Os protestos alemães já começaram

(The Socialist Correspondent, in Resistir, 21/09/2022)

O governo alemão criou um pacote de 65 mil milhões de euros para compensar a sua crise de energia e de custo de vida. Mas isso não será suficiente para salvar a Alemanha da recessão. De acordo com um analista do ING Bank os padrões de vida já estão caindo e o “pacote de socorro” não vai parar isso.

97,5% dos alemães já reduziram o seu consumo de energia – tomando banhos mais curtos e frios, lavando pratos e mãos em água fria e 40% citando o aumento dos custos como sua principal preocupação, de acordo com The Local (2/setembro). Robert Habeck, ministro da Economia da Alemanha (Verdes), supervisiona os aumentos de quatro dígitos das faturas de energia este ano – além do aumento dos preços dos alimentos e de uma sobretaxa de 2,4 cêntimos por quilowatt-hora imposta no mês passado.

Na tentativa de desmotivar as manifestações anti-sanções e os protestos pelo aumento de preços que já começaram, o governo procede a um pagamento único de 300 € aos trabalhadores e pensionistas, enquanto os estudantes receberão 200 € (Bloomberg, 5/setembro). Também serão introduzidos tetos de preços de energia. Mas o “pacote de ajuda” pouco fará para evitar uma enorme queda nos padrões de vida da maioria dos alemães. Como disse a deputada do Die Linke, Sahra Wagenknecht, “o pacote proposto não aliviará a população sequer de uma fração dos custos adicionais.” (t-online, 4/setembro).

A indústria

Em relação à indústria, Habeck diz ser “alarmante” que empresas alemãs sejam forçadas a parar a produção para lidar com o aumento dos preços da energia (FT, 31/agosto). “Isso não é uma boa notícia”, diz ele, “porque pode significar que as indústrias em questão não estão a ser reestruturadas, mas sofrem uma rutura, uma rutura estrutural que ocorre sob uma enorme pressão”. Um exemplo é a gigante siderúrgica ArcelorMittal, que anunciou que estava a parar a produção em duas das suas fábricas alemãs. (Al Jazeera, 4/setembro)

O consumo de gás da indústria alemã caiu 21% em julho em relação a um ano atrás, sinalizando “uma queda drástica na produção”, segundo Siegfried Russwurm, chefe do principal lóbi empresarial da Alemanha, o BDI. Ele classificou esta situação como “a expressão de um problema maciço”.

O modelo de negócio de grande parte da indústria transformadora da Alemanha foi baseado na abundância de gás barato da Rússia, mas que “não voltará tão cedo, se voltar”, admitiu Habeck.

Um inquérito recente mostrou que a confiança empresarial alemã caiu pelo terceiro mês consecutivo. O grupo de reflexão que conduziu a pesquisa afirmou:   “A confiança na competência económica do governo está a desaparecer e as pequenas e médias empresas, em particular, sentem que foram deixadas sozinhas pelas autoridades”.

Enquanto isso, muitas das políticas verdes que recentemente ajudaram a levar [o partido] Verdes ao poder, ao lado do SPD e do FDP, foram descartadas. A Alemanha agora importa gás de fraturação (fraking hidráulico) dos Estados Unidos, o qual é muito mais poluente e três vezes mais caro que o gás natural russo. E mesmo isto não vai compensar a lacuna de abastecimento, dada a falta de navios metaneiros para o transporte de gás natural liquefeito (GNL) e de terminais em terra.

Para compensar a lacuna energética, a Alemanha está a aumentar a sua produção de eletricidade a carvão, de acordo com a Rystad Energy, uma empresa norueguesa de pesquisa energética. Embora muitas centrais a carvão tenham sido fechadas nos últimos anos como parte da descarbonização, a Alemanha ainda dispõe de termoelétricas a carvão que não foram completamente desmontadas. A gigante alemã de serviços públicos Uniper, por exemplo, anunciou recentemente que ligaria temporariamente uma central a carvão para produzir eletricidade provavelmente até o final de abril de 2023. A Alemanha já voltou ao carvão para sua produção de eletricidade: 20,7% de suas necessidades agora vêm da linhita e 10,4% da hulha.

Subserviência à linha dos EUA

A solução óbvia – levantar as sanções contra a Rússia e abrir o gasoduto Nord Stream 2 da Rússia, fechado sob ordens dos EUA – resolveria o problema energético da Alemanha.

