A comenda de Jâsus

(José Preto, 31/12/2019)

Fazendo Jâsus comendador da Ordem com o nome da avenida que ele atravessava todas as manhãs, sugerindo que tem papel análogo ao do Infante, Marcello II, o afectuoso, gera a interessante situação de dar honras a quem não conseguirá sequer pronunciá-las. E antevejo mesmo que não fará bem nenhum a tais honras, nem à personagem, afirmar-se “cãomendador “ou coisa que o valha.

Em geral falando, a figura do alarve coberto de títulos no seu analfabetismo, é bem a imagem simbólica de um regime de professores de direito que só escrevem anedotas sobre o Estado de Direito, em quase todos os casos, incluído o do afectuoso. (Por não fazerem ideia do que isso seja, ou não quererem que os outros façam). Símbolo do lugar onde, a meio da carreira partidária, se compram uns graus por equivalência numa qualquer privada. Jâsus e sua cruz teutónica de vermelho sob invocação de um Infante de Avis é apenas mais um acto de confirmação do valor das dignidades do Estado e no Estado.

Além disso, o afectuoso presidente – coisa talvez mais importante – consuma outra intrusão sua no processo do “assalto a Alcochete”, intrusão de monta, claro, fazendo com que uma das testemunhas mais confusas (diria até sem fusas) apareça aos olhos do tribunal como vaca sagrada dos relvados, de cruz teutónica ao pescoço (outra coisa complicada para a personagem dizer).

Estas coisas que o presidente afectuoso semeia, de resto como todos os da sua laia política (á esquerda ou à direita, tanto dá, que eles são todos iguais Ventura incluido), saldam-se num desalento difícil de vencer para quem tem a tarefa quotidiana de defender a igualdade das partes diante de tribunais independentes. Os compromissos internacionais do Estado em matéria de Direito Internacional dos Direitos do Homem foram remetidos para o rol das ficções. como bem se vê.

É nesta perspectiva que temos de colocar-nos. Todas as idas a juízo são combates (de maior ou menor intensidade, embora) contra o regime deste permanente abuso que tudo enquadra (e avilta).

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Semanada

(In Blog O Jumento, 14/05/2017)

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Mais uma semana difícil para alguns protagonistas do mundo da bola e da política, JJ prometeu que com o novo Sporting passariam a haver três candidatos ao título; Passos Coelho tinha prometido no Japão que graças ás suas políticas Portugal seria o país mais competitivo do mundo. Azar, Jorge Jesus vai perder duas vezes seguidas e pode agradecer o terceiro lugar ao SLB e àquele que nem sequer é treinador. Passos Coelho que previu a desgraça e a vinda do diabo diz agora que os bons resultados económicos se devem a ele; enfim, teve mais imaginação que JJ, que também poderia usar o mesmo argumento, mas parece que o treinador tem mais vergonha do que o político.
O papa partiu e alguns jornalistas repararam que na hora da partida se fez sol, 100 anos depois do milagre da luz o país assistiu ao milagre da chuva e não se pode dizer que teria sido um milagre a baixo preço, como Francisco se referiu a alguma crendice na santa milagreira de Fátima. Quem não terá gostado desta abordagem dos milagres pelo papa Francisco terá sido a esposa de Cavaco Silva, que atribuiu às suas rezas e mezinhas o resultado positivo da 7.ª avaliação, a tal que nos permitiu uma saída com caca até ao pescoço.
Poucos repararam, mas Assunção cristas montou uma armadilha onde esperava apanhar António Costa, esqueceu as circunstâncias atuais e propôs o milagre das estações de metropolitano, só não disse que a sua proposta era quase idêntica a uma que em tempos foi apresentada pelo governo de Sócrates, apoiada pelo então autarca de Lisboa António Costa. Assunção Cristas teve azar, Costa não caiu na sua rasteira. Não ganhou nada com a sua esperteza saloia.
A vida política portuguesa foi surpreendida com uma nova forma de convidar personalidades para se candidatarem a grandes autarquias, agora os convites são feitos através de mensagens anónimas de SMS. Se o convidado aceitar deverá dirigir-se á sede do partido que o convidou e apresentar a mensagem ao porteiro. Ridículo? Não.
O Benfica foi campeão; como diria o Jorge Jesus os benfiquistas estão a ficar habituados a serem campeões, quem está a perder o bom hábito é o próprio JJ, que de títulos apenas viu uma taça de pré-época e já foi no ano passado; este ano vai ficar, na melhor das hipóteses, com menos seis pontos do que na época de Marco Silva e sem nenhum título, ao contrário do seu antecessor que conquistou a Taça de Portugal, graças à qual Jorge Jesus se gabou durante muitos meses do ano passado.

Jesus e os três pastorinhos

(In Blog O Jumento, 11/05/2017)

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Jesus está de saída, Francisco está a chegar, Jesus ficou sem almoçar, Francisco está a jejuar, Francisco anda de papamobil, Jesus sai de Alcochete de Mercedes, Francisco só vem a Fátima, Jesus só sai se for para o Porto, Francisco faz votos de pobreza, Jesus tem direito a mais de dez milhões, a nossa senhora apareceu aos pastorinhos, o Bruno não apareceu a Jesus no almoço combinado.
Diretos exibindo um muçulmano que faz a passadeira ajoelhado pedindo a paz entre as religiões, a mesma paz que os adeptos esperam que haja entre presidente e treinador do Sporting. A televisão muda do muçulmano para os peregrinos que acabam de chegar, cada um conta a sua promessa, o direto muda para Alvalade para dar conta das promessa de Jesus, um diz que já pode sair porque com a morte do pai não está vinculado a promessa, outro canal assegura que fica porque prometeu um título de campeão ao pai Virgolino.
Manhãs, tardes e noites televisivas inteiramente dedicadas a Jesus e a Francisco, que um chega, que do outro não se sabe se parte, um vem para celebrar milagres, o outro pode estar de partida porque não fez milagres. Até Assunção cristas, uma devota militante que lidera o partido religioso, decidiu entrar na corrida dos milagres e prometeu 22 estações de metropolitano, nem uma nossa senhora muito generosa se lembraria de tal milagre dos panitos na versão ferroviária.
O general assegura que os drones serão derrubados e que ninguém fará o xixi debaixo da azinheira sem ser fotografado pelo P2, o autarca dá as boas vindas, o cardeal fala em delírio, o Bruno diz que para o ano tudo será diferente, o bispo de Leiria junta criancinhas para rezarem na capela das aparições, Jesus oferece pastelinhos de Belém às mamãs reunidas em peregrinação a Alvalade.
A intoxicação é tanta que damos connosco quase convertidos aos três pastorinhos que viram uma nossa senhora ou ao milagre Jesus que viu três candidatos ao título e agora reúne-se com o banqueiro falido, talvez para dizer que o milagre do título vai ficar mais caro que o milagre da supertaça. No meio desta campanha levada à náusea ainda damos connosco respeitando rigorosamente o dress code decidido por Bruno de Carvalho, a caminho de Fátima para agradecer os dois títulos a que correspondem os dois anos de contrato com Jesus.
Esperemos que passe depressa esta semana onde Jesus e os pastorinhos nos transformaram num imenso rebanho de borregos.