Qual é o problema com a maçonaria no PSD?

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/12/2019)

Pacheco Pereira

Em teoria, nenhum. O PSD, como quase todos os partidos portugueses, teve e tem gente da maçonaria. O problema é que não é a mesma coisa ter tido Nuno Rodrigues dos Santos, ou Emídio Guerreiro, ou Leonardo Ribeiro de Almeida como maçons dentro do PSD, ou ter Miguel Relvas. É que eles não “usam” a maçonaria da mesma maneira, eles têm lá as lojas, os nomes simbólicos, as iniciações, os aventais, mas são duas coisas muito distintas. E os maçons que hoje têm posições dirigentes nas estruturas locais, principalmente em Lisboa e Porto, assim como os que são candidatos, nada têm que ver com os maçons da génese do PPD, que estavam lá não por serem maçons mas, sim, porque vinham da oposição republicana moderada e essa tradição era desejada pelos fundadores do PPD como elemento legitimador do jovem partido. Acresce que nem todas as “obediências” são iguais e algumas estiveram nos últimos anos envolvidas em casos de corrupção e tráfico de influências.

A maçonaria que vinha da geração republicana estava no PPD porque uma parte da oposição moderada não comunista entrou para o partido logo na sua fase fundacional. Aliás, Nuno Rodrigues dos Santos tentou trazer para o PPD os seus amigos do Directório Democrático-Social, muitos dos quais maçons, numa tentativa que falhou. O grande veto nesses anos, logo em 1974-5, para os recrutamentos para o PPD não era a maçonaria, mas a pertença à União Nacional e à sua sucessora Acção Nacional Popular (ANP). Sá Carneiro e os seus companheiros fundadores fizeram todos os esforços para vetar a entrada de filiados com essa origem. Mesmo os embrionários “serviços de informação” do PPD, que existiram em 1975, uma das coisas que faziam era verificar as fichas de adesão para evitar a entrada de membros da ANP. Embora tenha havido excepções, principalmente no Porto, e nalgumas estruturas locais, em que entraram antigos membros da ANP, esse veto existia e está bastante documentado nos documentos iniciais do PPD como sendo uma das preocupações centrais de Sá Carneiro.

Dito isto, a cultura política das “bases” do PPD e depois do PSD tinha duas componentes marcantes: era anticomunista e antimaçónica, e esses “anti” tinham que ver com a composição social do partido moldado nos anos do PREC. O anticomunismo era essencialmente o anti-PREC, e a antimaçonaria era o anti-PS. Mas neste último caso ia-se mais longe para a percepção popular, que juntava elementos verdadeiros com imaginários, que atribuíam ao segredo maçónico, e à ajuda mútua entre maçons, uma conspiração permanente pelo controlo secreto do poder político. Ora, este elemento de recusa de uma organização secreta que era transversal aos partidos políticos, e que explicava promoções, carreiras, negócios, escolhas, e acima de tudo protecções, fazia e ainda faz parte da cultura política das “bases” do PSD.

Era mais fácil admitir que os socialistas fossem maçons quase por regra, mas era visto com muita desconfiança que houvesse no PSD quem o fosse. É por saberem que é assim que, quando se suscitou a questão de haver candidatos à liderança do PSD que eram maçons, os dois candidatos que tinham ou têm ligações à maçonaria, e que sabem que essa filiação ainda é pestífera dentro do partido, vieram negar a sua pertença, ou afirmar que foi apenas uma relação passageira lá muito no passado. Compreende-se que o façam, mas só a ignorância dos rituais maçónicos, a começar pelos seus aspectos iniciáticos, é que pode atribuir a essa pertença uma ligeireza que nunca existiu. Fazer parte da maçonaria é uma ligação “pesada” e densa, que não tem comparação com a pertença a um clube desportivo ou a uma associação de desenvolvimento regional. E fazer parte da maçonaria, para quem se formou politicamente dentro do PSD nos tempos mais recentes, nada tem que ver com os maçons sociais-democratas do passado. Já se fossem para a Opus Dei, aí não me espantaria.

