O negócio sujo do sangue

(In Blog O Jumento, 23/12/2016)

sangue

«Tendo em conta que desde 1990, o Conselho da Europa tem vindo a recomendar que os Estados desenvolvam mecanismos que garantam a autossuficiência em plasma, face às necessidades de utilização do mesmo, bem como dos medicamentos dele derivado, de forma a eliminar progressivamente o seu desperdício.»


É assim que reza o Despacho n.º 15300-A/2016, do secretário de Estado da Saúde, publicado esta terça-feira na Série II do Diário da República, despacho que tranquiliza as consciências do ministério da Saúde, determinado que se faça num par de meses o que não se fez numa década.
Leu bem? Desde o ano de 1990 que o Conselho da Europa recomenda o contrário do que se fazia em Portugal, isso mesmo o ano da graça de 1990, já lá vão vinte e seis anos! Entretanto gastaram-se milhões, perderam-se outros tantos, muitos hospitais não adquiriram equipamentos, muitos portugueses morreram nas urgências, outros tantos doentes de hepatite morreram para poupar em tratamentos inovadores.
Como é que isto foi possível? Que mais cancros como este existirão no sector da saúde? Quantos mais poderes ocultos têm mais poder no sector dos que o poder político, quantos mais senhores mandam nos decisores da máquina do ministério da Saúde, quantos mais barões gerem as ARS em função das ordens de grupos de interesses do sector?
Quando se procurava um homem para a CGD o Dr Macedo apareceu a falar num seminário da Gulbenkian. O homem não é grande orador, nem se lhe conhecem grandes escritos, mas as notícias pouco reproduziram, a notícia rezava que o Dr. Macedo falou sobre corrupção, a mensagem era clara, o grande combatente anti-corrupção  falou.
Uns dias depois Passos Coelho divertia-se dizendo que o Dr. Macedo tinha salvo o SNS e agora ia salvar a CGD. Curiosamente, nunca mais se falou do legado no SNS do Dr. Macedo, nem o líder do PSD voltou a referir o seu nome, quase de forma milagrosa a CGD desapareceu dos noticiários, o líder do PSD apressou-se a focar a atenção nos lesados do BES. Antes falar nos lesados do BES do que falar dos lesados do plasma.
É pena que o Dr. Artur Santos Silva não organize mais um seminário na Fundação Gulbenkian para se discutir a corrupção criminosa no negócio do plasma, podia convidar o Dr. Macedo, talvez ele explicasse ao país o que fez para combater a corrupção no seu ministério (não confundir com fraudes nos medicamentos) e com base em que critérios nomeou Cunha Ribeiro para presidente da ARS de Lisboa e Vale do Tejo.
Talvez com um seminário dedicado ao tema os portugueses ficassem a perceber melhor os negócios feitos com o imenso orçamento da saúde.

O grande humorista

(Por Estátua de Sal, 15/12/2016)

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                                                                                      O Grande Humorista

Passos Coelho já tem um novo emprego garantido quando for varrido do PSD, vai para humorista fazer concorrência ao Ricardo Araújo Pereira. Enquanto não o chutam por falta de virilidade e calculismo, ele lá vai perorando e ensaiando para a sua nova profissão futura.

Hoje veio dizer que o Governo é tão mau, a situação do país é tão caótica, que o Costa até teve de ir buscar um ex-ministro dele, o Macedo, para resolver os problemas da CGD. E alvitrou Passos que um dia destes, ainda vão ter que ir buscar outro ex-ministro deleo radical e incompetente  Nuno Crato. Passos fala dos ex-ministros como se fossem propriedade sua, uma espécie de oficiais às ordens de Sua Majestade. No fundo, continua a achar que ainda é Primeiro Ministro, o que é um sintoma de distúrbios psiquiátricos de gravidade elevada. (Ver notícia aqui)

Ora, se o Macedo lhe pertencia, e como a escravatura já foi abolida, este desabafo de Passos só pode ser entendido como uma peça de humor negro feita por alguém que, lá fundo, se sente traído, ou melhor dizendo corneado, pelo súbdito e compagnon de route. Como dizia um grande amigo meu, “a dor de corno é a maior dor do mundo”, e Passos deve estar a espernear por o Macedo lhos ter posto, sem apelo nem agravo.

Coitado, fica-se com o Crato, de quem espera grande lealdade, ou pelo menos,  sendo tão incompetente, que não seja nunca posto à prova, sendo chamado a funções de Estado de novo. Quando o barco naufraga os ratos são os primeiros a abandonar o navio.

Só Passos é que não quer ver que o navio já naufragou e que nunca teve a rodeá-lo outros mamíferos que não fossem ratos, digo mesmo, grandes ratazanas.


Semanada

(In Blog O Jumento, 04/12/2016)
opus
Esta foi uma das melhores semanas para a Opus Dei, uma congregação quase secreta que dá grande importância ao controlo da economia por parte dos seus supranumerários e em especial no sector da banca, daí a aposta feita em Portugal com o BCP. O controlo das empresas é a garantia de que os seus terão vantagens na colocação dos produtos ou no emprego dos filhos das suas famílias numerosas, daí o assédio que é feito aos melhores alunos das instituições universitárias católicas. Nesta semana e sem grande esforço de evangelização a Opus Dei trouxe para o seu regaço a quase totalidade do que resta das instituições financeiras nacionais, a CGD e o Montepio, isto significa que os devotos de Josemaria Escrivá de Balaguer terão na sua mão o controlo de uma boa parte do financiamento das empresas portuguesas e uma rede nacional, com mais delegações locais do que igrejas e mais clientes do que devotos. A Opus Dei portuguesa está de parabéns.
A Opus Dei e os seus supranumerários até estão de parabéns, não só conseguiram lançar opas a custo zero sobre o Montepio e CGD, como o conseguiram sem quase não se ouvir um comentário, sinal de que os nossos jornalistas são uns rapazes muito obedientes, não só escondem alguns dados como não se cansam de fazer os mais rasgados elogios aos novos senhores da finança, com  se fossem pequenos deuses da gestão.
Enquanto a Opus Dei deve estar a promover missas de acção de graças por tão grande benesse divina, a maçonaria do PSD deverá andar a chiar, graças ao seu sarrabulho viram escapar-se a maior instituição financeira nacional e ainda por cima são forçados a elogiar a escolha para a liderança do banco público. Daí que Passos já tenha mudado o discurso, agora o problema já não é o vencimento do presidente da CGD e muito menos as promessas feitas ao Domingues, o importante é exigir a prova de que Bruxelas aprovou o maldito refinanciamento da CGD. Mais imbecilidade é impossível.
A propósito de imbecilidade o OE foi aprovado com menos oposição do que uma alteração das multas do estacionamento no Código da Estrada, excitados com a CGD os partidos da oposição ignoraram totalmente o debate orçamental e esqueceram-se da defesa das tais propostas que iam apresentar em nome dos parceiros sociais e que chegaram a ser apresentadas numa sessão ridícula das cortes que Passos Coelho organizou em Albergaria-a-Velha no dia em que o governo usurpador apresentava o OE do governo fantoche da capital.
Quem não parece dar cambalhotas é o PCP e Jerónimo de Sousa, a morte de Fidel deu-lhes um novo alento e o PCP dedicou o seu congresso ao objectivo único de todos os congressos, pelo menos desde o XX congresso do PCUS, à afirmação de que por mais que o mundo role o PCP fica firme e hirto nos seus valores dos princípios do século XX. Continua a ter um CC com maioria operária, o líder continua a ser um metalúrgico e a ditadura do proletariado é a mais avançada e pura forma de democracia.