A “doutrina Passos”

(Mariana Mortágua, in Jornal de Notícias, 12/05/2015)

Mariana Mortágua

                  Mariana Mortágua

Passos Coelho aproveitou o dia da Europa para, numa visita-relâmpago a Itália, apresentar as suas ideias para o futuro da Europa. O local escolhido para apresentar a “doutrina Passos”, para usar a expressão de um dos jornalistas, foi o Instituto Universitário de Florença. Já o pretexto foi a apresentação de uma nova plataforma da fundação financiada pelo dono do Pingo Doce. A concertação da agenda do primeiro-ministro com a Fundação Manuel dos Santos é de tal forma comovente que os jornalistas foram selecionados pela fundação e as suas viagens custeadas pela mesma.

Gesto mais simbólico sobre o poder que verdadeiramente conta, e as prioridades do primeiro-ministro, era difícil. Não é na audiência com o primeiro-ministro italiano, e com assento na Comissão Europeia, que Passos apresenta as propostas que levará a Bruxelas, mas numa viagem de doutrinação promovida por quem aproveita a Europa para sediar a sua empresa num regime fiscal muito mais favorável e assim evitar pagar os impostos que deveria em Portugal. Mas, se o contexto para tão importante declaração foi este, concentremo-nos na substância das propostas. Diz Passos que está preocupado para os riscos de desintegração económica e financeira, de desagregação social e de fragmentação política na União Europeia. Curiosa declaração, para quem passou os últimos quatro anos a reboque dos amoques da troika e da senhora Merkel, mesmo quando estavam em causa os interesses dos portugueses ou dos esmifrados países do sul da Europa.

Para evitar tais riscos, diz Passos Coelho, é preciso criar um Fundo Monetário Europeu que financie políticas transeuropeias que podem passar pelo subsídio de desemprego e modernização de infraestruturas. A curiosidade aqui é redobrada. Em primeiro lugar porque o PSD, e o próprio Passos, sempre se opuseram a políticas transeuropeias de promoção de emprego ou investimento (propostas que, por exemplo, são apresentadas há muito e bom tempo pelo BE).

Mas a contradição é apenas aparente. Passos Coelho considera que é possível colocar o ovo de pé sem achatar a base e, vai daí, entende que tudo isto tem que ser feito sem recorrer ao Orçamento da UE ou dos países membros. Como? Com um fundo financiado sabe-se lá como, em que moldes, com que dinheiro e com que interesses.

Como já tinha acontecido com o plano Juncker, a solução da direita para combater uma economia deprimida por uma crise desencadeada pelos excessos do mundo financeiro e endividamento excessivo é alavancar novamente a economia com recurso a políticas europeias financiadas pela dívida bancária ou modelos de investimento em regime PPP. Isto não é o ovo de Colombo, pela insistência nos erros do passado tem mesmo todos os ingredientes para ser resumido como a “doutrina Passos”.

Ai aguenta, aguenta

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 10/05/2015)

Pedro Marques Lopes

Pedro Marques Lopes

1 Os Liberais Democratas, que governaram o Reino Unido em coligação com os Conservadores, foram varridos do panorama político britânico. Em termos muito simples e não desprezando outros fatores, os eleitores decidiram que queriam manter o atual governo, mas julgaram o partido mais pequeno da coligação dispensável. Ou seja, não lhe reconheceram um papel relevante na definição das políticas prosseguidas – que, pelos vistos, os britânicos maioritariamente aprovaram – nem às propostas para o futuro. Salvas as devidas distâncias, o paralelo com o papel do CDS em Portugal é claro.

Paulo Portas deve ter dado umas palmadinhas nas próprias costas quando soube do resultado eleitoral dos Liberais Democratas britânicos e os seus correligionários, que defendiam a ida do CDS sozinho às urnas, engoliram com certeza em seco.

Pode ser que seja agora claro para todos as razões pelas quais Portas suporta todas as humilhações que Passos Coelho se diverte a fazê-lo passar, todas as desconsiderações a que sujeita o CDS, todo o desprezo que tem pelos ministros centristas. Portas não quer saber se Passos Coelho lhe chama indiretamente irresponsável – como voltou a fazer na biografia nesta semana divulgada – e não se importa de servir de espécie de prova para que o primeiro-ministro seja visto como alguém que teve de lutar contra tudo e contra todos, até contra o seu parceiro de coligação – e, claro está, Passos bem sabe que nada mais agradável para os militantes do PSD que umas pancadas fortes no líder do CDS.

Portas está ciente de que a sobrevivência política do CDS, no curto prazo, depende de ir coligado com o PSD às próximas eleições. Alguém consegue discernir uma réstia das bandeiras do CDS neste governo? O partido do contribuinte foi o coautor da maior subida de impostos da história da nossa democracia. O partido do reformado estava no Ministério da Segurança Social durante os cortes de pensões e reformas. Que motivação terá um apoiante deste governo e das políticas prosseguidas para votar no CDS? Há algum traço democrata-cristão que tenha resistido às políticas radicais do governo? Nenhum. O CDS dissolveu-se no radicalismo deste PSD.

Paulo Portas não ignora que para reerguer o seu partido – seja ele ou outro o líder – e lhe dar uma matriz ideológica diferente da que foi a deste governo, tem de ter uma presença com algum significado no Parlamento. Precisa de readquirir iniciativa política, de mostrar que tem um caminho próprio, quase de se reinventar. É incomparavelmente mais difícil fazê–lo com três ou quatro deputados do que com 14 ou 15. E, claro, só um deputado pode chegar para condicionar um futuro governo, mas meia dúzia de deputados não chegam para dar peso institucional e político.

