O Novo Atlantismo de Marco Rubio

(A l e x a n d r e D u g i n, in MultipolarPress.com, 16/02/2026, Trad. Estátua)

Alexander Dugin sobre a recalibração estratégica do Ocidente em Munique.


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O discurso do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na Conferência de Segurança de Munique, em 14 de fevereiro de 2026, diferiu significativamente do discurso análogo proferido pelo Vice-Presidente JD Vance na mesma conferência, um ano antes.

O discurso de Vance no ano passado foi, em essência, um triunfo do MAGA — a ideologia sob cuja bandeira Donald Trump chegou ao poder após vencer as eleições presidenciais pela segunda vez. O vice-presidente dos EUA apresentou aos europeus (a maioria dos quais globalistas) o novo rumo de Washington para fortalecer os Estados Unidos – afirmando-se como um polo totalmente soberano no contexto de um mundo multipolar -, bem como o fim da era do globalismo. Vance não escondeu o seu desprezo pelos europeus e criticou duramente a sua ideologia liberal de esquerda. A ausência de invocações e maldições histéricas de russofobia no seu discurso foi percebida pela elite euro globalista quase como uma “posição pró-russa”. A impressão geral foi de que o atlantismo havia entrado em colapso e que o Ocidente coletivo se havia dividido em dois sistemas independentes: o nacionalismo americano (América Primeiro) e um fragmento do globalismo fracassado representado pela União Europeia.

Desta vez, o Secretário de Estado Marco Rubio discursou em Munique. A sua peroração refletiu as transformações pelas quais a política externa dos EUA passou nesse período. É importante destacar que o próprio Rubio é um neoconservador; ele orienta-se para o fortalecimento da solidariedade atlântica, a continuidade e até mesmo a intensificação da política hegemónica na América Latina (foi Rubio quem promoveu a invasão da Venezuela, a deposição de Maduro, bem como a intervenção e a mudança de regime em Cuba) e o aumento das tensões com a Rússia. Ao mesmo tempo, Marco Rubio busca adaptar-se à retórica conservadora de Trump e critica a agenda liberal de esquerda (embora de forma muito mais branda do que o movimento MAGA — e Vance em particular).

Em primeiro lugar, Rubio tranquilizou os líderes da UE quanto à preservação da solidariedade atlantista. Segundo ele, “num momento em que as manchetes anunciam o fim da era transatlântica, que fique claro para todos que esse não é o nosso objetivo nem o nosso desejo, porque, para nós, americanos, embora a nossa casa seja no Hemisfério Ocidental, seremos sempre filhos da Europa”. E acrescentou: “Para os Estados Unidos e para a Europa: nós pertencemos um ao outro”.

A era transatlântica, portanto, continua. Ao mesmo tempo, no espírito do neoconservadorismo clássico, Rubio enfatizou a dimensão estratégica da Europa. Ele afirmou: “Queremos que a Europa seja forte. …o nosso destino está e sempre estará entrelaçado com o vosso, porque sabemos que o destino da Europa nunca será irrelevante para o nosso”. O Secretário de Estado também assegurou que nada ameaça a NATO: “Não procuramos a separação, mas sim revitalizar uma antiga amizade e renovar a maior civilização da história da humanidade. O que queremos é uma aliança revigorada…”

Rubio criticou o sistema de valores da esquerda liberal; contudo, explicou principalmente a falácia das falsas esperanças dos democratas liberais — a sua complacência e confiança na garantia de domínio global após o colapso da URSS. Rubio disse: “Mas a euforia desse triunfo levou-nos a uma ilusão perigosa: a de que havíamos entrado, entre aspas, ‘no fim da história’; que todas as nações seriam agora democracias liberais; que os laços formados pelo comércio e somente pelo comércio substituiriam a nacionalidade; que a ordem global baseada em regras — um termo banalizado — substituiria o interesse nacional; e que viveríamos em um mundo sem fronteiras, onde todos se tornariam cidadãos do mundo. Essa foi uma ideia tola que ignorou tanto a natureza humana quanto as lições de mais de 5.000 anos de história humana registrada.”

