Somos o que os alemães deixarem

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/05/2015)
João Quadros

João Quadros

 

Chegou-me às mãos a biografia de Passos Coelho, “Somos o que escolhemos ser”, uma obra literária que abre novos caminhos ao realismo pós-pindérico. Não é uma biografia, é uma notícia do Correio da Manhã com muitas páginas.

“Somos o que escolhemos ser” é um pensamento de Miss. Porque, a verdade é que não é bem assim. Aposto que há muita gente que não escolheu estar sem emprego. Ou não escolheu ter de sair do país ou não escolheu ser enganada pelo BES. “Somos o que escolhemos ser” só funciona se tivermos um padrinho como o Ângelo. Mas, caso fosse verdade e pudéssemos escolher o que queremos ser, nós já sabemos o que o nosso PM escolheria ser. Passos Coelho escolheria ser um Dias Loureiro, por diversas razões, nas quais podemos incluir o razoável cabelo para a idade. Portanto, o livro podia intitular-se: “Escolho ser um Dias Loureiro”.

No fundo, se formos ver, há até algumas semelhanças entre o que é narrado no livro e a situação actual do ex-conselheiro de Estado. Reparem, e cito a obra: “Fá e Passos dormiam com o colchão no chão e não havia margem para que uma cama não fosse considerada uma extravagância”. Cá está, tal como Dias Loureiro, Passos não tinha nada. Aposto que até o colchão estava em nome da Fá. Aliás, Passos, nessa altura, vivia, como quase todos os jovens: num quarto vazio, só com um colchão, e um poster do Dias Loureiro.

Este exemplo de sacrifício, que inclui um colchão e uma das Doce (numa época em que as Doce eram um Doce), fica a saber a poucochinho em termos de sofrimento. O que Passos nos tem para dar como exemplo de provação é o que queriam 90% dos homens da idade dele naquela altura. Podíamos ficar uma noite a dar exemplos de quão terrível pode ser a vida de um jota da JSD: “Não tínhamos roupa e eu e a Scarlett Johansson tínhamos de andar nus pela praia”. “Passávamos tanta fome que só nos restava o seio da Beyonce”. “O único emprego que arranjei foi como massajador íntimo da Mila Kunis”.

“Somos o que queremos ser” só faz sentido quando podemos escolher alguém do nosso partido para ser nossa biógrafa. Aposto que a autora não escolheu ser biógrafa do Passos. Foram-na chamar. Se eu fosse o Passos, não perdia tempo com a biografia de uma pessoa tão sem história como ele. Se eu fosse o Pedro, pedia à biógrafa que escrevesse a do Dias Loureiro. Depois podiam pôr lá pelo meio um suplemento fininho com a minha, mas, a fazer, era a do Dias. Tudo o que Dias Loureiro tem feito dava um calhamaço, basta ir consultar os arquivos da judiciária.

Conclusão, Passos lava louça, fica bem no sofá, só tinha um colchão, faz papos de anjo, salva a mulher do cancro e bebe vinho enquanto ouve Aznavour – depois deste livro, só queria a nossa dívida indexada à noção do ridículo do nosso PM.

O partido em que eu vou votar

(Nicolau Santos, in Expresso, 16/05/2015)

Nicolau Santos

    Nicolau Santos

Nas eleições legislativas de outubro vou votar num partido que tenha uma visão, uma estratégia, uma ambição para o país. Que nos apresente uma ideia que mobilize e congregue os cidadãos. Que faça vir ao de cima o melhor de nós. Que nos entusiasme, que nos galvanize, que nos faça sentir tão bons como os melhores, que nos faça ter orgulho de ser portugueses.

Nas próximas eleições vou votar num partido que coloque o mar no centro dessa estratégia. Mas não apenas por palavras. Eu votarei no partido que se comprometa a tornar o país como o mais avançado a nível mundial nas ciências do mar. Que assuma o compromisso de colocar os melhores recursos humanos e materiais, de forma maciça, nesse desiderato. Que não hesite em meter todas as fichas nesta aposta estratégica.

