"O meu pai assistiu ao 13 de Outubro, mas não viu nada"

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(Entrevista In Diário de Notícias, 05/05/2017)

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Sérgio Ribeiro está à beira dos 81 anos. Economista de formação, foi professor e jornalista – trabalhou no Diário de Lisboa durante alguns anos, na secção de economia.

Sérgio Ribeiro, antigo eurodeputado comunista, conta que o seu pai, Joaquim Ribeiro – que dará nome a um Centro de Documentação – assistiu aos acontecimentos de 13 de Outubro de 1917 e garantia nada ter visto.


Quando combinámos esta entrevista estava em Fátima. Podemos saber o que foi lá fazer?

Estava no Colégio do Sagrado Coração de Maria. Fui lá pela 13.ª vez consecutiva. Convidaram-me uma vez, parece que não desagradei às freiras… e todos os anos me convidam. No ano passado houve um pequeno incidente com um pai que não gostou que eu tivesse sido convidado, e escreveu ao colégio a dizer que não deviam convidar gente como eu. Não sei porquê…

Gente comunista?

Sim… escreveu uma carta um pouco complicada, a que eu respondi em termos que acho civilizados. E este ano não esperava ser convidado.

Mas foi…

… e foi muito agradável estar com os miúdos.

Que idade tinham?

13 anos, na sua maioria. Estavam ali à minha frente e eu a lembrar-me dos primeiros que me ouviram ali, e que têm agora 26 anos.

E nestes encontros o que procura transmitir aos miúdos?

Duas coisas: primeiro, que na idade deles comecei a olhar à minha volta e via coisas de que não gostei e tentei fazer alguma coisa para mudar. Mas como nessa altura não havia liberdade, só opressão e perseguição, sofri as consequências. Foram desagradáveis, com prisão, com tortura, com morte, com assassinatos de amigos…[é o que vou relatando aos miúdos em linguagem que procuro acessível] mas que me deram uma enormíssima alegria… ter estado preso no 25 de Abril e ter saído para a liberdade. Ter nascido segunda vez.

Considera que começou aí a sua segunda vida?

Aquilo que eu vivi foi um parto, com toda a imagem do parto: da escuridão para a luz, através de um corredor. E depois ver os faróis dos carros, o meu pai e a minha mãe. Só saímos no dia 27, de Caxias.

Nessa sua infância e juventude aqui, a meia dúzia de quilómetros da Cova da Iria, o fenómeno Fátima era muito presente em toda a gente…ou não?

Não. Eu sinto-o quando vejo passar os peregrinos, claro. Mas veja: eu nunca conversei sobre Fátima com os meus vizinhos. Sei que Fátima tem uma influência muito grande, mas não de forma direta. O meu pai tinha 19 anos e assistiu ao 13 de outubro [“milagre do sol”].

Foi lá, à Cova da iria?

Sim, foi. O meu pai será o maior responsável pela minha posição em relação a Fátima. É uma versão contraditória da que vingou. O meu pai era comerciante em Lisboa, tinha muitos amigos. Alguns deles nos anos 40 e 50 vinham cá, dormiam cá em casa. Ele não era crente, era agnóstico. Sobretudo anticlerical. Batizou-me, só. Quando eu lhe fazia perguntas, com a curiosidade de miúdo, ele dava-me esta explicação: “Eu fui lá ver o que se passava. E não vi nada! Ou por outra: vi coisas que achei naturais.”Até fazia comigo esta experiência (das poucas vezes em que falámos do assunto) – “pega numa imagem qualquer, olha para isto fixamente durante uns minutos, olha para o céu, e vês a imagem refletida”.

E foi o que lhe aconteceu?

Sim. Isto no meio de uma massa de gente cria uma ilusão coletiva. Agora chama-se visão, como diz bem numa entrevista recente o D. Carlos Azevedo. Mas isso é contraditório! Como é que se explica que a partir de uma visão se canonize duas crianças? Como é que o D. Carlos Azevedo, por uma questão de rigor de linguagem – para evitar o ridículo – pactua com o ridículo da canonização de duas crianças que foram induzidas a ter visões pela prima mais velha…que era uma visionária.

Mas qual é a sua versão sobre os acontecimentos de Fátima?