Embora Rubio não tenha mencionado a Rússia diretamente no seu discurso, à margem de sua visita, ele lamentou os “horrores da guerra“, afirmando que “não sabemos se os russos estão falando a sério sobre acabar com a guerra” e que “vamos continuar a testar isso“, ao mesmo tempo em que assegurava que os Estados Unidos continuariam a pressionar a Rússia por meio de sanções económicas e do fornecimento de armas à Europa, que, em última instância, chegariam à Ucrânia. Nesse ponto, Rubio pareceu estar mais alinhado  com o Velho Mundo, argumentando que, juntamente com a Europa, os EUA continuariam a tomar medidas para pressionar a Rússia a sentar-se à mesa de negociações.

No entanto, Rubio faltou a uma reunião de líderes europeus com Zelensky sobre a Ucrânia, realizada à margem do fórum, e, em vez disso, foi encontrar-se com Orbán — e isso.só por si, provocou críticas dos euro-globalistas, que consideraram tal comportamento um “desafio”.

Rubio concluiu o seu discurso na conferência num tom otimista, insinuando que o “novo xerife”, na pessoa de Donald Trump, é muito menos terrível do que muitos acreditam, e que, na realidade, a sua agenda internacional não difere muito dos planos dos globalistas, embora apresentada sob uma embalagem peculiar e extravagante. A própria figura de Rubio — um neoconservador e globalista — tinha o propósito de confirmar essa tese. Ele terminou o seu discurso com as palavras: “A América está a traçar o caminho para um novo século de prosperidade, e mais uma vez queremos fazer isso juntamente com vocês, nossos estimados aliados e nossos amigos de longa data”.

Se deixarmos as emoções de lado, a visita do Secretário de Estado Marco Rubio à Europa para a Conferência de Munique marca uma mudança significativa na política da administração americana em comparação com o ano passado. A nova estratégia de segurança nacional declarou que, a partir de agora, os Estados Unidos se concentrariam no Hemisfério Ocidental, o que foi interpretado como um retorno à Doutrina Monroe (América para os americanos) e uma rutura com o Velho Mundo. Rubio esclareceu que não é esse o caso e que todas as estruturas atlantistas permanecem em vigor.

Assim, com certo grau de certeza, pode concluir-se que, ao longo do último ano, a política dos EUA se distanciou muito do projeto revolucionário do MAGA e está a aproximar-se de uma versão radical do neoconservadorismo e do realismo atlantista.

Partindo das posições com que Trump iniciou o seu segundo mandato presidencial, a Rússia e os Estados Unidos tinham perspetivas de chegar a um acordo sobre novas bases para uma nova ordem mundial. Especialmente porque nós, Vance, o próprio Trump e Rubio, concordamos que a antiga ordem mundial liberal-globalista, “baseada em regras”, já não existe. Não nos teríamos oposto particularmente a um fortalecimento dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, e Vladimir Putin teve a oportunidade, em Anchorage, de discutir a sua visão global com o presidente americano. O problema da Ucrânia dificilmente poderia ter sido resolvido, mas Washington poderia muito bem ter-se retirado dessa guerra, concentrando-se nos seus próprios problemas. Uma deterioração nas relações entre os Estados Unidos e a União Europeia também teria sido vantajosa para nós, ao mesmo tempo que um retorno aos valores tradicionais coincidia plenamente com a nossa própria ideologia patriótica e conservadora. Com o MAGA, tínhamos todas as chances de encontrar um terreno comum.

Contudo, em determinado momento, o próprio Trump começou, nas suas políticas, a distanciar-se do movimento MAGA e a aproximar-se dos neoconservadores. Paralelamente, o papel de Marco Rubio no sistema político ganhou relevo. As negociações sobre a Ucrânia, já problemáticas e até mesmo ambíguas desde o início, aproximaram-se gradualmente de um impasse.