Mas a guerra e as sanções contra Putin vêm em primeiro lugar, antes dos esforços para limitar a crise económica auto-infligida e proteger o clima. Sublinhando essa política, o chanceler Olaf Scholz anunciou recentemente que a Alemanha entregaria ainda mais armas à Ucrânia, no valor de mais de 500 milhões de euros (Reuters, 23/agosto).

O ex-presidente federal Joachim Gauck disse em fevereiro que o povo alemão deveria “gelar pela liberdade” neste inverno e “suportar… uma baixa geral do nosso estilo de vida”. Macron disse algo semelhante aos franceses, quando anunciou o “fim da abundância”.

Annalena Baerbock, ministra das Relações Exteriores (uma Verde muito belicista), rejeitou categoricamente as negociações com a Rússia ou o fim das sanções. Em fevereiro, ela pediu explicitamente ao Ocidente para “arruinar a Rússia” (25/fevereiro). Durante sua recente visita a Kiev, ela disse que a Alemanha “continuará apoiando a Ucrânia pelo tempo necessário com entregas de armas” (AFP, 10/setembro). Ela assume que isso tem um preço: o empobrecimento do povo alemão. Mas mesmo assim pretende avançar. “Pouco importa o que meus eleitores pensam”, disse ela recentemente num painel público, “Quero responder às expectativas do povo ucraniano” (31/agosto).

No entanto, quando as consequências mais graves das sanções se fizerem sentir neste inverno, as sanções e o armamento da Ucrânia sofrerão uma pressão crescente.

Resistência pública

O estado de espírito do público já está mudando. Uma importante sondagem de opinião junto de 1 011 cidadãos revelou que 77% dos alemães acreditam que o Ocidente deve iniciar negociações para acabar com a guerra na Ucrânia. Os Verdes, em particular, obtêm maus resultados nas sondagens em matéria de economia. Apenas 7% acham que são competentes.

Cada vez menos alemães acreditam que a Rússia é responsável pelo aumento do preço do gás e que o envio de mais armas para a Ucrânia ou sanções contínuas contra a Rússia trarão a paz.

Manifestantes na Rheinmetall.

Manifestantes que desfilaram em Kassel recentemente exigiram que a empresa alemã de armas Rheinmetall parasse de produzir armas para a Ucrânia. Uma dirigente da organização anti-guerra Disarm Rheinmetall, Nina Kemper, disse: “Não se alcança a paz com a guerra” (Deutsche Welle, 2/setembro).

Cerca de 2 000 manifestantes no porto báltico de Lubmin – onde o gasoduto submarino Nord Stream 2 da Rússia chega à terra na Alemanha – pediram a proibição das exportações de armas para a Ucrânia e a renúncia do governo federal (Redaktions Netzwerk Deutschland, 4/setembro). As faixas diziam:  “Nord Stream 2 em vez de gás de fraturação hidráulica” e “Vermelho-amarelo-verde para a frente leste!”, referindo-se às cores dos partidos do governo de coligação SPD, FDP e Verdes.

Enquanto isso, manifestações em Berlim, Colónia (4/setembro), Leipzig e Magdeburg (Politico, 5/setembro) exigiram o comissionamento imediato do Nord Stream 2 e o fim das entregas de armas para a Ucrânia.

Cerca de 2 000 “artesãos pela paz” participaram num comício na semana anterior em Dessau-Roßlau, Saxônia-Anhalt. “Esta foi uma das maiores manifestações em Dessau nos últimos anos”, segundo o Mitteldeutsche Zeitung (2/setembro). A organização “Artesãos pela Paz” planeia expandir os seus eventos em todo o país (Executive Intelligence Review, 29/agosto).

Entre outras manifestações, 800 padarias apagaram as suas luzes por um dia para protestar contra o aumento das contas de energia. A Guilda alemã de padeiros disse: “Hoje é a luz, amanhã será o forno?” (Business Insider Africa, 9/setembro).

Egon Krenz, o último líder do Partido da Unidade Socialista, no poder na Alemanha do Leste, disse ao Morning Star (3/setembro): “Cada entrega de armas é uma licença para matar e prolongar a guerra”. Sevim Dagdelen, deputado do Partido Die Linke, criticou a insistência de Baerbock sobre “A Ucrânia primeiro, os cidadãos não importam” e convocou novos protestos “contra um inverno frio, contra a fome, contra gelar e contra a guerra económica contra a Rússia”.

