Cavaco Silva e a PGR cessante

(Carlos Esperança, 28/09/2018)

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Não sei se o antigo PR tinha dívidas a pagar ou alguma vingança a exercer, mas as suas declarações, com a sensibilidade e argúcia das cagarras das Ilhas Selvagens, são a prova reiterada da falta de sentido de Estado que revelou em Belém, onde foi forjada a cabala contra um PM e cujo inquérito às despesas, ordenado pelo sucessor, nunca foi revelado.

Cavaco é a maior referência ética do condomínio fechado da Praia da Coelha e é preciso nascer duas vezes para alguém ser mais honesto do que ele, mas ver “com estranheza”, achar “estranhíssimo”, aquilo a que chamou “afastamento” da PGR cessante, é esquecer o direito do Governo, a propor, e do PR, a nomear, o/a titular da PGR. A ofensa gratuita ao PR que lhe sucedeu é maior do que o rancor ao PM que empossou.

Confundir ‘afastamento’ com ‘renomeação’ é o velho problema de quem nunca leu “Os Lusíadas” e tem recorrente conflitualidade com a língua portuguesa, quer na ortografia do verbo ‘haver’, no preenchimento da ficha da Pide, ou na conjugação oral do futuro do verbo ‘fazer’. Trata o idioma com a delicadeza com que mastiga bolo-rei.

Para que não o julgassem em defunção ou a gozar as delícias da vivenda Gaivota Azul, apareceu na comunicação social a dizer: “Sou levado a pensar que esta decisão política de não recondução de Joana Marques Vidal é a mais estranha tomada pelo Governo, que geralmente é conhecido como ‘gerigonça’”. Com a argúcia conhecida, afirmou que “foi uma decisão política”, como se alguma vez o não fosse uma nomeação governamental. Passos Coelho não conseguiu dizer melhor e Cavaco limitou-se a secundá-lo.

Há em Cavaco, o finório que ganhou uns cobres na compra e venda das ações da SLN, não cotadas na Bolsa, ele e a filha, e fez o excelente negócio com a permuta da Vivenda Mariani (Maria e Aníbal) pela Gaivota Azul, aquele sentido de oportunidade que o levou a jantar com Ricardo Salgado para preparar a primeira candidatura vitoriosa a PR.

Portugal deve-lhe a posse que conferiu ao atual Governo, depois de pérfidas tentativas para assustar os portugueses e os mercados internacionais, mas não é esse ato meritório que o iliba da amargura permanente que consome o ressentido salazarista.

O homem que ‘punha as mãos no fogo’ por Dias Loureiro, o modelo de empresário para o experiente gestor da Tecnoforma, Passos Coelho, podia optar pelo silêncio, mas não lho permitiu o ressentimento e a inveja da popularidade do seu sucessor. Este homem acaba com uma úlcera gástrica se não fizer a neutralização da bílis que segrega.

O avatar de Salazar deve à democracia os lugares de PM e de PR, a que o voto popular o conduziu.

É um ingrato.

AMORES

(Virgínia da Silva Veiga, 27/09/2018)

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Ver Cavaco, apoplético, a cuspir perdigotos sobre Marcelo, e Passos, ressuscitado, tiraria qualquer dúvida sobre Joana Marques Vidal dever ou não ser substituída.

Nunca ninguém deu tantas certezas de haver em Portugal uma política na PGR como estes dois.

Não conheço Joana Marques Vidal e, se repararam bem, o que me fez pronunciar contra a renovação do mandato, para lá da concordância com a limitação a seis anos, foi o que fui dizendo e o mais que hoje acrescento: envergonhou a Justiça.

Não apenas na Procuradoria como na Magistratura Judicial ao fazer crer a muitos portugueses que ninguém tem bom senso, não cumpre prazos, e persegue mais do que julga. 

Joana transformou as caras do Correio da Manhã e da SIC na face da nossa Justiça. Sobrepôs órgãos de comunicação social aos Juízes, pior que isso, a torto e a … torto, fez emitir comunicados da PGR, ora inoportunos e persecutórios, ora sem qualificação possível como o que emitiu sobre o caso da Procuradora cujas senhas permitiram centenas de acesso ao Citius. 

Joana não serve a Justiça, acicata ódios, muda regras. Só por isso não gosto dela. 

Nunca alinhei nessa hipótese de ser uma escolha política pró PSD ou CDS como muitos escreveram nas redes sociais. Nunca me viram um “gosto” em tais publicações, menos me viram defender tais ideias.