Se eu sei qual a presença das tradições clássicas da maçonaria no aparelho do PS, na política e na ideologia, quase natural pela história dos socialistas, vejo com muita dificuldade que essa presença exista qualitativamente no PCP, ou no Bloco, ou… no PSD. Todos têm maçons, mas não é a mesma coisa: as duas primeiras instituições não lhes permitem usar a maçonaria para efeitos de poder interno, mas na evolução recente do PSD, associada à viragem à direita nos anos da troika, já é outra história.

O que sobra então na atracção pela maçonaria de gente que vem de zonas cultural e politicamente tão alheias, e cuja história partidária tem muito que ver com a inflexão de carreiras feitas na sociedade para carreiras feitas dentro do partido ocorrida nos últimos anos? Não é certamente o amor pelo Supremo Arquitecto, mas o incremento do poder que dá pertencer a um grupo que pode dar “conhecimentos”, oportunidades, negócios, relações e protecções, e que pode ser uma alavanca almofadada para ambições políticas.

É como no reclame do Restaurador Olex, um negro com cabelo louro ou um branco de carapinha não é natural, o que é natural é cada um usar o cabelo com que nasceu. Poupo-vos a descrição do que neste caso significa para homens maduros ter o cabelo louro ou carapinha e andar de avental e luvas brancas num partido como o PSD.

Advertisements

Rui Rio e a Maçonaria

(Carlos Esperança, 02/12/2019)

Paulo Mota Pinto, uma referência ética do PSD, incapaz de ver incompatibilidade entre a fiscalização do SIS, a passagem a CEO do BES, não efetuada, e o regresso à função anterior, insinuou que a Maçonaria quer controlar o PSD, no que logo foi secundado por Rui Rio, que viu imediatamente os «interesses obscuros» que querem dominar o partido que o repudia.

Valeu-lhe não ter como adversário Mota Amaral, bem mais honrado do que Mota Pinto, para ser o Opus Dei o acusado da oposição que lhe faz a tralha cavaquista e passista.

Tenho pela Maçonaria uma consideração oposta à que o Opus Dei merece, mas prefiro a competência e a honradez de Mota Amaral à do que Mota Pinto e Rui Rio insinuam que pertence à maçonaria, como se isso fosse crime.

À Maçonaria devemos a Revolução Liberal, a República e leis progressistas: o direito ao divórcio; a separação da Igreja e do Estado; a despenalização da IVG; o direito à saúde reprodutora da mulher e à sua autodeterminação sexual; a Laicidade; a liberdade religiosa; a Revolução Francesa; o sufrágio universal secreto; a Declaração Universal dos Direitos Humanos; o reconhecimento da autodeterminação dos povos; a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Enfim, não há leis progressistas que não tenham a colaboração ou não tivessem na origem a participação da Maçonaria. Até a criação do S.N.S. português teve na criação o ilustre maçon António Arnaut que foi Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano.

Do Opus Dei basta referir o pérfido fundador, agora santo Escrivà, apoiante de Franco e cúmplice silencioso do genocídio que, durante décadas, fria e metodicamente o ditador levou a cabo. A ação deletéria nos países sul-americanos, o combate ao divórcio e IVG, a participação em movimentos de extrema-direita, incluído o partido VOX, em Espanha, são apanágio da seita misógina, racista e xenófoba, o que não invalida que haja gente de bem no Opus Dei e biltres, que não são livres-pensadores nem de bons costumes, que tenham entrado na Maçonaria.

A debilidade dos candidatos leva-os a invocar a maçonaria como podiam invocar clubes de futebol ou frequentadores de retiros espirituais de uma qualquer religião. Precisam de um bode expiatório para justificarem o fracasso.

Há diferenças entre Rui Rio, aparentemente sério e capaz, algo desnorteado na Rua de S. Caetano, demasiado a Sul para o homem do Norte, mas sem a demagogia e desatino da oposição interna, órfã de Cavaco e Passos Coelho, agora que a vaidade de Santana Lopes o levou a fazer hara-kiri e a libertar o PSD da sua petulância.

