Ao serviço de quê e de quem vem ele a Fátima?

(Padre Mário Oliveira, in A Viagem dos Argonautas, 12/05/2017)

 
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O grande Capital que domina e dirige o mundo século XXI tem no papa Francisco, todo de branco vestido, a máscara da bondade, da misericórdia, da proximidade de que tanto necessita para manter adormecidas e anestesiadas as suas inúmeras vítimas em todo o mundo, de modo que nunca elas cheguem a dar conta do imenso sangue derramado por ele através da fome, do latrocínio, da exploração, da mentira estrutural, das guerras, do terror, do medo, da opressão, do desemprego, da emigração forçada, das doenças cientificamente provocadas e espalhadas, da multiplicidade de religiões, elas próprias, o que há de, ideológica e teologicamente, mais perverso e gerador de divisões e de ódios sem conta nem medida.

Uma calamidade à escala global que teimamos em não dar por ela, porque nascemos, crescemos e morremos com mentes cegas que fanaticamente recusam ver a luz e até perseguem e ostracizam quem as queira maieuticamente ajudar a sair da cegueira para a luz. Só porque a luz é profundamente exigente e obriga-nos a todos, nascidos de mulher, a nascer de novo, do vento-sopro Liberdade-Autonomia-Reciprocidade, e são muito poucos os que nos dispomos a semelhante revolução antropológica-teológica. A esmagadora maioria dos crentes, dos ateus-agnósticos, dos ricos, dos pobres prefere que apenas mude alguma coisa, para que tudo continue na mesma. Um tipo de preguiça política que nos devora e mata a dignidade e nos impede de chegarmos a ser plena e integralmente humanos.

Nestes dias 12 e 13 de Maio, os dos cem anos das “aparições”, o papa Francisco está em Fátima, com uma comitiva de 35 pessoas. A grande pergunta que emerge, imperiosa como incontrolável tsunami, é,. Ao serviço de quê e de quem vem ele a Fátima? A senhora de Fátima é um mito, como são mitos todas as deusas, todos os deuses que os nossos medonhos e incontroláveis medos criam e projectam fora de nós e que logo materializamos em toscas imagens para todos os maus gostos, que corremos depois a comprar e a colocar nas nossas casas, nas encruzilhadas dos caminhos e, de modo muito particular e até solene, em santuários que fazemos construir e que passamos a frequentar como se não fossem todos obra das nossas mãos e fruto dos nossos medos.

Nem aparições, nem visões. Nos nossos medos e nas nossas aflições podemos, com mais ou menos frequência, chegar a ver coisas e a ouvir ruídos e vozes. Não são para tomar a sério, a não ser no sentido de diligenciarmos de imediato o tratamento especializado que hoje, terceiro milénio, felizmente já há à disposição de quem chegue a esse grau de degeneração da sua mente. Um tratamento que nos muitos milénios que nos precederam ainda não havia praticamente para ninguém.

Depois de tantos milénios de escuridão das mentes, para cúmulo, criminosamente fomentada e alimentada pelas religiões-igrejas cristãs e todos os sistemas de poder, é de todo compreensível que, ainda hoje, início do terceiro milénio, as populações mais fragilizadas e desamparadas insistam em recorrer aos exorcismos de clérigos chico-espertos, de cartomantes, de bruxas, bruxos, de curandeiros, aos cultos religiosos cada semana nas paróquias e a todo o tipo de promessas feitas em horas de maior aflição que depois, para cúmulo da degradação e da indignidade, elas ainda fazem questão, hoje, até, com vaidade, de cumprir. Quando a libertação e a cura das suas mentes só na antropologia-teologia-espiritualidade de Jesus e na Ciência neurológica, psicológica, psiquiátrica e seus competentes profissionais podem ser dignamente conseguidas.

O culto de Fátima e da sua tosca imagem concebida e fabricada, dois ou três anos depois de 1917, por um artesão da Trofa, embora complete agora cem anos, a verdade é que já vem dos mais primitivos tempos, os do matriarcado. Ao dar-lhe cobertura e pública aprovação, quer com a sua presença física, como “peregrino” cinco estrelas, quer com a canonização dos dois irmãos, Francisco e Jacinta, sem dúvida as mais desgraçadas das três crianças apanhadas-catequizadas-aterrorizadas pelos clérigos de Ourém, o papa Francisco vem legitimar um culto religioso a um deus sádico e cruel que impede os seres humanos de crescerem em idade, estatura, sabedoria, graça e de se rebelarem politicamente contra todos os perversos sistemas de doutrina política, filosófica e teológica que sempre afirmam e valorizam o divino e negam-matam-sacrificam os seres humanos e os povos.