Sahra Wagenknecht (Die Linke) disse: “A questão é que os objetivos são irrealistas. A Rússia é uma potência nuclear e, se se insistir em expulsar os russos da Crimeia, então esta terrível guerra continuará para sempre. Os russos têm a sua frota do Mar Negro na Crimeia há décadas e não a abandonarão. Vocês querem sacrificar dezenas de milhares, talvez centenas de milhares de vidas por um objetivo totalmente irrealista? Devemos decidir até que ponto apoiamos a liderança ucraniana. A Europa não está interessada numa nova escalada da guerra; temos que explicar isso a Zelensky”. (t-online, 4/setembro).

Os protestos alemães foram acompanhados por grandes manifestações pró-paz e anti-NATO em Paris e Praga (4 a 5/setembro) – o início de uma aguardada resistência europeia ao belicismo predominante da UE e da NATO.

A Alemanha prostra-se diante dos Estados Unidos

Até o início da operação militar russa na Ucrânia, Alemanha e França eram oficialmente a favor de uma solução diplomática para a crise. O então chefe da marinha alemã Kay-Achim Heino Schonbach disse em janeiro, antes de renunciar, que Putin merecia “respeito em igualdade de condições”, expressando as opiniões de grande parte das personalidades e instituições com influência, incluindo o ex-chefe do exército alemão Harald Kujat.

Mesmo Annalena Baerbock concordou na época que a política alemã era nunca enviar armas militares para zonas de conflito (The Guardian, 17/janeiro/2022). Não que a Alemanha ou a França tenham honrado os dois tratados de cessar-fogo de Minsk que assinaram com Moscovo e Kiev, mas pelo menos no papel rejeitaram a guerra.

Enquanto o procurador da NATO na Ucrânia intensificava o bombardeamento à população russa do Donbass, no início de fevereiro, os EUA exerceram enorme pressão sobre a Alemanha para cortar laços com a Rússia. Biden disse ao chanceler Scholz sem rodeios que os EUA fechariam o Nord Stream 2:   “Vamos acabar com isso… Garanto-lhe que poderemos fazê-lo”, disse ele. Essa ameaça de interferência marcou um ponto de viragem.

Os Estados Unidos continuam a ter 40 mil soldados em solo alemão (Voltairenet, 16/fevereiro) – mais do que mantêm em qualquer outro país, exceto no Japão, a outra potência derrotada na Segunda Guerra Mundial – com o seu quartel-general de comando europeu em Estugarda. A Alemanha sentiu claramente que não tinha outra escolha a não ser sacrificar a sua parceria vital com a Rússia.

Por agora, a ambiguidade estratégica da Alemanha entre o Oriente e o Ocidente foi rompida. Isso representa talvez a maior vitória dos Estados Unidos no fomento da guerra: estreitar a unidade do bloco da NATO e enfraquecer o seu rival alemão, em preparação para a sua maior guerra com a China.

O Correspondente Socialista enfatizou no início deste ano (Comentários TSC em 21/fevereiro) que a única maneira de os EUA conseguirem isso era “provocar a Rússia numa guerra contra a Ucrânia, e depois pretender que a NATO se deve unir face à Rússia, por agressão, argumentando que a necessidade militar deve prevalecer sobre os interesses económicos da Alemanha”.

Como explicou o Partido Comunista Alemão:   “O capital monopolista alemão tradicionalmente vê o capital americano como um rival. Mas, por enquanto, a adesão total à posição dos EUA sobre a guerra na Ucrânia – nada de paz negociada, armas para Kiev, dissociação da economia russa qualquer que seja o custo económico – é o consenso oficial por toda a política “oficial” alemã e a linha seguida em público por grandes empresas e também dirigentes sindicais” (Morning Star, 31/agosto).

Embora a Alemanha por agora se tenha curvado perante o poder dos EUA, ela não será contida para sempre. O novo orçamento maciço de 100 mil milhões de euros em armas do regime – elaborado sob as ordens dos EUA para garantir que a Alemanha se envolva plenamente nas metas de guerra dos EUA – criará um monstro armado que até os EUA acabarão por ter dificuldade em controlar.