Mais importante ainda: isso afetou muito mais do que as relações russo-americanas. O governo dos EUA adotou estratégias neoconservadoras (em essência, uma tentativa de salvar a hegemonia ocidental e o mundo unipolar) também em várias outras áreas: pressão sobre os BRICS, ataques contra o Irão, o sequestro de Maduro e o aumento das sanções contra a Rússia. E agora, Marco Rubio, na Conferência de Munique, articulou um programa de novo atlantismo — menos liberal e mais realista, mas ainda assim o mesmo. Continua, pois, a ser um mundo unipolar, e de forma alguma uma nova ordem mundial de grandes potências.

Os caminhos da civilização russa e da civilização ocidental estão a divergir cada vez mais (embora esse processo tenha começado há muitos séculos). Devemos estar preparados para isso.

Fonte aqui.


Não é a democracia, é o petróleo!

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 12/02/2026)


A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão. A mudança tem de vir de dentro.


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O ataque israelo-americano, em junho de 2025, ao Irão e as recentes ameaças norte-americanas de decapitar o regime iraniano, não passam de mais um capítulo de uma longa série de peripécias iniciadas, em 1979, quando o Xá Reza Pahlavi foi deposto pela revolução islâmica, e instaurado o regime dos aiatolas.

As autoridades norte-americanas têm disfarçado os motivos dos seus intentos. Oficialmente, as suas ações são beneméritas e visam promover a democracia, a libertação dos iranianos de um poder opressor e maléfico e, assim, altruisticamente, trazerem-lhes a paz e o progresso. Têm contado nesta campanha messiânica com o apoio de múltiplas caixas de ressonância na Comunicação Social, que, de uma forma mais ou menos voluntária, se tem prestado a difundir e a amplificar o logro.

O regime iraniano sofre de vários problemas, sobejamente conhecidos, cuja resolução terá de ser encontrada pelos próprios iranianos, não por Washington, Telavive ou por qualquer outra entidade estrangeira. Afegãos, iraquianos, líbios e sírios, entre outros, sabem do que falo.

A cruzada, acicatada por Telavive, não visa libertar o povo iraniano do jugo opressor dos aiatolas. O objetivo é bem mais pragmático: colocar no poder alguém manipulável que facilite a Washington e a Telavive a concretização dos seus desígnios estratégicos e económicos.

O problema deixaria de estar no regime, se os recursos minerais do país fossem privatizados e entregues à exploração de companhias norte-americanas. Washington viverá muito bem com isso, como viveu no tempo do Xá, de cuja polícia política os mais velhos ainda se recordam e têm bem presente.

Os aiatolas cometeram o “erro” de nacionalizar as empresas petrolíferas estrangeiras que operam no Irão. Deviam ter aprendido com Mohammed Mossadeq, o primeiro-ministro iraniano eleito democraticamente e deposto, em 1953, por um golpe de estado patrocinado pelo MI6 e pela CIA, por ter cometido o “horrível crime” de privatizar as empresas petrolíferas estrangeiras.

Não terá sido a incomodidade com o regime político em Bagdade que levou Washington a financiar a guerra de oito anos, de Sadam Hussein contra o Irão, e a fornecer-lhe armas químicas. Como não terá sido, também, a incomodidade com o regime dos aiatolas que levou elementos próximos da Administração do presidente Ronald Reagan a vender-lhes – secretamente – equipamento militar para financiar os “Contra”, na Nicarágua.

