UM “VELHACO” SERÁ SEMPRE UM “VELHACO”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 24/10/2018)

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Estava eu descontraidamente passando o dedo pelo meu telelé vendo as últimas, pelas quais os dedos passo com mais rapidez do que faço um acorde de tão treinado que estou, quando dou por mim a arregalar os olhos, a recentrar as lentes, a respirar fundo e a abanar a cabeça para afugentar o sono! Que se passou? Eu li, ali mesmo com estes olhos que já precisam de ajuda, que o Aníbal escreveu mais um livro e este acerca das “Quintas Feiras”…

Que o António Aníbal escreva um livro, ou lhe escrevam um livro, vá que não vá, mas acerca de assuntos de Estado, acerca de conversas pessoais e ainda por cima institucionais…isso não lembraria nem ao diabo! Ainda por cima quando, acerca dos assuntos relatados, nunca ninguém lhe ouviu à época, ainda muito recente, um único pio, um único rosnar ou mesmo um eco de múmia…

Não que deste “Velhaco”, termo que o nosso Povo utiliza para definir pessoas destas e muito bem, eu não esperasse coisa assim mas, dirigido a um seu correlegionário e protegido, isso saltou das marcas e pôs-me a pensar sobre o assunto e como é que eu, oh coisa impensável, até acabo a defender o Passos, coitado…como se diz em Coura, carinhosamente!

E pensei: isolado nuns anexos de um convento, lugar que escolheu para refúgio pensando ter aí a paz de espírito e a tranquilidade necessárias para escrever as suas memórias, grandiosas, irrepetíveis, profundas e gloriosas memórias, memórias de um vulto único na História de Portugal, economista invulgar que só não foi Nobel porque o mundo é injusto, nunca foi prémio Camões porque somos muito mesquinhos e nem prémio Pessoa porque odeia escritores. Quanto ao resto…

Mas tal escolha revelou-se fatal para a Maria, que das duas uma: ou o acompanhava na solidão do anexo, fazendo tricot ou palavras cruzadas, ou ficava em casa vendo novelas e suspirando pelas festas a que já não ia nem era chamada, pelas vernissages ou mesmo pelos chás de caridade para os quais nunca mais foi convidada e, esperta como só ela, concluiu: é tudo culpa dele! Já ninguém quer saber dele, da sua sobranceria, do seu revanchismo, do seu quase ódio (isto é a Maria a pensar…) e eu é que sofro, que nem reforma tenho para dele me livrar. Tentações que surgem, é o que é…

Ai Aníbal, Aníbal…tu tens que acordar Aníbal! Basta tu balbuciares uma palavra que seja que te cai logo todo o mundo em cima. Todo o mundo não digo porque os “nossos” ainda fazem pior: ignoram-te! Até “múmia” te chamam…Os nossos fazem orelhas moucas, chamam-te até de empecilho e os outros para além de “bacalhau seco”, não se cansam de dizer que foste a coisinha pior que Portugal pariu! E mais, que foste tu e não o desgraçado do Passos o maior responsável por aqueles ainda recentes quatro anos de sádica memória para os Portugueses…dessa desgraceira sem nome…e porquê? Porque nunca levantaste a voz, porque sempre aceitaste tudo e porque foste conivente. Cobardolas, digo eu (a Maria), naquele jeito que só uma mulher sabe dizer…

Aí o Aníbal acordou do pesadelo para onde a Maria o fazia deslizar, um pesadelo que lhe fez recordar todos os avisos que ao longo dos anos foi fazendo e, curiosamente, não se sabe se por efeito Mariano ou Coelhoso, deles se esqueceu! De todos! E só conseguiu recordar o passado recente o que, convenhamos, não é próprio das “múmias” mas sim dos “velhacos”…

E recordou as “Quintas Feiras”, com o Sócrates, muito difíceis, com o Passos, muito atribuladas e com o Costa, muito divertidas! E disse para consigo mesmo: é com elas que este “je” se vai regenerar aos olhos do Povo!

Ora pensa comigo, Maria: Se todo o mundo odeia o Passos (eu bem tentei dar-lhe a mão, mas era tarefa impossível)  e se todo o mundo ainda pensa que eu fui conivente com  ele e com aquela irresponsável politica por si seguida, nada melhor do que pôr os pontos nos “is” e contar a verdade! É que afinal eu estive sempre contra ele, contra as suas propostas e desígnios e só não actuei, denunciei, vetei e me intrometi porque estava em causa o superior interesse nacional!

