O “DA JOANA”!

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 03/05/2017)

terço

O da Joana”, “A da Joana”, “A Casa da Mãe Joana” e coisas do género são palavras e frases com sentidos vários, neste caso os primeiros querendo significar um lugar onde todos mandam e fazem o que querem, onde cada um faz o que lhe apetece ou onde todos se podem servir à vontade e o terceiro um pouco mais complicado e por cujo significado não desejo ir. Só posso dizer que, neste caso, é a Joana quem manda!

Tive que fazer esta introdução, não por que não ache os meus leitores suficientemente inteligentes para isso perceberem, mas para colocar, desde já, de lado todos os significados ínvios que me possam querer atribuir.

“O da Joana” é mesmo o terço gigante, como tudo o que ela faz que, qual escultura do José Rodrigues, que aquilo certamente não faria, encherá os olhos dos devotos peregrinos que a Fátima irão nos próximos dias doze e treze e que certamente os assombrará não só pela sua magnitude como pelo seu significado.

Tudo bem, tudo em grande, todos satisfeitos, todos admirados, mas…não passa, apesar da sua grandeza, de um terço! E, como se chama de “Suspensão”, como rezá-lo, se ele está suspenso? Pois aqui é que bate o ponto. Se fosse um “rosário”, aí até estava de acordo pois era uma obra completa. Mas, assim, ficando-se por “um terço”, cheira, apesar da sua grandeza, a coisa inacabada.

Outra desilusão: é feito de “contas brancas”! Contas brancas, Joana? Eu a pensar que ia surgir da sua cabeça de imaginação sem fim não um feito de tachos, que estes fazem um sapato, nem de corações de Viana, que fazem um coração gigante, e aqui faz todo o sentido, nem daquelas coisas que as mulheres enfiam na coisa quando lhes aparece a mensalidade, como fez para um balaústre ou alabustre, já nem sei, como dizia Camilo Pessanha, que eu ouvi outro dia o Manuel João Vieira a  declamar em Coura, um candelabro, pronto, assim uma coisa nova…agora, “contas brancas”? Nem ao menos às cores, Joana?

 Eu, se me pedisse opinião, e não seria difícil fazê-lo, eu tê-la-ia aconselhado, para evitar as críticas que aí inevitavelmente virão, logo à partida de racismo por serem apenas brancas, embora para regozijo dos daltónicos que assim não confundem a cor, depois por estarem ali imóveis e, mesmo iluminadas, não passarem de brancas, estivessem elas ao menos lapidadas para logo refulgirem em cores, eu tê-la-ia aconselhado, como vinha dizendo, a fazê-lo com sininhos!

Sininhos, sim! Repare só, ó Joana: Eu sei que ele é da Joana mas, não pretendendo assomar-me a seu consultor artístico, que disso nada percebo mas tenho a mania de ter umas ideias, mesmo que soem assim a estapafúrdias,venho alerta-la para um efeito que a Joana não previu e que é o vento! Admirada?

Eu sei que já está a pensar e certamente arrependida de não me ter ouvido. Um terço de sininhos, ali pendurados, ao vento, ao sabor da música do vento, oferecendo melodias sem fim…eu nem quero sequer pensar…E se, ainda por cima, fossem calibrados, pertencendo a cada um uma nota, um sustenido ou um bemol, programados assim para, consoante o vento, tocarem não só o Avé Maria, mas também o Hino da Alegria e, porque não também, o Hino Nacional também?

Um logro Joana, um logro! Onde a sua imaginação? Um terço apenas? Nem um “rosário” consegue fazer? Era “mais grande”? Mas não é, para si, quanto “mais grande” melhor?

Soube que aquele “Terço” se chama de “suspensão”! Que está suspenso é um facto facilmente constatável. mas mais importante que essa constatação, é a explicação. E então, enquanto lia a sua filosófica explicação, eu fui-me lembrando da Zita e pensei: mais uma convertida?

Pudera Joana, pudera! É que Fátima, não sendo propriamente a “Casa da Joana”, é uma fábrica a céu aberto, embora com a contabilidade bem fechada. E você, mesmo sendo Joana, conseguiu lá chegar!

Bravo Joana! Um “terço” já está feito. E o “rosário” quase…


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O 25 de Abril, 43 anos depois: D. Marcelo, o palavroso, e alguns tiranetes mais!