Achei sempre tratar-se de – vou falar francamente – ligeireza, por vezes a raiar a imbecilidade. Dela, evidentemente.

Têm razão. Tinham razão. Ainda bem que foi substituída.

Cavaco e Passos vieram a lume odres de ódio e é bom que se pergunte porquê, porque têm tanto medo de que outra pessoa ocupe aquele lugar.

Depois de ler Coelho e ouvir Cavaco, vendo-os num agradecimento público que só fortes ligações e profundas paixões alimentam, sou obrigada a dar razão a quem assim entendia: Joana não se limitou a fomentar ódios, também cultivou amores.

Os meus? Só um. A Justiça. Sempre.

A noite das facas longas foi assim assim

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 25/09/2018)

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Raramente terá sido convocada, nos últimos anos, uma tão intensa fronda de indignação nacional como a propósito do tremendo golpe de Estado, da noite das facas longas, da sinistra conspiração, do atentado aos direitos e garantias e da apetitosa vitória da corrupção que consistiria na hipótese de substituição de Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República por uma outra magistrada, depois de cumprir o seu mandato, como aconteceu com os seus antecessores neste século. Impossível, não se atrevem, o país marchará para arrasar o Terreiro do Paço, às armas cidadãos, derramaremos o nosso sangue pela liberdade, ouviu-se de tudo, mesmo que sempre naquela toada tão patriótica do segurem-me se não eu bato.

O certo é que a noite das facas longas se esvaiu cordatamente muito antes da meia-noite e cada um foi tranquilamente à sua vida. O CDS, que tomara a recondução como uma questão de vida ou morte do regime, desejou felicidades à nova procuradora e Cristas tomou a única atitude digna que se podia esperar, lá foi fazer uma foto a pisar uvas em Trás-os-Montes. Paulo Rangel, que ameaçara o colapso constitucional e galhardamente desmascarara a golpaça em curso, passou para outro assunto mais premente mas igualmente sanguinolento e limitou-se a uma despedida simpática para Marques Vidal em nota de pé de página. Afinal, quase toda a gente está de acordo com o princípio de um mandato único: defendem-no os magistrados do Ministério Público, a própria Joana Marques Vidal o apoiou e deu por garantido e já estava ela própria nas funções, o Presidente sempre o terá defendido, como lembrou, o Governo era dessa opinião, Rui Rio concorda, o que leva evidentemente os seus opositores internos a discordar radicalmente, e Catarina, que evitou juntar-se ao debate sobre o nome, também aprovou o princípio. Em resumo, quase toda a gente prefere um só mandato e quem discorda achou por bem dar rapidamente a coisa por encerrada, sem incêndio do Terreiro do Paço.

Do espetáculo da dramatização fica mais uma vez um resíduo de folclore que é compreensível mas porventura dispensável. Jogo político, dir-se-á. Mas quantas vezes poderá esse jogo alegar a questão mais essencial, a da defesa da liberdade e da luta contra a corrupção, para depois dar de barato que não se passa nada? Fica tudo dito por uma cartinha do renascido Passos Coelho a insinuar as mais tremendas das mancomunações? E o CDS nem avança com uma moção de censura? Para o CDS e para os passistas, afinal era tudo banal e esquecível?

Bem sei que há quem avalie esta afronta pelo seu significado histórico transcendente. Na brigada neoconservadora do “Observador” estalou a repulsa por esta capitulação do Presidente e Helena Matos, creio que a sério, pergunta: “Como se sai disto? No passado os militares resolviam o assunto. Ou melhor dizendo abriam um novo capítulo nesse declive agónico que é o da degradação dos regimes. Na democracia portuguesa as falências têm cumprido esse papel. E agora como vai ser? Esperamos que um novo pedido de resgate resolva o assunto? Quiçá um escândalo. Alguma coisa há de ser, não é?” Pois, alguma coisa há de ser, e deve ser terrível, mas hoje não que joga o Benfica, outro dia veremos se os militares “resolvem o assunto”.

O episódio da substituição da procuradora no termo do seu mandato prova assim muito mais sobre a falta de âncoras da direita na sua procura de uma política, uma qualquer política que entretenha, do que sobre o estado da Justiça ou das instituições.

E desconfio que o povo, tranquilamente, se apercebe de que nem tudo o que grita é voz, ou que as grandes indignações morais de rasgar as vestes são somente um triste bálsamo para a estratégia de derrota em derrota até ao final, que há de ser o que for.