“Interesse nacional” uma politica que até à minha parca pensão veio meter a mão, diz a Maria? O partido assim o defendia…encolheu os ombros o Aníbal…

E assim o fez o Aníbal, com a Maria dando gritos de insatisfação e desespero…”Ai o que ele vai fazer, ai no que ele se vai meter…está maluco é o que é e, a continuar assim, o melhor que tenho a fazer é interna-lo…”.

O infeliz do Passos, como se não tivesse bastado o resultado da sua teimosia e daqueles óculos que só o deixavam ver em frente e ao mesmo tempo lhe cobriam as orelhas, ser fustigado de modo tão torpe, deselegante e indigno de quem ocupou cargos de Estado…só se perguntou: o que levará um ser tão mesquinho a ter uma atitude destas?

Então depois de o acusar de tudo o que o acusou ainda tem o desplante de lhe dizer “…mas tem boas razões para estar tranquilo e sentir mesmo um certo orgulho pelo trabalho realizado!” ?

Tudo o que correu mal nessa altura suscitou-lhe sempre grandes dúvidas (escreveu o António Aníbal)!!! Como?

Ah. grande Aníbal, meu grandessíssimo VELHACO!


Sem Sombra de Grandeza

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 25/02/2017)

AUTOR

                                        Miguel Sousa Tavares

1 Bem pode Cavaco Silva desfilar o rol de grandes do mundo que conheceu em vinte anos no topo da política portuguesa: nenhum desses grandes o recordará nem que seja num pé de página de memórias e a nossa história não guardará dele mais do que o registo de uma grandiloquente decepção.

 Nos seus dez anos como primeiro-ministro, Cavaco Silva teve o que nunca ninguém tinha tido antes dele e não voltou nem voltará a ter depois dele: uma maioria, tempo, paz social, esperança e dinheiro sem fim, vindo da Europa. Fosse ele, porventura, um homem dotado de visão e de coragem e conhecedor da nossa história e dos nossos males ancestrais, teria aproveitado as circunstâncias para inverter de vez o funesto paradigma em que vivemos há décadas ou séculos. Em lugar disso, aproveitou o dinheiro e os ventos favoráveis para engrossar o Estado, fazer demasiadas obras públicas inúteis e cimentar a clientela empresarial que sempre viveu da obra ou do favor público. Ele lançou as raízes do défice e da dívida pública, que, depois, tal como as obras (de Sócrates), passou a execrar. Cinco anos volvidos, regressaria para outros dez de Presidência. Por razões que já nem adianta esmiuçar, acabaria por sair de Belém com uma taxa de rejeição recorde e com 80% dos portugueses fartos dele e do seu pequeno mundo. Muita da popularidade de Marcelo deve-se ao facto de os portugueses o verem em tudo como o oposto de Cavaco Silva.

Tive um breve mas arrepiante flashback deste pequeno mundo quando, na semana passada, Cavaco Silva lançou o seu livro de ajuste de contas. Pelas citações e declarações que li e ouvi, parece-me que a única coisa boa do livro é o título — (mas até esse li que não era original). No restante, Cavaco entretém-se a contar os seus factos rigorosos para informação dos portugueses, e registados com base num método que diz ter inventado quando era estudante e que se presume não ser o do gravador oculto. A finalidade da história das suas quintas-feiras é atacar um homem já debaixo de todos os fogos — o que confirma a lendária coragem intelectual de Cavaco, tal como no seu discurso de vitória quando foi reeleito, atacando com uma raiva e um despeito indignos de um Presidente da República os seus adversários que já não se podiam defender. Parece que agora, com um absoluto desplante e tomando-nos a todos por idiotas, Cavaco Silva ensaia uma indecorosa falsificação dos tais factos rigorosos: a história de como ele e a filha ganharam 150% em dois anos com acções do BPN que não estavam cotadas em bolsa (jamais desmentida e bem documentada), não passou, afinal, de uma calúnia, vinda da candidatura de Manuel Alegre; e a célebre conspiração das escutas de Sócrates a Belém, engendrada entre o assessor de imprensa de Cavaco e um jornalista do Público, foi, pasme-se, ao contrário: foi o Governo que montou uma operação para fazer crer… que o Governo escutava Belém!