A Alemanha já é o quinto maior exportador de armas do mundo, o imperialismo alemão tem um histórico de rápida expansão militar que leva a guerras cataclísmicas. No entanto, os EUA estão desesperados o suficiente para arriscar a ascensão do militarismo alemão, a fim de derrotar a Rússia e depois a China.

Enquanto isso, na Alemanha, alguns políticos proeminentes do partido Die Linke querem que a esquerda fique longe do movimento de protesto, temendo o envolvimento da extrema direita. Mas só uma campanha liderada pela esquerda pode exercer pressão para restaurar os laços com a Rússia e impedir a expansão militar alemã.

12/Setembro/2022

[*] Publicação britânica.

O original encontra-se em www.facebook.com/thesocialistcorrespondent/…


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XVI

(Por André Campos Campos, 06/09/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um discurso que publicámos de Carlos Matos Gomes ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 06/09/2022)


Estamos a viver numa época crucial, em que nada voltará a ser o mesmo. A história por vezes desdobra-se lentamente durante décadas, mas pode acelerar de repente. Farei um balanço de 6 meses. Estou certo de que mais tarde, dezenas ou centenas de livros serão publicados para analisar os momentos que estamos a viver, ao vivo, no Outono de 2022.

Na história houve fracturas que provocaram imensas mudanças na nossa civilização ocidental: a do Império Romano, a da Igreja e no século XXI será a da civilização ocidental.

A Rússia está muito mais armada do que a UE nesta crise, mesmo que tenha de sofrer, tem energia que pode vender a outros e, sobretudo, o que menos se fala são os metais preciosos que tem em quantidade. A Europa cometeu um erro ao destruir a sua indústria há 30 anos, e hoje continuamos a acreditar que somos o centro do mundo, o que já não é o caso.

Seria interessante fazer um relatório sobre as decisões irresponsáveis e absurdas dos nossos líderes europeus desde o início deste conflito. No altar de uma russofobia sem sentido e no calor da altura, os líderes europeus tomaram decisões absurdas que estão a destruir a sua própria economia e o seu povo..

Um fecho das relações Rússia-Europa seria uma perda para a Europa e para a Rússia, e a Rússia não quer isso. Por outro lado, os EUA beneficiariam enormemente desta ruptura, que é uma das principais razões pelas quais a Rússia não quer que isso aconteça. O problema é a fidelidade de alguns líderes europeus aos EUA ou, pelo menos, às grandes empresas controladas por alguns indivíduos ou grupos nos EUA.

Penso que este é um ponto crucial e penso que os EUA estão prontos para destruir a Europa ou melhor, para pressionar a Europa a destruir-se a si própria, a fim de manter o controlo. E infelizmente, alguns líderes europeus demonstraram, e por vezes confirmaram verbalmente, que a sua lealdade não é para com o seu povo. Os nossos líderes estão prontos a destruir os nossos países para agradar a alguns grandes grupos. Acrescente-se a isto o facto de os meios de comunicação social europeus (e os meios de comunicação social ocidentais em geral) serem propriedade de um punhado de grupos, e a única questão que realmente se coloca é se uma revolução ainda é possível. Pessoalmente, penso que não é, e mesmo que fosse, as revoluções muitas vezes colocam pessoas extremamente perigosas no poder.

Há uma coisa que o Ocidente perde sempre de vista sobre a Rússia, e que é que, ao contrário do Ocidente, os russos não têm estado habituados a privilégios sociais artificiais adquiridos através da pilhagem de países estrangeiros. Os russos sabem como fazer com o que têm. Os líderes ocidentais habituaram durante demasiado tempo o seu povo a privilégios sociais artificiais. Agora que os países cuja pilhagem permitiu à Europa adquirir estes privilégios estão a acordar com o apoio de novas potências como a Rússia e a China, o Ocidente está em colapso e a dar-se conta de que sempre foi um gigante com pés de barro. Vejam Portugal agarrado desesperadamente a Moçambique e a outros países africanos que há muito saqueou e que agora já não o querem.

O objectivo da Rússia não é absolutamente a Europa, mas sim os EUA. Assim, concentrar uma análise nas estúpidas sanções da UE é realmente perder os BRICS e a guerra contra o dólar que a Rússia está a acelerar com os seus aliados… se a China é a fábrica do mundo, não devemos ignorar que a Rússia é o fornecedor de material do mundo! A dependência da Rússia não se limita apenas ao petróleo ou ao gás, mas também aos metais preciosos… algumas pessoas pensam que podem mesmo privá-la de microprocessadores, esquecendo que a sua gravação é feita por néon, uma matéria prima proveniente principalmente da Rússia… em suma, a Europa se auto-preparou para uma guerra, nem sequer é o alvo!