Como também não terá sido o desconforto com o regime que levou os EUA a colaborar intensamente, e com grande proximidade, com Teerão para derrubar os Talibã, em 2001. Como também não houve embaraço e falta de pruridos por parte do presidente George Bush para classificar Teerão, em 29 de janeiro de 2002, como pertencendo ao “Eixo do Mal”, e passados alguns meses lhe pedir novamente ajuda no planeamento da operação militar que levou ao derrube de Saddam Hussein, em 2003, o mesmo que tinha ajudado na década de oitenta do século XX contra o Irão. Apesar de receosa – presença de contingentes norte-americanos significativos nas suas fronteiras Oeste e Leste – Teerão lá teve de ceder, temendo uma retaliação pela sua “ousada” desobediência.

Camuflar as suas verdadeiras intenções com o programa nuclear não passa de engodo para tolos. O Irão cumpria rigorosamente o acordado no Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), conhecido como “acordo nuclear iraniano”, em 2015, quando os EUA o abandonaram unilateralmente, em 2018, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, o que mostrou a Teerão que o cumprimento integral do Plano e a cooperação sem precedentes com a Agência Internacional de Energia Atómica, não eram suficientes para garantir a sua segurança.

Particularmente exasperante é o facto de existirem soluções para o “problema nuclear” iraniano e todos saberem quais são: a empresa nuclear estatal da Rússia, Rosatom, mostrou disponibilidade para assumir a gestão e a supervisão do enriquecimento limitado de urânio iraniano destinado a fins não militares, no Irão, assegurando que o enriquecimento permanece dentro dos limites (3,6%); ou, a criação de um consórcio de enriquecimento de urânio que envolva o Irão, a Turquia, o Egito, a Arábia Saudita, os Estados árabes do Golfo Pérsico e as principais potências globais. Este segundo modelo tem ainda a vantagem de permitir ultrapassar as preocupações existentes quanto à proliferação nuclear na região, salvaguardando ao mesmo tempo o acesso igualitário à tecnologia nuclear para fins pacíficos. Nenhuma destas soluções, ou quaisquer outras, interessa a Washington, uma vez que não pretende resolver o “problema”. A sua resolução esvaziar-lhe-ia o pretexto para a ação militar, que Telavive tanto anseia.

E agora?

Têm sido muitas as iniciativas diplomáticas, em particular as regionais, para convencer Trump a não se envolver numa guerra com o Irão. Excluem-se deste leque as de sinal contrário, promovidas por Israel e pelo bloco sionista em Washington, instalado na Administração e no establishment político norte-americano.

Para conversar com Teerão, Washington apresentou três exigências fundamentais. O Irão tinha de abandonar o seu programa nuclear, reduzir as suas forças de mísseis (em alcance e em número) e deixar de apoiar os seus proxies, um ultimato frontalmente rejeitado. Contrariando Washington, Teerão resistiu às ameaças norte-americanas e mostrou-se disponível para falar apenas sobre um ponto: o programa nuclear, o enriquecimento de urânio e o potencial levantamento de sanções. Os EUA cederam na agenda e delegações dos dois países encontraram-se em Omã, sob mediação do ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, no dia 6 de fevereiro, em Mascate. Acordaram em continuar a negociar, o que significa ausência de progressos. A inclusão do programa nuclear na agenda da reunião vem comprovar a farsa que foi o ataque às instalações nucleares iranianas em Fordow. Ao contrário do alardeado por Trump, o programa nuclear iraniano não foi “completa e totalmente destruído”. A ter sido, não faria sentido considerá-lo agora um tema a negociar.

À última hora, os EUA introduziram na agenda a interrupção do fornecimento de petróleo à China. Algumas horas após o fim da reunião, Trump assinou uma ordem executiva em que os Estados Unidos imporiam tarifas de 25% a qualquer país que fizesse negócios com o Irão. É difícil ver como é que vão impor essa decisão à China ou à Índia.

Trump encontra-se sob uma enorme pressão política. Paradoxalmente, o Irão encontra-se numa posição vantajosa à mesa das negociações. As hipóteses de uma vitória militar norte-americana sobre o Irão não são risonhas. Relembramos a “vitória” de Washington contra os Houtis, do Iémen, em março-maio de 2025. Acabariam por retirar após sete semanas de bombardeamentos, a perda de três caças F-18, de sete drones MQ-9 Reaper, e o porta-aviões Eisenhower danificado.

