O futebol como ele é

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 06/06/2015)

Pedro Santos Guerreiro

                Pedro Santos Guerreiro

A coisa podia ser assim tão simples: Bruno de Carvalho comeu as papas na cabeça de Luís Filipe Vieira, de Jorge Mendes e de Marco Silva e, sabe-se com que dívidas, pagou um balúrdio a Jorge Jesus, deixando a nação primeiro gelada no pasmo e depois fervendo numa história que, consoante a análise, vai do brilhantismo à velhacaria. Mas a coisa não é assim tão simples. Aliás, essencialmente, não estamos sequer a falar de futebol.

Corrupção durante mais de uma década da FIFA, com dirigentes indiciados por subornar e enriquecer. Suspeitas de viciamento nos 4-0 do Benfica-Penafiel, a favor de apostadores que ganharam uma pipa por acertarem no resultado. Esquemas palacianos financiados por empresários e regimes detestados para o Sporting tirar Jesus ao Benfica. Se isto é futebol, então o futebol ao mais alto nível não é de alto nível.

Isto não é um dérbi, é uma guerra. No Benfica, Jesus e Vieira quiseram tanto disputar o pedestal do mais amado que de lá tombaram ambos, o primeiro porque enganou, o segundo porque foi enganado. Na verdade, ambos se destrataram, mas Vieira nunca pensou ser toureado desta forma. Tudo está ferido, mas nada mais o está do que o orgulho. O Benfica entra na próxima época com menos dinheiro, com menos equipa e com um treinador que será, pelo menos ao princípio, menos que Jesus.

No Sporting, é ao contrário. Entra na próxima época com mais dinheiro, com mais equipa e com o melhor treinador em Portugal. Bruno de Carvalho porta-se muitas vezes como um rufia, mas orgulho foi precisamente o que a sua presidência devolveu aos adeptos, resgatando-o do lugar envergonhado para onde ia sendo remetido.

Isto não é um dérbi, é uma guerra. E o Sporting goleou o Benfica — arriscando não se sabe ainda o quê. Ou quanto.

Com este movimento, que é inteiramente seu, Bruno de Carvalho passa definitivamente a ser respeitado por aqueles que sempre o subvalorizaram — mas é um respeito mais por medo que por grandeza. Esta jogada é brilhante, embora seja velhaca no tratamento a Marco Silva, o frágil da história. E tem riscos. Falta contar o lado B da operação: que poder, controlo ou negócios teve Bruno de Carvalho de ceder em troca do suporte financeiro de gente sinistra do regime guineense e de Álvaro Sobrinho, o antigo presidente do BESA. Bruno de Carvalho, que sempre criticou (e bem) o esquema de fundos e de agentes que se serve dos clubes para extrair dinheiro parece ter dado um salto de fé que, se correr mal, pode criar servidão. Porque o dinheiro vem de algum lado e ou é dívida financeira ou deixa dívidas junto de alguém. É um tudo ou nada.

Um país que tem o escândalo do BES pode pensar que não deve armar-se em carapau de corrida com grandes moralismos sobre o futebol. Dizer que aquele mundo é assim, é cada vez mais assim, e o Sporting, depois de ver o FC Porto e o Benfica liderar esse mundo que é assim, deixou-se de peneiras e ganhou uma batalha, surpreendendo o adversário por usar as armas que este costuma controlar, razão pela qual o Benfica foi negligente e ultrapassado. A próxima época vai ser um festival de emoções. E o futebol é cada vez mais um mundo de jogadas do que de jogos. Nesta jogada, o Sporting goleou o Benfica. Arriscou tudo o que tem — e provavelmente também o que não tem. Neste campeonato pequeno, voltámos a ter três grandes. Esperemos que corra bem. Lá do alto da estátua, o Marquês de Pombal deve estar banzo.

Sete teorias de conspiração sobre a TAP

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 06/05/2015)

Pedro Santos Guerreiro

                   Pedro Santos Guerreiro

Temos muitas razões para sermos desconfiados. Sobretudo quando há privatizações. Porque cada uma delas é um negócio e em cada negócio há interesses, há dinheiro e há opacidades. Da desconfiança nasce a investigação. E a especulação. “E se por detrás disto está aquilo?”

Teoria de conspiração #1: e se esta greve do sindicato dos pilotos serve o interesse de quem quer a privatização, porque será usada para legitimar a ameaça de uma reestruturação por quem a quer vender e porque desvaloriza a empresa, tornando-a mais barata para quem a quem comprar?

A teoria tem direitos de autor mas não são meus, são de muita gente que desconfia da marcação e manutenção de uma greve que, além do sindicato, não só ninguém defende como toda a gente ataca. Como parece uma greve estúpida, então teria de haver uma razão oculta e, perversamente, essa razão beneficia aqueles que supostamente a greve ataca: governo e candidatos.