Todos os países da NATO têm vindo a trabalhar arduamente contra a Rússia há mais de 10 anos. Mesmo no desporto, nos Jogos Olímpicos, etc., etc. V. Putin teve uma paciência que muitas pessoas, inclusive nos EUA, não compreenderam. Foi a alma russa, a paciência, a diplomacia em primeiro lugar, até ao ponto do excesso, que fez com que a Rússia parecesse um bando de brincalhões que poderiam ser esmagados. Mas quando a Rússia começa, é impossível impedi-la, e ninguém conseguirá impedi-la, está-se nas tintas para a UE e a Máfia dos EUA, tem o seu plano e irá em frente com ele, aconteça o que acontecer.

O fim da URSS marca a mão dos oligarcas sobre a riqueza da Rússia, que é imensa e os mesmos oligarcas privatizaram empresas estatais na Rússia e saquearam a enorme riqueza do país em prole do Ocidente…Os acordos de gás de baixo custo que permitiram à Alemanha e à Europa alcançar um enorme crescimento nos anos que se seguiram à queda da URSS e, sobretudo, sem o baixo preço da energia russa fornecida à Europa, será que a Europa teria conseguido esse crescimento? Certamente que não, porque a economia é sobre energia transformada.

O Ocidente, especialmente a Europa, tem muito mais a perder neste conflito. Putin tem clientes potenciais para os seus recursos naturais, especialmente na Ásia, África e certos países europeus.
Não esqueçamos que a Rússia é um país muito grande que tem uma grande autonomia a todos os níveis.
A Europa perderá o curso da história de um mundo multipolar ao aceitar ser um fantoche dos EUA.

As sanções contra a Rússia não funcionaram e o Presidente Putin ainda não começou a sancionar a sério a UE – até agora pediu ao Ocidente que pagasse as suas contas por rublos.

Como português, estou profundamente chocado com a falta de antecipação por parte do nosso governo, bem como por parte da UE. Governar é prever. Não compreendo como se pode estar tanto ao serviço de uma ideologia que é prejudicial para o interesse comum do povo.

Há um lado positivo nisto, é que a Rússia está a permitir à Europa compreender o que significa ter uma descida súbita de energia, o que de qualquer modo é inexorável com a secagem dos combustíveis fósseis.

Putin está apenas a aplicar as estratégias de um dos maiores economistas russos e que é sem dúvida um dos 10 melhores economistas do mundo .. No entanto, toda a estratégia de Putin está lá e o objectivo actual dos russos não é apenas o Dombass, mas criar uma nova potência monetária internacional ..

Um aspecto esquecido mas não anedótico: a Alemanha tinha deixado a gestão de uma grande parte das suas reservas estratégicas de gás à Gasprom (sim, parece irreal, mas é verdade). Gasprom começou a esvaziar estes stocks em meados de 2021, sob o pretexto de algo, e assim o preço do gás já tinha subido significativamente na Europa no Outono de 2021. É apenas um pequeno passo até ver isto como um “plano” executado ao longo de anos.

A questão é: porque é que os políticos europeus não previram isto? Quando se é lituano e representa alguns por cento da economia europeia, é possível obter gás 100% russo, sabendo que o encontrará noutro lugar só por precaução (e especialmente que construiu um terminal de gás liquefeito em Klaipeda só por precaução). Quando se é a Alemanha e se representa 1/3 da economia, e não se tem um plano B, só se pode suspeitar que vai correr mal… Incompetência? Corrupção? Ambos?

A Rússia já exporta – sem os vender – os seus hidrocarbonetos e metais para países terceiros (A.S., Índia, etc.) que são depois reexportados disfarçados, para a Europa, com uma sobretaxa para os intermediários.

Os EUA são os vencedores desta charada: as indústrias dos países europeus estão em colapso (ou irão entrar em colapso) face aos custos adicionais de produção de energia, abrindo assim uma avenida comercial aos americanos & consorts, o que, ironicamente, irá também reforçar ainda mais a competitividade chinesa no mercado europeu.