Pouco importa se os deputados do CDS forem eleitos por cidadãos que queriam votar no PSD. É evidente que o acordo entre os dois partidos faz que o CDS vá ter deputados que não teria se concorresse sozinho, ou seja, quase todos os deputados que o CDS vai ter seriam naturalmente homens e mulheres do PSD. Não deixa de ser, aliás, paradoxal que será com deputados emprestados pelo PSD que o CDS tentará reocupar o espaço político que perdeu neste governo ou que negociará com os socialistas uma coligação ou até um apoio parlamentar – já está absolutamente claro que, para não variar, não há possibilidades de acordos à esquerda.

Portas suportará todo o bullying deste mundo porque sabe que o que está em jogo é a sobrevivência e a relevância política do seu partido. Sabe também que a vingança é um prato que se serve frio e o líder dos centristas não o deixará de servir. Ganhe a coligação as eleições ou não.

2 Passos Coelho, na sua biografia autorizada, acusa Cavaco Silva de “deixar o governo em banho-maria depois de 20 dias de estéril negociação com o Partido Socialista”.

Agora, pouco importa lembrar que o governo afirmou repetidamente o seu empenho nessa negociação e que até fez constar que estaria praticamente fechada.

Por outro lado, é de registar a resposta apropriada do Presidente da República a este comentário despropositado e fora do tempo de Passos Coelho, quando afirmou que só depois de findo o seu mandato é que contaria os detalhes do seu mandato.

Mas o que fica mais uma vez evidente é a forma como os mais importantes atores da política nacional perderam o respeito a Cavaco Silva, e por uma razão simples: porque lhes traz vantagens.

Todos os anteriores presidentes da República, quando chegados a esta fase dos seus mandatos, estavam com índices de popularidade e aprovação altíssimos. Um ataque mais ou menos destemperado não seria bem visto, até correria contra quem o fizesse. Neste momento, compensa atacar o Presidente da República ou, pelo menos, não é algo que cause qualquer dano político. Até Passos Coelho, que tanto lhe deve, percebe isso e não hesitou em criticá-lo.

Cavaco Silva não precisa de procurar culpados para este estado de coisas: é ele e só ele o culpado.

Um homem desconcertante

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 09/05/2015)

Pedro Adão e Silva

                 Pedro Adão e Silva

O “ímpeto suicida e muito pouco estratégico” que caracteriza Passos, e que, aparentemente, o acompanha desde sempre, regressou com toda a pujança.

Nunca enxovalhei ninguém, muito menos o líder do principal partido da oposição”, afirmou Passos Coelho esta semana, quando interpelado a pronunciar-se sobre Paulo Portas. Um par de dias antes, em “somos o que escolhemos ser”, uma biografia em registo humorístico involuntário, era recuperada a saga da demissão irrevogável do vice-primeiro-ministro. E o que é que se ficou a saber? Nada de novo, apenas mais uma oportunidade para recordar que Portas apresentou a demissão por SMS e que Passos Coelho resistiu.

Desde então, Passos não perdeu uma oportunidade para mostrar que tinha Portas no bolso, pelo que fez do líder do CDS o que quis. Não surpreende, o que espanta é que, dias depois de apresentado o acordo eleitoral, se volte aos desentendimentos na coligação. Gera no mínimo perplexidade.

Mas nada como regressar à novela e ler as referências à coligação para se ficar elucidado: estamos perante um acordo eleitoral instrumental, pronto a ser desfeito no dia seguinte às legislativas, com efeitos para o candidato presidencial conjunto e, ironia das ironias, perfeito para Portas se vingar das humilhações a que foi sujeito. Os deputados oferecidos ao CDS pelo PSD começarão negociações autónomas no pós-eleições.

O “ímpeto suicida e muito pouco estratégico” que caracteriza Passos, e que, aparentemente, o acompanha desde sempre, regressou com toda a pujança. Passos surpreende na medida em que a sua conduta não se rege pelos padrões de racionalidade na ação que tendemos a esperar dos políticos. O que parece uma fraqueza acaba por ser uma força. É como se todos lhe dessem um desconto e lhe fossem permitidos devaneios discursivos incoerentes e um comportamento errático e singular.

E não é só a contradição entre o interesse tático de preservar a coligação e o ruído introduzido em torno da mesma coligação que choca.

Em janeiro, Passos Coelho, numa atitude muito louvável, emitiu um comunicado sobre a doença oncológica da mulher, em que dizia que era um assunto que “diz respeito à minha família”, pedindo que “que essa reserva de privacidade continue a ser respeitada”. Pois não é que a reserva foi suspensa numa novela hagiográfica, redigida por uma assessora, onde se publicita, com citações diretas, um drama privado?

Fica claro o objetivo do livro. O homem que defendeu que o país precisava de empobrecer, que convidou os jovens a saírem da sua zona de conforto, que via o desemprego como uma oportunidade e que aconselhou os portugueses a pegarem na “enxada”, é apresentado como tendo um coração mole, emocionando-se com a cadelinha ‘Peluche’, e até é capaz de abrir elevadores bloqueados com as próprias mãos.

Um homem para quem as contradições não são um obstáculo e que é movido, como agora se diz, a resiliência. Um homem desconcertante que, na sua vulgaridade, aparenta ser um produto retocado por um focus group.