Luís Montenegro (Luís), um tartufo na Cova da Iria

(Carlos Esperança, in Facebook, 13/05/2026, Revisão da Estátua)

Montenegro esteve esta terça-feira à noite no Santuário de Fátima, tendo participado na habitual Procissão das Velas, que precede as celebrações de 13 de maio, considerada a data religiosa mais significativa para os católicos.

Nada tenho quanto à fé que leva os peregrinos a Fátima, cabe-me apenas respeitar quem acredita que o Sol bailou ali ao meio-dia e uma senhora de branco saltitou de azinheira em azinheira, para dar recados a três crianças analfabetas, uma que a via e ouvia, outra que via e não a ouvia e a terceira que não a ouvia nem via, e também acreditava.

O negócio da fé católica da mais lucrativa sucursal portuguesa prospera no local que o cónego Manuel N. Formigão, o Quarto Pastorinho, transformou de local de pastoreio em lucrativo segmento do sector terciário com a criativa atualização dos milagres de Lourdes.

Fátima, hoje, já não é o espaço de luta contra a República, primeiro, e o comunismo, depois, é agora um dos grandes destinos do turismo pio e o local onde rumam angústias e ansiedades dos que sofrem, para levar oferendas e orações.

Misturados com os crentes, anónimos e discretos, fazem-se fotografar tartufos e outros oportunistas. Não sei se o peregrino Luís foi ali rezar pelo sucesso da Spinumviva, pelo fim das investigações à nebulosa imobiliária com que fintou o fisco e recebeu avenças ou por qualquer outro milagre que Amadeu Guerra não consegue obrar.

O CEO da Spinumviva, a implorar a proteção do Céu no Mariódromo de Fátima, pode ter estado a pedir à Senhora que interceda junto do seu divino filho para ser servido de chamar o rival, Passos Coelho, à divina presença, mas não é crível que o Peregrino Luís se deixasse contagiar pela fé como se deixou deslumbrar pelo poder.

A desfaçatez de se fotografar em Fátima, de vela na mão, com a consorte e sócia, é um ultraje à laicidade por quem não tem escrúpulos. O Luís, por milagre ou perfídia de Marcelo e pela insensatez de Lucília Gago, é PM de um país laico, que lhe permite ter a fé que quiser, mas não lhe permite a exibição pública para as televisões.

O Luís pode saber rezar, pode ser devoto do anjo que poisou no anjódromo onde ontem esteve de vela na mão, mas o que o país espera dele não é que reze, é que resolva o que prometeu, que governe como se soubesse, que substitua as ave-marias e a propaganda por decisões acertadas de governo e pela decência.

Para sacristão bastou-nos o anterior Presidente da República.

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As reações a Fátima provam que o objetivo era calar o PCP

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/09/2020)

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É muito interessante comparar as reações mediáticas e partidárias a toda a preparação da Festa da Avante e a forma complacente e justificativa como foi tratado o que aconteceu em Fátima no dia 13 de setembro. Durante meses fomos massacrados com o que iria acontecer na Quinta da Atalaia. A exceção, o tratamento de favor, o crime. Até tivemos direito a cartazes insultuosos da JSD. Defendi, depois de serem conhecidas as condições em que o PCP faria a Festa, que ela não punha em risco a saúde pública e era legítima. Também fiz uma avaliação política do erro que o PCP cometia, por dispersar a sua mensagem e se ver obrigado a ficar à defesa. Mas nunca duvidei que estávamos perante uma campanha e por isso o escrevi.

Não há comparação entre o que aconteceu na Festa do Avante, onde as pessoas assistiram aos concertos em lugares sentados e distantes, onde conhecemos a lotação não apenas do espaço em frente ao palco mas da zona circundante e onde foram definidas regras; e as imagens que vimos no Santuário de Fátima, com milhares de pessoas em pé, sem lugares previamente definidos e sem um décimo do controlo que se exigiu ao PCP.

No entanto, todos os títulos dos jornais tiveram um sentido quase inverso ao que foi dito sobre a Festa do Avante: que o Santuário, cuidadoso, bloqueou o acesso mal se chegou a um terço da sua capacidade. Coisa nunca vista, extraordinária, admirável. A medida de emergência e improvisada teve um tratamento mais simpático do que todas as medidas preventivas do PCP, tratadas com desconfiança ou desdém.

Terão estado cem mil pessoas no Santuário de Fátima, que tem 7,2 hectares. O PCP propôs-se receber 33 mil (a DGS aconselhou 17 mil) num espaço de 30 hectares. Com uma área quatro vezes superior, a Quinta da Atalaia propôs-se receber um terço (a DGS aconselhou um sexto) das pessoas que estiveram no Santuário de Fátima. Mesmo que os 30 hectares não sejam todos área útil, a diferença continuará sempre a ser abissal. Ninguém fez perguntas no Parlamento. Ninguém se incomodou. Os jornais que fizeram do PCP o bombo da festa não pediram esclarecimentos. Não houve petições, cartazes, marchas lentas de carro. O secretário de Estado da Saúde até sublinhou o “comportamento exemplar” da Igreja. Não, o comportamento não foi exemplar. Muito longe disso. Foi improvisado. Foi o oposto ao que vimos com o PCP.