Acho que é claríssima a evolução histórica de Fátima. Começou por ser reticente a aceitação da mãe de Lúcia, da Igreja, dos padres. A Igreja não deu aval durante muitos anos. Mas em contrapartida ia comprando terrenos à volta… a tese de Luís Filipe Torgal é claríssima, por ser comprovável. É um estudo histórico e científico. A Igreja ia mantendo as suas dúvidas, teve como grande estratega o padre Manuel Formigão…e numa primeira fase é reticente, muito no registo “se isto der… logo se vê. Se não der, não estamos comprometidos”.

Foi próximo do administrador do concelho da época, Artur de Oliveira Santos. Que relação tinha com ele?

Havia uma revista que se publicava em Portugal – Seleções de Reader”s Digest – que tinha uma secção chamada “O meu tipo inesquecível”. Se eu tivesse que escolher um tipo inesquecível para mim era o senhor Artur de Oliveira Santos, um amigo excecional. Era um homem de raiz operária. Depois era um homem culto, da propaganda republicana. E era um ativista político. A sua atitude era política.

E foi o administrador do concelho de Ourém naquela altura…

E é um dos grandes responsáveis por Fátima ter vingado. Porque se ele no dia 13 de agosto não tivesse ido buscar os miúdos, talvez as coisas fossem diferentes. Ele foi buscá-los para casa dele, tratou-os exatamente como tratava os filhos, que conheci muito bem. Era um homem excecional de bonomia, de bondade, mas de intervenção. Não fora isso, havia menos um argumento contra a República. Dou-lhe um exemplo: eu miúdo, no final da guerra, já voltado para as questões políticas, fui com o meu pai ao Cinema São Jorge, em Lisboa, ver um filme americano sobre Fátima, em que dão o retrato do Artur como um facínora.

Ainda hoje prevalece um pouco essa imagem…

Ou que é feita prevalecer. Isso é das coisas que me indigna. E é uma das minhas batalhas. Nesse dia, vejo o meu pai levantar-se e a gritar “é mentira!”. Isto no tempo do fascismo… na fase política de Fátima. Depois de a Igreja começar a aceitar, Fátima foi muito bem aproveitada pelo Estado Novo, naquele “casamento” Salazar-Cerejeira.

Como é que olha para o fenómeno da comemoração do centenário?

Estava à espera disto, não me surpreende literalmente nada. Já há uns anos escrevi para a revista Vértice sobre isso, dizendo que iria haver dois centenários muito importantes: o de Fátima e o da Revolução Soviética. São duas coisas que, na minha perspetiva, têm a ver como a história da humanidade se vai desenrolando. Assim como daqui a cem anos iremos viver o centenário de um momento de rutura, que pode ser amanhã se o Trump quiser.

Com a vinda do Papa, alguns amigos pediram-lhe para ficar em sua casa?

Desta vez não. À medida que os anos vão passando, as amizades também vão sendo mais seletivas. Alguns que poderiam vir, já morreram…

É também por essa noção de preservar a memória que quer deixar a Ourém o legado do seu pai e toda a sua biblioteca?

O meu pai foi uma figura tutelar para mim. Daí a minha intenção de assinar o protocolo com a câmara para criar o Centro de Documentação Joaquim Ribeiro. O que tenho em casa é só uma parte, fora o que está aí numa adega de um vizinho, com a documentação do Parlamento Europeu.

Quantos anos lá esteve?

Entre 1990 e 2000 e 2004-2005. Estive na comissão monetária que criou o euro, e tive o enorme prazer de votar contra o euro. Naquela altura diziam que eu era louco.

Foi preciso uma dose de loucura para ser comunista aqui?

Sinto-me daqui, sempre senti, mas para a maioria das pessoas eu não era daqui, era o menino que vinha de férias.

Até os poucos candidatos que o partido aqui consegue ter são maioritariamente católicos, é assim?

Faz parte dos nossos estatutos a liberdade religiosa, não se põem reservas. É verdade que temos uma ideologia que por vezes entra em contradição. Mas a vida é feita de contradições. Quer maior contradição que essa de dizer “não houve aparições, houve visões”? E então os videntes são canonizados a partir de um processo que é mais do que discutível? E um papa como o Papa Francisco sujeita-se ao ridículo de vir canonizar duas crianças a partir de processos que são ridículos?

Ainda acha que Fátima deveria ser concelho?

