Catarina ganhou o debate, mas quem pode ganhar as eleições é Rio

(Ana Sá Lopes, in Público, 05/01/2022)

Rui Rio continua a perder tempo nos debates pré-eleitorais. Depois de ter passado 25 minutos com André Ventura enrolado na agenda do “Chega”, apareceu muito pouco preparado no debate desta quarta-feira, na SIC, com a líder do Bloco de Esquerda. Catarina Martins dominou completamente o frente-a-frente e teve a sua melhor performance até agora.

O debate começou de forma inusitada. Rio foi questionado sobre a sua posição sobre a prisão perpétua – que tinha ficado em dúvida no debate com André Ventura – e por motivos misteriosos, enquanto se afirmava contra qualquer alteração às leis penais, Rui Rio insistiu que Ventura não era assim tão defensor da prisão perpétua como anda por aí a vender: “Ficou provado que o Chega não quer exactamente a prisão perpétua mas uma solução mitigada”. Catarina Martins afirma-se “preocupada” por o “dr. Rui Rio estar a normalizar a extrema-direita”, mas Rio insiste.

Primeiro, comete a gaffe de dizer “sou católico, mas não sou crente” (que ficará certamente como uma das frases da campanha) e depois voltou a insistir na alegada moderação de Ventura sobre prisão perpétua: “O que ficou provado é que depois de tanto barulho o dr. André Ventura não defende aquilo que dizia mas uma versão mitigada”. Não se percebe a intenção de Rui Rio, a menos que esteja a tentar convencer a passar para o seu campo o eleitorado do Chega que quer mesmo a prisão perpétua e não versões mitigadas. É uma hipótese de trabalho.

Rui Rio tentou mostrar que, se for governo, fará diferente do executivo PS apoiado durante uns anos pelo Bloco de Esquerda. “Aquilo que o PS fez – e o Bloco de Esquerda apoiou – foi tentar o crescimento da economia pelo consumo. Isso gera inflação.” Catarina Martins quase respondeu com “contas certas” (mas não usou a expressão) e lembrou que o maior crescimento do país foi entre 2015 e 2019, período em que o país “mais reduziu a dívida”. E lembrou o que Rui Rio disse na altura do aumento do salário mínimo, “que ia aumentar o desemprego, aumentar falências”. Rui Rio respondeu que o país tem um problema de salários médios e que “a política de nivelar por baixo aproxima o salário mínimo do salário médio”.

Catarina Martins insistiu em que parte do problema está na manutenção da legislação laboral da troika – “as leis do seu partido” – que fizeram com que “despedir fosse fácil e barato”. Rui Rio respondeu à acusação de que não tinha “qualquer proposta para salários dignos” defendendo que a “maior flexibilidade facilita o investimento” e dinamiza a economia e sem isso não se consegue “melhorar salários em Portugal”.

Em duas questões essenciais, Rui Rio não tinha a lição bem estudada e bastava, pelo menos no SNS, aconselhar-se com os médicos do seu partido. Insistiu no recurso aos privados de uma forma que ficou pouco clara e deixou todo o espaço a Catarina Martins para defender o SNS, acabando até a dizer que concordava com ela. “Atirar mais dinheiro para o SNS não é a prioridade”, disse Rio, para quem a solução passa por “gerir bem o que está mal gerido”.

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Catarina Martins não tem dúvidas de que “vai ser preciso mais dinheiros públicos na saúde e é natural que assim seja” e como Rio não se explica bem sobre a sua defesa dos privados, a líder do BE aproveita para desafiar o presidente do PSD: “Quer entregar o São José ao grupo Mello? Quer entregar o São João aos chineses da Fosun? Depois de sabermos que foi o SNS que nos salvou [da pandemia] este é o momento de o reforçar”. Rui Rio apenas quer “gerir bem o SNS”: “Se o privado ganha e o Estado ganha ficamos todos a ganhar”. Mas Rio não quer acabar com o SNS, nem “pôr os ossos no SNS e a carne no privado. Não é por aí”.

Outro dos momentos complexos de Rui Rio foi, num assunto tão delicado como a sustentabilidade da Segurança Social, dizer que ainda “anda a estudar” a possibilidade de um sistema misto. Grande parte tem que ser público: “Se nós privatizássemos a Segurança Social, colocávamos o futuro das pessoas na Bolsa. Imaginem o perigo que isso era”. Mas admite que “outra coisa diferente”, a tal que está a ser estudada ou vai ser estudada, “é ter um sistema misto em que há uma base pública que pode ser complementada com uma base de capitalização”.

Abriu, evidentemente, espaço à resposta directa de Catarina Martins: “É incompreensível que reconheça que colocar as pessoas na bolsa é um perigo e defenda o sistema misto. Por que hão-de perder alguma coisa?”. E lembrou que o tão mal-amado (pela direita) imposto Mortágua financia a Segurança Social – 477 milhões.