(Padre Mário de Oliveira, in A Viagem dos Argonautas, 30/04/2017)

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Marcelo, o palavroso, está a tornar-se insuportável. E o país, anestesiado com Fátima, com o Futebol dos milhões e seus demenciais comentadores nos canais ditos de notícias ao minuto, mais os repetitivos discursos do chefe do governo e respectivos ministros, dos chefes dos partidos políticos de direita e de esquerda, dos chefes dos grupos parlamentares, dos chefes das centrais sindicais e da Frente dos Sindicatos da Função Pública, todos bem falantes e vestidos a rigor, já nem dá por nada. E porque ele é um presidente que não dorme, ou dorme apenas três horas por noite, já nem sequer deixa dormir as cidadãs, os cidadãos do País. A verdade é que continuamos a ser, 43 anos depois de Abril, um povo desgraçadamente sem voz e sem vez e, para cúmulo, ainda baleado-massacrado por overdoses de discursos dos agentes de turno dos poderes e de notícias, sempre as mesmas.

A tão apregoada liberdade dada de bandeja pelo 25 de Abril 1974 é, afinal e exclusivamente, a liberdade do grande Capital que, desde então, está ao comando de tudo o que é notícia no país e na UE. É ele que tudo permite, promove e financia, como é também ele o único que sai a ganhar com este tipo de mundo e de eventos-comemorações. Os seus súbditos portugueses, em vez de fazerem acontecer o Abril sonhado e cantado mas nunca realizado, insistem, cada ano, em sair às ruas, a mostrar quão gratos estão pelo feriado que ele lhes dá, e ao qual se junta, este ano, o dos cem anos das “aparições” de Fátima, a tolerância de ponto no próximo dia 12 de Maio, para que, desse modo, os funcionários públicos possam ver o papa Francisco, sem dúvida, o maior prestidigitador católico romano criado por ele.

Neste nosso Portugal que constitucionalmente se diz uma República, o grande Capital tem no rei D. Marcelo, o palavroso, o seu porta-voz e o seu rosto. Como ele, é omnipresente, omnipotente, omnisciente. Nada se faz sem ele e tudo o que se faz é graças a ele que se faz. Nunca o grande Capital esteve tão bem servido neste país dominado, desde a fundação, por clérigos e reis católicos, como está agora com o católico presidente da República. Ele e o Capital são um só. E todos os mais, seus reféns. É o que o 25 de Abril 2017 gritantemente revela, ainda que teimemos a não querer ver. À realidade, preferimos a erncenação, o faz-de-conta. Insensatamente. E o que mais tememos é levantar-nos politicamente desarmados do chão e sairmos do túmulo em que nos obrigam a permanecer, como mortos-vvos, do nascer ao morrer.

Não é por acaso que este ano o 25 de Abril foi todo do rei D. Marcelo, o palavroso. Outros, seus inferiores na pirâmide institucional do Poder ao serviço do grande Capital, também usaram da palavra, mas o que fica na mente das populações súbditas, atentas e reverentes, são as palavras dele na AR, as selfies com ele nas ruas e nos jardins do palácio de Belém – não me enganei, é mesmo palácio de Belém, não uma casa comum com gente dentro – e na demorada e palavrosa cerimónia da entrega das condecorações e dos elogios fúnebres a quem, a título póstumo, ou presencialmente, ainda se presta a este macabro e sinistro tipo de iniciativas. Escutaram o sublinhado dele, na AR, a uma “mais justa repartição da riqueza”? Pensam que ele quer ver o país, a UE e o mundo a darmos corpo ao princípio fundador da Humanidade, De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades? Nada disso. É na Caridadezinha, estúpidos, é na Caridadezinha que ele está a pensar, que essa é a regra primeira do grande Capital!

Acontece que no 25 de Abril de 1974, os bispos portugueses estavam reunidos em Fátima, seu berço e mausoléu de eleição. Não! Não estavam lá de terço na mão – coisa para a arraia miúda, não para eles, suas excelências reverendíssimas – como fazem crer aos seus ainda muitos súbditos, os remediados, a maioria, e os eruditos, uma minoria. Estavam a congeminar como haviam de continuar a lidar com a chamada “primavera marcelista”, com os muitos presos políticos em Caxias e em Peniche, com a Guerra Colonial em África e – coisa ínfima, mas não despicienda – com a minha absolvição, pela segunda vez consecutiva, no Tribunal Plenário do Porto, quando o próprio Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, também presente, agraciado a título póstumo, este ano por D. Marcelo, o palavroso, com a Grã Cruz da Ordem de Santiago e Espada, já me havia retirado o título e a função de pároco de Macieira da Lixa, só porque eu, como o colectivo de Juízes do Tribunal Plenário do Porto é o primeiro a dar como provado, pela segunda vez consecutiva, que eu sou um pároco exemplar e que havia sido preso político, sem direito a qualquer caução, apenas por pregar o Evangelho de Jesus na paróquia. E o bispo não só já me havia retirado o titulo e a função, como ainda fazia constar entre os párocos da diocese que não sabia mais o que fazer comigo. Vejam só!

