. Havia também uma ideia da liberdade económica que vinha em complemento da liberdade política. Implicava uma valorização da livre iniciativa, do mercado e uma crítica ao Estado e à sua excessiva intromissão na vida dos cidadãos. Mas, num caso e noutro o mais importante critério de aferição era a liberdade, esta ou aquela proposta dá mais liberdade aos indivíduos ou não? Como estamos longe desta génese quando hoje se usa a palavra liberal para algo que de há muito perdeu este sentido essencial de liberdade!


O destino do juiz proposto por Trump 
Pode acontecer que as acusações de comportamentos de natureza sexual inapropriados com mulheres do jovem Kavanaugh, num contexto não muito diferente das praxes, não tenham a gravidade que o nosso olhar de hoje, muito mais severo sobre estas matérias, lhes atribui. Se forem verdadeiros os testemunhos, e tudo indica que são, e se essas mulheres mostrarem que as suas vidas foram afectadas pelos actos de Kavanaugh, então trata-se de acusações sérias. A ideia de que tal poderia ter acontecido, “mas foi há muitos anos”, como fazem os republicanos para diminuírem a gravidade das acusações, esconde um segundo problema para um juiz proposto para o mais importante tribunal americano – é que nesse caso Kavanaugh está a mentir.

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Santana, o entretém de verão do país mediático

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Ó Daniel, o Expresso é assim tão pelintra que não tenha dinheiro para pagar a um revisor dos textos, como se fazia antigamente num qualquer jornal decente? Essa gralha do “uma derrotado” – ainda por cima a sair em caixa alta como citação sublinhada -, é de almanaque. Podem mandar os textos para a Estátua rever que sai tudo nos conformes… 🙂

Comentário da Estátua, 20/08/2018)


 É a distância do poder, que as próximas eleições tornarão ainda mais asfixiante para a direita, e não qualquer orfandade ideológica que explica a depressão na área do PSD. E a sabotagem dos deputados à direção eleita pelos militantes faz parte do processo de transição na liderança. Uma e outra coisa são um clássico, no PS e no PSD, com as pequenas nuances que as respetivas culturas partidárias impõem. Mesmo a multiplicação de protopartidos de direita liberal, com mais apoiantes nas redações de alguns jornais do que militantes, é apenas um pequeno espasmo desta crise passageira. Duvido que venha a ter grande impacto na geometria partidária portuguesa. Alguns dos candidatos a partidos, como a Iniciativa Liberal e uma tal de Democracia 21, terão o futuro de tantas outros projetos semelhantes do passado: mais notícias do que votos.

Um caso um pouco diferente, por envolver uma figura bastante mediática, é o da “Aliança”. Ainda assim, a excitação mediática parece-me precoce. Prognósticos só no fim do jogo, mas podemos olhar para os sinais. O facto de Pedro Santana Lopes não ter conseguido arrastar ninguém relevante do PSD, mesmo os que sabem que não terão emprego depois das próximas eleições, diz-nos qualquer coisa sobre a inconsistência deste seu projeto. Uma inconsistência ainda mais evidente quando conhecemos as principais linhas ideológicas do novo partido.

Parece que o novo Santana é um liberal na economia e propõe coisas como razoáveis deduções fiscais para os seguros privados de saúde – o que, tendo em conta que a política se faz de escolhas na utilização dos recursos disponíveis, quer dizer desvio de dinheiro do Serviço Nacional de Saúde para o sistema privado –, privatização de parte da segurança social e redução drástica da carga fiscal. Tal como aconteceu com Passos Coelho depois de chegar ao poder, o seu liberalismo acaba no dinheiro. Santana rejeita “visões utilitaristas e egoístas da vida humana”. Para quem queira tradução, é contra a eutanásia. Para quem queira tradução ainda mas clara, Santana, que tem uma visão meramente utilitarista de qualquer convicção, quer deixar claro que agora é um conservador nos costumes. Mas, ao contrário de Passos, Santana é, coisa que nunca tínhamos percebido até hoje, um eurocético.

