A noite das facas longas foi assim assim

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 25/09/2018)

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Raramente terá sido convocada, nos últimos anos, uma tão intensa fronda de indignação nacional como a propósito do tremendo golpe de Estado, da noite das facas longas, da sinistra conspiração, do atentado aos direitos e garantias e da apetitosa vitória da corrupção que consistiria na hipótese de substituição de Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República por uma outra magistrada, depois de cumprir o seu mandato, como aconteceu com os seus antecessores neste século. Impossível, não se atrevem, o país marchará para arrasar o Terreiro do Paço, às armas cidadãos, derramaremos o nosso sangue pela liberdade, ouviu-se de tudo, mesmo que sempre naquela toada tão patriótica do segurem-me se não eu bato.

O certo é que a noite das facas longas se esvaiu cordatamente muito antes da meia-noite e cada um foi tranquilamente à sua vida. O CDS, que tomara a recondução como uma questão de vida ou morte do regime, desejou felicidades à nova procuradora e Cristas tomou a única atitude digna que se podia esperar, lá foi fazer uma foto a pisar uvas em Trás-os-Montes. Paulo Rangel, que ameaçara o colapso constitucional e galhardamente desmascarara a golpaça em curso, passou para outro assunto mais premente mas igualmente sanguinolento e limitou-se a uma despedida simpática para Marques Vidal em nota de pé de página. Afinal, quase toda a gente está de acordo com o princípio de um mandato único: defendem-no os magistrados do Ministério Público, a própria Joana Marques Vidal o apoiou e deu por garantido e já estava ela própria nas funções, o Presidente sempre o terá defendido, como lembrou, o Governo era dessa opinião, Rui Rio concorda, o que leva evidentemente os seus opositores internos a discordar radicalmente, e Catarina, que evitou juntar-se ao debate sobre o nome, também aprovou o princípio. Em resumo, quase toda a gente prefere um só mandato e quem discorda achou por bem dar rapidamente a coisa por encerrada, sem incêndio do Terreiro do Paço.

Do espetáculo da dramatização fica mais uma vez um resíduo de folclore que é compreensível mas porventura dispensável. Jogo político, dir-se-á. Mas quantas vezes poderá esse jogo alegar a questão mais essencial, a da defesa da liberdade e da luta contra a corrupção, para depois dar de barato que não se passa nada? Fica tudo dito por uma cartinha do renascido Passos Coelho a insinuar as mais tremendas das mancomunações? E o CDS nem avança com uma moção de censura? Para o CDS e para os passistas, afinal era tudo banal e esquecível?

Bem sei que há quem avalie esta afronta pelo seu significado histórico transcendente. Na brigada neoconservadora do “Observador” estalou a repulsa por esta capitulação do Presidente e Helena Matos, creio que a sério, pergunta: “Como se sai disto? No passado os militares resolviam o assunto. Ou melhor dizendo abriam um novo capítulo nesse declive agónico que é o da degradação dos regimes. Na democracia portuguesa as falências têm cumprido esse papel. E agora como vai ser? Esperamos que um novo pedido de resgate resolva o assunto? Quiçá um escândalo. Alguma coisa há de ser, não é?” Pois, alguma coisa há de ser, e deve ser terrível, mas hoje não que joga o Benfica, outro dia veremos se os militares “resolvem o assunto”.

O episódio da substituição da procuradora no termo do seu mandato prova assim muito mais sobre a falta de âncoras da direita na sua procura de uma política, uma qualquer política que entretenha, do que sobre o estado da Justiça ou das instituições.

E desconfio que o povo, tranquilamente, se apercebe de que nem tudo o que grita é voz, ou que as grandes indignações morais de rasgar as vestes são somente um triste bálsamo para a estratégia de derrota em derrota até ao final, que há de ser o que for.

Um pensamento sobre “A noite das facas longas foi assim assim

  1. Off.

    Manuel G., olha aqui, já não há mais parvarias a “favor” do José Sócrates?
    Vejo-te tão sossegadinho, estás em meditação, recolhimento, ou andas a pensar em mudar radicalmente de vida?
    L
    Na selva do FB, não há nadinha? Dieter, Joana fora!, Salvem os Oceanos!, Tancos, Mr. Magoo e bófias? É que de nada presta a mistela que é vazada directamente do pipo ali na tasca do Valupi, Tangas & C.ª, Limitada, e que dia após dia é tristemente sorvida por meia dúzia de tipos bastante alcoolizados ao som do mesmo faduncho tremelicado de sempre (alguns faquistas há por, que isso eu sei, e que desconfio que esticam as costelas pelas enxovias do Torel).

    Portanto, parabéns que deves ter razão… schiu!

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