Não se trata de justificar um erro com outro, até porque o erro é incomensuravelmente mais evidente em Fátima do que na Atalaia. Mas fica claro que a motivação contra o PCP nada teve a ver com saúde pública. Se assim fosse, a indignação seria muitíssimo sonora neste momento. A motivação foi política. E sendo política, quer dizer que há quem use a pandemia para tentar limitar a liberdade política dos seus opositores. E isso é, por si só, um ataque à democracia.

Por mim, a Festa do Avante e as peregrinações a Fátima devem acontecer, desde que se acordem condições mínimas para que se façam em segurança. Cada um assumirá o preço político de assim o fazer. Assim como espero que os que antes gritaram e agora se calam assumam as suas verdadeiras motivações.


Fátima, Futebol e Festival

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/05/2017)

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Não há conversa mais previsível que o enjoo moralista com quase tudo o que sejam manifestações populares que não correspondam às recolhas etnográficas ou aos cânones neorrealistas.

Mas dos três F que o Estado Novo usou para reduzir os portugueses a uma simplicidade mais maleável e menos subversiva, dois já foram absolvidos e absorvidos pela intelectualidade nacional. Antes de tudo, o futebol. Hoje, até fica mal a um intelectual não saber de bola. E o fado, a que chegaram novas vozes. Hoje, até fica mal a um poeta não ter escrevinhado nada para ser fadistado. Só mesmo Fátima continua, por razões evidentes, fora da lista do consensual.

Quando era novo o fado era música de fascistas e o futebol alienação para mentes embrutecidas. Porque era suposto o povo passar o dia a fazer a revolução. Isto quando não estava a trabalhar, obviamente. Este espírito desapareceu ao ritmo que desapareceram as esperanças na dita revolução. Mas sobreviveu um discurso que me faz trepar pelas paredes: sempre que o povo se diverte quer dizer que está alienado e desinteressado daquilo que é relevante. O paternalismo, que retira aos outros o direito que nos damos a nós próprios – o do divertimento ou da fruição de cultura e da religião – é comparável a uma proposta que um dia ouvi num partido onde militei e que felizmente não passou pelo crivo do bom senso: o de não haver televisão à quinta-feira, como acontecia na Islândia. A mesma esquerda que se bateu durante décadas pelo direito dos trabalhadores a serem donos do seu tempo fora do trabalho tem a tentação de decidir o que os trabalhadores podem e não podem fazer com esse tempo que é só seu.

É verdade que a conjugação dos três F tem uma conotação política evidente. É verdade que ela corresponde à simplificação de uma identidade nacional que a propaganda das ditaduras de direita sempre precisou. Isso ou a nossa suposta tolerância e brandura de costumes, uma aldrabice excelente para pintar de cores suaves o colonialismo e manter bovino o bom povo. Também é verdade que o pão e circo sempre foram uma receita ganhadora para eternizar a tirania, que as aparições de Fátima foram, desde o início, um instrumento de propaganda antirrepublicana e anticomunista e que o fado foi extirpado do seu lado marginal para passar a ser apenas resignado. E que depois do fado veio aquilo a que, nos anos 70 e 80, se chamava de nacional-cançonetismo e que tinha, em ditadura e em democracia, o ponto alto nos serões em que o País parava para ver o Festival da Canção. Mas pode dar-se o caso do salazarismo não ter apenas plantado as sementes dos três F, ter colhido também os frutos do que já era popular para a partir daí forjar a simplificação de uma identidade que lhe era conveniente. Uma única, que as ditaduras gostam pouco da variedade.

Quem julga que Fátima, Futebol e Fado são sinal de atraso acreditou na propaganda salazarista, que os queria como instrumentos seus. Temos acesso a muito mais e já ninguém tenta resumir este povo aos três F . Mas continuamos a precisar de momentos coletivos em que nos sentimos, na nossa diversidade, uma comunidade.

Quis a suprema das ironias que um século depois das supostas aparições de Fátima, num tempo em que os ventos revolucionários varriam a Rússia e que os sentimentos anticlericais tomavam a elite política do país, tudo se encontrasse de novo, no mesmo dia. Parece que o passado se concentrou todo a dia 13 de maio de 2017: centenas de milhares de portugueses encontraram-se em Fátima, outros tantos festejaram o campeonato do Benfica e os restantes ficaram colados à televisão a verem a Eurovisão e celebrarem o seu patriotismo pop (mas com qualidade, apesar de tudo) . Como é possível que depois de 43 anos de liberdade, democratização do ensino e da cultura, de Europa e de acesso ao mundo, tudo pareça não ter mudado? Enganam-se: mudou tudo. Os três F – tendo o Festival tomado o lugar do Fado, que é hoje até é bem visto pela generalidade dos intelectuais – não eram sinal de coisa nenhuma. Faziam apenas parte da cultura popular e foram usados pela ditadura para uma simplificação identitária que lhe convinha. Já éramos muito mais do que isso então e, em democracia, ainda mais o seremos. E quem julga que Fátima, Fado e Futebol são sinal de atraso acreditou na propaganda salazarista, que os queria como instrumentos seus. O que mudou? Temos acesso a muito mais e já ninguém tenta resumir este povo aos três F (a começar por Fátima). O que não mudou? Continuamos a precisar de momentos coletivos em que nos sentimos, na nossa diversidade, uma comunidade. E isso pode ser bem mais saudável do que parece.


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