Fica-se com a sensação que a declaração de princípios foi desenhada por um publicitário, que andou a ver onde havia nichos de mercado disponíveis. E, mais do que uma declaração de princípios, é uma resposta circunstancial ao espaço que Santana acha que Rui Rio deixou livre. É verdade que está ausente da política nacional a representação de sectores conservadores (na economia e nos costumes) e eurocéticos de direita que não estejam colados a uma extrema-direita marginal. Manuel Monteiro tentou e não conseguiu. Mas a “salganhada” santanista (roubando a expressão a José Eduardo Martins) não ocupa espaço nenhum, responde apenas a uma circunstância. A “Aliança” não deixará de ser aproveitada pelos descontentes com Rio nas próximas europeias, assim como o Livre foi aproveitado pelos descontentes com Seguro. Mas quando chegarem as legislativas ou há partido com bases ou há um balão vazio.

Se há coisa que a política portuguesa nos ensinou é que os partidos crescem ou em momentos de enorme convulsão política (PRD) ou em espaços políticos que de alguma forma já existem (BE). O Bloco de Esquerda foi o único partido que conseguiu furar o monopólio dos quatro fundadores da democracia portuguesa e manter-se na vida política porque representava uma massa de eleitores que sempre se situara à esquerda do PS sem se sentir representada pelo PCP. Existiu na extrema-esquerda, em vários pequenos partidos, em Otelo, com Pintasilgo. Existiu em movimentos radicais, em católicos progressistas, nas influências libertárias dos anos 60. Não foi nada disto que fez o BE chegar aos 10%. Nem sequer lhe deu 2% no início. Mas foi uma cultura política que já existia e que lhe deu raízes e consistência para ser mais do que um fogacho. Partidos de laboratório, com identidades desenhadas para responder a circunstâncias passageiras, morrem na praia. Sobretudo quando apenas respondem a opções táticas de um determinado protagonista.

Há quem, à direita, seja liberal na economia, seja conservador nos costumes e seja eurocético. Mas não há um espaço onde se junte tudo isto só porque Santana acha que estes nichos estão vagos. E não há, para compensar esta “salganhada” ideológica, um país santanista.

Há apenas um derrotado com vontade de voltar à ribalta apesar das suas repetidas derrotas e um exército de candidatos ao desemprego no PSD que, com o apoio de jornalistas desesperados por nem as eleições internas de um partido conseguirem determinar, vão aproveitando o verão para insuflar este balão cheio de nada.

Partidos que mudam o cenário político não resultam de amuos individuais ou de uma imprensa simpática. Resultam de convulsões como a que tivemos depois do bloco central ou da representação de culturas políticas com raízes mais profundas do que a superficialidade deste projeto denuncia. O resto é para entreter o verão do país político e mediático.

Santana Lopes e suicídio das velhas baratas

(Carlos Matos Gomes, 19/08/2018)

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(Este texto merece séria reflexão. Tão séria quanto a atenção que deve ser dada ao nascente partido de Santana. Quando a terra está de feição não é preciso ser grande agricultor para alcançar uma boa safra é, em síntese, a metáfora que me ocorre para dar conta das preocupações do autor.

Comentário da Estátua, 20/08/2018)


Santana Lopes e suicídio das velhas baratas. O Partido Santana Lopes, os reis que vão nus. Desde logo: o rei que vai nu não é o Pedro Santana Lopes. Os reis que vão nus são o BE, que não é radical nem revolucionário, é o PC, que não é comunista, é o PSD, que não é social democrata, é o CDS que não é democrata cristão. Resta o PS, que se assumiu desde o comício da Fonte Luminosa, em 1975 como o “rassemblement” de sociais democratas e democratas sociais, no sentido que a social democracia e a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII tomaram no pós-guerra e na guerra fria.

Esses é que vão nus: não têm roupagem ideológica que lhes cubra o corpinho. Nem o BE nem o PC podem (nem querem, nem existem as tais condições objectivas) fazer qualquer mudança estrutural do regime demo capitalista, nem o PSD e o CDS podem fazer mais do que fazem: alterações pontuais na distribuição da riqueza entre assalariados e gestores, com o grosso a ser acumulado pelo sistema financeiro.

De Pedro Santana Lopes se poderá dizer o mesmo que o Santo Agostinho dizia pragmaticamente do Diabo: O Diabo não é diabo por ser mau, mas porque é velho. Pedro Santana Lopes não é mau por ser liberal, não é político por querer o bem do povo, mas porque anda cá há tempo suficiente para perceber o que está a dar para o povo comprar.