É este o grande pecado e o imperdoável crime do papa Francisco. O primeiro papa jesuíta, cuja Ordem foi fundada-criada por Inácio de Loyola, precisamente com a missão de aprofundar e difundir por todos os meios e em todas as nações da terra, o demoníaco sistema de doutrina do judeo-cristianismo, a sua bíblia, o seu deus sádico e cruel, na sua dupla vertente de macho e de fêmea, de nosso senhor e de nossa senhora, bem como a sua fé religiosa, a sua teologia, o seu culto.

De todo incapaz de admitir-reconhecer que o falso e mentiroso evangelho cristão, que insiste em anunciar urbi et orbi, mata os seres humanos e os povos e os mantém no medo e na depressão, quando é de todo imperioso e urgente resgatá-los para a liberdade, para a autonomia, para o protagonismo político. Como faz Jesus, o filho de Maria, que não hesita em chamar “Satanás” a Pedro, o chefe do grupo dos doze que o vão trair, “Covil de ladrões” ao templo de Jerusalém, “Hipócritas”, aos sumos-sacerdotes e teólogos do templo. Ao serviço de quê e de quem vem ele a Fátima?


Fonte aqui

Jesus e os três pastorinhos

(In Blog O Jumento, 11/05/2017)

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Jesus está de saída, Francisco está a chegar, Jesus ficou sem almoçar, Francisco está a jejuar, Francisco anda de papamobil, Jesus sai de Alcochete de Mercedes, Francisco só vem a Fátima, Jesus só sai se for para o Porto, Francisco faz votos de pobreza, Jesus tem direito a mais de dez milhões, a nossa senhora apareceu aos pastorinhos, o Bruno não apareceu a Jesus no almoço combinado.
Diretos exibindo um muçulmano que faz a passadeira ajoelhado pedindo a paz entre as religiões, a mesma paz que os adeptos esperam que haja entre presidente e treinador do Sporting. A televisão muda do muçulmano para os peregrinos que acabam de chegar, cada um conta a sua promessa, o direto muda para Alvalade para dar conta das promessa de Jesus, um diz que já pode sair porque com a morte do pai não está vinculado a promessa, outro canal assegura que fica porque prometeu um título de campeão ao pai Virgolino.
Manhãs, tardes e noites televisivas inteiramente dedicadas a Jesus e a Francisco, que um chega, que do outro não se sabe se parte, um vem para celebrar milagres, o outro pode estar de partida porque não fez milagres. Até Assunção cristas, uma devota militante que lidera o partido religioso, decidiu entrar na corrida dos milagres e prometeu 22 estações de metropolitano, nem uma nossa senhora muito generosa se lembraria de tal milagre dos panitos na versão ferroviária.
O general assegura que os drones serão derrubados e que ninguém fará o xixi debaixo da azinheira sem ser fotografado pelo P2, o autarca dá as boas vindas, o cardeal fala em delírio, o Bruno diz que para o ano tudo será diferente, o bispo de Leiria junta criancinhas para rezarem na capela das aparições, Jesus oferece pastelinhos de Belém às mamãs reunidas em peregrinação a Alvalade.
A intoxicação é tanta que damos connosco quase convertidos aos três pastorinhos que viram uma nossa senhora ou ao milagre Jesus que viu três candidatos ao título e agora reúne-se com o banqueiro falido, talvez para dizer que o milagre do título vai ficar mais caro que o milagre da supertaça. No meio desta campanha levada à náusea ainda damos connosco respeitando rigorosamente o dress code decidido por Bruno de Carvalho, a caminho de Fátima para agradecer os dois títulos a que correspondem os dois anos de contrato com Jesus.
Esperemos que passe depressa esta semana onde Jesus e os pastorinhos nos transformaram num imenso rebanho de borregos.

"O meu pai assistiu ao 13 de Outubro, mas não viu nada"

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(Entrevista In Diário de Notícias, 05/05/2017)

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Sérgio Ribeiro está à beira dos 81 anos. Economista de formação, foi professor e jornalista – trabalhou no Diário de Lisboa durante alguns anos, na secção de economia.

