(Rui David, in Facebook, 04/09/2022)

A questão das sanções é apenas o reflexo do “filme” que a média impingiu aos europeus. Décadas a insuflar-nos sobranceria xenófoba mascarada de preocupações com “direitos humanos”. Para além da abjeta hipocrisia de o nosso “mercado” alegremente “absorver” o que “oligarcas” roubaram ou não roubaram ao povo russo.
É a “estação de gasolina com bombas nucleares”, e o “PIB ao nível da Espanha”. Eu nem sabia dessas, mas há meses, quando balbuciei aqui qualquer coisa sobre o tema, não tinham passado dez minutos já um expert versado em temas económicos acorreu aqui a lembrar isso – por qualquer mistério, as criaturas que se convertem ao ultraliberalismo passam imediatamente a saber esses memes de cor e salteado, deve vir como brinde.
É a “economia em pré-colapso”. Dias antes da invasão, assisti a um debate televisivo entre o Pedro Delgado Alves, do PS, e o Miguel Morgado, talvez o mais articulado militante da Nova Direita portuguesa que faz a ponte entre PSD e a Democracia Liberal e, ao abordarem o tema Ucrânia, ambos concordaram que isso era um facto.
É o exército “descontente, desmotivado e com armamento arcaico” (para isso temos cá o Nuno Rogeiro).
É o “fascista Putin” (para isso temos cá o polivalente especialista, passe o oximoro, Milhazes).
É o “isolamento do Putin” (Milhazes à cabine de som…). Este tem sido súbita e incompreensivelmente substituído mais recentemente pelo argumento tipo AlQaeda/11 de Setembro da “cumplicidade de todos os russos com o Putin por não tomarem a iniciativa de derrubá-lo, pelo que têm que comer todos pela medida grande”.
É o descarado apadrinhamento pelo Ocidente de toda a casta de malfeitores russos ou “investidores” americanos, mais vigaristas que o Putin, desde que perseguidos por este. Normalmente “o Putin” é uma designação mais prática para “a Justiça russa” que não sendo, naturalmente, flor que se cheire, não é pior do que a inglesa, quando mete “assuntos de Estado”.
É a preocupação humanista pelos únicos oligarcas que não merecem reprovação ocidental, aqueles que o Putin (idem parênteses anterior) meteu na choça, o extremista de direita Dugin apresentado como “cérebro do Putin”, o xenófobo e extremista de direita, Navalny, promovido a “líder da Oposição” “ democrática”…
Basta atentar na enxurrada de livros que de repente se abateu sobre as livrarias. Até deu para criar uma nova editora e para o Milhazes, que tanto se queixa do Putin, poder tirar a barriga de misérias à custa dele. Todos a bater na mesma tecla. Não há um, que eu tenha folheado, que tente dar uma visão minimamente nuançada desta nova encarnação do Império do Mal.
Pode haver elaborações sobre o nazismo e o fascismo, o Bolsonaro, o Trump, a LePen ou o Salazar. Mas sobre o Putin, mãezinha, estão todos de acordo.
Tanto a matraca mediática bateu nas cabeças que aparentemente até as elites europeias parecem ter acreditado nela e agora não sabem como descalçar a bota e não podem dar parte de fracos.
É que a populaça “informada” (isto é, a que lê a Anne Appelbaum, compra o Expresso e saltita entre os telejornais da SIC Notícias e da CNN Portugal e já sabe tudo sobre o assunto), está completamente intoxicada de “informação” de sentido único, e a salivar contra “os orcs”. Vá lá, temos que ser realistas, as pessoas não podem dar atenção tudo e as coisas são o que são.
Agora, como é que tanto diplomado, pós-graduado, doutorado, especializado em geopolítica, em economia – da digital e da outra -, em política, em assuntos militares, e treinados na luta política, acreditou (ou fingiu, o que não é desculpa) que isto era só “deixar de lhes comprar gás e petróleo” – ou mesmo, ainda mais absurdo, continuando a comprar (porque “eles” estavam “obrigados contratualmente a vender”) mas DEIXANDO DE LHES PAGAR (!) ao excluí-los do sistema de pagamentos internacional -, que a economia deles colapsaria no prazo de uma semana?
E que nós, ok, nós, democratas empáticos, nós, naturalmente, seríamos chamados a uns sacrifícios (piscadela de olho, “sacrifícios”, ok?) pela “Liberdade”, pela “Democracia”, etc.. Afinal de contas, quando damos um pacote de arroz ao Banco Alimentar contra a Fome para os pobrezinhos, também fazemos um sacrifício, certo?
Dá para acreditar nisto? Dará para acreditar nisto?
Dá a ideia de que a direita portuguesa – e se calhar também a europeia, uma vez que por princípio as nossas ideias, incluindo as de direita, são em geral macaqueadas “do que se faz lá fora” -, tem razão ao insistir que a Educação anda pelas ruas da amargura. E tenham paciência, mas não é só a pública. A reação da elite europeia (dominada pela direita europeia, caninamente subserviente relativamente à direita americana “democrata”), maioritariamente formada em escolas privadas de alto gabarito, comprova-o.
Agora, olha, estamos nisto.
Ontem, ou anteontem, entre setenta a cem mil checos – um povo sisudo -, saíram à rua a exigir a demissão do seu Governo por causa da fatura energética. Indiferentes aos imbecis que, nas redes sociais, preferiram assinalar que há cinquenta e quatro anos tanques russos estiveram em Praga, os checos é que parece que neste momento se estão nas tintas para isso. E prejudicam-se. Porque se a manifestação em vez de ser “vão lá resolver como quiserem o problema da Ucrânia, que vocês e os americanos criaram, mas não nos lixem o juízo”, fosse uma manifestação a protestar contra os russos por causa dos tanques de 1968, teriam tido direito a horas de tempo de antena em prime time na televisão portuguesa.
Assim, nicles. Dancem, como faz a ministra finlandesa. Afinal de contas temos que ”viver”…
Eu volto para o meu black out, que é onde estou bem.
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