Teoria de conspiração #2: a ameaça de que a TAP pode fechar é bluff, já em 2012 se dizia o mesmo e a empresa ainda aí está. O silogismo é admissível, a empresa vive desde 1997 (desde 1997!) sem mais um tostão do Estado e os bancos continuam apesar de tudo a emprestar dinheiro à companhia. Até esta greve, a TAP tinha uma situação de tesouraria no limite, pede empréstimos para pagar empréstimos mas a operação está equilibrada, pelo que a dívida total não aumenta. Se desde 2008 está em “falência técnica” (capitais próprios negativos), por que razão a hecatombe tem data marcada para 2015?

Há neste negócio muitos negócios – e muitas negociatas. Uma operação como esta movimenta muitos assessores, sobretudo bancos de investimento e advogados

Teoria de conspiração #3: o governo quer vender a TAP porque quer vender até a mãe, nada justifica vender uma joia por tão pouco. De facto, as expectativas de encaixe financeiro são relativamente baixas, provavelmente ele será menor que 100 milhões de euros, o que cabe na cova de um dente do Estado. Assim sendo, não há outra razão que não seja a ideologia liberal do governo para avançar com esta operação. Ou então há outra razão, o que nos leva à…

Teoria de Conspiração #4: há neste negócio muitos negócios – e muitas negociatas. Uma operação como esta movimenta muitos assessores, sobretudo bancos de investimento e advogados, do lado do Estado e do lado dos candidatos, que recebem muito mais se a privatização for selada. O interesse próprio destes assessores leva-os a ativar lóbis. Além disso, há razões para suspeitar que há comissões e dinheiros ocultos distribuídos por agentes que tentam forçar políticos e decisores. E portanto há interesses particulares que forçam um negócio prejudicando o interesse público.

Teoria de conspiração #5: não é verdade que o Estado não possa injetar dinheiro na TAP. Pois não. Nesse caso, no entanto, a injeção é considerada uma ajuda de Estado, o que requer a autorização da Comissão Europeia, que pode aprovar impondo condições. Tipicamente, as condições são impor uma redução da atividade da empresa: a Direção Geral de Concorrência (a famosa DGCom de Bruxelas) considera que todas as ajudas de Estado são anti-concorrenciais pelo que a empresa tem de ser proporcionalmente penalizada, de modo a que as empresas concorrentes sejam compensadas e se consiga um reequilíbrio de mercado.

Teoria de conspiração #6: as teorias de conspiração anteriores resultam de um estado de negação coletivo. Esta é a minha teoria de conspiração. Defendo há muitos anos a privatização da TAP essencialmente pela razão de que a TAP está a definhar a cada dia que passa sem uma injeção de capital, sendo que a injeção de capital pelo Estado (Teoria #5) obriga a uma TAP mais pequena – e uma TAP mais pequena não serve o interesse de Portugal. O que serve o interesse de Portugal é uma TAP com capacidade de investir em novos aviões e novas rotas, e não uma TAP com uma frota envelhecida porque o excesso de dívida consome toda a companhia.

Há muitas razões para sermos desconfiados (e há muitas mais teorias de conspiração do passado: a compra da Portugália foi um favor ao Grupo Espírito Santo? O investimento na manutenção no Brasil aproveitou a quem?). E, de todas as teorias de conspiração anteriores, a única que adoto é a #4: há neste negócio muitos negócios – e muitas negociatas. Há sempre comissões largadas pelo caminho de forma muito pouco transparente, levantando suspeitas de corrupção. De resto, o que o governo está a vender é também um enorme passivo (Teoria #3): o vendedor recebe menos de cem milhões mas o comprador “entra” com mais de mil milhões. Sem privatização, a TAP não fecha de um dia para outro (Teoria #2) mas não há bluff nenhum na ameaça de reestruturação: basta olhar para as contas da TAP e atestar a situação dramática. O que nos leva à greve (Teoria #1): a quem serve? A ninguém. Ela pode de facto legitimar o contexto de reestruturação, mas só desvaloriza a empresa, que perde irremediavelmente a confiança (e portanto a preferência) de muitos passageiros apeados. Portanto, podemos admitir que a greve que parece estúpida seja, de facto, apenas estúpida.

Teoria de conspiração #7: este é apenas mais um texto a defender a privatização da TAP.

Pois é.

PS: em vez de cofres cheios, bolsos cheios

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 21/04/2015)

Pedro Santos Guerreiro

               Pedro Santos Guerreiro

Queriam uma política de esquerda, anti-troika e centrada nos trabalhadores? Ei-la, apresentada por um grupo de economistas no Largo do Rato. Nunca o PS foi tão diferente do PSD. Depois disto, António Costa e Passos Coelho nunca poderão estar no mesmo governo.

Um grupo de economistas ligados ao PS acaba de fazer um conjunto de propostas económicas que é fácil de perceber: é o contrário da política económica atual. Propõe dar a volta ao mundo no sentido oposto ao de Passos/troika para chegar aos mesmos antípodas: prosperidade com equilíbrio das contas públicas.