Rui Rio perdeu mais uma oportunidade de mostrar propostas consistentes e atacar o Governo PS (o que teria sido fácil na questão do SNS, a avaliar pelas opiniões dos médicos sociais-democratas). Mas é Rui Rio, e não Catarina Martins, que pode ganhar as eleições de 30 de Janeiro.


Artigo alterado às 10h25 de 6 de Janeiro de 2022, para corrigir a referência de Catarina Martins ao hospital de São João.


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Rendimento mínimo do político calão

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 29/12/2021)

Não tens ideias de jeito? As eleições estão à porta e queres apelar aos piores sentimentos dos eleitores e piscar o olho à extrema-direita, mais à sua retórica de exclusão e ódio? Mandas-te ao RSI, pois então. Mas como não queres parecer uma grande besta dizes que estás só a pedir “mais fiscalização”.


“Sentia-me sempre inferior aos outros. Às vezes, parecia-me um dinheiro amaldiçoado. Era como se não fosse realmente meu, tinha que estar sempre a prestar contas de tudo – e faz sentido que assim seja, mas, ao mesmo tempo, sentia-me um bocado envergonhada.”

Esta fala é de Ana Ameijides, em entrevista ao Público nos 25 anos do Rendimento Mínimo Garantido/Rendimento Social de Inserção, feitos em 2021. Ana foi, em criança, com os quatro irmãos, uma das primeiras beneficiárias desta prestação criada em 1996 pelo governo de António Guterres. Aos 29 anos, já não é – e diz que apesar de sentir gratidão pelo programa, pelo que a ajudou e à sua família, não é um sítio onde queira voltar.

Claro que Ana não é todas as pessoas que alguma vez beneficiaram do RSI. É só uma pessoa, como muitas outras, para quem fez a diferença entre a miséria e uma pobreza menos miserável. Mas aquilo que diz sobre esta prestação social – o facto de aos que a recebem se fazer sentir que estão sempre sob vigilância – é corroborado pelos estudiosos. “A fraude no RSI é menor do que noutras prestações sociais, porque nunca houve nenhuma medida tão escrutinada quanto esta”, diz por exemplo Carlos Farinha Rodrigues, especialista em políticas públicas e uma das autoridades nacionais sobre pobreza e exclusão.

Nada disto, como o facto de a prestação média mensal por beneficiário ser de pouco mais de 100 euros (119,41), e de o número de beneficiários ter vindo a diminuir muitíssimo na última década – depois de um máximo de mais de meio milhão em 2010 (526 382), em plena crise económico-financeira, em 2020 eram menos de metade (257 844) e em novembro tinham descido para 206 879 -, interessa a quem quer usar o RSI como instrumento de propaganda anti-Estado Social e políticas de esquerda.

Foi sempre assim com a direita, que logo em 2003 fez questão de mudar o nome ao programa e tem vindo sempre a bater na tecla da “fiscalização”. Chegámos até à desvergonha de ver em 2012 o então ministro da Segurança Social, o centrista Pedro Mota Soares, a defender o corte de 20% efetuado no montante previsto para este apoio com base na “moralização”. Isto porque, anunciou, o RSI ia passar a ser “um contrato entre o beneficiário e o Estado, com direitos e deveres”. Estes passariam a incluir a obrigatoriedade de as crianças do agregado irem à escola e de inscrição no centro de emprego para quem recebe a prestação – cancelada para presos condenados. Novidades incríveis – não fosse dar-se o caso de o Rendimento Mínimo Garantido ter sido criado em 1996 como, precisamente, um contrato entre o Estado e o beneficiário, de desde esse início existir a obrigatoriedade de inscrição no centro de emprego e de matrícula e assiduidade das crianças na escola, e o cancelamento da prestação em caso de prisão efetiva (o que aliás deve ser feito com o cuidado de não prejudicar terceiros; as famílias dos condenados não podem ser penalizadas por esse facto).

Esta suposta “moralização” anunciada pelo governo Passos Coelho era pois uma trapaça populista e odienta, para esconder a verdade: o corte de 70 milhões que haviam previsto para a prestação era obtido modificando o cálculo da mesma, passando as crianças a valer 30% do rendimento de referência, em vez dos 50% que até aí eram aplicados.

Tendo em vista este triste histórico e o facto de o acordo entre o PSD e o Chega nos Açores ter como principal bandeira a diminuição dos apoios sociais naquela região autónoma, onde existe a maior percentagem de beneficiários do RSI de todo o país, não pode pois surpreender ver Rui Rio, no encerramento do congresso do PSD, a apelar a “mais fiscalização nos apoios sociais”Sem apresentar uma única ideia concreta para essa fiscalização ou dados concretos sobre as fraudes que insinua existirem, o candidato a primeiro-ministro acusou os beneficiários desses apoios sociais de “se furtarem ao trabalho” e “dessa forma condicionarem a própria expansão empresarial que, cada vez mais, se lamenta da falta de mão de obra disponível”, enquanto, evidentemente, uma “classe média sufocada em impostos” paga o bodo.