Sérgio Ribeiro, antigo eurodeputado comunista, conta que o seu pai, Joaquim Ribeiro – que dará nome a um Centro de Documentação – assistiu aos acontecimentos de 13 de Outubro de 1917 e garantia nada ter visto.


Quando combinámos esta entrevista estava em Fátima. Podemos saber o que foi lá fazer?

Estava no Colégio do Sagrado Coração de Maria. Fui lá pela 13.ª vez consecutiva. Convidaram-me uma vez, parece que não desagradei às freiras… e todos os anos me convidam. No ano passado houve um pequeno incidente com um pai que não gostou que eu tivesse sido convidado, e escreveu ao colégio a dizer que não deviam convidar gente como eu. Não sei porquê…

Gente comunista?

Sim… escreveu uma carta um pouco complicada, a que eu respondi em termos que acho civilizados. E este ano não esperava ser convidado.

Mas foi…

… e foi muito agradável estar com os miúdos.

Que idade tinham?

13 anos, na sua maioria. Estavam ali à minha frente e eu a lembrar-me dos primeiros que me ouviram ali, e que têm agora 26 anos.

E nestes encontros o que procura transmitir aos miúdos?

Duas coisas: primeiro, que na idade deles comecei a olhar à minha volta e via coisas de que não gostei e tentei fazer alguma coisa para mudar. Mas como nessa altura não havia liberdade, só opressão e perseguição, sofri as consequências. Foram desagradáveis, com prisão, com tortura, com morte, com assassinatos de amigos…[é o que vou relatando aos miúdos em linguagem que procuro acessível] mas que me deram uma enormíssima alegria… ter estado preso no 25 de Abril e ter saído para a liberdade. Ter nascido segunda vez.

Considera que começou aí a sua segunda vida?

Aquilo que eu vivi foi um parto, com toda a imagem do parto: da escuridão para a luz, através de um corredor. E depois ver os faróis dos carros, o meu pai e a minha mãe. Só saímos no dia 27, de Caxias.

Nessa sua infância e juventude aqui, a meia dúzia de quilómetros da Cova da Iria, o fenómeno Fátima era muito presente em toda a gente…ou não?

Não. Eu sinto-o quando vejo passar os peregrinos, claro. Mas veja: eu nunca conversei sobre Fátima com os meus vizinhos. Sei que Fátima tem uma influência muito grande, mas não de forma direta. O meu pai tinha 19 anos e assistiu ao 13 de outubro [“milagre do sol”].

Foi lá, à Cova da iria?

Sim, foi. O meu pai será o maior responsável pela minha posição em relação a Fátima. É uma versão contraditória da que vingou. O meu pai era comerciante em Lisboa, tinha muitos amigos. Alguns deles nos anos 40 e 50 vinham cá, dormiam cá em casa. Ele não era crente, era agnóstico. Sobretudo anticlerical. Batizou-me, só. Quando eu lhe fazia perguntas, com a curiosidade de miúdo, ele dava-me esta explicação: “Eu fui lá ver o que se passava. E não vi nada! Ou por outra: vi coisas que achei naturais.”Até fazia comigo esta experiência (das poucas vezes em que falámos do assunto) – “pega numa imagem qualquer, olha para isto fixamente durante uns minutos, olha para o céu, e vês a imagem refletida”.

E foi o que lhe aconteceu?

Sim. Isto no meio de uma massa de gente cria uma ilusão coletiva. Agora chama-se visão, como diz bem numa entrevista recente o D. Carlos Azevedo. Mas isso é contraditório! Como é que se explica que a partir de uma visão se canonize duas crianças? Como é que o D. Carlos Azevedo, por uma questão de rigor de linguagem – para evitar o ridículo – pactua com o ridículo da canonização de duas crianças que foram induzidas a ter visões pela prima mais velha…que era uma visionária.

Mas qual é a sua versão sobre os acontecimentos de Fátima?

Acho que é claríssima a evolução histórica de Fátima. Começou por ser reticente a aceitação da mãe de Lúcia, da Igreja, dos padres. A Igreja não deu aval durante muitos anos. Mas em contrapartida ia comprando terrenos à volta… a tese de Luís Filipe Torgal é claríssima, por ser comprovável. É um estudo histórico e científico. A Igreja ia mantendo as suas dúvidas, teve como grande estratega o padre Manuel Formigão…e numa primeira fase é reticente, muito no registo “se isto der… logo se vê. Se não der, não estamos comprometidos”.