Atribuir à Maçonaria a oposição a Rui Rio é dar importância aos cúmplices de Relvas e Marco António, de Filipe Meneses e Maria Luís, de Cavaco e do grupo do BPN.

O estado de decadência a que parece ter chegado o PSD leva-me a crer que a luta é mera questão regional, uma birra de rapazes entre adeptos do Boavista e do FCP.


Por um punhado de maçons

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 02/06/2017)

quadros

No próximo sábado e domingo, cerca de dois mil maçons vão votar para escolher o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL). Depois de uma campanha animada, com oferta de aventais, os maçons vão escolher entre Fernando Lima, que se recandidata, Adelino Maltez e Daniel Madeira de Castro .

Segundo li, os candidatos discutiram, nas últimas semanas, o futuro da instituição e até que ponto deve a maçonaria abrir-se ao exterior. Na minha opinião escusam de se abrir ao exterior, o que deviam fazer era fechar aquilo.

Sou só eu que estou um bocado farto e não percebo que raio é que é esta coisa da maçonaria? Por que raio existe este clube dentro da sociedade?! Jogam à bola? Não. Fazem pizzas e levam a casa? Não. Ajudam os pobres no Sudão do Sul? Fazem excursões giras? Népia. Se é por darem títulos pomposos aos sócios, para isso temos os escuteiros. Então que raio de coisa é esta que existe e persiste, mas que não serve para nada que se veja?! Porque, se serve para o que não se vê, é porque não é coisa boa. E não está cá a fazer nada.

A maçonaria é como a “Casa dos Segredos”, tem grandes audiências mas não há ninguém que tenha visto e que saiba o que é. Valha-me o Arquitecto. Este país está entregue às lojas dos chineses e às lojas maçónicas.

E só por andarem por aí a dizer que a maçonaria não é tema, tomem lá. Eu continuo a achar bom tema até porque já não consigo olhar para a Assembleia da República sem tentar ver os que são e os que não são. Assusta-me pensar que o deputado Montenegro é na verdade o grande-presidente da loja parlamentar do PSD.

O problema não é nós não sabermos quem eles são, o problema é eles saberem quem não é. Uma coisa são os deputados serem mandriões, toscos, etc. Outra é parecerem isso, mas estarem lá a fazer bom trabalho para o outro grupo secreto a que pertencem. Se a maçonaria não servisse para nada, o Isaltino não andava por lá. Para fazerem aquela figura ridícula e terem de usar aqueles títulos parvos, a compensação só pode ser grande – é como nas despedidas de solteiro. Eu falo por mim, a despender algum tempo de forma estúpida preferia jogar badminton.

Ao menos os maçons podiam fazer umas marchas populares com a Casa Mercúrio, a Casa Mozart, a Casa Africana. Se quiserem fazer festas com farturas, rifas e aventais tudo bem, se for pelo poder é porque querem mama, nesse caso, sou a favor de implantes mamários à força em todos os maçons. Sendo que o presidente teria de ter o maior. – “Olha, vai ali o grão-mestre do GOL, que grande parzorro!”


TOP 5

Grão-mestre

1. A campanha da candidata do PSD a Lisboa arranca no final deste mês ou no princípio de Junho – A ausência de cartazes com a cara de Teresa Leal Coelho tem que ver com a promessa da candidata de tornar Lisboa mais atractiva para todos.

2. Expresso: juízes aplaudidos como estrelas nas Conferências do Estoril – Pelos criminosos?

3. O autor do busto de Cristiano Ronaldo já fez outro. O de Gareth Bale – O mais importante é ter o nome por baixo para sabermos quem é.

4. Trump partilhou uma mensagem no Twitter com uma palavra desconhecida: “Apesar da constante covfefe negativa da imprensa.” Covfefe – Ou porque nunca se deve fazer “golden showers” junto ao teclado.

5. Cristas promete vinte novas estações de metro – Teresa Leal Coelho promete cortar 20 estações de metro (ainda possuída pela troika).