Ele (Cavaco Silva) que continue a escrever a sua história: a História jamais o absolverá

Mas não foi isso o que verdadeiramente me arrepiou nas notícias e imagens do lançamento do livro do Professor. Outra coisa eu não esperava dele nem do seu livro. O que me impressionou e arrepiou foi uma visão que diz tudo sobre quem foi e quem é este homem. Após mais de vinte anos na vida política e nos mais altos postos dela, tendo fatalmente conhecido não só vários grandes do mundo mas também toda uma geração de portugueses da política, da cultura, do empresariado, das universidades, etc., quem é que Cavaco Silva tinha a escutá-lo no seu lançamento? A sua corte de sempre, tirando os que estão a contas com a Justiça. Os mesmos de sempre — Leonor Beleza e o que resta da sua facção fiel no PSD. Mais ninguém. Nem um socialista, nem um comunista, nem um escritor, um actor, um arquitecto, um músico reconhecido. Nada poderia ilustrar melhor o que foi e é o pequeno mundo de Cavaco Silva. Ele que continue a escrever a sua história: a História jamais o absolverá.


2 Outra história sem verdade nem grandeza alguma é o que se está a passar na Ria Formosa. E o que se está a passar ali é um escândalo. Passo por passo:

a) Parque Natural e Rede Natura, as ilhas-barreira (cujo nome indica para que servem), foram ocupadas por construções clandestinas logo a seguir ao 25 de Abril. Primeiro, para armazéns de apoio aos pescadores da Ria, depois como primeira ou segunda habitação (o mais frequente). Aproveitando a anarquia instalada em Portugal, em que das ocupações de propriedades individuais se passou à ocupação de propriedade pública, como se não fosse de ninguém, o país assistiu à tomada clandestina de vários terrenos e propriedades públicas — não por acaso, nos melhores e mais preservados locais do país. Foi assim, por exemplo, que nasceu uma cidade clandestina, com igreja e tudo, no Portinho da Arrábida. Mas, felizmente para nós todos, que somos donos do domínio público, havia então um ministro do Ambiente (Carlos Pimenta) que, ao contrário do actual, os tinha no sítio e fez a única coisa que um Estado de direito pode fazer quando ocupam a sua propriedade e a propriedade de todos: mandou aquilo abaixo.

b) Mas na Ria Formosa não se fez nada disso. Os anos foram passando, as casas foram aumentado e os governos fingiam que não viam. Isso permite que os ocupantes venham agora invocar o usucapião da ilegalidade e o que o notável António Pina, presidente da Câmara de Olhão e um dos felizes proprietários de uma casa de férias no domínio público da Ria Formosa, tenha o supremo desplante de declarar que as ocupações são uma conquista do 25 de Abril! Ah, pobre 25 de Abril: de facto, tu serves para tudo!

c) Aplicou-se então e finalmente um Plano Polis à Ria Formosa, para requalificação e recuperação do que fosse possível. Deixaram-se de fora as instalações dos pescadores e as primeiras habitações e, analisando caso a caso, identificaram-se 369 casas a demolir, que nenhuma razão política, jurídica ou social justificava que continuassem a prolongar por mais tempo os 42 anos em que tinham ocupado gratuitamente um espaço público privilegiado, para mais sem pagarem quaisquer impostos ou taxas, ao contrário de todos os outros proprietários do país, vivendo em casas pagas e legais.

d) Porém, levado o caso à Assembleia da República, pela mão do PCP, do BE e dos ironicamente chamados Verdes, toda a esquerda, PS incluído, se uniu para defender as pessoas, sem por isso deixarem de ser grandes defensores do ambiente. Até se avocou que as ilhas-barreira eram um extraordinário habitat dos jamais avistados camaleões, os quais só estariam verdadeiramente protegidos no meio de centenas de casas clandestinas. Assustado, o Governo suspendeu as demolições ao abrigo do Plano Polis, e, das 369 casas a demolir, e após nova avaliação caso a caso, passou-se para apenas 57. Com isso, e sentindo-se desautorizados, demitiram-se os dois técnicos do Ministério do Ambiente que integravam o Polis (coisa de que António Costa se foi gabar na AR) e entrou para a administração do Polis, sabem quem? Pois, esse mesmo: o presidente da Câmara de Olhão, que vai ter uma palavra sobre a demolição da sua casa clandestina de férias, conquista do 25 de Abril.

