(In RiseUp Portugal, in Facebook, 08/07/2026, Revisão da Estátua)

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Parece uma adivinha. Não é. É apenas uma pergunta a que o Ministério da Educação continua sem responder.
Existe uma plataforma suficientemente importante para digitalizar, gerir, classificar os exames nacionais, alterar o calendário escolar, condicionar as candidaturas ao ensino superior e obrigar milhares de famílias a reorganizar férias e trabalho. Mas, aparentemente, não é suficientemente importante para que o Ministério da Educação revele quem a desenvolveu. Deve ser a primeira plataforma informática protegida pelo segredo da confissão.
É uma forma particularmente criativa de entender a transparência. Os alunos vão poder, um dia destes, consultar gratuitamente as cópias das suas provas. Excelente. Já o país continua sem poder consultar uma informação bastante mais simples: quem está por trás da plataforma que lançou o sistema educativo neste caos. É provavelmente a única empresa do país capaz de provocar um problema nacional sem correr o risco de alguém lhe saber o nome.
Também não se pode dizer que tenha sido uma surpresa. Em 2025, durante o projeto-piloto realizado no exame de Filosofia, a plataforma já tinha dado problemas. Houve alertas. Houve críticas. Houveram alguns professores a defender que talvez fosse prudente testar melhor o sistema antes de o entregar à classificação dos exames nacionais. O Ministério ouviu tudo isso com a serenidade de quem ouve o alarme de incêndio e conclui que o edifício estava apenas demasiado quente. Avançou na mesma.
O resultado conhece-se. Mais de 350 mil exames por classificar, uma plataforma que colapsa logo no primeiro dia, classificadores convocados para disciplinas que nunca lecionaram, professores aposentados tratados como se continuassem no ativo, uma professora reformada e entretanto falecida convocada para corrigir exames e docentes a apresentarem Escusas de Responsabilidade porque deixaram de confiar na fiabilidade do próprio processo.
Quando finalmente surgiu uma explicação oficial, ela coube em duas palavras: “dificuldades técnicas”. É uma expressão extraordinária. Na Administração Pública portuguesa serve para tudo. Tanto explica uma impressora sem papel como um sistema nacional que deixa centenas de milhares de exames por classificar. É o equivalente burocrático do “foi o vento”. Acontece qualquer coisa. A culpa é de uma entidade invisível que aparece apenas para impedir perguntas incómodas.
Foi então que Fernando Alexandre resolveu explicar que os pais tinham sido imprudentes por marcarem férias. É uma contribuição notável para a teoria da Administração Pública. O Estado publica um calendário. As famílias organizam a vida em função dele. O calendário falha. A culpa passa a ser das famílias por terem acreditado no calendário. É uma ideia com enorme potencial. Se for aplicada a outros sectores, metade dos problemas da governação desaparecem por magia.
Daqui a pouco, um atraso de um comboio será culpa de quem apareceu à hora indicada na estação. Uma consulta adiada deixará de ser responsabilidade do hospital e passará a ser excesso de confiança do doente. Um passaporte que demora meses deixará de ser um atraso do Estado. Será imprudência de quem acreditou no prazo indicado.
A professora já falecida ocupou as manchetes porque era impossível competir com uma história daquelas. Mas quase desviou a atenção do essencial. O problema nunca foi apenas uma convocatória absurda. O problema é um sistema que já tinha dado sinais de fragilidade, foi generalizado na mesma, colapsou quando passou à escala nacional e continua envolto num mistério quase literário: ninguém sabe quem fez a plataforma.
No fundo, Fernando Alexandre tem razão numa coisa. Houve, de facto, imprudência. Mas talvez não tenha sido a dos pais. Porque confiar na informação publicada pelo Estado nunca deveria ser um ato de coragem. Ora, quando um governo conclui – que o erro dos cidadãos foi terem acreditado naquilo que ele próprio publicou -, talvez ele esteja a fazer uma confissão muito mais séria do que todas as “dificuldades técnicas” juntas.
Entretanto, a plataforma continua sem nome, a empresa continua sem rosto, a responsabilidade continua sem dono e a culpa já encontrou destinatário. Não foi o software. Não foi quem o desenvolveu. Não foi quem decidiu avançar apesar dos avisos. Foram as famílias que tiveram a ousadia de acreditar no Ministério da Educação. Convenhamos, há imprudências difíceis de perdoar.
Tudo certo, menos a palavra “houveram”, ainda por cima aparece a forma correcta “houve” aplicada ao plural duas vezes nas 2 frases imediatamente anteriores.
Fora isso, apetece-me dizer como dizia o outro. Ai confiam no Governo e no sistema educativo como “pessoa (colectiva) de bem”? 《Estudassem!》
P.S. como em tudo na vida, há bons e maus profissionais, e alguns assim-assim. O mesmo se aplica a sistemas, softwares, programadores, empresas, ministros… sobretudo os direitolas, é sempre de desconfiar que o interesse público que dizem servir seja a maior das suas prioridades. Perguntem a um ex-primeiro-ministro, Durão Barroso, o que teve de fazer para “subir na vida” e quais eram as suas responsabilidades e as suas prioridades pessoais e quais ele escolheu.
Quanto ao Fernando Alexandre, está apenas empenhado, com invejável eficácia, na missão que é também a do seu chefe e dos restantes companheiros/as de equipa: provar, sem margem para dúvidas, a actualidade e a bondade indiscutível do Princípio de Peter! P.Q.P.
A despropósito, na Viagem dos Argonautas, uma entrevista em duas partes com um tenente-general italiano sobre a China, que ele conhece bem. É uma espécie de Carlos Branco/Raul Cunha/Agostinho Costa do país da bota. Teve, aliás, a mesma experiência na Europa, com o desmembramento da Jugoslávia. Quem tem um mínimo de lucidez, honestidade e respeito por si próprio só pode chegar a conclusões parecidas. Muitíssimo interessante.
https://aviagemdosargonautas.net/2026/07/05/espuma-dos-dias-ver-claramente-a-china-a-visao-de-um-general-italiano-sobre-a-potencia-mundial-crescente-1-2-entrevista-de-claudio-celani-ao-tenente-general-fabio-mini/
https://aviagemdosargonautas.net/2026/07/06/espuma-dos-dias-ver-claramente-a-china-a-visao-de-um-general-italiano-sobre-a-potencia-mundial-crescente-2-2-entrevista-de-claudio-celani-ao-tenente-general-fabio-mini/