Assistimos, entretanto, a uma alteração significativa do discurso de Teerão relativamente a um novo ataque dos Estados Unidos. O Irão parece não se sentir ameaçado. Desta vez, a resposta não será simbólica; será imediata, total e sem precedentes, dando crédito às autoridades iranianas. A resposta concentrar-se-á em Israel, visando o coração de Telavive, de modo a quebrar a sua capacidade de dissuasão e a expor a ilusão de invulnerabilidade do território israelita, já afetada na guerra de junho de 2025, apesar das tentativas para o encobrir.

Um ataque norte-americano “limitado” tornou-se uma ilusão. Teerão sabe que os EUA aguentam um combate intenso, mas que terá de ser de curta duração. Correm riscos elevados numa guerra de atrição prolongada. Ao que se acrescenta o facto de os Estados Unidos não poderem usar os aliados regionais como plataforma de lançamento para atacar o Irão, por aqueles terem proibido as aeronaves norte-americanas de sobrevoarem o seu espaço aéreo.

Não se está a menosprezar o brutal poder de fogo e capacidade militar norte-americana, mas tão somente a interrogar se será suficiente para incapacitar uma grande potência militar como o Irão e evitar retaliações. Sem esquecer que a televisão iraniana mostrou um vídeo com o sobrevoo do porta-aviões Abraham Lincoln por um drone iraniano. Sem omitir a não desprezível capacidade iraniana em mísseis balísticos, de cruzeiro e hipersónicos, capazes de atingir bases americanas no Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e locais na Jordânia e Omã, assim como derrubar os navios e o porta-aviões norte-americano.

Nos últimos seis meses, o Irão tem-se preparado intensamente para esta guerra que está para acontecer, tendo conseguido restaurar a produção em larga escala de mísseis, as infraestruturas subterrâneas foram aumentadas e há rumores de terem sido testados novos mísseis e armas. A decisão de Trump em atacar deverá também levar em conta o recente pacto estratégico assinado entre o Irão, a China e a Rússia, e o facto de Pequim ter deslocado para o Irão radares com capacidade para identificar aeronaves furtivas, como os F-35 e os B-2. Os EUA terão de enfrentar a tecnologia chinesa, o que aumenta significativamente o risco da aventura militar e as consequências catastróficas de um desaire.

Perante todos estes desafios interrogamo-nos qual a margem de manobra para Trump voltar para trás. Segundo um parlamentar iraniano, antes das negociações em Abu Dhabi, Trump teria enviado, através de um país intermediário, uma mensagem ao Irão propondo uma fórmula semelhante à de junho de 2025: “Deixem-me atingir 2 locais no Irão – vocês respondem, e depois acaba tudo.” Parece que os iranianos desta vez não estarão pelos ajustes.

Contrariando tudo o que parece razoável e incorrendo num erro grave de análise, assistimos a uma notável corrente de comentários em apoio da escalada militar, considerando-a o meio capaz de acelerar o colapso do regime e de provocar a sua implosão. O Irão está longe de ser a Líbia ou a Venezuela. A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão.

A mudança no Irão tem de vir de dentro. É sabido que nem americanos nem israelitas têm alternativas no terreno para colocar no poder. Não apareceu até agora nenhum Gorbachev no Irão. O pretendente ao trono Reza Pahlavi, cuja filha se casou com um judeu, não passa de um fantoche. Nem Washington lhe reconhece utilidade. Ainda é tempo para Trump reconsiderar e evitar males maiores, para ele e para todos nós.

Anchorage foi a prova: a Europa está a pagar o preço… e sabe disso

(Gerry Nolan, in ronpaulinstitute.org/, 10/02/2026, Trad. Estátua)

Globo terrestre digital com partículas em movimento, conceito cibernético.