Claro. Esteve aprovado e foi vetado pelo Jorge Sampaio. Eu sempre disse que estava a correr-se um risco muito grande, porque o processo estava a ser mal conduzido. Fátima deveria ser um concelho não na lei geral mas pelo seu caso específico: uma terra que tem 9 mil habitantes e milhões de visitantes. Isto cria situações de gestão autárquica que tem de ser específica. Se a partir da concordata as receitas da Igreja estão isentas de IMI, como é que a gestão autárquica pode fazer face a esta especificidade? E por isso isto tinha de ser tratado com o mínimo de racionalidade. Mas em Fátima nada tem racionalidade.


Fonte aqui

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O da Joana

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 05/05/2017)

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Um terço gigante, da autoria de Joana Vasconcelos, foi inaugurado esta semana à entrada da Igreja da Santíssima Trindade, no Santuário de Fátima. Tenho a opinião de que Portugal só fica realmente completo quando a Joana Vasconcelos fizer uma padaria portuguesa gigante.

Acho uma ideia parva. Segundo ouvi dizer, Nossa Senhora tinha previsto aparecer outra vez em Fátima para festejar os 100 anos, mas puseram um terço gigante no local da aterragem.

Estou oficialmente cansado do centenário de Fátima e totalmente farto da Joana Vasconcelos. Lá está ela em todo o lado, sempre com as suas obras gigantescas. A Joana Vasconcelos deve festejar o 39 de Maio. Ela deve ser fixe é a fazer um charro. Deve ser um canhão.

A Joana Vasconcelos tornou-se a artista do regime, ainda que a frase pareça uma contradição. Mas desta vez temos um problema mais complicado porque, após ser conhecida a instalação, de seu nome “Suspensão”, começaram a circular, nas redes sociais, fotografias de um terço igual ao que foi erguido entre duas palmeiras em 2013, em Vila Velha, no estado de Espírito Santo, aquando da visita de João Paulo II ao Brasil. Aleluia! Isto foi o Milagre da multiplicação!!!

Joana Vasconcelos já se justiçou e diz que o terço brasileiro “não tem nada a ver” com o de Fátima. E a justificação, de que não têm nada a ver um com o outro, é, e cito: “Aquilo é um terço pequenérrimo feito de esferovite.” Fazendo uma comparação, o terço brasileiro tem 19 metros de comprimento e cerca de 60 contas, o da Joana tem 26 metros e 60 contas brancas. Ou seja, nunca se ponham nus em frente à Joana Vasconcelos. Resumindo, a única coisa que a Joana Vasconcelos inventou foi a palavra: pequenérrimo. Gostava de saber qual seria a reacção da Joana Vasconcelos se fizessem um sapato de mulher com tachos de brincar.

Diz ela que o efeito do terço que fez, à noite, tem um efeito que só existe em Fátima. E na Póvoa de Santo Adrião. Pelo menos, o outro é sustentado por duas palmeiras, o dela é sustentado por uma espécie de duas colunas de som gigantes, em vez de duas azinheiras.

Mesmo assim, a Joana Vasconcelos consegue ter menos lata a explicar o plágio do que a razão porque passou a olhar para Fátima com outros olhos.

O bom disto é ver que Fátima comprou gato por lebre. A Joana Vasconcelos arranjou uma fraude para comemorar os cem anos das aparições. Finalmente, fez-se justiça.


TOP5O

Suspensão

1. Infraestruturas de Portugal recomenda caminhos alternativos aos peregrinos – vão por cima de azinheiras.

2. Vereador do PCP em Cascais foi detido – por não tratar o filho por você.

3. Bloco de Esquerda quer prevenir consumo excessivo de Ritalina – é tomar ritalina em homeopático que, ao menos, não faz nada.

4. Líder parlamentar do CDS-PP diz que Portugal vive numa “democracia simulada” – o que os chateia é ser democracia.

5. Dois terços dos eleitores de Melénchon vão votar em branco ou nulo – o outro terço é o da Joana Vasconcelos.

Os pedidos de Assunção Cristas à Senhora de Fátima

o(Por Estátua de Sal, 03/05/2017)

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(Ver notícia aqui)


Aqui sinto-me bem. Há uma paz no ar que me faz levitar, minha Nossa Senhora de Fátima. Mas, como sabes sou sincera e boa menina e tenho que fazer uma declaração de interesses, um pequeno pecadilho que me vais perdoar certamente. A minha primeira devoção, desde o berço, é para a Nossa Senhora da Assunção, pois foi a ela a quem a minha mãezinha rezou quando me trouxe ao mundo, e por isso me deu este nome tão lindo e abençoado. Mas eu sei que não me levas a mal e vais ouvir as minhas preces, até porque não temos cá nenhum Santuário da Senhora da Assunção onde a ela me possa dirigir directamente. Ouve, então, o que me vai na alma, e transforma em milagres estes meus singelos pedidos, para bem de Portugal e da cristandade.