Ele está no mercado da política há muito tempo. O liberalismo de face descoberta está em alta. Vende. E com as ajudas certas da concorrência ainda vende melhor. Não existe melhor promotor do liberalismo que maus serviços públicos. Que um Estado que não proporciona serviços básicos de qualidade.

Pedro Santana Lopes percebeu – não é difícil – que o mercado político em Portugal está polarizado num Partido Socialista que tem, tant bien que mal, uma identidade ideológica, e que o resto são produtos contrafeitos, que, por isso não ganham eleições e não dão acesso ao poder.

O PC e o BE são hoje porta-vozes dos sindicatos da função pública. E os grandes sindicatos da função pública, aqueles que asseguram os serviços que dão alguma “alma” ao estado social, sindicatos da saúde, do ensino e dos transportes, são, com as suas ditas (e sempre justas) lutas – em que se alegram e celebram como vitórias terem deixado 2000 doentes sem cirurgias, ou 90% de uma população sem transporte, ou os alunos sem aulas nem exames – aliados de beijo na boca de um partido liberal, que defenda a liberalização dos serviços essenciais.

É que não há greves nos hospitais e clinicas privadas, nem nos colégios privados, nem lutas por descongelamentos de carreiras, nem cirurgias adiadas! Dirá Santana Lopes, dizem os liberais!

É demagogia? É. Mas é isto que um partido liberal vai vender e não há como contestar – para mais com a ajuda da comunicação social engajada. O partido de Santana Lopes vai vender seguros de saúde, vai vender planos de reforma. Vai fazer na saúde e na educação o que está a ser feito – sem um ai dos sindicatos, se bem repararam, sem uma excitação nem de Jerónimo nem de Arménio, nem da Catarina – o que os bancos estão a fazer: despedir, fechar, cobrar todos os serviços.

Pedro Santana Lopes sabe tudo isto. Vão chamar-lhe demagogo. E ele vai agradecer a demagogia do Mário Nogueira e da FENPROF, a demagogia do médico, ou enfermeiro que se ufanou de ter anulado 2 mil cirurgias nos hospitais públicos.

O Partido Santana Lopes vai meter o dedo na virilha dos partidos da demagogia, sim, os do sistema, vai meter o dedo na virilha dos sindicatos do funcionalismo. Mais interessante, vai utilizá-los para a sua promoção.

Quando, para os maiores partidos do sistema, os principais problemas são o descongelamento das carreiras dos professores do secundário (o tal 432 do desmiolado Nogueira), ou das horas extraordinárias de médicos e enfermeiros, que se batem pela diminuição da carga horária no SNS para irem arredondar o salário no privado, quando o PSD de Rio não sabe se o problema é do défice ou da dívida e o CDS da Cristas diz o que os ventos do dia e os incêndios ditam, entre o eucalipto e a velocidade dos tuk tuk, é óbvio que apresentar uma alternativa liberal – de privatização dos serviços essenciais – faz sentido: cheque saúde, cheque educação, cheque dentista, planos de reforma, parcerias público-privadas – o programa é conhecido e PSL não necessita de think tanks da Católica ou do Observador para o escrevinhar.

Pedro Santana Lopes tem bons aliados nos reis nus, que vão de Jerónimo de Sousa a Cristas, de Rio a Arménio, de Nogueira a Catarina, à Ana Avoila. Os ventos sopram-lhe de feição. Há dois projectos de sociedade em Portugal: o da social democracia de baixa intensidade de Costa e o liberalismo 5 estrelas de PSL. Os projectos do Observador, a venda de 2/3 da Impresa (Balsemão) ao Delgado amigo de Santana, a incorporação da SIC e da TVI numa fanfarra liberal não foram, nem são por acaso. O partido de Santana não surge de uma birra de menino guerreiro. É um ato para ser levado a sério.

Gosto desta dicotomia? Não.

Mas presumo que a festa do Avante, o comício do Pontal, as peixeiradas da Cristas, os acampamentos multicolores do BE, típicos da rentrée me confirmarão a seca de ideias e a cegueira de horizontes. Que as orquestras continuarão a tocar no Titanic, que foi o sistema partidário português até agora, e que os seus reizinhos nus se suicidem alegremente como as baratas da foto – mas em luta pelos seus direitos – como dizem.