Foi próximo do administrador do concelho da época, Artur de Oliveira Santos. Que relação tinha com ele?

Havia uma revista que se publicava em Portugal – Seleções de Reader”s Digest – que tinha uma secção chamada “O meu tipo inesquecível”. Se eu tivesse que escolher um tipo inesquecível para mim era o senhor Artur de Oliveira Santos, um amigo excecional. Era um homem de raiz operária. Depois era um homem culto, da propaganda republicana. E era um ativista político. A sua atitude era política.

E foi o administrador do concelho de Ourém naquela altura…

E é um dos grandes responsáveis por Fátima ter vingado. Porque se ele no dia 13 de agosto não tivesse ido buscar os miúdos, talvez as coisas fossem diferentes. Ele foi buscá-los para casa dele, tratou-os exatamente como tratava os filhos, que conheci muito bem. Era um homem excecional de bonomia, de bondade, mas de intervenção. Não fora isso, havia menos um argumento contra a República. Dou-lhe um exemplo: eu miúdo, no final da guerra, já voltado para as questões políticas, fui com o meu pai ao Cinema São Jorge, em Lisboa, ver um filme americano sobre Fátima, em que dão o retrato do Artur como um facínora.

Ainda hoje prevalece um pouco essa imagem…

Ou que é feita prevalecer. Isso é das coisas que me indigna. E é uma das minhas batalhas. Nesse dia, vejo o meu pai levantar-se e a gritar “é mentira!”. Isto no tempo do fascismo… na fase política de Fátima. Depois de a Igreja começar a aceitar, Fátima foi muito bem aproveitada pelo Estado Novo, naquele “casamento” Salazar-Cerejeira.

Como é que olha para o fenómeno da comemoração do centenário?

Estava à espera disto, não me surpreende literalmente nada. Já há uns anos escrevi para a revista Vértice sobre isso, dizendo que iria haver dois centenários muito importantes: o de Fátima e o da Revolução Soviética. São duas coisas que, na minha perspetiva, têm a ver como a história da humanidade se vai desenrolando. Assim como daqui a cem anos iremos viver o centenário de um momento de rutura, que pode ser amanhã se o Trump quiser.

Com a vinda do Papa, alguns amigos pediram-lhe para ficar em sua casa?

Desta vez não. À medida que os anos vão passando, as amizades também vão sendo mais seletivas. Alguns que poderiam vir, já morreram…

É também por essa noção de preservar a memória que quer deixar a Ourém o legado do seu pai e toda a sua biblioteca?

O meu pai foi uma figura tutelar para mim. Daí a minha intenção de assinar o protocolo com a câmara para criar o Centro de Documentação Joaquim Ribeiro. O que tenho em casa é só uma parte, fora o que está aí numa adega de um vizinho, com a documentação do Parlamento Europeu.

Quantos anos lá esteve?

Entre 1990 e 2000 e 2004-2005. Estive na comissão monetária que criou o euro, e tive o enorme prazer de votar contra o euro. Naquela altura diziam que eu era louco.

Foi preciso uma dose de loucura para ser comunista aqui?

Sinto-me daqui, sempre senti, mas para a maioria das pessoas eu não era daqui, era o menino que vinha de férias.

Até os poucos candidatos que o partido aqui consegue ter são maioritariamente católicos, é assim?

Faz parte dos nossos estatutos a liberdade religiosa, não se põem reservas. É verdade que temos uma ideologia que por vezes entra em contradição. Mas a vida é feita de contradições. Quer maior contradição que essa de dizer “não houve aparições, houve visões”? E então os videntes são canonizados a partir de um processo que é mais do que discutível? E um papa como o Papa Francisco sujeita-se ao ridículo de vir canonizar duas crianças a partir de processos que são ridículos?

Ainda acha que Fátima deveria ser concelho?

Claro. Esteve aprovado e foi vetado pelo Jorge Sampaio. Eu sempre disse que estava a correr-se um risco muito grande, porque o processo estava a ser mal conduzido. Fátima deveria ser um concelho não na lei geral mas pelo seu caso específico: uma terra que tem 9 mil habitantes e milhões de visitantes. Isto cria situações de gestão autárquica que tem de ser específica. Se a partir da concordata as receitas da Igreja estão isentas de IMI, como é que a gestão autárquica pode fazer face a esta especificidade? E por isso isto tinha de ser tratado com o mínimo de racionalidade. Mas em Fátima nada tem racionalidade.


Fonte aqui

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