A Rússia pode ter virado as costas à Europa Ocidental – e mesmo isto não é certo: a Hungria, por exemplo, mantém relações amigáveis com a indústria do gás – mas está a reforçar consideravelmente o seu papel no seio dos BRICS, e mais geralmente a sua imagem como um país “livre” entre os 2/3 da população da Terra que vê a bandeira estrelada com um olhar muito negativo.

Agora com um excedente alimentar, uma riqueza de energia e metais, para não mencionar os seus batalhões de engenheiros e trabalhadores qualificados, as suas indústrias aeroespacial e militar: a Rússia pode facilmente seguir o seu caminho sem o Ocidente. E, tal como a RPC, estão em curso grandes esforços para recuperar o atraso no domínio dos semicondutores.

Abster-me-ei de tirar quaisquer conclusões… o meu presidente e o meu ministro das finanças são deuses gregos.


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Unicórnios são reais

(Por Batiushka, in Resistir, 06/09/2022)

Os unicórnios são reais ou isto deve ser a verdade, assim me dizem os media ocidentais.

Um frio de outono desce sobre todos os países europeus, embora em cada país de maneira diferente.

A Alemanha e a Itália, dependentes do gás, estão desesperadas pelo gás russo. Não são apenas as casas, mas fábricas inteiras que enfrentam fecho iminente em indústrias intensivas em energia. O resultado disso será o desemprego em massa. E por “massa”, quero dizer 20% ou mais.

Na França há uma rejeição popular ao presidente Macron, que disse ao seu povo que eles (ou seja, não ele) devem sofrer para que a Ucrânia possa “ganhar”. Setembro é o primeiro mês do período anual de greves em França. Os franceses não gostam de passar frio. Aguarde-se por algumas notícias em manchete.

Na Letónia, a minoria russa teme pelo seu futuro, mas todos os outros também temem. O aquecimento não será uma opção neste inverno. Com pensões de pouco mais de 100 euros por mês, muitos pensionistas simplesmente vão morrer de frio.

Da Eslováquia recebemos o seguinte:

“Obrigado pelo seu email. Só para você ter uma ideia dos atuais custos de produção aqui na Eslováquia e para ser brutalmente honesto para todo o mundo, pagámos no ano passado 85 000 euros pela eletricidade, este ano vai ser à volta de 500 000 euros. A partir de 1º de janeiro de 2023, serão 1,2 milhões de euros, na melhor das hipóteses.
Isto é apenas a eletricidade, sem falar no gás, no aumento das matérias-primas, salários e todos os outros custos de produção. É difícil dizer isto: é impossível reduzir os custos e cada cliente nosso tem que aceitá-lo ou não. Surpreendentemente nunca estivemos tão ocupados! Cortar margens baixas é naturalmente difícil, mas pelo menos você tem margens. Nós simplesmente não temos nada onde reduzir”.

Na Moldávia, a crise é profunda. Como na Letónia e na Lituânia, quase metade da população fugiu dos seus países após serem saqueados pela UE (embora oficialmente a Moldávia nem sequer pertença à UE!). Anteriormente, os remédios vinham da Ucrânia. Isto é agora é impossível, eles têm de usar remédios vindos da Alemanha. Só que custam dez vezes mais. Simplesmente, se alguém está muito doente e não tem o dinheiro, este ano vai morrer.

Na Roménia, que perdeu um quarto de sua população para a emigração após o grande saqueio da UE, e onde um salário de 600 euros por mês é considerado muito bom, os preços dos alimentos são os mesmos da Europa Ocidental, onde os salários médios são quatro a cinco vezes maiores, e o gasóleo custa ainda mais do que em outros lugares.

Na Irlanda, restaurantes estão a fechar porque não podem pagar as suas contas de energia que aumentaram 1000% (sim, mil por cento).

Em Londres, capital do Império Brutish (sic), o gauleiter Johnson finalmente admitiu que, “as famílias britânicas terão que suportar o aumento das contas de energia como parte dos esforços para derrotar Vladimir Putin… as sanções económicas impostas à Rússia contribuíram para o aumento dos preços globais do gás que aumentaram as contas das famílias”. Analistas esperam que o limite de preço de energia do Reino Unido por família suba de uma fatura já extremamente alta de £ 1 971, para £ 3 554 por ano em outubro e para um completamente inacessível £ 6 089 em abril de 2023. Um boicote ao pagamento de faturas está ganhando força. Esperem-se tumultos e saques a supermercados pelos famintos.