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Sergey Lavrov não hesitou. Não suavizou o tom. Acendeu o fósforo e deixou queimar. “Em Anchorage, aceitámos a proposta dos Estados Unidos.”

E agora, diz ele: “Washington já não está preparada para implementar o que foi proposto — nem em relação à Ucrânia, nem à cooperação ampliada, nem mesmo a promessa implícita de que uma fase diferente nas relações EUA-Rússia seria possível”.

Essa frase é importante porque destrói a narrativa. A oferta era real o suficiente para ocupar grandes parangonas, mas não o bastante para resistir ao contacto com o sistema de sanções.

E então Lavrov deixou a contradição bem à vista — porque enquanto Washington falava em cooperação, a sua marinha e os seus braços de segurança estavam ocupados a fazer algo completamente diferente: rastreando, abordando e apreendendo petroleiros em todos os oceanos.

E isso não é uma metáfora — é literal. Nos meses que se seguiram a Anchorage, as forças americanas perseguiram e abordaram embarcações — mais recentemente o Aquila II — ao longo de milhares de quilómetros em mar aberto, como parte de uma campanha crescente de interdições marítimas ligadas à aplicação de sanções. Petroleiros foram perseguidos, abordados, apreendidos ou forçados a regressar. Pelo menos sete foram tomados definitivamente. Outros fugiram. Foi assim que a “cooperação ampliada” se manifestou na prática.

Lavrov não precisou de levantar a voz. O aço já o fizera.

Não há qualquer confusão. Foi propositado. O aparato que, de facto, implementa a política externa dos EUA — sanções, fiscalização, influência no setor energético, estrangulamento financeiro e, agora, interdição marítima de rotina — não pode ser desligado de ânimo leve, uma vez em ação.

Mesmo sob a ilusão de uma presidência “América Primeiro”, o que começou como política sob Biden (a aplicação de sanções) agora torna-se mais intenso. Isso criou bases eleitorais, inércia legal e álibis morais que fazem com que qualquer reversão pareça uma rendição. Washington pode mudar o seu discurso, mas a máquina continua a funcionar. E a Europa não se limita a seguir; ela lidera o espetáculo público de histeria russófoba. Sempre.

O bumerangue energético da Europa

O regime de sanções nunca representou uma posição moral pura. Foi uma demolição e reconstrução, em ritmo de guerra, do sistema energético europeu, realizada com fervor ideológico e sem qualquer preocupação com as consequências previsíveis.

O Eurostat considera agora os preços da eletricidade para uso doméstico “estáveis”, uma forma astuta de evitar reconhecer o óbvio: eles permanecem bem acima dos níveis pré-2022. O choque não passou. Ele instalou-se. Bruxelas celebra a “diversificação”, mas os seus próprios números admitem silenciosamente os danos: o gás russo caiu de, aproximadamente 45% do fornecimento da UE em 2021 para cerca de 13% em 2025; o petróleo, de 27% para menos de 3%; e o carvão foi completamente eliminado. Isso não é adaptação, é amputação.

A Alemanha — a suposta espinha dorsal industrial da Europa — agora trata os preços da energia como uma ameaça à sua segurança. O setor industrial encerrou 2025 em profunda contração, com a produção a cair novamente à medida que a procura diminuiu. A resposta de Berlim foi reveladora: subsidiar os próprios custos que a sua política desencadeou. Os subsídios aos preços da eletricidade industrial deveriam começar no início de janeiro (de 2026). Mesmo as reduções projetadas nos preços são propagados não como um sucesso, mas como um alívio — alívio de alguns dos custos de energia mais altos do continente, dependentes de apoio estatal.

A Europa confundiu teatro moral com estratégia — e agora paga a conta da energia com os aplausos. Este é o efeito bumerangue das sanções: punição no exterior, medidas paliativas em casa. Enquanto isso, a Rússia ascende como uma potência económica, tudo às custas da arrogância dos eurocratas.

