Os indigentes

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 31/07/2025)


A Europa é chefiada por indigentes e Trump perdeu-lhes o respeito, se é que alguma vez o teve. Além de despedaçar a Europa, Trump mostra o seu desprezo pelo projeto europeu que poderia vir a desafiar o poder norte-americano.


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Há uns tempos escrevi um texto sobre as vulnerabilidades estratégicas da União Europeia (UE) e como elas condicionam a sua autonomia. Parece que os dirigentes europeus ainda não as interiorizaram. Para que a UE possa sobreviver e tenha margem de manobra política, faz sentido que os seus dirigentes em Bruxelas identifiquem essas vulnerabilidades e o impacto que possam provocar no seu relacionamento com as grandes potências ou blocos comerciais.

Em tempos sugeri que, para nosso bem, a União deveria funcionar como um mediador das divergências geopolíticas entre os EUA e a Rússia e entre os EUA e a China. Isso poderá ser agora demasiado tarde. Tal opção permitiria à Europa afirmar-se como um ator relevante na cena internacional, em vez de se eternizar no papel de deputy sheriff, esvaziando de sentido as suas pretensões de autonomia estratégica por que tanto tem pugnado.

A inabilidade diplomática de Bruxelas levou aos deploráveis espetáculos que começaram em Pequim e se prolongaram na Escócia. Pequim e Washington não respeitam a União Europeia. Em Pequim, Ursula von der Leyen, António Costa e Kaja Kallas foram transportados do avião em que chegaram por um autocarro do aeroporto, como se fossem passageiros de uma companhia aérea económica. Na Escócia, von der Leyen foi recebida no clube de golfe de Donald Trump, e teve de esperar que este terminasse o “último buraco”.

O comportamento destes inefáveis dirigentes recorda-me aqueles que tiveram de recorrer aos fundos europeus e ao alojamento local para manter a mansão de família, mas que ainda procuram impressionar quem os ouve recorrendo insistentemente a um passado que já não existe.

A reunião em Pequim, no dia 24 de julho, com o objetivo de marcar os 50 anos do estabelecimento de relações bilaterais entre a União e a China, saldou-se por um tremendo fiasco. Os pigmeus foram explicar a Pequim como se devia comportar com a Rússia. Não perceberam que a sua vulnerabilidade estratégica não aconselha a falar com voz grossa, e que o atual estado de coisas é, em grande parte, o resultado dos indigentes terem elevado a Ucrânia ao estatuto de principal prioridade da política externa da UE: um estado não-membro tornou-se o principal fator determinante de todas as decisões e respetivas consequências relativamente aos 27 Estados-membros. A cimeira que deveria originalmente ter tido lugar em Bruxelas e durar dois dias reduziu-se a um só, terminando em nada.

Ainda atordoados com o que lhes tinha acontecido em Pequim, foram confrontados, na Escócia, com a segunda humilhação em três dias. Esta continuaria quando cederam em toda a linha às imposições de Trump. Von der Leyen aceitou tudo o que lhe foi imposto. Os EUA estabeleceram uma tarifa única de importação de 15% para a maioria dos produtos da UE, e de tarifa de 0% para alguns produtos estratégicos. Neste pacote de 15% incluem-se os automóveis, o principal motor da indústria alemã e da economia europeia. As tarifas aduaneiras sobre o aço e o alumínio europeus permaneceram em 50%, embora esteja em discussão a possibilidade de se avançar para um sistema baseado em quotas (volume) de exportações, depreende-se.

Simultaneamente, a União comprometeu-se a investir US$ 600 mil milhões nos EUA, a comprar US$ 750 mil milhões de energia norte-americana nos próximos três anos e a aumentar as aquisições de equipamento militar americano. No final von der Leyen descreveu o tratado como um grande sucesso: “Foi difícil para nós. Mas agora conseguimos”, ficando por esclarecer o que foi que conseguiu.

Disse sem se rir, que “as compras de produtos energéticos dos EUA diversificarão as nossas fontes de abastecimento e contribuirão para a segurança energética da Europa. Substituiremos o gás e o petróleo russos por compras consideráveis de gás, petróleo e combustíveis nucleares dos EUA”. O facto de serem significativamente mais caras do que as russas não a incomoda. Terá aderido à tese do então secretário da energia Rick Perry quando este afirmou, em 2019, a superioridade do gás natural norte-americano por ser o gás da liberdade.

Em troca de todas as concessões feitas, a UE não recebeu qualquer contrapartida. Foi um jogo de soma zero. Recorrendo à terminologia de Carlo Cipolla, na sua “Teoria Geral da Estupidez”, os EUA fizeram o papel de “maus” e os dignitários europeus o de “ingénuos”. Segundo alguns especialistas, a UE sofrerá um prejuízo líquido de cerca de 1,4 triliões de dólares sem receber garantias ou benefícios. Depois desta “grande vitória” europeia – conseguiram uma tarifa de 15% em vez dos iniciais 30% -, Trump veio vangloriar-se deste ser o “maior acordo de sempre”, melhor do que os celebrados com o Japão e com o Reino Unido.