André Ventura, claro, veio logo aplaudir o eco do seu discurso (o Chega falou precisamente de “reforço da fiscalização pra evitar fraudes e abusos” quando no parlamento se falou, este ano, e a propósito do quarto de século do programa, de rever o RSI); já Rio foi para o Twitter queixar-se de que o seu intuito foi “deturpado” num artigo do bloquista José Soeiro, que o acusa no Expresso de querer cortar apoios sociais. Não, Rio não quer cortar apoios sociais, lá agora; só quer, como o anterior governo PSD/CDS e o governo dos Açores, “moralizar” – mesmo se fala do sufoco dos que pagam impostos, sinalizando que com a “fiscalização” ficariam mais folgados.

Não, Rui Rio não precisa de saber do que está a falar, nem de queimar os olhos a ler relatórios ou a conhecer percursos de vida de gente que necessitou de um rendimento mínimo garantido. Não precisa de saber que o RSI corresponde a menos de 400 milhões de euros anuais – uma bagatela orçamental – nem de reparar que há prestações sociais a pesar muitíssimo mais no Estado, como as chamadas “pensões mínimas” (mais de mil milhões de euros/ano), e sem qualquer condição de recursos – e em relação às quais, por motivos de propaganda, a direita nunca fez qualquer exigência de “fiscalização” e “moralização”; pelo contrário.

Não, não esperemos de Rui Rio, que se tem esmerado no ziguezague ideológico, ou, melhor dizendo, sem ideias, mais do que uma única lógica: safar-se, passar à oral. Se para isso acha que o melhor é copiar as respostas ao colega do Chega, copia. É pena, mas é o que se vê.


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As eleições legislativas e o PSD

(Carlos Esperança, 11/12/2021)

Rui Rio, mal refeito ainda da vitória interna contra Paulo Rangel, já tinha os adversários a exigir-lhe os lugares das listas de deputados, a liderança dos círculos eleitorais, enfim, o poder.

Roma não pagava a traidores, e, no PSD, eram esses que exigiam o pagamento. Rui Rio fez o habitual, despediu os mais venenosos e juntou alguns aos que lhe foram leais, para não ter apenas indefetíveis, que reduzem a massa crítica do partido, que aspira ao poder.

Enquanto os derrotados procuram digerir e explicar os resultados, incluindo o PR, quem perde é que explica, Rio faz jus à sua tradicional heterodoxia de fazer campanha. Não se lhe pode negar a coragem. É capaz de cometer erros primários e de ser intuitivo e sagaz, incluindo a decisão de abandonar o CDS ao naufrágio e deixar a comissão liquidatária à porta da Assembleia da República.

O CDS deixou de fazer falta à democracia depois de se tornar o refúgio de reacionários, esgotado de eleitores e a viver dos negócios de secretaria de Paulo Portas, mera muleta do PSD, independentemente de quem fosse o líder.

Rui Rio, convicto de que os quadros de algum valor irão abrigar-se no PSD, obrigou o CDS a imolar-se. Não será o único partido a perder o líder, mas o único capaz de perder todos os deputados.

O PSD está habituado a lutas internas, que cessam quando chega ao poder. Rui Rio sabe isso e pode ser o sacrificado. Quando o obscuro salazarista, Cavaco Silva, chegou a PM, após a improvável ascensão à liderança, derrotando João Salgueiro, apoiado por jovens intriguistas, Marcelo, Júdice, Santana Lopes, Durão Barroso e António Pinto Leite, no Congresso da Figueira da Foz, passaram a ser líderes os piores, a chegarem ao poder os mais próximos do salazarismo.

Rui Rio é exceção. A sua queda, com a ajuda de Marcelo, recolocará o PSD, no lugar a que Cavaco e Passos Coelho o conduziram, a tralha que tanto se aliava ao CDS como se coligará com o partido fascista. Mesmo com Rui Rio, o PSD não abdicará do poder por alergia aos fascistas. O partido racista, xenófobo, defensor da castração e pena de morte já se encontra no Governo Regional dos Açores.

O PR não ponderou os prejuízos para o País ao precipitar as eleições. Se a correlação de forças partidárias se mantiver, inviabilizada a repetição da maioria de esquerda do XXI Governo Constitucional no próximo (XXIII), há de perguntar-se para que serviram.

A simpatia e impunidade de que o PR goza nos media permitem que seja ele a colocar no PSD e no Governo um homem de mão. Não lhe faltam Moedas de reserva. Em vez de ser julgado pela opinião pública, será ele o juiz do novo Governo.

Só a improvável maioria absoluta do PS ou de direita anularia os intentos de Marcelo e a absurda e inconstitucional deriva da democracia parlamentar para presidencial.

Rui Rio ameaça estar na origem de um terramoto partidário. Numa época perigosa, não deixa de ser aliciante seguir o desespero e a estridência dos arautos da direita.

É justo reconhecer a Rui Rio a coragem e a diferença dos salazaristas que afrontou.


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