Nas próximas eleições vou votar no partido que assuma o compromisso de, até ao final da legislatura, canalizar 3% do Orçamento do Estado para a área da ciência, investigação e desenvolvimento. E que faça um enorme esforço para dar condições para que as centenas de investigadores e cientistas portugueses que se encontram no estrangeiro, na Grã-Bretanha, Estados Unidos, França e Alemanha, regressem ao país. E que desenvolva todos os esforços para que muitos desses investigadores possam trabalhar nas empresas nacionais.

Nas próximas eleições vou votar no partido que assuma que 1% do Orçamento do Estado será investido na área da Cultura. O apoio ao cinema, ao teatro, ao ballet, à música, a todo o tipo de artes é essencial para que, a par do envelhecimento dos cidadãos, não haja também uma dissolução da identidade nacional. E a Cultura é o cimento que nos une e o que nos eleva a um patamar superior.

Nas próximas eleições vou votar num partido que ataque de frente a questão da baixa natalidade, dando condições a todos os que querem ter filhos para poderem decidir nesse sentido — um partido que nos diga quais as medidas concretas, nas áreas laboral, educacional, fiscal e outras que irá tomar para inverter esta dramática tendência.

Vou votar num partido que tenha uma visão, uma estratégia, uma ambição para o país. E que acredite nos portugueses.

Nas próximas eleições vou votar num partido que me diga que vai resolver o problema das baixas qualificações de 2/3 da população ativa, através de um vastíssimo programa de requalificação. Sem isso, não haverá aumento da competitividade.

Nas próximas eleições vou votar num partido que não transija em matéria de ética e de corrupção — e que diga sem rodeios que será impiedoso para quem, enquanto servidor da Res publica, utilize os recursos públicos em seu próprio proveito. Vou votar em quem me dê garantias que resolverá a situação da Justiça. Alguém que me leve a acreditar que vai deixar de haver imprevisibilidade nas decisões, adiamentos inaceitáveis, prescrições inadmissíveis, sentenças sem senso.

Se houver um partido que cumpra a maior parte destes requisitos, pode contar com o meu voto. Até lá, como diria o Cesariny, falta por aqui uma grande razão.

Olha quem tem défice!

De acordo com a Comissão Europeia, a Inglaterra, onde Cameron acaba de conseguir uma surpreendente maioria absoluta, não seguiu as recomendações de 2009 (!) de Bruxelas e está com um défice de 5,2%. Agora tem até 2016-17 para colocar o défice abaixo dos 3%, como a França. E a Finlândia, que tanto nos criticou, “não cumpre os critérios da dívida e do défice”. Nós, pelo contrário, vamos ficar abaixo dos 3% este ano. Um dia destes, pobrezinhos mas honrados, ainda falamos de cátedra aos países do norte.

Passos ganhou a batalha ideológica

A ideia é de João Cravinho e foi avançada num debate sobre políticas públicas em tempos de troika, organizado pelo ISCTE: Passos Coelho ganhou a batalha ideológica. E ganhou-a porque não mudou só o Estado, a economia, as relações laborais: mudou-nos a alma. Hoje estamos mais descarnados, mais descrentes, mais tementes à mudança. Interiorizámos as culpas pela crise. A nossa matriz judaico-cristã leva-nos a assumir que foi o nosso pecado de luxúria consumista que nos conduziu ao pedido de ajuda internacional. E é essa mesma matriz que nos leva a aceitar que “só saímos disto empobrecendo”. Passos ganhou a batalha ideológica porque houve várias “verdades” que se tornaram oficiais, à custa de tanto serem repetidas: que vivemos acima das nossas possibilidades, que trabalhamos pouco, que não somos produtivos, que temos demasiados dias de férias, que temos excesso de garantias quando somos trabalhadores sem termo, que os pensionistas recebem de mais, que os funcionários públicos ganham muito para o que produzem, que a emigração é uma oportunidade, que os contratos a termo certo são melhor que nada, que licenciados a ganhar 700 ou 800 euros por mês é aceitável. Passos ganhou a batalha ideológica porque colocou velhos contra novos, empregados contra desempregados, funcionários públicos contra trabalhadores do setor privado. Toda a gente aceita hoje que é necessário reduzir mais e mais as pensões e que a devolução dos salários na Função Pública só esteja regularizada em 2019. O enorme desemprego é uma fatalidade. Poucos contestam o caminho que estamos a trilhar. Quando muito contesta-se o ritmo. O CDS e o próprio PS parecem estar reféns destas ideias. Passos só não alcançou ainda o seu último objetivo, embora o tenha forçado várias vezes: a revisão da Constituição. Mesmo assim, e apesar do Tribunal Constitucional, conseguiu que algumas das suas pretensões passassem. Que ninguém tenha dúvidas: Passos vai dar muita luta até às eleições de outubro. E mesmo que as perca, já nos mudou a alma.