A dependência não foi encerrada — foi simplesmente reatribuída.

A acusação mais abrangente de Lavrov vai para lá da Ucrânia. Ele descreve um sistema: a grande ilusão da dominação económica global imposta por meio de tarifas, sanções, proibições e controlo das vias energéticas e financeiras — e também agora, imposta não apenas com folhas de excel, mas também com interdições marítimas ilegais.

A experiência da Europa desde 2022 torna esse sistema impossível de ignorar. O que é vendido como diversificação parece cada vez mais uma transferência de dependência. O fornecimento estável e de longo prazo por gasodutos deu lugar à exposição a uma volátil guerra global de licitações de GNL — estruturalmente mais cara, estrategicamente mais fraca e permanentemente incerta. Os contratos de longo prazo agora são procurados não por força, mas por compulsão. Uma joint venture grega que pretende um contrato de compra de GNL, a 20 anos, de até 15 biliões de metros cúbicos anuais, não é soberania. É uma necessidade, uma cortesia ao esquema de proteção de Washington, iniciado durante o governo Biden, mas continuado por Trump 2.0. Mas, a Europa tinha uma escolha: poderia ter escolhido a sobrevivência e a soberania.

A Europa não escapou da alavancagem, que se tornou mais gerível com a energia russa barata e confiável. Ela simplesmente mudou de senhorio.

E quando as sanções começam a ser aplicadas na prática — quando os navios são perseguidos, abordados, apreendidos — a ficção de que isso é apenas “pressão económica” desmorona-se. Torna-se o que sempre foi: controle da oferta.

Quando a Bíblia do Atlanticismo Pisca

Eis o sinal revelador — aquele que só aparece quando a negação, finalmente, falha.

A Foreign Policy, publicação oficial da ortodoxia transatlântica — o catecismo, a Bíblia, o lugar onde o pensamento aceitável é purificado e transformado em seriedade — publicou recentemente uma manchete que seria impublicável há pouco tempo: “A Europa está-se a preparar para se voltar para Putin”. Isto é importante precisamente por causa do local onde foi publicado.

A Foreign Policy não divulga heresias da corte imperial por conta própria. Ela regista mudanças, depois delas já terem ocorrido com os principais líderes transatlânticos. Quando reconhece uma mudança neste caso, está admitindo. O artigo não era simpático para Moscovo e não tinha essa intenção. Era brutalmente pragmático: a Europa está a descobrir que ser marginalizada por Washington nas negociações que determinam o seu próprio futuro tem consequências.

França e Itália — sem serem exceções, sem serem atípicas — estão a sinalizar a necessidade de um diálogo direto com Moscovo. Canais antes congelados estão a reabrir-se, com cautela, quase a contragosto. Assessores estão a viajar. Mensagens estão a circular. Não se trata de uma ideologia em evolução. É a fria aritmética a reafirmar-se.

Publicamente, o tom continua russófobo — absolutista, moralista, muitas vezes estridente. Em privado, a conclusão já foi assimilada. Os líderes europeus agora entendem algo que não podem mais apagar: a Rússia não entrou em colapso, não se rendeu e não desapareceu da história. Muito pelo contrário. Eles não precisam de gostar desse facto. Não é mais necessário pedir autorização.

A Rússia endurece o jogo — e lê o tabuleiro

A resposta da Rússia à pressão ocidental não foi o pânico. Foi a recalibração. Diversificação económica. Estabelecimento de rotas ferroviárias alternativas. Integração euroasiática mais profunda. Um setor energético que redirecionou os fluxos em vez de implorar por clemência — mesmo enquanto os seus navios eram perseguidos pelos mares a pretexto de “regras”.

Moscovo também entende o calendário americano. Sabe que Washington quer uma saída rápida antes das eleições de meio mandato — uma forma de reduzir a exposição sem expor o que já está sendo discutido abertamente. Sabe também que o mecanismo de sanções não pode ser revertido rapidamente, sem derramamento de sangue político, dentro do próprio sistema americano.