Este texto é uma primeira análise ao conjunto de medidas, não se debruça sobre cada medida em si, exercício que faremos de seguida mas que exige mais tempo, estudo e contraditório. Mas o que foi apresentado por Mário Centeno tem uma enorme vantagem: é claro e é diferente. Vamos deixar de discutir a frase de Costa ou o caso de Passos, vamos poder falar de políticas públicas. E vamos ter material para analisar muito além do que PS e PSD dirão um do outro: o PSD dirá que o PS voltou ao delírio que nos levará de novo ao descalabro; o PS dirá que o PSD nos trouxe a um beco sem saída de empobrecimento e desigualdade.

Os economistas caucionados pelo PS não propõem apenas acelerar o fim da austeridade, propõem acabar com a política que a troika impôs a Portugal e que o governo de Passos Coelho acolheu, por nela acreditar. Como escrevia Helena Garrido ontem no Negócios, para os economistas é agora fácil perceber a diferença entre PSD e PS: o PSD tem uma política do lado da oferta (promover a concorrência de modo a aumentar a competividade das empresas), o PS tem uma política do lado da procura (aumentar o rendimento disponível). Mas as diferenças vão muito além disso.

Onde a troika quis um choque de competitividade, os economistas do PS querem um choque de rendimento.

Onde a política do governo favoreceu as empresas para fomentar a competitividade, a política dos economistas do PS favorece os trabalhadores por razões sociais e de rendimento.

Onde o governo baixou o IRC, os economistas do PS baixam o IRS.

Onde o governo aumentou o IVA para a restauração, o PS aumenta o imposto sucessório.

Onde Passos Coelho quis o equilíbrio das contas públicas pela redução da despesa do Estado, cortando salários públicos e pensões, os economistas do PS defendem a devolução mais acelerada das pensões e dos ordenados do Estado para aumentar o rendimento.

Onde o governo quis a desvalorização interna, o PS quer a revalorização salarial.

Onde a troika quis a redução dos salários na economia (com descida da remuneração das horas horas extra e dos feriados, e com os salários dos novos postos de trabalho mais baixos que os anteriores), o PS quer baixar a TSU para os trabalhadores (aumentando o seu rendimento disponível) e também para as empresas (baixando o custos totais de trabalho).

Onde a troika cortou apoios sociais para poupar e por discordar dos “custos de ociosidade” que a subsidiação provoca, os economistas do PS querem dar um complemento salarial pago pelo Estado aos trabalhadores com salários mais baixos.

Onde o governo quis agilizar o mercado de trabalho e baixar os custos de despedimento para que as empresas pudessem reestrutrar-se sem custos que o impossibilitassem, os economistas do PS querem aumentar o valor das indemnizações para dar mais proteção a quem perde o salário.

Onde o governo apostou tudo na competitividade, para atrair o investimento empresarial (estrangeiro, tendo em conta a descapitalização) e um modelo económico assente em empresas exportadoras nos sectores transacionáveis, os economistas do PS reforçam o rendimento das famílias para promover a procura interna e expandir a economia.

A diferença entre estas duas políticas é, diria Vítor Gaspar, enorme. Com o PSD, o Estado “encolhe”. Com o PS, o Estado vai gastar mais do que hoje mas vai também ter mais receitas porque o PIB cresce mais.

Embora se comprometa com metas de dívida e défice orçamental, António Costa acaba de perder a passadeira vermelha para entrar em quatro cidades: Berlim, Bruxelas, Frankfurt e Washington. A troika deve estar aos murros na parede depois de ouvir isto. O governo deve estar preocupado. Porque estas propostas do PS são também eleitoralistas, o que já levou o PSD a assumir um discurso pela negativa. E esse discurso assenta sobretudo no risco colocado sobre as contas públicas.

Esse risco existe. A proposta do PS garante que atinge o equilíbrio das contas públicas de uma maneira completamente diferente. Vejamos: o défice orçamental é uma fração, em que a diferença entre receitas e custos do Estado é dividida pelo PIB. Com a proposta do PS, os custos do Estado disparam. Mas o PIB sobe. E como o PIB sobe, as receitas também sobem (com mais PIB há mais transações, logo cobra-se mais IVA; há mais salários, logo há mais IRS; há menos desempregados, logo há mais gente a descontar e menos gente a receber subsídios; etc.)

Nos próximos dias iremos analisar, proposta a proposta, os riscos e as alternativas propostas pelos economistas liderados por Mário Centeno, um economista muito respeitado no Banco de Portugal – mas que é muito menos de esquerda do que muitos socialistas pensam (o contrato único de trabalho, por exemplo, não é fácil de passar no PS). Mas hoje já podemos analisar isto: o PS e o PSD defendem o contrário um do outro. O “não há alternativa” já não existe para os eleitores. E isso coloca a discussão política num nível completamente diferente.

Onde o PSD defende cofres cheios, o PS propõe bolsos cheios.