d) Como se não bastasse o recuo em toda a linha, o Ministério do Ambiente ainda se propõe financiar a construção de infra-estruturas de apoio aos clandestinos, que, obviamente, estão instalados como os colonos do Farwest. Percebam bem: estão há 42 anos a desfrutar de terrenos que são de nós todos, à revelia da lei e de tudo o resto, e ainda vamos ter de pagar para que eles tenham água, electricidade, esgotos e recolha do lixo!

e) Não contentes com isto, o BE e o PCP levaram outra vez o assunto à AR, quando se ia iniciar a demolição das 57 casas que, além de mais, se encontram em zona de risco. Catarina Martins lá veio com o discurso de o Ambiente sim, mas as pessoas (e os votos) ainda mais. E Jerónimo de Sousa pediu mais uma avaliação caso-a-caso (até que já não reste nenhuma casa para demolir). Gostava de saber o que dirão eles se amanhã houver um movimento de cidadãos que resolva construir as suas casas de fim-de-semana no Parque da Peneda-Gerês? Ou o que têm a dizer aos outros cidadãos que pagam impostos, e altíssimos, sobre propriedade que é sua, quando os que ocupam propriedade pública nada pagam e ainda recebem infra-estruturas de graça?

(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

Somos o que os alemães deixarem

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/05/2015)
João Quadros

João Quadros

 

Chegou-me às mãos a biografia de Passos Coelho, “Somos o que escolhemos ser”, uma obra literária que abre novos caminhos ao realismo pós-pindérico. Não é uma biografia, é uma notícia do Correio da Manhã com muitas páginas.

“Somos o que escolhemos ser” é um pensamento de Miss. Porque, a verdade é que não é bem assim. Aposto que há muita gente que não escolheu estar sem emprego. Ou não escolheu ter de sair do país ou não escolheu ser enganada pelo BES. “Somos o que escolhemos ser” só funciona se tivermos um padrinho como o Ângelo. Mas, caso fosse verdade e pudéssemos escolher o que queremos ser, nós já sabemos o que o nosso PM escolheria ser. Passos Coelho escolheria ser um Dias Loureiro, por diversas razões, nas quais podemos incluir o razoável cabelo para a idade. Portanto, o livro podia intitular-se: “Escolho ser um Dias Loureiro”.

No fundo, se formos ver, há até algumas semelhanças entre o que é narrado no livro e a situação actual do ex-conselheiro de Estado. Reparem, e cito a obra: “Fá e Passos dormiam com o colchão no chão e não havia margem para que uma cama não fosse considerada uma extravagância”. Cá está, tal como Dias Loureiro, Passos não tinha nada. Aposto que até o colchão estava em nome da Fá. Aliás, Passos, nessa altura, vivia, como quase todos os jovens: num quarto vazio, só com um colchão, e um poster do Dias Loureiro.

Este exemplo de sacrifício, que inclui um colchão e uma das Doce (numa época em que as Doce eram um Doce), fica a saber a poucochinho em termos de sofrimento. O que Passos nos tem para dar como exemplo de provação é o que queriam 90% dos homens da idade dele naquela altura. Podíamos ficar uma noite a dar exemplos de quão terrível pode ser a vida de um jota da JSD: “Não tínhamos roupa e eu e a Scarlett Johansson tínhamos de andar nus pela praia”. “Passávamos tanta fome que só nos restava o seio da Beyonce”. “O único emprego que arranjei foi como massajador íntimo da Mila Kunis”.

“Somos o que queremos ser” só faz sentido quando podemos escolher alguém do nosso partido para ser nossa biógrafa. Aposto que a autora não escolheu ser biógrafa do Passos. Foram-na chamar. Se eu fosse o Passos, não perdia tempo com a biografia de uma pessoa tão sem história como ele. Se eu fosse o Pedro, pedia à biógrafa que escrevesse a do Dias Loureiro. Depois podiam pôr lá pelo meio um suplemento fininho com a minha, mas, a fazer, era a do Dias. Tudo o que Dias Loureiro tem feito dava um calhamaço, basta ir consultar os arquivos da judiciária.

Conclusão, Passos lava louça, fica bem no sofá, só tinha um colchão, faz papos de anjo, salva a mulher do cancro e bebe vinho enquanto ouve Aznavour – depois deste livro, só queria a nossa dívida indexada à noção do ridículo do nosso PM.