Há qualquer coisa aqui de que não gostam

da terra das pessoas ou talvez

deles próprios

cortam isto e aquilo e sobretudo

cortam em nós

culpados sem sabermos de quê

transformados em números estatísticas

défices de vida e de sonho

dívida pública dívida

de alma

há qualquer coisa em nós de que não gostam

talvez o riso esse

desperdício.

Trazem palavras de outra língua

e quando falam a boca não tem lábios

trazem sermões e regras e dias sem futuro

nós pecadores do Sul nos confessamos

amamos a terra o vinho o sol o mar

amamos o amor e não pedimos desculpa.

Por isso podem cortar

punir

tirar a música às vogais

recrutar quem os sirva

não podem cortar o Verão

nem o azul que mora

aqui

não podem cortar quem somos.


Manuel Alegre, ‘Resgate’, in “Bairro Ocidental”, Dom Quixote, 2015

A “doutrina Passos”

(Mariana Mortágua, in Jornal de Notícias, 12/05/2015)

Mariana Mortágua

                  Mariana Mortágua

Passos Coelho aproveitou o dia da Europa para, numa visita-relâmpago a Itália, apresentar as suas ideias para o futuro da Europa. O local escolhido para apresentar a “doutrina Passos”, para usar a expressão de um dos jornalistas, foi o Instituto Universitário de Florença. Já o pretexto foi a apresentação de uma nova plataforma da fundação financiada pelo dono do Pingo Doce. A concertação da agenda do primeiro-ministro com a Fundação Manuel dos Santos é de tal forma comovente que os jornalistas foram selecionados pela fundação e as suas viagens custeadas pela mesma.

Gesto mais simbólico sobre o poder que verdadeiramente conta, e as prioridades do primeiro-ministro, era difícil. Não é na audiência com o primeiro-ministro italiano, e com assento na Comissão Europeia, que Passos apresenta as propostas que levará a Bruxelas, mas numa viagem de doutrinação promovida por quem aproveita a Europa para sediar a sua empresa num regime fiscal muito mais favorável e assim evitar pagar os impostos que deveria em Portugal. Mas, se o contexto para tão importante declaração foi este, concentremo-nos na substância das propostas. Diz Passos que está preocupado para os riscos de desintegração económica e financeira, de desagregação social e de fragmentação política na União Europeia. Curiosa declaração, para quem passou os últimos quatro anos a reboque dos amoques da troika e da senhora Merkel, mesmo quando estavam em causa os interesses dos portugueses ou dos esmifrados países do sul da Europa.

Para evitar tais riscos, diz Passos Coelho, é preciso criar um Fundo Monetário Europeu que financie políticas transeuropeias que podem passar pelo subsídio de desemprego e modernização de infraestruturas. A curiosidade aqui é redobrada. Em primeiro lugar porque o PSD, e o próprio Passos, sempre se opuseram a políticas transeuropeias de promoção de emprego ou investimento (propostas que, por exemplo, são apresentadas há muito e bom tempo pelo BE).

Mas a contradição é apenas aparente. Passos Coelho considera que é possível colocar o ovo de pé sem achatar a base e, vai daí, entende que tudo isto tem que ser feito sem recorrer ao Orçamento da UE ou dos países membros. Como? Com um fundo financiado sabe-se lá como, em que moldes, com que dinheiro e com que interesses.

Como já tinha acontecido com o plano Juncker, a solução da direita para combater uma economia deprimida por uma crise desencadeada pelos excessos do mundo financeiro e endividamento excessivo é alavancar novamente a economia com recurso a políticas europeias financiadas pela dívida bancária ou modelos de investimento em regime PPP. Isto não é o ovo de Colombo, pela insistência nos erros do passado tem mesmo todos os ingredientes para ser resumido como a “doutrina Passos”.