Os britânicos escolheram suportar isso? Não. Os britânicos imploraram sofrer para poderem derrotar Putin numa briga local sobre um país que a maioria deles nunca tinha ouvido falar até fevereiro passado? Não. Os britânicos recusaram-se a pagar pelo abundante e barato petróleo e gás russo em rublos? Não. Eles foram consultados sobre a escolha do novo primeiro-ministro? Não. Lá se foi a “mãe de todos os parlamentos”…

No Reino Unido controlado pelos oligarcas, agora há apelos para que as empresas de serviços públicos privatizadas pela Thatcher, com seus enormes lucros, pagamentos generosos de dividendos aos acionistas, infraestruturas no limite, falta de investimento e ausência de regulamentação governamental, sejam renacionalizadas. Alguns até comentaram que talvez o “livre mercado” realmente signifique a lei da selva e que “a privatização simplesmente significou Thatcher vender ativos públicos ao desbarato para seus comparsas e apoiantes capitalistas”. Bem, com quarenta anos de atraso, mas algumas pessoas finalmente receberam a mensagem.

Basta. Não era isto que eu queria contar.

Na última semana de agosto, saí da França e fui para Wiesbaden. Lá visitei a magnífica igreja russa, construída no século anterior. Dando a volta no cemitério com os túmulos de velhos aristocratas com seus símbolos maçónicos em suas lápides (agora você sabe por que a Revolução Russa ocorreu), vi a sepultura relativamente nova que eu procurava.

Este era o túmulo de um casal de velhos encantadores, que eu conhecia há muito tempo. Não revelarei seus nomes, só para dizer que a história deles daria um filme, só que tão romântico que você não acreditaria. No entanto, se você já passou dos quarenta anos, já deveria ter percebido que a vida real é muito, muito mais estranha e muito, muito mais incrível do que qualquer ficção. Tudo o que vou dizer é que ele nasceu em São Petersburgo em 1916, foi levado por seus pais em fuga para a Finlândia depois que o resto da família foi baleado, que em 1943 ele havia se tornado monge e padre na Alemanha nazista, e que no final de 1946 a família havia fugido da Berlim arruinada para a Argentina peronista como refugiados ortodoxos russos. E lá, em 1948, ele conheceu uma garota de rua argentina desesperadamente pobre que tinha nascido na Itália. Foi amor à primeira vista. Acho que nunca conheci um casal tão dedicado e exemplar ou jamais conhecerei. Eles morreram em idade muito avançada a poucas horas um do outro.

Basta. Não era isto que eu queria contar.

Depois desci das áleas arborizadas até a cidade de Wiesbaden, vi uma mulher de meia-idade usando uma camiseta que dizia: “Unicórnios são reais”. As palavras não estavam em alemão, mas em inglês (ainda que, sem dúvida, a camiseta tenha sido feita na China). Comecei a me perguntar.

Foi só infantilismo? O tipo de escapismo que financiou a indústria de OVNIs, ou Star Wars, ou Harry Potter? Os irresponsáveis e imaturos que estão a fugir da realidade?

Então pensei para comigo que não poderia imaginar nenhuma mulher russa de meia-idade, chinesa, indiana, iraniana, africana, cubana, colombiana ou brasileira usando tal camiseta (a menos, é claro, que fossem tão fúteis que tivessem casado com oligarcas). E vieram-me à lembrança as palavras escritas pelo autor britânico G.K. Chesterton num seu conto de 1925, O Oráculo do Cão: ‘O primeiro efeito da não crença… é que você perde seu senso comum”.

Por outras palavras, usar tal camiseta simplesmente mostra uma falta de fé – em qualquer coisa. E eu pensei como era significativo que as palavras tivessem sido escritas em inglês, a língua do Hegemónico. E eu pensei, sim, este é realmente o fim do mundo ocidental. Porque se alguém quiser anunciar a sua crença de que os unicórnios são reais, simplesmente perdeu a cabeça e de agora em diante vai acreditar em qualquer coisa que o mundo ocidental lhe diga.

Afinal, é apenas um passo de “Unicórnios são reais” para:   “O grande e nobre Zelensky está a vencer a guerra na Ucrânia porque nossa causa ocidental é justa”.


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