Um calor de santanás

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 09/09/2016)

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      João Quadros

A previsão foi feita no início da “silly season”, Passos disse aos seus seguidores: “Gozem bem as férias que em Setembro vem aí o Diabo.”


Desde a primeira vez que vi o exorcista e o vestido de kiwis da Assunção Cristas, que não me sentia tão assustado. Passei Agosto atento aos indícios que anunciam a chegada da Besta, mas na verdade não imagino maior inferno que umas férias na Manta Rota com Passos Coelho e três caniches.

O líder do PSD é um daqueles indivíduos que andam com cartazes pela rua a anunciar o fim do mundo. O calendário político do ex-PM é o calendário Maya. O PSD é uma daquelas seitas que anuncia o fim do mundo ano após ano, com a variante de o apocalipse ter uma periodicidade mensal. Cheguei a ter receio (ou esperança) de que a Universidade de Verão do PSD fosse um pretexto para um suicídio colectivo.

Há várias razões que podem justificar o aparecimento de Mefistófeles em Setembro no nosso país, e vou excluir os cruzeiros e o crescimento do turismo. Temos de ser honestos, o Inferno, nesta altura do ano, não pode competir com a temperatura na Amareleja. Podemos incluir nesta lista a suposta cobrança de IMI das igrejas. Lúcifer, uma invenção da Igreja Católica, teria de se manifestar mais tarde ou mais cedo caso tivesse de pagar imposto pela cave que lhe foi atribuída.

Passos deixou de fazer papos de anjo e começou a fazer missas negras. Pedro apela à Besta que apareça, mas Schäuble não lhe atende o telefone. Está disposto a vender a alma ao Diabo, apesar de a proposta dos chineses ser melhor. Mas tal como – “ninguém quer investir num país governado por comunistas” – o Diabo torce o nariz a este Fausto, adepto da austeridade.

O que me parece é que Passos Coelho está no limbo, mas não o descrito por Dante. No Inferno de Dante o nosso ex-PM estaria no quinto círculo, onde estão os iracundos, “imersos em lama ardente do Pântano do Estige”, a fazer companhia aos insolentes e soberbos. Pedro está no pior dos limbos. O limbo político. Ninguém sobrevive no limbo político, um local inóspito, sem comunicação social e onde é obrigatório jogar duas horas de mahjong todas as manhãs com o Tó Zé Seguro.

Já lá vai o tempo em que as avaliações da troika eram o décimo céu, e até o Presidente da República atribuía à intervenção divina de Nossa Senhora a nota positiva dos cavaleiros do apocalipse. Esse mundo de esperança e luz acabou. O líder do PSD decidiu apostar tudo no preto. Meteu as fichas todas no maior número de desgraças na esperança de ser feliz. Quer que o mundo acabe antes que acabem com ele – “ou o mundo cai, ou cai a tua liderança no partido”. O maior problema de Passos não é o constante adiar da vinda do Demónio, é a pressa dos que querem fazer um exorcismo na liderança.


Top 666

1. Novo Apple Watch 2 com protecção à prova d’água – À atenção dos refugiados.

2. O Uber é apenas o início A opinião de J. Vieira Pereira no Expresso – esperemos que tenha mais continuidade que os Panama Papers.

3. CDS quer política de educação estável durante seis anos – já chega a confusão que é a vida do filho do Magalhães.

4. Taxistas: “Vai haver uma desgraça e a responsabilidade é do Governo” – É igual ao discurso do Passos. Sempre tiveram um discurso parecido.

5. Selecção portuguesa campeã europeia perde na Suíça por 2-0 – Faltou o apoio dos convidados da Galp nas bancadas.

6. A câmara é uma das grandes novidades dos novos iPhone 7 – É frigorífica?!! Vai dar imenso jeito para os iogurtes dos miúdos. 

