Ai aguenta, aguenta

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 10/05/2015)

Pedro Marques Lopes

Pedro Marques Lopes

1 Os Liberais Democratas, que governaram o Reino Unido em coligação com os Conservadores, foram varridos do panorama político britânico. Em termos muito simples e não desprezando outros fatores, os eleitores decidiram que queriam manter o atual governo, mas julgaram o partido mais pequeno da coligação dispensável. Ou seja, não lhe reconheceram um papel relevante na definição das políticas prosseguidas – que, pelos vistos, os britânicos maioritariamente aprovaram – nem às propostas para o futuro. Salvas as devidas distâncias, o paralelo com o papel do CDS em Portugal é claro.

Paulo Portas deve ter dado umas palmadinhas nas próprias costas quando soube do resultado eleitoral dos Liberais Democratas britânicos e os seus correligionários, que defendiam a ida do CDS sozinho às urnas, engoliram com certeza em seco.

Pode ser que seja agora claro para todos as razões pelas quais Portas suporta todas as humilhações que Passos Coelho se diverte a fazê-lo passar, todas as desconsiderações a que sujeita o CDS, todo o desprezo que tem pelos ministros centristas. Portas não quer saber se Passos Coelho lhe chama indiretamente irresponsável – como voltou a fazer na biografia nesta semana divulgada – e não se importa de servir de espécie de prova para que o primeiro-ministro seja visto como alguém que teve de lutar contra tudo e contra todos, até contra o seu parceiro de coligação – e, claro está, Passos bem sabe que nada mais agradável para os militantes do PSD que umas pancadas fortes no líder do CDS.

Portas está ciente de que a sobrevivência política do CDS, no curto prazo, depende de ir coligado com o PSD às próximas eleições. Alguém consegue discernir uma réstia das bandeiras do CDS neste governo? O partido do contribuinte foi o coautor da maior subida de impostos da história da nossa democracia. O partido do reformado estava no Ministério da Segurança Social durante os cortes de pensões e reformas. Que motivação terá um apoiante deste governo e das políticas prosseguidas para votar no CDS? Há algum traço democrata-cristão que tenha resistido às políticas radicais do governo? Nenhum. O CDS dissolveu-se no radicalismo deste PSD.

Paulo Portas não ignora que para reerguer o seu partido – seja ele ou outro o líder – e lhe dar uma matriz ideológica diferente da que foi a deste governo, tem de ter uma presença com algum significado no Parlamento. Precisa de readquirir iniciativa política, de mostrar que tem um caminho próprio, quase de se reinventar. É incomparavelmente mais difícil fazê–lo com três ou quatro deputados do que com 14 ou 15. E, claro, só um deputado pode chegar para condicionar um futuro governo, mas meia dúzia de deputados não chegam para dar peso institucional e político.

Pouco importa se os deputados do CDS forem eleitos por cidadãos que queriam votar no PSD. É evidente que o acordo entre os dois partidos faz que o CDS vá ter deputados que não teria se concorresse sozinho, ou seja, quase todos os deputados que o CDS vai ter seriam naturalmente homens e mulheres do PSD. Não deixa de ser, aliás, paradoxal que será com deputados emprestados pelo PSD que o CDS tentará reocupar o espaço político que perdeu neste governo ou que negociará com os socialistas uma coligação ou até um apoio parlamentar – já está absolutamente claro que, para não variar, não há possibilidades de acordos à esquerda.

Portas suportará todo o bullying deste mundo porque sabe que o que está em jogo é a sobrevivência e a relevância política do seu partido. Sabe também que a vingança é um prato que se serve frio e o líder dos centristas não o deixará de servir. Ganhe a coligação as eleições ou não.

2 Passos Coelho, na sua biografia autorizada, acusa Cavaco Silva de “deixar o governo em banho-maria depois de 20 dias de estéril negociação com o Partido Socialista”.

Agora, pouco importa lembrar que o governo afirmou repetidamente o seu empenho nessa negociação e que até fez constar que estaria praticamente fechada.

Por outro lado, é de registar a resposta apropriada do Presidente da República a este comentário despropositado e fora do tempo de Passos Coelho, quando afirmou que só depois de findo o seu mandato é que contaria os detalhes do seu mandato.

Mas o que fica mais uma vez evidente é a forma como os mais importantes atores da política nacional perderam o respeito a Cavaco Silva, e por uma razão simples: porque lhes traz vantagens.

Todos os anteriores presidentes da República, quando chegados a esta fase dos seus mandatos, estavam com índices de popularidade e aprovação altíssimos. Um ataque mais ou menos destemperado não seria bem visto, até correria contra quem o fizesse. Neste momento, compensa atacar o Presidente da República ou, pelo menos, não é algo que cause qualquer dano político. Até Passos Coelho, que tanto lhe deve, percebe isso e não hesitou em criticá-lo.

Cavaco Silva não precisa de procurar culpados para este estado de coisas: é ele e só ele o culpado.

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