Os EUA obtêm receitas significativas pela importação de bens da UE e podem ganhar ainda mais, pois o acordo deixa a porta aberta para Washington aumentar as tarifas se a Europa não cumprir com as compras com que se comprometeu. E, como veremos, muito provavelmente assim será.

A Reuters e a Bloomberg consideram irrealista a possibilidade de Washington exportar energia para a UE no valor de US$750 mil milhões. “A promessa da UE importar US$250 mil milhões de dólares de energia dos EUA [anualmente] é um disparate”, escreve a Reuters. De acordo com os seus dados, os produtores americanos não serão capazes de satisfazer esse nível de importação. O valor total das importações de petróleo bruto da União a partir dos EUA, gás e carvão de coque, em 2024, foi de apenas US$64,55 mil milhões, o que representa 26% dos prometidos US$250 mil milhões, com que a UE se comprometeu a gastar anualmente. Isto significa que a UE não os conseguirá atingir.

Perante tremenda capitulação, as reações nalguns países da União não se fizeram esperar. “É um dia negro quando uma aliança de povos livres, unidos para afirmar os seus valores e defender os seus interesses, se resigna à submissão”, escreveu no X o primeiro-ministro francês centrista François Bayrou. Na manhã de 28 de julho, Viktor Orbán comentava no seu podcast que “não foi um acordo que o Presidente Donald Trump fez com Ursula von der Leyen. Foi o Donald Trump a comer a Ursula von der Leyen ao pequeno-almoço”.

Pelo seu lado, o chanceler alemão Friedrich Merz afirmou não estar satisfeito com o resultado do acordo e reconheceu que a economia alemã iria sofrer danos “significativos”, mas de modo condescendente, afirmou que “simplesmente não era possível fazer mais”. Com a aquisição de equipamento militar aos EUA, o sonho da reindustrialização alemã à custa da revitalização da indústria do armamento poderá estar comprometido.

Os problemas começaram a alastrar, com a agenda verde europeia a entrar em colapso. Segundo o Welt, o Qatar, um dos principais fornecedores de gás natural liquefeito (GNL) da UE, poderá vir a suspender as exportações de GNL para a Europa, a menos que o bloco flexibilize as principais regulamentações climáticas previstas na sua Diretiva da Cadeia de Abastecimento. O Ministro da Energia do Qatar Saad Sherida Al-Kaabi disse ” que as empresas [do Qatar] não devem ser forçadas a escolher entre cumprir as políticas climáticas e as regulamentações da UE”. Parece não serem apenas os chineses a estar cansados das lições e do “paternalismo” da UE.

Estes desenlaces só vêm provar a justeza daquilo que dizemos há anos. A Europa é chefiada por indigentes e Trump perdeu-lhes o respeito, se é que alguma vez o teve. Trump está a conseguir despedaçar a Europa e a mostrar o seu desprezo pelo projeto europeu que poderia vir a desafiar o poder norte-americano.

O acontecimento da Escócia foi uma tremenda vitória político-económica dos EUA e uma clara derrota da UE. Por outras palavras, um embaraço. Trump está a tentar fazer com o Brasil algo semelhante, mas sem sucesso. O Brasil tem uma margem de manobra que a Europa não dispõe. O Brasil tem parceiros, tem opções.

A exímia diplomacia europeia conduziu-nos para um beco sem saída onde não temos aliados. Para onde é que se vai a UE virar? Seguramente que não será para o sul global. Bruxelas tem medo da sua própria sombra. Ao não ter ensaiado uma retaliação conjunta com a China aos EUA cavou a sua própria sepultura. Fraqueza só traz mais exploração.

Depois de impor aos aliados 5% dos orçamentos nacionais em gastos com a Defesa, na Cimeira da NATO, em Haia, e agora este “acordo comercial”, ainda há quem continue a achar que Trump é errático, inconstante, e que não sabe o que quer. Entretanto, campeiam os comentadores mansos e fofinhos, ou se preferirmos, cobardes, a defenderem a TINA (“There Is No Alternative”) e a darem cobertura à humilhação. Talvez se deva aplicar aqui o que rei D. Juan Carlos disse ao presidente venezuelano Hugo Chávez numa cimeira latino-americana. Parece estarmos condenados ao século da humilhação da Europa.

Estará rompida a “mística” de Trump? Será que o MAGA se sente traído?

(Alastair Crooke, in Resistir, 31/07/2025)


A nuvem Epstein está a propagar-se e a convergir num profundo afastamento popular.


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A nuvem Epstein está a propagar-se e a convergir num afastamento popular em relação a certos estratos dominantes. O público, relutantemente, resignou-se a aceitar que os seus “governantes” habitualmente mentem e roubam, mas, mesmo assim, eles (em especial dentro da ala MAGA) começaram vagamente a perceber que pode haver vícios dentro do poder público que consideram demasiado repugnantes para sequer imaginar. As pessoas começaram a perceber que Trump, de uma forma ou de outra (mesmo como espectador), estava ligado a toda àquela cultura degradada.