E não é que este ano, 43 anos depois, os bispos portugueses voltam a estar reunidos em Fátima, covil de ladrões e privilegiado local de conspiração religiosa católica contra a existência de povos livres, iguais, também em género, e irmãos, um local que eles sabem protegido por terra, mar e ar, dado que é a maior galinha de ovos de ouro da igreja católica e do Turismo religioso em Portugal, a que até o papa Francisco não resiste a vir dar uma mãozinha e levar daqui grande parte do proveito financeiro, com as duas desgraçadas canonizações já anunciadas urbi et orbi.

De modo que é aí, em Fátima, que o Governo português de turno lhes faz chegar a sua bênção laica e republicana, feita notícia em primeiríssima mão, de que a vinda do papa justifica bem tolerância de ponto, sexta feira12 de Maio, o pai e a mãe de todas as canonizações, criancinhas criminosamente manipuladas por clérigos, incluídas. Porque, para o grande Capital e seus agentes religiosos e laicos, vale tudo, até tirar olhos.

Entretanto e porque o mundo não é só Portugal e a senhora de Fátima, Trump e a Coreia do Norte não desarmam. A Rússia, a China e a Índia, tão pouco. Assim como a Alemanha e a França. Atrevam-se a desencadear entre eles um inferno nuclear que logo se tornará global. E é o fim da vida, tal como a conhecemos neste planeta Terra a dançar dia e noite e ano após ano, à volta de si própria e do Sol. E tudo, só porque, depois que ela, em nós, conseguiu chegar à condição de racional, resiste a dar um salto qualitativo em frente, que é passar à condição de relacional cordial, por isso, plena e integralmente humana. De modo que o Terceiro Milénio que já é pós-cristão, tem de ser já, plena e integralmente humano, relacional cordial. Nem que seja apenas aquele pequeno resto que, num inesperado terceiro dia, depois do inferno nuclear global, se levanta, inteiro e limpo. num novo big-bang sem mais lugar para o grande Capital, nem para reis e papas palavrosos. Apenas seres humanos, todos diferentes, todos iguais, maieuticamente religados uns aos outros, politicamente ocupados a cuidar uns dos outros e do Cosmos que lhes serve de casa e de mesa sem muros nem ameias.


Fonte aqui

A grande farra

(Por Soares Novais, in A Viagem dos Argonautas, 30/04/2017)

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A tenda está montada. É gigante e nela cabem todos os anjos, serafins e querubins, beatas e beatos, pastorinhos, freiras e frades, velhos e novos padres, cónegos, monsenhores, bispos, arcebispos, cardeais, grandes e pequenos vendilhões. E, claro, o povo a quem prometem a “vida eterna”, que o redimirá de todas as maldades sofridas durante a sua vida terrena. Vai ser uma grande festa, pá. Uma farra regada com “Espumante das Aparições”, sendo certo que o “ceo” do Vaticano já foi obsequiado com a número um das 1917 garrafas produzidas. Tantas como o ano em que os três pastorinhos foram, alegadamente, interpelados por Maria. Está tudo pronto para a grande farra, pois.

Por ora as senhoras da Agonia, das Dores, das Lágrimas, dos Aflitos, dos Mártires e o Jesus Crucificado saem de cena. A grande farra não lhes é destinada. A senhora dos pastorinhos é a personagem única deste filme, que dura há 100 anos e que bate todas as receitas de bilheteira e de mercado. Um mercado recheado de imagens da santa e dos pastorinhos, terços, velas, t-shirts e  lenços brancos. Tudo à custa dos pagadores de promessas que por estes dias marcham em direcção à grande tenda, e ali depositam os seus desesperos numa liturgia tribal que os velhos e novos padres, cónegos, monsenhores, bispos, arcebispos, cardeais e papa sublimam até à exaustão.

Cem anos não são 100 dias e quem gere o negócio sabe isso muito bem. Por isso, anda há muito a preparar a festa que assinalará aquilo a que chama a santificação dos pastorinhos e a vinda do actual “ceo” do Estado do Vaticano.

Fátima é uma das lojas mais rentáveis do império e sê-lo-á por muitos mais centenários. A não ser que o planeta sucumba às maldades dos homens que fazem as guerras, condenam os povos à fome e cuja ganância, assassina e voraz, é a mãe de todas as bombas…