Só o teu grande coração de mãe pode compreender a apreensão que me invade sempre que acordo assustada pela madrugada, temendo pelo futuro dos meus queridos filhos, neste Portugal dominado pelo governo das esquerdas. Corro logo para o quarto deles para me certificar que estão mesmo bem. Pobres crianças, o que irá ser delas, se não nos ajudares a afastar esse demoníaco Costa, esse tonto Jerónimo e essa mal vestida Catarina? Eu sei que os caminhos do Senhor são insondáveis e não quero cometer sacrilégio, mas ainda não consegui perceber o que levou Deus Nosso Senhor a permitir que o nosso querido Portugal viesse a ser dirigido por três declarados ateus. Talvez tenha sido castigo divino para expiação dos nossos pecados, talvez.

Sim, são três hereges que não te honram, minha Nossa Senhora. Escarnecem de mim e dos outros devotos que te visitam e veneram. Zombam da fé e dos teus poderes. É por isso que te peço, que os afastes, que faças o povo abrir os olhos e votar no nosso partido que é o único que tem o azul na bandeira, esse azul tão bonito da cor do teu véu, ó minha Nossa Senhora.

Há outros que também não devem ter a tua benção, porque em vez de invocarem a tua santíssima misericórdia, invocam o diabo, abrenúncio. Não os entendo, e não percebo porque teimam em chamar o diabo. Ainda não viram que o diabo já está entre nós, disfarçado de Geringonça, e que é preciso expulsá-lo de vez. Conto contigo para me ajudares a salvar Portugal dessa praga das esquerdas radicais que querem tirar tudo aos crentes e devotos para sustentar os pobres. Pobres que só o são porque vivem no vício, na preguiça, no destempero e na lubricidade. Eu sei que devemos cuidar dos pobres e não quero que me acuses de falta de piedade. Mas uma coisa é cuidar dos pobres e ser caridosa, como sabes bem que sou, ainda que não exagere como algumas vezes faz o Papa Francisco, de tão bondoso que é; outra é acabar com a pobreza à custa do sacrifício do conforto merecido dos crentes e devotos, como pretendem as esquerdas radicais.

Sei que me entendeste, minha Nossa Senhora. E não é por mim que te faço este pedido. É pelo futuro dos meus meninos, é por Portugal. E se me ajudares, acredita que todos os anos virei em peregrinação a pé, ajoelhar-me e rezar mil ave-marias na tua capelinha. E virei sempre com os jornalistas e com as televisões atrás de mim, para promover os teus dotes milagreiros aos quatro ventos, aumentando assim o número dos teus seguidores.

Outra coisa. Estou meia envergonhada por este meu pensamento. Nem sei se te diga. Se calhar é melhor dizer. Queria-te pedir uma coisa para mim. Não queria que me achasses mesquinha e pouco altruísta. Pronto. Lá vai. Também é bom para o país, para Portugal. Era a câmara. A Câmara de Lisboa. Será que podes dar um jeito? Eu sei que é um milagre dos mais trabalhosos. Mas sabes, o Medina é ateu, e a Leal tem falta de classe e não é como eu. É mais devota do Benfica do que devota dos teus santos ofícios e virtudes, minha Nossa Senhora.

Vá lá. Eu sei que vou poder contar contigo. Até podes interceder junto do Santo António, que conhece bem Lisboa, para ele colaborar também. E se eu conseguir, nesse dia vou chorar de emoção e ficar-te-ei grata até ao fim da vida.

E como prova da minha gratidão, desde já te juro e prometo que todos os anos irei em peregrinação a Fátima trepar no terço da Joana Vasconcelos, vestida com o fato de alpinista, e rezar dez terços inteirinhos.

Tua devota e sincera seguidora,

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