Meia-estratégia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 04/09/2016)

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                          Daniel Oliveira

É fraco o crescimento económico português do segundo trimestre deste ano. Semelhante ao registado na OCDE, UE e zona euro. Não diria, como disse Passos Coelho, que este Governo está a encaminhar o país para a “morte lenta”. Quando muito, mantém a estagnação que vinha de Passos. Assistimos ao melhor trimestre dos últimos quatro, tendo sido o pior o de há um ano, com o governo anterior. Foi nesse terceiro trimestre de 2015, depois de um bom início de ano, que recomeçou a estagnação. Este Governo apenas não conseguiu descolar. Para isto terá contribuído a queda no sector automóvel — a política fiscal deste Governo ajudou mas não me parece que fossem sustentáveis crescimentos de dois dígitos. E há o contexto externo: o preço do petróleo já não está a cair, Angola, Venezuela e Brasil estão em péssimo estado e a economia europeia não se recomenda. Quanto ao investimento, cai por causa da construção e, acima de tudo, graças à queda do investimento público. A subida anterior aconteceu quando estávamos na fase de encerramento do QREN e próximos de eleições. Apesar de tudo isto, dos cortes nos estágios do IEFP e do aumento do Salário Mínimo Nacional, o desemprego está a cair. Quanto ao défice, foi de 3,2% no primeiro trimestre e de 3,1% no primeiro semestre. Sabendo-se que no primeiro trimestre de 2015 era de 5,5% e no primeiro semestre do mesmo ano era de 4,7%, é preciso ter sido atingido por forte amnésia para achar impossível o cumprimento das metas.

O desempenho orçamental aceitável e a recuperação do emprego não escondem que a reposição de rendimentos não está a atingir os seus objetivos e que o fim da austeridade não está a resultar num aumento do investimento público. Apesar de estarmos apenas nos primeiros meses da governação e do contexto externo ser negativo, isto é, por agora, um falhanço. O que não compreendo é como seria melhor se a receita fosse a oposta. Sem a rápida reposição de rendimentos criticada por Passos o consumo privado aumentaria mais? Com mais contenção orçamental teríamos mais investimento público? Esperem… agora Passos Coelho acha que há investimento público a menos. Ele, que entre 2011 e 2013 o cortou em 60%. Só no fim do seu mandato, com eleições à porta, o investimento público aumentou (o dobro da média europeia, enquanto o privado estava a metade), com imediatas repercussões positivas na economia e provando que ele não tinha razão em tudo o que tinha defendido e feito antes.

Há um problema com a estratégia deste Governo: é ser, graças aos constrangimentos orçamentais impostos por Bruxelas, uma meia-estratégia que impede um aumento sério do investimento público e uma verdadeira política expansionista. Mas não é justo lamentar os efeitos de uma estratégia que fica pela metade depois de ter defendido que nem essa metade devia existir.

Os últimos a poder sublinhar o curto alcance do que este Governo conseguiu são os que desejam políticas orçamentais ainda mais restritivas. Não é sério ter Passos Coelho a pedir mais investimento do Estado enquanto Maria Luís Albuquerque diz que o objetivo devia ser o défice zero.

Com meia-estratégia só se conseguem meios-resultados, mas com uma estratégia que defende uma coisa e o seu oposto não se conseguem as duas coisas em simultâneo. Consegue-se uma oposição aos ziguezagues.

Fujam todos, vem aí a calamidade

(Estátua de Sal, 03/09/2016)

Não resisto em publicar este excelente vídeo, o qual de forma lapidar, desmonta as manobras que a Direita, com o apoio dos meios de comunicação social, a começar pelo Expresso, levou a cabo para evitar que o actual Governo visse a luz do dia. Foram avisos sobre avisos, pragas sobre pragas, cataclismos sobre cataclismos.

O curioso é que Passos Coelho, apesar de nenhuma das calamidades antecipadas se ter realizado, continua com o mesmo discurso.

Mas claro, é como na história de Pedro e o Lobo. Tantas vezes se avisou que o lobo vinha, não tendo ele aparecido, que já ninguém acredita em tanta desgraça anunciada, como as sondagens mais recentes demonstram.

Boas visualizações.