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Se ainda apoias Israel em 2025, algo está mal contigo como pessoa

(Caitlin Johnstone, 18/07/2025, Trad. Estátua de Sal)


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Às vezes, acho impressionante a agressividade com que os apoiantes de Israel trabalham para reprimir as críticas a Israel. Então, lembro que essas pessoas também apoiam o assassinato em massa de crianças; tentar tirar.me o direito de me exprimir é um de seus objetivos menos perversos. Tal não deveria chocar-me.

Vi alguém a falar online sobre como é insano que grupos musicais que se manifestam contra as atrocidades de Israel estejam começando a formar alianças entre si, na tentativa de neutralizar a campanha para os silenciar e destruir as suas carreiras, dizendo que não deveria ser necessário formar uma aliança para se opor a um genocídio em andamento. E é verdade, não deveria ser necessário. Mas também não devemos surpreender-nos com o facto de pessoas que acham que bombardear hospitais é aceitável, tentarem cancelar músicos por criticarem Israel.

Um erro que os ocidentais continuam a cometer é pensar nos apoiantes de Israel como pessoas normais, com padrões morais normais, só porque os conhecemos e interagimos com eles nas nossas comunidades. Eles parecem-se conosco, falam como nós, vestem-se como nós e agem como nós, então presumimos que eles também devem pensar e sentir muito como nós.

Mas não. Se tu ainda apoias Israel no ano de 2025, há algo seriamente errado contigo como pessoa. Tu não tens um senso normal e saudável de empatia e moralidade.

Estamos em 2025. Soldados israelitas estão dizendo à imprensa israelense que estão recebendo ordens para massacrar civis famintos que tentam obter comida em centros de assistência. Inúmeros médicos têm dito ao mundo que atiradores israelitas estão rotineiramente a disparar deliberadamente na cabeça e no peito de crianças em toda a Faixa de Gaza. A Amnistia Internacional a Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio autoridades de direitos humanos estão dizendo que um genocídio está a ser perpetrado em Gaza. O New York Times acabou de publicar um artigo de opinião de um estudioso sionista do genocídio que finalmente admite que se trata de um genocídio.

Não há como negar o que isso significa. Se tu ainda apoias Israel em 2025, não é porque não acredites que Israel esteja a cometer atrocidades horríveis. É porque tu acreditas que essas atrocidades horríveis são boas e queres vê-las cometidas mais vezes.

A maioria dos apoiantes de Israel negará que isso seja verdade, porque mentem. Mentem constantemente. Eles não têm problemas morais em mentir. Eles não têm problemas morais com queimar crianças vivas , então é claro que não têm problema em mentir.

É aí que as pessoas se enganam. Presume-se que os apoiantes de Israel não podem estar a mentir sobre as suas preocupações com o “antissemitismo” para promover os interesses informativos de Israel, porque ninguém poderia ser tão maligno. Mas os apoiantes de Israel acham aceitável matar bebés à fome intencionalmente, bloqueando a entrada de leite em pó em Gaza. É claro que eles são mesmo malignos.

As pessoas presumem que os apoiantes de Israel não encenariam deliberadamente falsos incidentes antissemitas ou inflacionariam artificialmente os números do antissemitismo  nos seus próprios países para que os seus governos implementassem medidas autoritárias para reprimir as críticas a Israel em nome do combate ao antissemitismo, porque presumem que ninguém poderia ser tão depravado. Mas essas pessoas acham aceitável que as Forças de Defesa de Israel (IDF) assassinem sistematicamente jornalistas palestinianos para os impedir de dizer a verdade. É claro que eles são mesmo depravados.

Claro que tentariam silenciar a nossa voz. Claro que tentariam mandar os nossos filhos para a guerra com o Irão. Claro que se esforçariam por manipular o nosso governo. Claro que poluiriam o ecossistema de informação com montanhas de mentiras. Eles apoiam um genocídio transmitido ao vivo. São pessoas más.

Apoiar Israel e suas ações não é uma opinião política como a sua posição sobre impostos sobre a propriedade ou a legalização da maconha. Não se trata apenas de algumas pessoas terem um ponto de vista que precisamos respeitar e tratar como igual ao nosso sobre o assunto. Elas estão a trabalhar para tornar possível a condução de uma campanha de extermínio de horror insondável. Isso é tão político quanto uma violação coletiva, e igualmente digno de respeito.

Não há realmente nada que se possa ignorar em relação aos apoiantes de Israel neste momento. Eles vão mentir. Eles vão manipular. Eles vão fingir acreditar em coisas em que não acreditam. Eles vão fingir sentir coisas que não sentem. E farão tudo isso para facilitar algumas das piores atrocidades que se possa imaginar.

É isso que os apoiantes de Israel são. Eles mostram quem são todos os dias.

Fonte aqui.