Essa assimetria é decisiva.

A Rússia percebe que Trump, quaisquer que sejam os seus intentos, tem menos cartas na manga do que aparenta. Ele não pode simplesmente suspender as medidas coercivas — marítimas ou financeiras — sem confrontar a estrutura que Washington levou anos a consolidar. Moscovo, portanto, não tem incentivo para se apressar, nenhum motivo para ceder cedo e todos os motivos para manter a calma, continuar a estabelecer a fria realidade do campo de batalha no terreno e deixar que o calendário político dos EUA aumente a pressão.

Isso não é teimosia. É poder negocial, conquistado com muito esforço.

O que significa, de facto, uma mudança de rumo na Europa

Uma verdadeira guinada europeia em direção à Rússia não seria a reconciliação ou o arrependimento. Seria a aceitação da realidade geopolítica e civilizacional num momento em que a negação se tornou suicida. A Europa não pode construir uma ordem de segurança duradoura em oposição permanente à Rússia sem se debilitar económica, industrial e politicamente. A experiência pós-2022 comprovou esse limite: a Europa esvaziou a sua própria base produtiva muito mais rapidamente do que conseguiu restringir, superficialmente, a profundidade estratégica da Rússia.

A interdependência energética, mesmo após reestruturação, continua a ser fundamental para a sobrevivência da Europa como civilização industrial. Essa realidade não pode ser eliminada por decreto nem obscurecida por slogans. Gasodutos, redes elétricas, rotas marítimas e cadeias de abastecimento respondem à geografia e à física, não a declarações de valores. Uma mudança de rumo significa admitir que a estabilidade provém da gestão da interdependência, não de uma ruptura meramente formal — e que a Rússia, seja ela bem-vinda ou rejeitada, permanece estruturalmente vital para o sistema continental europeu.

Acima de tudo, força a Europa a confrontar-se com a verdade que passou anos a evitar: a ordem atlântica à qual se vinculou encontra-se num estágio final de implosão imperial. A volatilidade das políticas, o excesso de sanções, o maximalismo na aplicação das regras e a geopolítica do ciclo eleitoral não são meros problemas. São sintomas. A Europa já não pode presumir que o alinhamento com Washington garanta coerência, proteção ou prosperidade. A adaptação já não é opcional. A Europa deve reinserir-se na História como um ator civilizacional com capacidade de ação — e não como uma dependência agarrada a uma ordem que já não consegue sustentar-se.

O realinhamento deixou de ser meramente teórico

O veredicto de Anchorage não foi um mal-entendido. Foi uma revelação.

Washington fez uma oferta que não podia politicamente honrar e, em seguida, recorreu a sanções, interdições e medidas coercivas — a única linguagem que o seu sistema ainda domina. A Europa ficou debilitada pelo custo. A Rússia absorveu a pressão. E nalgum ponto intermediário, o antigo roteiro atlântico silenciosamente deixou de funcionar.

O que mudou agora não foi a retórica da Europa, mas o seu reconhecimento interno. Até os eurocratas mais russófobos entendem o que não pode ser negado: a Rússia não vai voltar à ordem ocidental e a Europa não pode dar-se ao luxo de um confronto interminável.

A Europa não se está a aproximar da Rússia por boa vontade. A Rússia não está à espera da Europa por nostalgia. E Washington já não é o mediador indispensável que ainda finge ser. O realinhamento já está a acontecer — não porque alguém o tenha escolhido, mas porque a velha ordem perdeu força, antes de ficar sem slogans.

Fonte aqui


(*) O autor é analista político, escritor e estratega especializado em geopolítica, assuntos de segurança e dinâmicas estruturais do poder global. É fundador e editor do The Islander, uma plataforma de comunicação social independente que analisa a guerra, a diplomacia, a arte de governar a economia e a transição acelerada para um mundo multipolar.